domingo, 22 de dezembro de 2013

Os Suspeitos

Os Suspeitos (Prisoners) - 2013. Dirigido por Denis Villeneuve. Escrito por Aaron Guzikowski. Direção de Fotografia de Roger Deakins. Música Original de Jóhann Jóhannsson. Produzido por Kira Davis, Broderick Johnson, Adam Kolbrenner e Andrew A. Kosove. Alcon Entertainment, 8:38 Productions e Madhouse Entertainment / USA.


Toda sociedade possui um sistema legal, simples ou complexo, cuja função é proteger a coletividade e o indivíduo de uma provável ruína que poderia ser causada por desvios de conduta, crimes ou contravenções. Ao criar um conjunto de leis e normas a serem seguidas, a sociedade transfere para uma instância maior (no caso o estado) o poder de legislar, julgar e executar penas que corrijam as distorções observadas. Porém, quando um indivíduo ou grupo decide reivindicar para si algum destes poderes que foram outorgados ao estado, todo o sistema legal entra em colapso e isso põe em risco toda a organização social. Tal usurpação de poder geralmente ocorre quando algum tipo de fragilidade é percebido no sistema. Em algumas situações, no entanto, esta fragilidade surge apenas de uma leitura equivocada da realidade, muitas vezes motivada por emoções que se encontram à flor da pele e pelo impulsos que delas decorrem.

Esta questão, que é bastante complexa, está no cerne da trama de Os Suspeitos (2013), o filme mais recente do cineasta canadense Denis Villeneuve. O longa, que já figura em algumas listas dos melhores do ano, nos coloca diante de uma complicada questão moral: até que ponto a intervenção do indivíduo no sistema pode ser justificada pela suposta ineficácia do aparato legal. O roteiro nos aproxima emocionalmente da história contada ao nos colocar na condição de voyers. Nossas emoções são despertadas através do suspense criado de forma magistral por cada um dos elementos de linguagem e o nervosismo e a ansiedade que experimentamos diante de determinadas passagens chega a tornar compreensível as posturas controversas de alguns dos personagens e isso acontece com maior intensidade em pelos menos dois momentos do filme, o que é o resultado de um fenômeno interessante que comentarei mais adiante.


A história começa com o misterioso desaparecimento de duas garotinhas no dia de ação de graças (um detalhe de extrema importância para a narrativa), à princípio as suspeitas recaem sobre Alex Jones (Paul Dano), um jovem mentalmente perturbado que fora visto nas redondezas pouco antes do sumiço das meninas. Alex é detido e interrogado, porém a falta de provas faz com que a suspeita não seja confirmada pela polícia local. Keller Dover (Hugh Jackman), o pai de uma das garotas, se revolta ao descobrir que Jones fora solto após decorrido o prazo legal, durante o qual a polícia podia mantê-lo sob custódia mesmo sem ter provas contra ele. Mesmo sem nenhum indício de que o rapaz tenha algum envolvimento com o caso, Dover se convence de que ele é o responsável, ou um dos responsáveis, pelo desaparecimento de sua filha. Descrente na atuação da polícia, ele sequestra o suspeito e passa a torturá-lo em busca de informações.


Keller Dover usurpa para si o poderes de jurgar e de executar penas, totalmente descontrolado ele age sem ao menos refletir sobre o peso, o significado e as consequências de suas ações. No afã de encontrar a filha, ele acaba envolvendo também os pais da outra menina no sequestro; Franklin (Terrence Howard) e Nancy Birch (Viola Davis) vivenciam de uma forma ainda muita intensa o dilema moral que toda a situação representa, mas mesmo assim acabam sendo coniventes com as ações desesperadas de Dover. Os atos dos três são tão condenáveis quando os do sequestrador de suas filhas, com a diferença de que as ações deste são apenas presumidas enquanto que as deles são reais e extremamente violentas. A postura de Grace (Maria Bello), a esposa de Keller, é bem diferente da do marido, ela se abate terrivelmente com a situação, mas consegue manter um considerável nível de lucidez, mesmo permanecendo na maior parte do tempo sob o efeito de medicamentos tranquilizantes.


Loki (Jake Gyllenhaal), o detetive responsável pelo caso, é outro personagem de extrema importância para a narrativa, ele é a representação perfeita das limitações e da fragilidade do estado. Visivelmente atormentado pelos seus próprios fantasmas, ele recorre a respostas vazias para manter os ânimos dos familiares das vítimas sob controle, todavia fica evidente que nem ele mesmo consegue mais acreditar naquilo que diz. Em uma das passagens mais emblemáticas do filme ele próprio decide ultrapassar os limites da lei em busca de uma informação; esta passagem aponta para um problema maior e deixa evidente qual é a real intenção do roteiro ao abordar as problemáticas em torno desta questão.


Acredito que a proposta da trama de Os Suspeitos não é emitir juízo moral, nem tão pouco condenar as ações de seus personagens, talvez a sua real intensão seja a de colocar as questões abordadas em evidência, chamando assim a atenção para a fragilidade dos poderes constituídos, para as consequência da usurpação destes poderes por pessoas ou grupos que se encontrar incapacitados para administrá-los e principalmente para conduta moral que demonstramos diante de uma situação semelhante. É neste último ponto que se encontra a importância do processo mental criado pelo filme, que nos coloca em uma situação similar à dos personagens que decidem agir à margem da lei. É natural que nós expectadores, ao assistirmos a um filme, aprovemos ou não os atos dos personagens diante de algumas situações complexas, aqui tal avaliação de conduta ganha uma enorme importância, por estar diretamente relacionada à reflexão que o filme propõe.


As ótimas atuações aliadas à excelente construção dos personagens tornam a história ainda mais forte, impactante e plausivelmente real. A trilha sonora, a fotografia, os movimentos de câmera e a edição contribuem para a manutenção de um clima extremamente opressivo e melancólico, que é condizente com o retrato social que o filme como um todo representa. Em um ano em que consegui assistir a um número bem reduzido de filmes, Os Suspeitos foi uma das mais gratas surpresas, não tenho dúvidas, trata-se de uma obra de inegável qualidade, que prova que Hollywood ainda é capaz de dosar na quantidade certa o entretenimento e a profundidade dramática.


