N° de acessos:

quarta-feira, 24 de junho de 2020

Milagre na Cela 7

Milagre na Cela 7 (Yedinci Kogustaki Mucize) - 2019. Dirigido por Mehmet Ada Öztekin. Escrito por Özge Efendioglu e Kubilay Tat. Direção de Fotografia de Torben Forsberg. Trilha Sonora Original de Hasan Ozsut. Produzido por Saner Ayar, Sinan Turan e Cengiz Çagatay. Turquia.
 

Eu normalmente prefiro esperar o hipe passar para assistir a um filme ou série sobre o qual todo mundo esteja falando, mas hoje decidi fazer o oposto e assisti O Milagre da Cela 7. O filme tem dividido opiniões, o público o exalta, enquanto parte da crítica especializada o massacra. Em tempos de polarização, talvez as defesas e ataques extremos tenham sido o que chamou a minha atenção (e olha que eu tenho tentado ao máximo evitar as tretas).

A seguir tentarei tecer algumas considerações, analisando-o não como mero entretenimento, mas como cinema. Se ele funciona bem no primeiro universo (o que se vê pelo sucesso de público), ele tropeça em diversos aspectos no segundo. Antes que me questionem se o cinema não pode entreter ou se o entretenimento não pode ser considerado cinema, explico que para efeito de análise considerarei como cinema a obra dotada de valor artístico, considerando que o valor artístico está no diálogo que a obra é capaz de estabelecer com o espectador.

O mero entretenimento normalmente abre mão do diálogo por entregar pronto aquilo que caberia ao espectador decodificar. Quanto mais “acabada” é a obra, menor o seu potencial artístico. Todo o aparato de linguagem se volta nestes casos para despertar no espectador um tipo específico de reação, não havendo, por isso, tanto espaço para a reflexão, para a contemplação ou mesmo para o questionamento.


O Milagre da Cela 7, como afirmei acima, funciona como entretenimento e de fato esta é a sua proposta, seu objetivo não é o de levantar reflexões profundas que perseguirão o espectador por dias, semanas, ou quiçá pra vida toda, ele te emocionará, todavia, no dia seguinte, quando você lembrar das mesmas passagens, elas já não produzirão mais o mesmo efeito, afinal tudo é muito raso e efêmero, o que não deixa de ser uma característica predominante no cinema mainstrean.

O filme tem inegável qualidade técnica, bela fotografia, movimentos de câmera cuidadosos e belíssima direção de arte, todavia, todos estes aspectos são reduzidos ao propósito de fazer emocionar e isso, confesso, é algo que me incomoda bastante. É possível antever todas as cenas em que algo triste irá acontecer, tão somente pela progressão da trilha sonora. Pode-se, inclusive, afirmar que é a trilha que pontua quando o espectador deve rir ou se emocionar; e isso, meus caros, nada mais é que manipulação barata.

Talvez o filme funcionasse um pouco melhor como cinema se ele tivesse a trilha amputada de si, afinal de contas o argumento dele é bom. O roteiro poderia ter sido melhor desenvolvido, se não estivesse tão sujeito, como os outros aspectos, à pretensão de emocionar. Ele possui boas atuações, mas falha na medida, o que se percebe mas inúmeras reações de personagens que soam forçadas no contexto em que acontecem.


O Milagre da Sela 7 entra, como eu havia previsto, naquele já volumoso grupo que tem como expoentes filmes como A Vida é Bela (1997), Cavalo de Guerra (2011), O Menino do Pijama Listado (2008) e um incontável número de obras de menor expressão. Obras em que o melodrama sufoca todo o potencial e a importância do tema abordado.

No atual caso, a frustração, pra mim, veio do fato de eu cheguei a me alegrar por perceber que o público estava dando atenção a uma obra de fora do mercado hollywoodiano e, tal como aconteceu no caso do francês Intocáveis (2011), o que eu vi no filme foi mera cópia de um modelo explorado à exaustão no cinemão americano... e as coisas podem piorar se Hollywood decidir, daqui a alguns anos, fazer um remake.

