sexta-feira, 19 de julho de 2013

Segredos de Sangue

Segredos de Sangue (Stoker) - 2013. Dirigido por Chan-wook Park. Escrito por Wentworth Miller. Direção de Fotografia de Chung-hoon Chung. Música Original de Clint Mansell. Produzido por Michael Costigan, Ridley Scott e Tony Scott. Scott Free Productions, Indian Paintbrush e Fox Searchlight Pictures / USA | UK.


"Até laços de família perdem sentido com escassez de comida [...] Ainda que a rivalidade fraterna pareça cruel, no final é melhor assim. Cada dia na cabana aproxima a águia da maturidade. O mais paciente dos predadores, a águia negra, ronda por horas esperando o momento perfeito de atacar [...] A montanha não é lugar para os fracos de coração, o terreno ingrime e o clima severo criam um ambiente desafiador até para a mais forte das espécies. Ainda que a águia prefira achar suas próprias refeições, não há nada errado em pedir uma pequena ajuda, qualquer vantagem na natureza deve ser apreciada, além de ser uma refeição calorosa para o pássaro faminto que vai viver para caçar mais um dia..."

A citação acima foi incluída de forma diegética em Segredos de Sangue (2013), o primeiro filme do cineasta sul-coreano Chan-wook Park produzido em Hollywood, ela é dita em um documentário sobre a luta das águias pela sobrevivência, que uma das personagens assiste em um quarto de hotel. A citação não está no filme por acaso, ela diz muito sobre a trama e sobre aquele que é seu principal tema, a influência do meio na formação e no comportamento do indivíduo, que pode chegar ao ponto de condicioná-lo à determinadas ações e/ou reações. A história contada é relativamente simples e seu mote é o reaparecimento do misterioso Charles Stoker (Matthew Goode) após a morte de Richard (Dermot Mulroney), seu irmão. India (Mia Wasikowska), a filha de Richard, e Evelyn (Nicole Kidman), a viúva, são surpreendidas pelo retorno do parente, que estivera durante muito tempo viajando pelo mundo a trabalho.


A volta de Charles acaba tornando India ainda mais distante da mãe, a garota não suporta a ideia de ter o lugar de seu pai tomado pelo tio, com quem ela nunca tinha tido contato até então. Evelyn, por sua vez, parece se render com facilidade aos encantos do cunhado, em algumas passagens ela dá a entender que o vê como uma versão rejuvenescida do marido, os modos e a aparência do rapaz a fazem lembrar de Richard na época em que se conheceram e isso a atrai. Em outros momentos nota-se que a relação dela com o falecido já estava há algum tempo desgastada, isso talvez explique o fato dela enxergar em Charles a oportunidade de reviver uma época em que fora verdadeiramente feliz, ainda que ela não tenha nenhum tipo de garantia ou evidência de que isso venha a acontecer.

Apesar do suspense, que mantém o desenrolar da trama em uma tensão sempre crescente, este não se trata de um filme puramente sensorial. A estilização, que pode ser notada nos enquadramentos, nos movimentos de câmera e na composição da mise-en-scène não é apenas uma excentricidade técnica, ela, além de salientar o tom alegórico do filme, ajuda ainda na criação de inúmeras metáforas visuais, que em alguns momentos nos dão pistas do que está para acontecer e em outros colaboram com a narrativa na construção das diversas inferências, que estão presentes do início ao fim do filme. Isso não é novidade na filmografia de Chan-wook Park, sua já clássica 'trilogia da vingança' usa e abusa de tal tipo de estilismo.


Cenas, aparentemente deslocadas, como a que mostra uma aranha subindo pelo perna da personagem principal, ou aquela na qual ela enfileira à volta de si os pares de sapatos, do mesmo modelo, que ganhara  desde que era criança a cada aniversário, são dotadas de inúmeros significados que nos ajudam a compreender os personagens e a ter ao menos uma noção da complexidade do contexto sócio/afetivo no qual eles estão inseridos. Seria reducionismo classificar Segredos de Sangue como um filme sobre o rito de passagem da infância para a vida adulta, pois o que ele retrata, ainda que de forma não tão aprofundada, é todo um processo deturpado de amadurecimento e de formação moral, vemos isso claramente na composição de dois de seus personagens: India e Charles. Ambos são, de certa forma, um resultado da influência perversa do meio em que cresceram e seus comportamentos refletem o deslocamento de cada um deles em relação à sociedade.


Há no filme a abordagem de um tema recorrente na filmografia de Chan-wook Park, que é o isolamento como condicionante moral. Se a moral, ao contrário da ética, é um fator externo ao indivíduo, há de se pressupor que uma pessoa ao ser isolada tenda a desenvolver um comportamento amoral (não confundir com imoral) devido à sua não exposição à influência do pensamento coletivo e isso é o que vemos em quase todo o desenvolvimento de Segredos de Sangue. A conduta que evidencia a negação da moral pré-estabelecida é o que torna os personagens, aos olhos do expectador, tão frios e desumanizados. É interessante perceber a polaridade de forças que Charles e India representam no filme; o processo de amadurecimento desestruturado fez com que ele passasse a enxergar o ataque como única forma de lidar com os eventos contrários à sua vontade, enquanto que ela aprendeu a se colocar sempre na defensiva, atacando apenas quando é atacada.