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A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra.

sábado, 30 de novembro de 2013

Frances Ha

Frances Ha - 2012. Dirigido por Noah Baumbach. Escrito por Noah Baumbach e Greta Gerwig. Direção de Fotografia de Sam Levy. Produzido por Noah Baumbach, Scott Rudin, Rodrigo Teixeira e Lila YacoubPine District Pictures, RT Features e Scott Rudin Productions / USA.


Frances Halladay (Greta Gerwig) é uma aspirante a bailarina que tenta encontrar um lugar para si em um mundo no qual aparenta não caber. Ela divide um apartamento com Sophie Levee (Mickey Sumner), sua melhor amiga, juntas eles tentam driblar a monotonia e e falta de rumo de suas vidas, elas se completam e este vinculo afetivo é a relação mais consistente que ambas possuem. É a intensidade desta amizade que leva Frances a recusar o convite que o namorado lhe faz para morarem juntos e esta recusa acaba os levando ao rompimento. Sophie, no entanto, não faz a mesma escolha ao se ver diante de uma situação semelhante e sua repentina mudança torna ainda mais evidente o vazio da vida de Frances, que se vê então obrigada a lidar com a solidão, com a carência afetiva e com a falta de dinheiro. Sem ter tanta coisa em que se apegar, ela tenta se esconder atras de uma falsa felicidade, mas, sob a camuflagem de uma alegria fingida existem feridas não curadas e uma forte melancolia. O alto astral, que ela tenta demonstrar, é tão superficial quanto os relacionamentos que ela cria depois da partida da amiga e do término com o namorado.

Frances concentra em si diversas características atribuídas à geração 'y', ela é imediatista, não consegue estabelecer planos de longo prazo, age muitas das vezes movida pelo impulso e a falta de inteligência emocional acaba sendo um de seus maiores entraves. Tudo isso faz com ela seja uma personagem extremamente empática e cativante, afinal de contas nela estão representados alguns de nossos próprios medos e dúvidas, isso leva ao surgimento de um processo de identificação entre o filme e parte de seu público e este processo é capaz de potencializar um dos principais efeitos do longa: o de chamar a atenção para a fragilidade dos princípios que nos regem na vida em sociedade e para o descolorido do mundo à nossa volta, que parece se tornar menos interessante à medida em que nossos relacionamentos se tornam mais inconsistentes e menos duradouros. 


Até ser surpreendida, Frances parecia acreditar que seu relacionamento com Sophie estava imune à qualquer tipo de crise, todavia, isso era uma mera ilusão. Por estar despreparada para enfrentar uma situação inesperada, ela recorre à tentativas falhas de se restabelecer de outras formas, que não através das relações. Percebe-se que ela quer provar para todos à sua volta que está bem e isso explica o exagero quase caricato de sua felicidade, que é tão frágil quanto as ilusões que ela criara anteriormente em relação à amizade com Shophie. Recai então sobre ela o peso das inúmeras cobranças que lhe são feitas pela sociedade: ela tem 27 anos e ainda não tem um emprego estável, não conseguiu alcançar sucesso em nada do que já fez e parece incapaz de viver relacionamentos amorosos que superem a condição de uma mera aventura efêmera... Sophie, por sua vez, tem tudo isso, mas ela também não está feliz, o que nos leva a crer que o padrão de felicidade que ela conquistou (o mesmo adotado pela sociedade) é incapaz de satisfazer seus anseios mais íntimos.


O drama de Frances é o mesmo de toda uma geração que optou pela liberdade em detrimento da segurança, o temor provocado pela incerteza em relação ao futuro e pela ameaça de que uma nova frustração possa reabrir velhas feridas tornou os laços afetivos ainda mais vulneráveis, transformando-os em algo extremamente assustador, indesejável até. É o vazio existencial e a falta de significado da vida que se levantam contra a protagonista e diante deles ela não sabe o que fazer, afinal de contas nem a segurança nem a liberdade são capazes de aplacá-los, resta-lhe então a difícil tarefa de conviver com a sensação de estar em uma realidade à qual não se pertence - Prestem atenção na situação que explica o porquê do sobrenome de Frances ter sido abreviado no título do filme, trata-se de uma metáfora que traduz a condição na qual ela se encontra. 


A fotografia em preto e branco dá ao filme uma aura melancólica, quase opressiva em algumas passagens, que reforça a dor presente em sua trama. Isso pode ser percebido em sequências como aquelas que retratam uma curta viagem que Frances faz para a França; a Paris retratada nessas cenas é bem diferente daquela que estamos acostumados a ver em outros filmes. Aqui o descolorido reforça a frieza da cidade e a solidão que a protagonista sente enquanto está lá, a passagem na qual ela tenta acender um cigarro, à margem do Rio Sena, é simples, mas dotada de uma grande carga de significação e representatividade - o isqueiro não funciona e isso basta para que ela esboce uma reação que deixa evidente a sua frustração, é como se nada mais desse certo e diante deste fatalismo até mesmo a "cidade luz" perde o seu brilho. O filme chega a causar um leve aperto no peito, por retratar um mundo plausivelmente real e tão próximo das nossas próprias realidades.


Greta Gerwig está brilhante no papel da protagonista, a sua construção da personagem é cuidadosa e de uma notável entrega. Não tenho dúvidas, Frances Ha é dela e este talvez venha a se tornar o seu papel mais emblemático. O fato dela também assinar o roteiro pode ser uma explicação para a intensidade de sua interpretação, que adquire por isso um viés ainda mais autoral... Noah Baumbach conseguiu o notável feito de dirigir um filme cômico, que passa longe da superficialidade da maioria das comédias românticas, e ao mesmo tempo dramático, sem precisar para tal apelar clichês ou exageros sentimentais... Por enquanto Frances Ha é apenas uma ótima produção com 'algo a mais', mas o tempo pode torná-lo ainda maior, afinal o que temos aqui é um filme sobre a nossa época, sobre nossos amores, sobre nossas amizades, sobre nós... Tudo isso tende a ficar ainda mais claro com o distanciamento proporcionado pelo passar dos anos.