Resumindo, O Milagre da Cela 7 será uma boa pedida se você apenas quiser se deixar levar. Para os saudosistas, ele lembrará os inofensivos filmes feitos para a TV que cansamos de assistir no Cinema em Casa e na Sessão da Tarde. Agora, se você quiser experimentar aquilo que boa parte do público tem experimentado, abra mão da reflexão durante a sessão, separe o lenço e laissez faire...




quarta-feira, 17 de junho de 2020

Felicidade ou Morte - Livro

Felicidade ou Morte de Clóvis de Barros Filho e Leandro Karnal. Lançado originalmente em 2016. Campinas. Papirus 7 Mares, 2016.



O sucesso conquistado por Leandro Karnal e Clóvis de Barros Filho é um fenômeno no mínimo interessante. Bestsellers, eles conseguiram transpor as paredes da torre de marfim e atingir um público além dos universitários das respectivas áreas que lecionam, história e filosofia.
O fenômeno é curioso porque em um país de poucos leitores e parco interesse pela dita alta cultura, eles se tornaram verdadeiros gurus, de quem se espera um posicionamento ou uma resposta para as inúmeras crises pelas quais o país passa.

Não é um disparate dizer que o sucesso dentre o público não universitário de humanas se deve ao trânsito fácil pela linguagem simples, ainda que não coloquial, que torna reflexões complexas acessíveis a todos os públicos, mas também ao notável domínio da retórica e da comunicação nas redes sociais.

Em "Felicidade ou Morte", livro constituído na forma de um diálogo entre os dois intelectuais sobre o tema proposto, ambos tecem reflexões acerca da ideia de felicidade, da resignação como forma de driblar a angústia existencial, da construção social e histórica do que se tem como padrões de vida bem sucedida e da inevitabilidade da dor, que torna a própria noção de felicidade efêmera.

Sem precisar recorrer a academicismos, os autores transitam pela história e pela filosofia em busca ora de respostas, ora de algum eco para aquilo que defendem. A escrita flui fácil e, em alguns pontos, o texto chega a parecer uma transcrição de um diálogo tal como ele se deu, sem cortes e sem qualquer outro tipo de edição.

Tal noção vem justamente do fato de que tanto o Barros Filho quanto o Karnal se fizeram conhecidos do grande público antes pelos vídeos e só depois pela escrita, o que ajuda explicar o fenômeno que citei no início desta rápida resenha.

A manutenção do mesmo tipo de linguagem presente nos vídeos, inclusive com passagens já contadas ou citadas em outras oportunidades, cria uma espécie de aproximação (por meio da autoreferência), que conta muito no processo de trazer os seguidores das redes para o consumo da obra escrita.

Em um tempo em que ainda há certo repúdio pelo conhecimento e pela complexidade da leitura de um mundo pautado pela velocidade e pelo imediatismo, vejo com bons olhos o hipe e popularização do pensamento e do ato filosófico.

quarta-feira, 10 de junho de 2020

Da Arte Poética - Livro

Da Arte Poética de Aristóteles. Escrito provavelmente no século IX a.C.. Tradução de Maria Aparecida de Oliveira Silva. São Paulo. Martin Claret, 2015.



"Da Arte Poética" seria, de acordo com estudiosos da obra de Aristóteles, uma compilação de anotações feitas para serem usadas por ele nas aulas que ministrava no Liceu em Atenas.
Apesar de pequena, a parte da obra que sobreviveu ao decorrer dos mais de dois mil anos é de uma densidade tamanha, dado o brilhantismo da análise, que serviria não só para esmiuçar cada um dos elementos narrativos da tragédia grega, mas como um verdadeiro manual sobre a literatura e o teatro clássico, que continuaria inspirando poetas, dramaturgos e cineastas até hoje.

É uma obra seminal pra entender a arte ocidental produzida nos dois últimos milênios, e aqui incluo a literatura, o teatro e o cinema. "Da Arte Poética" é tão importante que é cabível a simplificação de reduzir tudo o que veio depois como confirmação ou ruptura em relação às ponderações de Aristóteles.

Meu primeiro contato com a obra foi há quase 10 anos, por meio do livro "O Teatro do Oprimido" de Augusto Boal, que faz uma leitura crítica do pensamento de Aristoteles e, à luz das teorias de Brecht sobre o teatro épico, propõe uma superação do modelo clássico.

A crítica feita por Boal me deu uma noção ampla do quão arraigado o modelo trágico ainda está na produção literária/teatral/cinematográfica de nosso tempo. E, posições contrárias à parte, o que cabe destacar aqui é que o fato de ter perdurado por mais de dois mil anos por si só já é um indício da força que tal modelo possui.