O que vemos no filme é o embate entre estas duas forças que se formam em polos opostos, mas semelhantes entre si. Devido a um grave erro que cometeu quando ainda era criança, Charles fora privado do convívio com sua família e tal punição acabou sendo determinante para a sua formação, gerando como reflexo o tipo de comportamento que ele viria a ter na vida adulta. Já India, foi desde cedo treinada pelo pai para reagir de maneira racional, mesmo diante de situações extremas, a coragem que lhe era exigida fez com que ela se tornasse madura em alguns aspectos; continuando, porém, completamente infantil em outros. Percebemos isso claramente na forma com que ela reage aos estímulos externos, em alguns momentos com resiliência e prudência e em outros de uma forma bastante imatura e inconsequente.  


O embate entre os protagonistas ganha expressão naquela que considero uma das melhores passagens do filme, a que India e Charles tocam piano juntos, em uma espécie de duelo, que se dá carregado de violência e de erotismo. Não creio que seja exagero associar esta passagem a um ato de violência sexual, na sequência a garota sucumbe diante de uma força bem superior à dela, contra a qual ela não tem qualquer chance de reação. A interrupção abrupta da música (e, consequentemente, do processo de sedução) deixa a garota atormentada, é como se naquele momento ela descobrisse que algo nela estava ainda incompleto e que anos de preparação não foram o suficiente para torná-la forte o suficiente para lidar com uma situação extrema do tipo que seu pai já antevia.


A citação reproduzida no primeiro parágrafo aponta para a animalização dos personagens, que, tal como as águias descritas no documentário, apresentam comportamentos instintivos que visam a sobrevivência e a satisfação das necessidades individuais em detrimento dos laços afetivos e familiares. Neste ponto fica já fácil compreender qual é a problemática filosófica que está implícita na trama, que acaba sendo o seu norte e o mote para algumas boas reflexões que ela fomenta, ela seria a questão da moral constituída como elemento de humanização e a amoralidade como condicionante para a bestialização do comportamento humano. Interessante é que este é o mesmo tema que norteia a história de Oldboy (2003), a obra prima de Chan-wook Park, no entanto, desta vez a abordagem é bem distinta. 


Demonstrando um preciosismo técnico, que já se tornou característico do cinema oriental, o cineasta torna cada fotograma e cada movimento de câmera um verdadeiro deleite para aqueles que valorizam o cuidado extremo com os efeitos visuais. O uso da fotografia, dos cenários e dos figurinos não tem como fim apenas a beleza estética, há uma gama de significações, por exemplo, na atemporalidade que emana das roupas e objetos cênicos, principalmente nas primeiras sequências do filme (o que vejo como uma referência aos filmes de suspense das décadas de 40 e 50 - vale lembrar que há bastante influência Hitchcock na trama e na forma de se conduzir o suspense). A trilha sonora original, composta por Clint Mansell atenua o suspense em algumas cenas e ainda confere ao filme um ar clássico e requintado. Vale destacar ainda as duas peças de piano compostas pelo Philip Glass, que também fazem parte da trilha. 


O desempenho do elenco principal torna o filme ainda mais grandioso, Matthew Goode e Nicole Kidman conseguem dar veracidade e consistência aos seus personagens, mesmo eles fazendo parte de um contexto que é predominantemente alegórico e em alguns momentos surrealista. No entanto, é Mia Wasikowska que rouba todas as cenas, a composição de sua India é repleta de nuances, o que evoca um alto nível de complexidade e profundidade. Para quem já teve a oportunidade de conferir seu desempenho na versão americana da série In Treatment, o que ela entrega aqui não é nenhuma surpresa, trata-se de mais uma prova daquilo que já venho afirmando há algum tempo: No tocante à atuação esta linda jovem australiana é um verdadeiro monstro! 

Esta declaração pode gerar polêmica, mas, ao meu ver, Segredos de Sangue está à altura da filmografia de Chan-wook Park, uma pena que ele não tenha sido recebido por todos com os elogios que merece... Começa a ser formada a minha lista pessoal dos melhores do ano... 


Assistam ao trailer de Segredos de Sangue no You Tube, clique AQUI ! 

A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra.

Confiram também aqui no Sublime Irrealidade a crítica de Lady Vingança (2005), também dirigido pelo Chan-wook Park.

3 comentários:

  1. Olááá... senti falta daqui, ainda ando meia sumida, mas voltando as boas na blogosfera.
    Amei o post, anotado o nome do filme e vou baixar pra assistir, assisti ontem Mama e confesso que eu me simpatizei com a Mama, se formos olhar a historia pelo lado dela, a gente entende muita coisa, eu li tanta critica ruim sobre o filme que quase não assisto, mas nem sempre o filme vai agradar todo mundo.
    Anotada a dica de filme e bom fim de semana.
    Bjs

    http://www.artesdosanjos.com.br/

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  2. Belo texto!
    Não vi todos os filmes do Chan-wook Park, mas o que tive oportunidade, gostei bastante.
    Vou anotar aqui para rever depois!

    Estou seguindo seu blog!
    Abraço.

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  3. Park é mesmo um ótimo diretor. Ele pega uma história até certo ponto simples e transforma em algo totalmente próprio. Também está entre meus filmes favoritos do ano. As expectativas fora atingidas!

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