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A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra.

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

A Espuma dos Dias

A Espuma dos Dias (L'écume des Jours) - 2013. Dirigido por Michel Gondry. Escrito por Michel Gondry e Luc Bossi, baseado na obra literária de Boris Vian. Direção de Fotografia de Christophe Beaucarne. Música Original de Étienne Charry. Produzido por Luc Bossi. Brio Films, StudioCanal, Scope Pictures, France 2 Cinéma, Hérodiade, Radio Télévision Belge Francophone (RTBF) e Belgacom / França | Bélgica.


O filósofo Jean-Paul Sartre, um dos principais representantes da corrente existencialista, acreditava que o indivíduo só se definia como tal através de sua própria vivência; para ele a vida era absurda e destituída de qualquer sentido, sendo de tal modo caberia a cada um buscar a sua própria razão de ser (à qual ele chamou de essência) e não existia outra forma de encontrá-la a não ser através da experiência, ou seja, vivendo. Avesso à cultura do imediatismo, reforçada pelo consumismo capitalista, Sartre passou a defender a concepção de um 'projeto de vida', através do qual cada indivíduo, à sua maneira, estabeleceria uma meta, que o guiaria e motivaria cada uma de suas ações; ele acreditava que "o homem não é senão o seu projeto" e que ele "só existe na medida em que se realiza", não sendo portanto, "nada mais do que o conjunto dos seus atos, nada mais do que a sua vida". Sem este projeto o homem estaria condenado à agonia de apenas existir, sem jamais encontrar a sua verdadeira essência.

Em O existencialismo é um Humanismo, uma de suas obras mais importantes, Sartre defendeu que "o homem, antes de mais nada, é o que se lança para um futuro [...] um projeto que se vive subjetivamente,... nada existe anteriormente a este projeto;... o homem será antes de mais nada o que tiver projetado ser. Tal concepção, no entanto, pode representar um fardo demasiadamente pesado se for analisada por uma perspectiva diferente da adotada pelo filósofo em suas obras. A ideia de que o homem é o resultado de suas próprias ações e daquilo que planeja para a sua vida pode parecer um fruto de um humanismo quase positivista, contudo, esta mesma ideia joga sobre o indivíduo uma responsabilidade que na prática ele não é capaz de assumir e de suportar... Entender o conceito do 'projeto de vida' de Sartre e a crítica feita a ele é fundamental para que se possa compreender a trama e algumas das inúmeras metáforas presentes em A Espuma dos Dias, o novo filme de Michel Gondry, que pode ser analisado como uma crítica feroz à forma com que são interpretados alguns dos fundamentos do existencialismo. 


A história contada pelo longa é uma verdadeira desconstrução da ideia do 'projeto de vida'. O roteiro, que foi adaptado do livro de Boris Vian, aborda a incapacidade do indivíduo de sustentar a motivação, que deveria lhe conduzir à sua própria essência, ao se encontrar diante de peripécias proporcionadas pela vida, sob as quais ele não exerce controle algum... Na trama, Colin (Romain Duris) é um rapaz de condição social abastada que encontra no amor uma razão maior para sua existência, que parecia ser até então completamente vazia. A paixão correspondida lhe dá algo que as regalias e excentricidades que seu dinheiro comprava nunca foram capazes de lhe proporcionar. Em Chloé (Audrey Tautou), sua amada, ele encontra algo que o completa e isso faz com que ele comece a fazer planos e o 'projeto de vida', tal como defendido por Sartre, passa a fazer sentido para ele. A convivência a dois parece proporcionar a Colin uma felicidade ainda não experimentada, no entanto tudo começa a desabar depois que Chloé recebe o diagnóstico de uma grave doença que, silenciosamente, tomara o interior de seu peito. 

Rapidamente o amor idealizado e os planos para o futuro dão lugar a uma opressiva sensação de que a vida acabara de entrar em uma contagem regressiva. Tudo isso, no entanto, é contado pelo filme de uma forma poética e repleta de fantasia. A narrativa usa o surreal para representar o absurdo e a falta de sentido da existência, Michel Gondry cria então um realismo fantástico onde quase tudo é possível, à princípio toda a realidade diegética nos parece bela e extremamente cativante; de certo modo ela representa as inúmeras possibilidades de uma vida que se mostra como uma folha de papel em branco, pronta para ser preenchida com os frutos de sonhos e de ideais utópicos, todavia, a peripécia transforma aquilo que parecia um sonho em um pesadelo angustiante, a doença insurge como o fatalismo que mostra que nem tudo é possível. Pouco a pouco percebemos que é a realidade, tal como a conhecemos, que começa a macular a fantasia anteriormente observada.


A fragilidade dos planos de Colin (e da ideia do projeto de vida por extensãofica evidente á medida que a doença de sua esposa se agrava e o filme retrata tudo isso de uma forma extraordinariamente bela e ao mesmo tempo dolorosa, através da fotografia e da direção de arte são construídas também metáforas visuais que apelam ora para o sensorial, ora para o emocional, nos conduzindo a uma experiência sem tantos similares no cinema contemporâneo. Mas, a surpresa proporcionada nos primeiros atos do filme pelos elementos fantásticos, que surgiam a todo instante na tela, de repente dá lugar a uma sensação constante de claustrofobia. O absurdo deixa de ser novidade e passa a ser encarado com o olhar da repetição, que pouco a pouco lhe transforma em algo trivial, quase banal (o que remete à forma com que encaramos o absurdo de nossas próprias vidas)...


A narrativa se vale de inúmeros elementos visuais para retratar o impacto da descoberta da doença (que é uma clara referência o câncer) na vida dos personagens; sombras, poeira e telhas de aranha começam a se espalhar pela casa tornando a cada vez mais sombria, as portas e janelas se encolhem reforçando a sensação de aprisionamento que o protagonista experimenta. É de uma construção formidável, por exemplo, a passagem na qual Colin toma ciência da gravidade da doença de sua esposa, esta sequência é uma das que mostram o quanto a ruptura com o realismo, adotada pela narrativa, contribui de fato com o desenvolvimento da trama e com a reação que ela é capaz de provocar no público (ou ao menos em uma parcela dele). 