Entender conceitos e elementos como a imitação, a peripécia, o reconhecimento, o patético e principalmente a catarse é essencial pra qualquer um que se proponha a compreender, analisar ou criticar qualquer obra dotada de narrativa.

quarta-feira, 3 de junho de 2020

A Morte de Ivam Ilitch - Livro


A Morte de Ivan Ilitch de Leon Tolstoi. Lançado originalmente em 1886. Tradução de Vera Karam. Porto Alegre. L&PM Pocket, 2010.


"A Morte de Ivan Ilitch" de Leon Tolstoi é considerado uma das melhores novelas de todos os tempos, o que é plenamente justificável, uma vez que sua densidade, que abrange a profundidade psicológica do personagem central e suas inúmeras representações sociais, a tornam não só um clássico da literatura de ficção, mas uma obra de forte cunho filosófico e até político.
Há na história uma contundente crítica ao ideal de felicidade burguês, que inclui casamento, carreira e posse de bens. Na trama, o personagem central, Ivan Ilitch, é um renomado e respeitado juiz, que teve uma rápida ascensão no meio jurídico e se tornou, dentre seus pares, referencial de sucesso e prosperidade.

Sua constante preocupação em estar em conformidade com o padrão de vida, com hábitos e até com os trejeitos burgueses lhe garante acessos e posições cada vez mais alta na hierarquia do tribunal em que trabalha.

O casamento infeliz, mantido às custas da aparência e do temor da reprovação social, faz com que Ivan se mergulhe em seu trabalho a ponto de quase aniquilar por completo a sua vida social. O progressivo distanciamento da esposa e dos filhos, uma clara tentativa de evitar conflito, se torna a justificava interior para as horas a fio diante de processos e de dossiês da repartição.

Ao apresentá-lo como personagem, Toltoi diz muito coisa com pouco mais de duas linhas: "A história da vida de Ivan Ilitch foi das mais simples, das mais comuns e portanto das mais terríveis". Em poucas palavras já fica decretada a tragédia do protagonista, já denunciada no título da obra e abordada já em seu primeiro capitulo.

Ivan sucumbirá diante de uma doença misteriosa, que lhe consome em pouco mais de três meses. A agonia e a angústia advinda da ciência da finitude da vida leva o personagem a questionamentos filosóficos acerca do porquê do sofrimento e sobre a existência ou não de um sentido maior para a vida.

Em dada passagem ele indaga a uma voz interior o porquê de tamanha agonia, e ela apenas responde: "Por nenhuma razão. É assim e pronto." Diante disso sobra apenas o vazio e o fatalismo de que a inevitabilidade da morte física é a única certeza (certeza esta que ele evitou por toda sua vida).

Ivan se apega então a um último questionamento: teria a sua vida válido a pena? Algo dentro de si lhe diz que sim, afinal ele cumpriu todos os requisitos reconhecidos pela sociedade como necessários para uma vida boa. Mas, as recorrentes memórias da infância, período em que fora de fato feliz, lhe induzem a crer no contrário. Tal percepção lhe machuca mais que a dor intermitente decorrente da doença.

A contundência da obra está no fato de que ela nos leva a questionar o nosso próprio padrão de felicidade, que muitas vezes nem é uma criação nossa, mas um mero fruto de uma construção social. É atormentadora a ideia de que o medo da morte que Ivan experimenta não é um medo de perder a vida, mas o arrependimento de não tê-la vivido de fato, somado à ciência de que já é tarde demais pra voltar atrás...

quarta-feira, 27 de maio de 2020

A Terceira Via e seus Críticos - Livro

A Terceira Via e seus Críticos de Anthony Giddens. Lançado originalmente em 2001. Tradução de Ryta Vinagre. Rio de Janeiro. Record, 2001.


Tido como um dos grandes teóricos da nova social democracia, o sociólogo Anthony Giddens, influenciaria com suas obras os rumos de governos nos países desenvolvidos e nos emergentes. Seu pensamento seria adotado como um norte em um período em que boa parte da literatura econômica e social das décadas anteriores começava a não acompanhar a rapidez das transformações do mundo globalizado.