É interessante perceber que Nicolas (Omar Sy), o cozinheiro de Colin, também tem sua vida transformada pela doença de Chloé - ele envelhece oito anos em apenas dez dias - através dele a trama chama a atenção para um outro questionamento que também se choca com o penamento de Sartre: Estaria o indivíduo sujeito a sofrimento provocado pela falência do projeto de vida daqueles que estão à sua volta? Se a resposta a esta pergunta for 'sim', cai por terra boa parte dos pressupostas que sustentam o ideal do 'projeto de vida'. Esta e outras dúvidas levantadas pela trama nos conduzem à inúmeras outras questões, dentre elas uma que é de extrema importância para a construção da crítica ensaiada pelo filme: Há de fato alguma essência a ser encontrada, ou o que acreditamos ser a realização não passa de uma ilusão proporcionada pela crença em um ideal distante, que talvez nunca se realize? 


Há ainda um outro personagem de extrema importância para a construção das referências à obra do já citado filósofo existencialista, ele é Chick (Gad Elmaleh), o melhor amigo de Colin, ele é um seguidor fanático do escritor Jean-Sol Partre (uma óbvia referência a Sartre, como o nome sugere), que prega uma versão satírica do projet de la vie, o jovem rapaz segue o pensamento de seu ídolo de uma forma religiosa e ele não está sozinho, Partre reúne em torno de si uma multidão de pessoas que anseiam por encontrar suas próprias 'essências'. Percebemos então que a crítica que o filme faz não é ao Sartre, mas ao que fizeram da filosofia dele. Não é por acaso que o personagem que o satiriza faz dos lançamentos de cada edição de seus livros algo similar a um culto, que reúne em polvorosa a sua legião de adoradores (ops, leitores); está aí uma crítica ao consumismo que esvazia de significado até a filosofia mais complexa e a converte em uma religião, algo superficial e facilmente digerível. 


Outra passagem do filme mostra os livros de Jean-Sol Partre sendo vendidos em capsulas (das quais Chick logo se torna dependente) com esta inferência o filme associa o objeto de sua sátira - a filosofia de Sartre - às pilulas da felicidade (leia-se anti-depressivos, ansiolíticos, etc), medicamentos usados para aplacar os efeitos do contato com a falta de sentido da vida... Ao final de A Espuma dos Dias, a citação de Sartre que diz que  "[...] o homem é responsável por aquilo que é, assim, o primeiro esforço do existencialismo é o de pôr todo homem no domínio do que ele é e de lhe atribuir a total responsabilidade de sua existência", chega a soar tão absurda quanto o mundo ao qual o filme nos apresentou em seu começo e é então que percebe-se o quanto Michel Gondry é bem sucedido em seu propósito, ele consegue nos inserir e nos conduzir por um processo mental que transforma aquilo que nos parecia absurdo em algo corriqueiro e aquilo que parecia ser tão coerente em um completo disparate...


Destaco, além do roteiro e dos elementos técnicos (fotografia, direção de arte, trilha sonora, figurinos e maquiagem), os bons desempenhos de todo o elenco principal, Romain Duris transita com notável desenvoltura pela realidade na qual seu personagem está inserido, a Audrey Tautou consegue com olhares e gestos sutis nos convencer da fragilidade de sua Chloé e Omar Sy nos presenteia mais uma vez com o alto poder de cativação que sua figura possui, o que é muito bem usado na trama para criar uma espécie de contraste entre os dois momentos retratados pelo filme... Como eu disse no início desta resenha, a compreensão dos pressupostos que serviram de base para a trama é de fundamental importância para uma apreciação plena daquilo que o filme tem a nos oferecer e sem ela tudo o que vemos nele pode parecer ser apenas um amontoado de esquetes surrealistas sem um significado maior. A Espuma dos Dias não é uma obra-prima, mas isso não tira o mérito de seus realizadores, que nos presentearam com uma das obras mais bonitas e complexas deste ano.


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A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra.

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

O Homem de Aço

O Homem de Aço (Man of Steel) - 2013. Dirigido por Zack Snyder. Escrito por David S. Goyer e Christopher Nolan, baseado nas histórias e personagens criados por Jerry Siegel e Joe Shuster. Direção de Fotografia de Amir Mokri. Música Original de Hans Zimmer. Produzido por Christopher Nolan, Charles Roven, Deborah Snyder e Emma Thomas. Warner Br9os., DC Entertainment e Third Act Productions / UK | USA | Canadá.


A constante necessidade de reciclar e de revisitar antigas fórmulas de sucesso faz com que a industria cultural se coloque por vezes em uma situação vergonhosa que a leva a produzir obras totalmente injustificáveis, raramente uma dessas produções se salvam... Desde que os filmes de super-heróis voltaram à moda no início da década passada, diversos personagens das HQs ganharam longas-metragem em live action, alguns desses filmes renderam continuações e outros até prequels e/ou reboots. Apesar de serem meros caça-níquéis, algumas dessas obras se destacaram, isso porque trouxeram consigo algum elemento, técnico ou dramático, que acabou funcionou como um diferencial, outras, no entanto, a grande maioria, deram apenas uma roupagem nova para antigas fórmulas. Dentre estas, tiveram aquelas que fracassaram por tentar inovar sem a dose ousadia necessária para sair do lugar comum, este é o caso de O Homem de Aço (2013) de Zack Snyder.

É quase inevitável que se crie alguma expectativa em relação a este tipo de filme, o público que consome estas obras com um entusiasmo mais elevado anseia por saber se o roteiro será ou não fiel à história original, se esta obra dará ou não continuidade às histórias já contadas com os mesmos personagens e, principalmente, se o filme passará no teste ao qual é submetida a grande maioria das adaptações: se ele é ou não melhor que a obra que o originou. No caso de O Homem de Aço, podemos somar a tudo isso três outros fatores: a presença do cineasta Christopher Nolan (que dirigiu a mais recente trilogia do Batman), como produtor e co-roteirista (ele é um dos responsáveis pelo argumento); a recepção fria que Superman: O Retorno (o filme anterior do herói) teve, quando lançado em 2006; e a estilização gráfica, característica das obras de Zack Snyder, que já chamava a atenção nos primeiros vídeos promocionais do longa, por dar a ele uma aura aparentemente reflexiva e contemplativa.