Tony Blair, Romano Prodi, Bill Clinton, Fernando Henrique Cardoso, dentre outros, na época em que o livro foi publicado, já colocam em prática parte daquilo que seria defendido na obra. A terceira via proposta por Giddens é na verdade um meio termo entre o liberalismo econômico e o estado de bem estar social, com uma forte inclinação para o primeiro lado.


O autor defende uma coexistência entre o mercado, o estado e a sociedade civil, que seria necessária, segundo ele, para a manutenção de uma democracia plena condizente com a nova conjuntura imposta pela globalização.


Ele não nega os conceitos de esquerda e direita, e inclusive chega a citar a obra de Noberto Bobbio, Direita e Esquerda - Razões e Significados de uma Distinção Política como uma leitura seminal sobre o tema. No entanto, o que ele propõe é uma alternativa, que não seria novidade, o próprio Bobbio já tinha classifica tal tendência como a "terceiro inclusivo".


O modelo proposto preserva a força do estado, o que se mostra como o principal ponto de discordância entre Giddens e os liberais, o que seria necessário para balizar a atuação do mercado e da sociedade civil e atuar na minimização das desigualdades, quando estas restringissem oportunidades de ascensão.


No entanto, não há neste pensamento qualquer tipo de subversão ao status quo, há a defesa da responsabilização do topo da pirâmide econômica pelas injustiças sociais, mas mecanismos de redistribuição de renda, como a tributação progressiva, são defendidos com certa timidez.


A globalização é vista como um processo já consolidado, o mercado chega a ser quase idolatrado como o ente detentor da capacidade de resolver os problemas sociais (a maioria decorrentes de sua própria atuação). A suposta igualdade de oportunidades, seria, numa leitura mais crítica da obra, apenas uma preocupação com a formação da mão de obra necessária à cadeia de produção e de meros consumidores.


A fragilidade da obra talvez esteja justamente no ponto em que o próprio autor considera a sua grande força: a capacidade de dar soluções adequadas para problemas do mundo atual. "A Terceira Via e Seus Críticos" foi publicado antes do atentado de 11 de setembro, antes da crise de 2008, antes do Brexit e de tantas outras transformações que tornam distante o contexto no qual ele foi publicado.


Por ironia do destino, apesar do governo FHC ser citado na obra como exemplo de uma das materializações práticas da terceira via, conforme proposta, são os governos Lula e Dilma que melhor representam a prática daquilo que fora proposto, inclusive com os pontos fracos, que levariam à queda do Lulismo e à crise política pela qual o Brasil passa hoje.


O pacto proposto por Giddens, ao menos por aqui, funcionou apenas até que a redução das desigualdades tornasse os pobres menos dependentes, o que desagradaria as elites tradicionais e levaria à quebra do pacto e a readoção de um modelo muito mais neoliberal do que o imposto ao país pelo FMI na década de 90.

quarta-feira, 20 de maio de 2020

Direita e Esquerda: Razões e Significados de uma Distinção Política - Livro


Direita e Esquerda - Razões e Significados de uma Distinção Política de Noberto Bobbio. Lançado em 1995. Tradução de Marco Aurélio Nogueira. São Paulo. Editora da Unesp, 1995.


A queda do muro de Berlim em 1989 simbolizou o final de uma era, a reunificação da Alemanha jogou por terra a ideia do mundo bipolarizado, dando início a um período de intensa crise das ideologias. O fracasso do comunismo na URSS levantou uma incômoda questão: ainda faria sentido distinguir esquerda e direita? Noberto Bobbio, jurista, cientista político, historiador e filósofo italiano, defendeu nesta obra magnífica que sim, a distinção entre esquerda e direita continuava naquela época, início dos anos 90, mais atual é necessária do que nunca. 

Bobbio ressaltou no livro a importância de não confundir as experiência totalitárias fracassadas como única forma de expressão do socialismo, ele chama a atenção para o fato de que as orientações antagônicas não têm relação direta com o tipo de governo (liberal ou totalitário), podendo o totalitarismo ser de esquerda (como o foi na URSS), ou de direita (como foi na Alemanha nazista). 

O que então, em última instância, distinguiria esquerda e direita? Para Bobbio seria o posicionamento em relação à igualdade, mais do que qualquer outra coisa. A direita tende a crer que as desigualdades são naturais e, sendo assim, inevitáveis, enquanto que a esquerda as considera como um fruto de uma determinada construção social e, como tal, passíveis de serem eliminadas ou amenizadas pela atuação do estado ou pela sua completa extinção. 

A resposta à pergunta "igualdade sim, mas entre quem, em relação a quê e com base em quais critérios?" seria, de acordo com o autor, capaz de posicionar um indivíduo, um partido político ou um governo em um determinado ponto da linha que tem a esquerda em uma de suas extremidades e a direita na outra. Bobbio, relembra ainda a máxima de aristotélica presente na obra "Ética a Nicômaco" que diz que o principio maior da justiça seria tratar os iguais de forma igual e os diferentes de forma desigual na medida de suas desigualdades. 

A adoção de tal pressuposto, segundo ele, evitaria tanto o igualitarismo característico do totalitarismo de esquerda, quanto a manutenção do status quo, tão presente no pensamento e na práxis liberal. Para Bobbio a desigualdade deve ser valorizada como fator de multiplicidade, no entanto, o tratamento desigual se faria necessário quando houvesse o entendimento de que a desigualdade se torna um fator de opressão ou de exclusão. 

Apesar de ser uma obra relativamente pequena (127 páginas nesta edição), "Direita e Esquerda..." é de notável profundidade, o que a torna uma obra definitiva sobre o tema. Não é por acaso que ela tenha gerado e ainda gere tanta controvérsia. Ao escrever o prefácio da segunda edição italiana, Bobbio defendeu que as inúmeras críticas que recebeu na ocasião do lançamento apenas reforçavam a sua tese, os termos, criados no contexto da revolução francesa, continuavam vivos e ainda capazes de representar os dois espectros antagônicos da política.

Resenha escrita em 12/02/2017 e publicada originalmente no Skoob (rede social sobre livros). 

sábado, 29 de dezembro de 2018

O Público e as Verdades da Arte


Oscar Wilde chegou a afirmar, por meio de um de seus personagem mais emblemáticos, Lord Henry Wotton de O Retrato de Dorian Gray (seu alter-ego), que o "objetivo da arte é revelar a obra e esconder o artista"... eu concordo em partes com este pensamento. Se por um lado é impossível, por exemplo, compreender a grandiosidade da obra de Kafka (também escritor) sem conhecer, ainda que superficialmente, a sua trajetória e o contexto em que ele viveu, por outro o foco demasiado no artista pode relegar em segundo plano aquilo de mais importante que sua obra possui, e isso frequentemente acontece. Vivemos atualmente uma inversão extrema do pensamento de Oscar Wilde; a mídia cumpre o papel de desnudar a vida do artista, enquanto o público busca nela, e não na obra, os elementos de identificação capazes de produzir empatia. 

Discorrerei rapidamente sobre três situações que vivenciei recentemente e depois tentarei propor uma breve reflexão sobre o assunto. 

- Em agosto deste ano, Oswaldo Montenegro tocou em Piacatuba, distrito de Leopoldina/MG, no Festival de Samba e Petiscos. Naquele dia, minutos antes de sua própria apresentação ele estava no meio do público assistindo ao show de dois violeiros locais, um casal então se aproximou dele e pediu para tirar fotos, ele não negou, mas enquanto os flashes eram disparados ele permaneceu na mesma posição e que já estava, de braços cruzados e olhar direcionado para o palco. 

- No último dia 8, na edição do festival Circuíto Banco do Brasil, realizada no Rio de Janeiro, a banda americana MGMT foi vaiada por uma parte do público e um dos motivos foi não ter sido "cordial com a platéia". Uma adolescente, fã da banda que tocaria na sequência, que estava logo à minha frente durante a apresentação resumiu o motivo de sua indignação: "entraram e saíram sem ao menos dar boa noite". 

- No último sábado, Maria Rita se apresentou aqui em Ubá, no Festival de Música Ary Barroso, apesar de feito uma apresentação memorável ela foi criticada por alguns dos que estavam presentes por não ter recebido o público para uma sessão de fotos e autógrafos. Algumas pessoas chegaram a criticar a organização do evento por tê-la trazido, isso pelo simples fato de não ter conseguido se aproximar dela. 