Para a decepção daqueles que criaram expectativas exacerbadas, a presença de Christopher Nolan acabou colaborando pouco para a qualidade do filme (não descarto a possibilidade de ser ele um dos grandes responsáveis por sua mediocridade, uma vez que ele provavelmente teve uma grande influência sobre o processo criativo, por ser um dos produtores). O roteiro de O Homem de Aço é extremamente raso e isso compromete toda a narrativa. Sem uma boa história para contar, Zack Snyder aposta no aspecto sobre o qual detém um relativo domínio: os malabarismos visuais. Não por acaso o filme acaba se rendendo às sucessivas sequências de destruição, repletas de efeitos especiais, que tentam o sustentar em seus últimos atos. A revisão de alguns pontos da história do herói, que poderia ter sido o grande diferencial do longa, acaba tornando evidente o quão frustrada foi a tentativa de emprestar algum realismo para a trama, os fãs do personagem alimentaram a esperança de que fossem fazer aqui algo parecido com o que fora feito na trilogia do homem morcego dirigida por Nolan, o resultado final, contudo, passou bem longe disso.


A trama do filme chega a parecer minimalista, tamanha a sua resistência em se aprofundar nas questões abordadas. A passagem na qual um grupo de condenados recebe o exílio como castigo dá uma pequena noção do quão problemático é o roteiro, afinal de contas o exílio salva os condenados de desaparecerem junto com o planeta onde viviam, cuja destruição iminente já era aguardada pelo restante da população que tinha algum entendimento sobre o que estava acontecendo; isso soa no mínimo idiota, uma vez que aqueles que os condenam, mesmo sabendo disso tudo, permanecem no planeta, aguardando o momento de suas próprias mortes, sem que haja qualquer justificativa para isso. Restam ainda os clichês associados à figura do herói deslocado, que busca seu lugar no universo, e um romance forçado, pessimamente desenvolvido na trama.


Henry Cavill, que encarna o protagonista, Michael Shannon que dá vida ao General Zod e Kevin Costner que vive Jonathan Kent, o pai do herói, estão muito bem, seus desempenhos constituem um dos pontos mais positivos do filme. No entanto, nem as boas atuações, nem as cenas de ação bem construídas e tão pouco a bela fotografia são o suficiente para poupar o filme de ser uma das maiores decepções do ano. O roteiro raso e a narrativa paupérrima comprometem toda a obra e o que sobra é a impressão de que de fato este era um filme totalmente desnecessário... Não creio que seja preciso fazer aqui nenhum resumo do argumento, afinal trata-se da mesma história que já nos foi contada inúmeras outras vezes, as pequenas variações que então percebemos pouco acrescentam para a composição dos personagens e são incapazes de justificar a pseudo ousadia que Zack Snyder reivindica para si... "É um pássaro? É um avião?" Não, é a manifestação dos egos inflados de cineastas e produtores em crise... 


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domingo, 27 de outubro de 2013

Elysium

Elysium - 2013. Escrito e dirigido por Neill Blomkamp. Direção de Fotografia de Trent Opaloch. Trilha Sonora Original de Ryan Amon. Produzido por Simon Kinberg. TriStar Pictures, Alpha Core, Media Rights Capital, QED International, Simon Kinberg Productions e Sony Pictures Entertainment / USA.


Em Distrito 9 (2009), seu filme anterior, o cineasta sul-africano Neill Blomkamp despertou a atenção do público e da crítica por conseguir, em um filme de ação, tecer contundentes críticas à desigualdade e à exclusão social. Através de metáforas muito bem construídas ele usou uma história de ficção científica, sobre invasão alienígena, para retratar os efeitos ainda existentes do Apartheid em seu país de origem. Mas, não sendo restrito à realidade específica da África do Sul, o filme acabou se tornando também uma metáfora do modelo de organização ainda vigente na maioria das grandes cidades, um modelo que culmina com o processo de favelização e com a formação de guetos, espaços não alcançados pelas políticas sociais, que se tornam uma espécie de refúgio para aqueles, uma grande maioria, que devido á própria condição se viu excluído do convívio com seus semelhantes.

Em Elysium (2013) o cineasta volta ao mesmo tema, abordando-o com a mesma inventividade, novamente o que ele nos apresenta é uma boa trama de ação e aventura, na qual as inúmeras referências às já citadas questões sociais acabam funcionando como uma denúncia à este modelo de organização, com isso ele abre margem para importantes reflexões sobre tais problemáticas e seus efeitos. O roteiro escrito por ele próprio nos conduz para uma realidade distópica, ambientada no ano de 2154, onde vemos reproduzidas algumas aberrações sociais decorrentes da ganância e da sede de poder alimentada por uma minoria que detém o controle social. Neste futuro sombrio, não tão distante da nossa própria realidade, podem ser percebidos inúmeros avanços tecnológicos, no entanto estes servem basicamente à duas funções: garantir os privilégios gozados pela minoria e exercer um controle social sobre a grande massa marginalizada.


Tais avanços tecnológicos possibilitaram a criação de uma plataforma espacial, a Elysium, um lugar restrito aos que detém o poder, um espaço livre da escassez e da violência que assolam a Terra e com a cura disponível para todas as doenças. Frequentemente expedições tentam invadir a plataforma, os nativos da Terra vão em busca do conforto que o lugar pode oferecer e da cura para males intratáveis. O planeta se transformou em uma espécie de colônia superpovoada capaz de oferecer mão de obra barata e os insumos necessários para a subsistência de Elysium; qualquer semelhança com a realidade de países do terceiro mundo não é mera coincidência, lembremos que o longa é na verdade uma contundente crítica a tal realidade - Como não ver nas incursões para a plataforma espacial uma clara referência à imigração ilegal para os países desenvolvidos? Como não relacionar as atividades da corporação retratada pelo filme à atuação de grandes multinacionais em países de condições econômicas, políticas e sociais instáveis ?