Chegamos ao ponto: O tratamento seco dodo pelo Oswaldo Montenegro ao casal que o abordou, a falta de interação verbal do MGMT com o público e a recusa de Maria Rita a receber admiradores em seu camarim, nenhum destes fatos definitivamente não tornou nenhuma das apresentações menos impactantes pra mim e isso porque o essencial ao meu ver não é, e nunca será, a postura do artista em relação aos fãs, mas a proposta e a representatividade que sua obra tem para mim. 

Pode parecer uma afirmação dura, mas artista nenhum tem obrigação de paparicar seu público. Admiro muito aqueles que relacionam de forma natural com seus fãs e repudio os que o faz de forma forçada, por mero sentimento de obrigação. Uma parcela do público aparentemente não consegue compreender isso e para ela bom continua sendo o artista estrangeiro que arrisca algumas palavras em português no palco, o que força sorrisos na hora do selfie e o que bajula o público com frases feitas e falsas afirmações.

Pode parecer contraditório eu escrever uma nota com este conteúdo, afinal sou dos que curte ter o disco original autografado e um dedo de prosa com algum artista cuja a obra eu admiro ou respeito. Mas, a questão é que é preciso separar as coisas, não confundir o artista com a obra, pois tal tipo de simbiose na maioria das vezes não se dá de forma tão harmônica. Quem faz este tipo de confusão corre o risco de acabar frustrado ao descobrir que um determinado compositor não é bem aquilo que se pressupunha que ele era divido à uma interpretação pessoal de suas letras.  

Aqui cabe uma rápida reflexão sobre o que é apreciação artística e sobre a forma com que ela se dá. Quando nos colocamos diante de uma obra (seja ela uma música, um filme ou até mesmo um quadro) estamos diante de pelo menos três verdades que podem ou não ser divergentes, a primeira delas é a que é idealizada pelo artista antes e durante o processo de criação, a segunda é a resultante deste processo, que absolve influências externas, inclusive de outras pessoas envolvidas com ele. A terceira e última verdade é a de quem se coloca diante da obra, que é influenciada pela visão de mundo e pela bagagem que cada um traz consigo. 

O que geralmente ocorre é que uma parte do público confunde a sua verdade com a verdade do artista e por isso passa a exigir dele posturas e comportamentos que validem aquilo que até então não passava de meras impressões. Há neste fenômeno uma negação de todo o processo de criação e de consumo da arte. Desconsidera-se o poder que a obre tem de impactar por si própria e o dever de provocar este impacto é delegado ao artista, como se nele se esgotasse todo o processo. Dai surgem as aberrações criadas pela indústria cultural: os artista cuja obra se resumem à uma única verdade, previamente fabricada para um público que já está de antemão apto para decodificá-la e digeri-la sem maior trabalho.

Felizmente ainda existem artistas cuja grandiosidade de suas obras transcende suas próprias posturas, algumas vezes mesquinhas... Oswaldo Montenegro, MGMT e Maria Rita fazem parte deste grupo! 


Escrito originalmente em 20 de novembro de 2014


quinta-feira, 13 de julho de 2017

Vanguart - Beijo Estranho


Beijo Estranho, quarto disco de estúdio do Vanguart, tinha lançamento previsto para o dia 28 de abril. O single homônimo já tinha sido lançado no início daquele mês e denotava uma aventura da banda por uma sonoridade diferente da explorada nos trabalhos anteriores. A ansiedade de parte do público já era alta, mas havia o receio de que as expectativas pudessem ser frustradas, uma vez que não seria fácil manter o alto nível dos álbuns anteriores. Horas antes do previsto alguém queimou a largada, o disco foi postado em uma das plataformas de streaming, pouco tempo depois aconteceria o lançamento oficial nas outras plataformas.

Diante da notícia de que o álbum já tinha caído na rede, experimentei um daqueles raros momentos de realização em que o mundo todo pausa para que possamos fazer algo de extrema importância; eu não teria como descrever aqui a sensação de estar diante de um material inédito de uma das minhas bandas favoritas - Neste exato ponto desta resenha, penso que cabe lembrar que este é um texto pessoal, sem qualquer compromisso com a objetividade ou com qualquer tipo de distanciamento - naquele momento, estranhamente, era como se eu esperasse encontrar no disco não a banda, mas a mim mesmo.