Desta opressora realidade surgem alguns heróis tortos, tão distópicos e condenáveis quanto o mundo ao qual pertencem. Diferente do herói trágico, cuja ventura era determinada por uma única falha de caráter, o herói distópico alcança alguma bem-aventurança devido à algumas poucas virtudes, que se destacam em meio à uma postura sujeita a ser condenada por diversos aspectos. Max (Matt Damon) e Spider (Wagner Moura) representam no filme este tipo de herói, o primeiro é um ex-ladrão de carros que se encontra em liberdade condicional, o segundo é o líder de um grupo de rebeldes que atuam como "atravessadores" entre a Terra e Elysium. Ambos se vêm envolvidos em uma mesma missão depois que Max sofre um grave acidente na fábrica em que trabalha, ele descobre que tem poucos dias de vida e decide ir para a plataforma espacial em busca de cura...


O reencontro de Max com Frey (Alice Braga), uma amiga de infância, faz com que ele questione suas motivações e prioridades e a situação muda completamente depois que ele e Spider descobrem que têm a posse de algo tão poderoso que é capaz de transformar a realidade nos dois mundos. Este mesmo poder é cobiçado pela cruel Delacourt (Jodie Foster), a responsável pela segurança de Elysium, ela, que planeja um golpe de estado contra o atual governante, alicia na terra o mercenário Kruger (Sharlto Copley), para realizar cá embaixo todo o seu serviço sujo (a composição de Kruger faz referência às autoridades de países pobres, que sacrificam os interesses de sua própria gente devido à subserviência aos interesses dos dominantes). Apesar de ter algumas pequenas reviravoltas, a trama se desenrola sem tanta ousadia ou experimentalismo, o que nos faz lembrar de estamos diante de um mero filme de ação, cuja a proposta é apenas proporcionar um entretenimento inteligente, dando ainda uma pequena margem para uma grande reflexão. 


Esperar de Elysium um tratado filosófico sobre a desigualdade social e a determinação das relações de poder é sem sombra de dúvidas um grande erro, esta definitivamente não é a sua proposta, o que fica evidente no tipo de ritmo que ele adota: rápido e pontuado por sucessivas cenas de combate físico. A trama peca, não por evitar o aprofundamento nas questões abordadas, mas por se render em alguns momentos a clichês que pouco contribuem para a narrativa e à sequências de notável apelo emocional, que não funcionam com tanta naturalidade. Isso certamente prejudica o filme, mas não o torna uma obra ruim ou descartável, afinal de contas o que se sobressai, tal como em Distrito 9, é a sua relativa diferenciação em relação às demais produções de seu gênero, o que corrobora a ideia de que o entretenimento para funcionar como tal não precisa ser desprovido de significações maiores e de inventividade.


Todo o elenco entrega boas atuações, convincentes e com arestas bem aparadas, Wagner Moura, contudo, vai além, ele empresta ao seu personagem trejeitos e maneirismos que enriquecem sua composição e fazem com que ele roube a cena em cada um dos momentos em que aparece, sua entrega à interpretação justifica cada um dos elogios recebidos por ele no Brasil e no exterior. O que também chama a atenção no filme é o visual, e isso acontece principalmente nas passagens nas quais são salientadas a pobreza e a devastação da terra. Trent Opaloch, que também fotografou Distrito 9, entrega aqui um excelente trabalho, que aliado à direção de arte, ajuda a compor um conjunto de imagens que remete a um futuro distante mas sem perder o link com a realidade de nossa própria época. O tom predominantemente amarelado e/ou metalizado, remete à pobreza, ao domínio exercido através da tecnologia e à escassez de água e de vegetação, o que reforça a impressão do quão inóspito é aquele lugar.


Elysium não merece ser visto apenas pela presença dos atores brasileiros, pensar desta forma seria negligenciar tudo aquilo que ele pode nos oferecer, seria portanto puro reducionismo. Ele vale a pena também pelo bom entretenimento que nos oferece (sua duração de quase duas horas passa em um piscar de olhos) e também pela reflexão que ele ao menos incentiva... Volto afirmar, Neill Blomkamp não é um dos melhores cineastas da atualidade, mas seu trabalho merece muito ser acompanhado bem de perto. 


Assistam ao trailer de Elysium no You Tube, clique AQUI !

A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra.


Confiram também aqui  no Sublime Irrealidade a crítica de Distrito 9,
também dirigido pelo Neill Blomkamp.

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Passion

Passion - 2012. Escrito e dirigido por Brian De Palma, adaptado do roteiro original de Natalie Carter e Alain Corneau. Direção de Fotografia de José Luis Alcaine. Música Original de Pino Donaggio. Produzido por Saïd Ben Saïd. SBS Productions, Integral Film e France 2 Cinéma / França | Alemanha.


A competitividade, o imediatismo e a busca enlouquecida pelo poder são alguns dos temas abordados em Passion (2012), o novo filme de Brian De Palma,  um triller psicológico ambientado no mundo hostil das grandes corporações. Em seu desenvolvimento, o longa conduz o expectador pelo que seriam níveis diferenciados de realidade, no quais o absurdo kafkiano, que gradativamente toma conta da narrativa, se torna um elemento capaz de chamar a atenção para a irracionalidade de alguns atos e posturas, que evocam a natureza deste meio, no qual não raramente a ambição desmedida se sobrepõe à conduta ética. Algumas sequências do filme chegam a parecer forçadas e improváveis beirando assim ao surreal; acredito, porém, que esta foi a forma encontrada para retratar o quão degenerado é o ambiente no qual a história se passa.

Isabelle James (Noomi Rapace), a protagonista, trabalha no setor de criação de uma grande empresa, seu comportamento nos primeiros momentos do filme evidencia uma certa ingenuidade, à princípio ela aparenta acreditar que sua ascensão profissional acontecerá quando reconhecerem a qualidade de seu trabalho, por conta disso ela acaba se dedicando a ele com total entrega, porém, ao ter seu tapete puxado pela sua superiora hierárquica, a perigosa Christine Stanford (Rachel McAdams), ela decide entrar de fato na disputa e jogar o mesmo jogo que seus pares e superiores aparentam jogar. Tal decisão a coloca em um processo de crescente degeneração moral, que a torna cada vez mais semelhante ao meio no qual está inserida.


Christine Stanford, por sua vez, aparenta ter tomado a forma deste meio já há muito tempo, a naturalidade com que ela lida com a própria falta de escrúpulos evidencia uma total ausência de culpa em seu comportamento. Pode-se dizer que ela é um arquétipo, afinal de contas a aparente complexidade de sua criação não lhe subtrai o maniqueísmo, ela é basicamente aquilo que aparenta ser, não há camadas em sua composição e este acaba sendo o seu traço mais marcante. É por meio de Isabelle - esta sim uma personagem pressupostamente complexa - que o roteiro tenta envolver o expectador com a temática abordada e com a reflexão proposta, nota-se que nas primeiras passagens há uma evidente intenção de aproximar a protagonista do público e a condição de vítima, na qual ela é apresentada, colabora muito para que isso realmente aconteça.


No decorrer do filme, no entanto, há um processo de distanciamento da personagem em relação ao público, que culmina no ato que comprova que ela de fato vendera sua alma, este processo é de extrema importância para a narrativa, pois é através dele que o roteiro desenvolve e alimenta o suspense presente em todo o seu desenvolvimento. É interessante perceber como alguns elementos que compõem a parte visual do longa dialogam com a questão central de sua trama, que é a degeneração moral da personagem principal, à medida em que Isabelle passa a fazer escolhas condenáveis, sua figura adquire uma aura sombria e o reflexo disso se torna presente em todo o ambiente à sua volta, a construção da mise en scène sugere que podemos estar dentro de um pesadelo e tal impressão é reforçada pelos cenários sombrios, que são fotografados em formatos assimétricos e distorcidos (o que remete à estética do expressionismo alemão). 


A assinatura do Brian De Palma pode ser facilmente notada na escolha dos enquadramentos e nos movimentos de câmera, sua perícia técnica é inquestionável, todavia, ainda cabe aqui a seguinte pergunta: Tudo isso realmente funciona? Eu particularmente acredito que sim, mas não em sua plena potencialidade. Se por um lado a adoção do absurdo - que influencia diretamente na escolha dos elementos de linguagem - reforça a sensação de estramento que o filme é capaz de causar, por outro ele acaba diminuindo o impacto provocado pela trama, que, penso, poderia ser mais forte se a história fosse plausivelmente real. Porém, considero o roteiro o aspecto mais frágil de Passion, o ritmo por ele conferido faz com que tudo no filme acontece relativamente rápido demais, inclusive a transformação da protagonista, e esta velocidade reduz consideravelmente a margem para reflexão e o filme como obra autoral acaba perdendo muito com isso. 


Eu, particularmente, não acredito que Passion tenha sido uma grande decepção, como uma boa parte da crítica tem apontado, de fato ele não consegue atender às inúmeras e enormes expectativas criadas em torno de seu lançamento, mas ele não deia de ser um bom filme, que continua merecendo ser visto por diversos motivos, dentre eles os já citados elementos técnicos (nos quais se concentra a quase totalidade da expressão autoral de De Palma) e as boas atuações do elenco principal. Não é nem de longe uma obra-prima, mas também não chega nem perto de ser um dos maiores desacertos do ano.


Assistam ao trailer de Passion no You Tube, clique AQUI !

A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra.

sábado, 12 de outubro de 2013

Bling Ring: A Gangue de Hollywood

Bling Ring: A Gangue de Hollywood (The Bling Ring) - 2013. Escrito e dirigido por Sofia Coppola, baseado no artigo The Suspect Wore Louboutins de Nancy Jo Sales, publicado na revista Vanity Fair. Direção de Fotografia de Christopher Blauvelt e Harris Savides. Música Original de Daniel Lopatin e Brian Reitzell. Produzido por Sofia Coppola, Roman Coppola e Youree Henley. American Zoetrope e NALA Films / UK | USA | França | Alemanha | Japão.


Bling Ring: A Gangue de Hollywood (2013), o novo filme da Sofia Coppola, pode causar inicialmente a impressão de que a temática que marcou seus antecessores fora finalmente deixada de lado, ledo engano, o que vemos nele é apenas mais uma explanação em torno de um tema que esteve nitidamente presente em todos os outros trabalhos da cineasta: o vazio existencial. A trama, que é baseada em fatos reais, gira em torno de um grupo de adolescentes que invadem casas de celebridades em Hollywood para roubar jóias, roupas e acessórios. Eles não o fazem tão somente pelo dinheiro que podem conseguir, prova disso é que em determinada passagem eles vendem parte do que tinham roubado por uma quantia que chega a ser irrisória se comparada ao real valor dos objetos, na verdade, o que os motiva é a experiência fugaz e efêmera de provarem do cobiçado estilo de vida dos famosos. Em uma busca imediatista pela sensação, o grupo se lança em uma inconsequente aventura, que inclui as invasões das mansões e outros delitos, além do consumo desenfreado de drogas.

Marc (Israel Broussard), o personagem central, se matriculou em um novo colégio depois de passar algum tempo em um modelo de educação domiciliar, ele, que possui baixa auto-estima, teme não conseguir se relacionar com os novos colegas, mas o medo de ser excluído praticamente desaparece depois que ele conhece a problemática Rebecca (Katie Chang). A garota o apresenta para o restante de sua turma, da qual também fazem parte as belas e igualmente problemáticas Nicki (Emma Watson), Chloe (Claire Julien) e Sam (Taissa Farmiga). A sequência de aventuras do grupo começa quando Marc e Rebecca decidem invadir a casa de Paris Hilton, enquanto esta estava, segundo um site de fofocas, dando uma festa em Las Vegas. A ideia parece à princípio um tanto surreal, no entanto eles conseguem aquilo que queriam: entrar na mansão da atriz e roubar joias, roupas e objetos pessoais. O 'sucesso' desta primeira empreitada motiva o restante do grupo, que passa a participar das invasões que sucedem esta primeira.