Os discos Boa Parte de Mim Vai Embora e Muito Mais que o Amor marcaram fases distintas de minha vida e era natural, ao menos pra mim, que eu buscasse no novo álbum um fio que me reconduzisse de volta às experiências e reminiscências destes períodos. Mas, ao invés de um fio que me conduzisse de volta para o passado, encontrei uma porta que se abria para o desconhecido.



Dei o play no álbum no Spotify, optei por não pular a primeira faixa, a já conhecida faixa título, eu queria sentir o disco em sua totalidade, e sentir era mesmo a palavra mais adequada. Beijo Estranho, tal como seus antecessores, transbordava sentimentos e sensações. Ouvi o disco completo sem avançar nenhuma faixa, tentei absorver cada acorde, cada estrofe, cheguei ao final e voltei ao início, ouvi de novo e voltei outra vez, e outra, e outra... caminhava a madrugada a passos largos e à medida em que ela avançava, mais denso e interessante o disco ficava.

Mas, nestas primeiras audições ainda me faltava uma noção da totalidade, o disco ainda me soava fragmentado, como se cada canção transitasse por um universo próprio de questões e de sensações distinto das demais. Entretanto, a cada nova audição as pontas, que eu acreditava estarem soltas, se juntavam uma às outras deixando transparecer algo maior. Ao contrário do que eu cheguei a supor, havia sim uma unidade em Beijo Estranho, algo que o localizava entre a nebulosidade do Boa Parte de Mim Vai Embora e o clima ensolarado de Muito Mais que o Amor

Beijo Estranho, eu ousaria dizer, é um disco sobre amor e medo; não por acaso, estas são as palavras mais recorrentes nas letras das onze canções que o compõem; ouso dizer ainda que não só há uma unidade entre essas canções, como também há um todo maior que liga o disco aos seus antecessores. Beijo Estranho é uma espécie de continuidade dos álbuns de 2011 e de 2013, uma vez que a reflexão proposta em cada um está entrelaçada à temática predominante nos outros.

Boa Parte de Mim Vai Embora evocava a dor e o sofrimento advindos do rompimento com uma pessoa amada, enquanto que Muito Mais que o Amor era sobre redescobrir o amor idealizado, romântico em sua essência, aquele capaz de renovar as esperanças e a própria vida. Beijo Estranho ésobre descobrir a si mesmo, é sobre se reconhecer no amor que oferta a alguém. A vivência da auto-descoberta inclui tanto a noção  de que o amor pode ser doloroso e abrir feridas profundas quanto o reconhecimento de que é preciso vencer o medo que sufoca e tolhe a experiência do amor real, um  medo que paralisa e acomoda. 


Foto publicada originalmente no site A Gambiarra

"Quente é o Medo" não é a minha música favorita, mas talvez seja a mais emblemática do disco (abro um parêntese aqui para defender que ela deveria ter dado nome ao disco), é uma canção que possui certa dubiedade e que, por isso, abre margem para interpretações diversas e principalmente para reflexões sobre - adivinhem - amor e medo. Outras faixas dão sequência à mesma reflexão; "Todas as Cores", que começa em um tom de conselho, fala sobre o aprendizado adquirido por meio dos erros cometidos, um aprendizado que ajuda a vencer o medo de apaixonar de novo. "Quando Eu Cheguei na Cidade" fala sobre a coragem de se reabrir para um amor que já causou muita dor. "Menino" incita a fazer o seu próprio tempo ao invés de esperar o tempo certo, que talvez nem exista.

"Casa Vazia", que também diz muito sobre o álbum como um todo, em seus versos lembra que a natureza do amor é determinada mais pelo amante do que pelo objeto deste amor, o que está diretamente ligado à ideia de reencontrar, conhecer e amar a si mesmo antes de oferecer amor a outrem. "Homem Deus" dá ares filosóficos à reflexão; em seus versos, todos (o homem, Deus, a natureza) são um só e o amor é o elemento que confere tal unidade. O amor é o elemento capaz de elevar o homem e colocá-lo em contato com o sublime.

Vencido o medo, vem a oportunidade de viver uma entrega plena, capaz de proporcionar a vivência do amor real. Nesta onda de reflexão vêm "Beijo Estranho", que aborda a auto-descoberta de alguém que dedicara a própria vida à outra pessoa e finalmente descobre o quão destrutivo era este  relacionamento. "E o Meu Peito Mais Aberto que o Mar da Bahia" fala sobre a entrega irrestrita, exaltando a felicidade e a liberdade que dela decorrem. "Eu Preciso de você", minha favorita do disco, é outra ode à entrega - perfeita a metáfora do trem desgovernado. A derradeira do álbum, álbum, "Pancada Dura", condensa em si toda a reflexão que permeia o disco, ela o fecha falando de coragem e conclui: vale a pena morrer de amar!

Musicalmente, apesar da mudança recente na formação, a banda aparenta estar no ápice de seu entrosamento e potencial criativo. Helio Flanders e Reginaldo Lincoln tiraram de suas mangas verdadeiras pérolas, ambos estão cantando como se estivessem com a alma a ponto de sair pela boca. O violino da Fernanda Kostchak nunca esteve tão expressivo, ele geme, grita, chora, sorri e corre solto se destacando mesmo nas faixas em que surge acompanhado por outros instrumentos de corda (em belíssimos arranjos). O baixo do Reginaldo e a guitarra do David Dafré, estão lá, também em perfeito entrosamento, para nos lembrar porque o Vanguart é o Vanguart.

Destaco as participações especialíssimas do lendário Wagner Tiso (autor dos arranjos de boa parte dos clássicos do Clube da Esquina), que compôs os arranjos de "Homem-Deus", do Thiago França (Metá Metá), que gravou o Sax e a Flauta na canção "Quando eu Cheguei na Cidade" e do eterno Vang Luiz Lazzaroto, que gravou o órgão em "Menino".

Relevem o fato de que nesta resenha a persona fã gritou mais alto que a do jornalista e crítico e anotem o que eu estou dizendo: "Beijo Estranho" figurará em algumas listas dos melhores do ano, mas certamente será um disco que crescerá com o tempo. Ele fará, junto com os seus antecessores, que o Vanguart seja lembrado daqui a alguns anos como uma das melhores e mais originais bandas de nosso tempo. Anotem.

Dá o play no disco e aciona o repeat!



quinta-feira, 13 de abril de 2017

[Escrito em 13/04/2017] - Por quanto tempo a gente consegue ir acumulando e silenciando sentimentos, dores, angústias. Por quanto tempo conseguimos calar o nosso corpo. Os sapos que engolimos, os desaforos não respondidos, os ataques suportados e as dores aparentemente aplacadas, pra onde vai tudo isso? Seguimos, crentes de que tudo está bem, mas a ferida continua aberta. Fingimos que ela não existe, até que ela reaparece enorme e, assustados, não sabemos lidar com ela. Ansiedade é isso, é o corpo que grita, que pede socorro e clama por reação.

Convivi com a ansiedade por muito tempo, até o momento que eu acreditei que ela estava vencida e que não voltaria mais a atingir níveis tão incômodos. Superei ela mudando a perspectiva sobre as coisas à minha volta, com atividades que durante muito tempo eu usei como terapia (o blog, por exemplo), mas nunca cheguei fazer acompanhamento profissional ou qualquer tipo de intervenção medicamentosa.

Aplaquei a ansiedade adotando um ritmo de vida extremamente acelerado: trabalho, ativismos, estudos, leitura, mais trabalho, mais estudos, correria ensandecida. Foi bem enquanto o ritmo foi mantido, ou eu consegui me enganar que estava indo bem. Mesmo nas minhas últimas férias a correria foi mantida. Nesta, eu resolvi diminuir o ritmo, estranhamente foi pior.

Situações que estão fora do meu controle e que têm me causado apreensão e angústia trouxeram novamente à tona a sensação de medo constante, a vontade de chorar sem motivo aparente (mesmo sem qualquer tipo de tristeza), a vontade de fugir e algo que eu não tinha experimentado até então: uma barreira com relacionamentos, erguida pelo medo, por uma estranha expectativa que paira no ar de que em algum momento algo muito ruim irá acontecer, de novo.

O medo tem me paralisado e eu não estou sabendo lidar com ele. Fisicamente, reapareceram outros sintomas, com uma intensidade muito maior, as crises de gastrite, as cólicas intestinais, sensação de fadiga, mãos suando o tempo todo, problemas na pele. C'est la vi, companheiros, ela não está fácil, mas a gente vai levando...