Em Bling Ring, Sofia Coppola se abstém de fazer julgamentos morais, a realidade diegética é retratada com um determinado distanciamento, que não chega a tornar a narrativa impessoal. Na maior parte do tempo a trama adquire uma perspectiva relativamente próxima da dos jovens que a protagonizam, principalmente da de Marc, e a adoção de tal perspectiva não se dá por acaso. O roteiro do longa foi baseado em um artigo escrito pela Nancy Jo Sales, colunista da revista Vanity Fair, que teve como principal fonte de informações os relatos daqueles que integraram a gangue, sendo assim é natural que a história sofra a influência do ponto de vista destes jovens que a viveram e a narraram... O filme não chega a exaltar o estilo de vida autodestrutivo e superficial que retrata e é possível perceber nas entrelinhas não uma crítica a este estilo de vida, mas uma constatação de que ele é um fruto do mesmo vazio existencial que acometeu os protagonistas dos outros filmes da cineasta.


Marc é o único personagem a ganhar um tratamento mais elaborado e consistente, é através de sua construção que Sofia trabalha na trama a questão do vazio. Em uma entrevista dada à articulista da Vanity Fair, retratada em uma das primeiras cenas do filme, ele deixa transparecer uma de suas motivações: ele se sente deslocado por não se achar tão bonito quanto os outros garotos, esta confissão deixa evidente a sua busca por autoafirmação, que é o que o leva a cometer a série de crimes. No decorrer da trama testemunhamos sua fixação em relação à sua própria imagem, é tal fixação que o leva a atualizar suas redes sociais com fotos em que ele e as garotas aparecem usando os objeto que foram roubados das celebridades. Ciente da falta de significados de sua vida, Marc encontra nas invasões das residências dos famosos e no consumo de drogas pesadas alguma espécie de realização, como se o risco que ele compartilha com as garotas lhe fizesse se sentir de fato vivo e lhe desse finalmente a sensação de fazer parte de alguma coisa, com a qual ele acredita se identificar.


No entanto, Marc volta a se deparar com a realidade depois que uma das garotas o trai, neste momento é como se todas as experiências que compartilharam perdessem o significado. Ele é então posto novamente em contato com o vazio, que conforme a entrevista mostrada no início do filme deixava claro, já não lhe era algo de todo estranho. Porém, neste estágio do filme (o último ato), o vazio já não precisa ser verbalizado como no início, demonstrando a sutileza que lhe é característica, Sofia o deixa expresso apenas no rosto do personagem, que de repente perde a expressão de fascínio, que esteve estampada nele durante quase todo o desenvolvimento da história. É como se o filme todo caminhasse para estas duas passagens, que se insurgem como um interessante contraponto para o tipo de sequência (com linguagem tipicamente publicitária) predominante nele até então.


Como eu disse, não há julgamento moral em Bling Ring, o peso da constatação de que o prazer efêmero não pode aplacar a sensação de vazio por si só já deixa evidente a posição da cineasta em relação à realidade retratada em seu filme. Quem atentar para o que está nas entrelinhas perceberá outros elementos que ajudam a tornar a obra um retrato plausível da época em que vivemos, nela estão a falência das instituições tradicionais (uma personagem educa as filhas baseada em uma religião inspirada pelo livro de autoajudo O Segredo) e crise de referenciais (Paris Hilton e Lindsay Lohan se tornam modelos a serem seguidos, enquanto um comportamento contido, como o da atriz Angelina Jolie, é tripudiado pelas garotas). A presença de todos estes elementos dão consistência ao filme e o tornam muito mais do que uma divertida história sobre um grupo de delinquentes. 


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A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra.

sábado, 5 de outubro de 2013

A Caça

A Caça (Jagten) - 2012. Dirigido por Thomas Vinterberg. Escrito por Tobias Lindholm e Thomas Vinterberg. Direção de Fotografia de Charlotte Bruus Christensen. Música Original de Nikolaj Egelund. Produzido por Sisse Graum Jørgensen , Morten Kaufmann e Thomas Vinterberg. Zentropa Entertainments / Dinamarca.



Podem ser desastrosos os efeitos de um julgamento equivocado, vidas inteiras podem ser destruídas em um curto espaço de tempo e ainda que a verdade venha à toda e o julgamento inicial seja revisto, dificilmente o estrago pode ser reparado por completo. É em torno desta temática que o roteiro de A Caça (2012), o mais recente filme do cineasta Thomas Vinterberg, se desenvolve. Sua trama acaba nos proporcionando muito mais do que simples história sobre uma acusação injusta, ao explorar questões ainda mais complexas como a fragilidade dos laços que criamos com as pessoas com quem convivemos no dia-a-dia e a maleabilidade da moral constituída... Em dado momento, um dos personagens, aturdido pela culpa, pondera: "existe muita maldade no mundo...", esta declaração aponta para uma visão amarga da vida (e por extensão das relações humanas) que está presente em todo o filme, isso se reflete na narrativa, que segue a crueza que já se tornou uma das características mais marcantes da filmografia do diretor dinamarquês

Lucas (Mads Mikkelsen), o protagonista, começou a trabalhar no jardim de infância depois que perdeu seu emprego de professor em um colégio, ele está em processo de divórcio e, devido a uma decisão judicial, ele acaba tendo pouco contato com seu único filho, Marcus (Lasse Fogelstrøm). A vida relativamente pacata que Lucas leva na pequena cidade onde mora é completamente abalada depois dele ser acusado de abuso sexual. Klara (Annika Wedderkopp), uma aluna do jardim da infância de apenas cinco anos, conta para a diretora da escolinha que Lucas teria lhe mostrado seu órgão genital. As perguntas que são feitas para a garota a partir de então são sugestivas e a induzem a dar um falso testemunho acerca dos fatos. Partindo da premissa um tanto absurda de que 'uma criança nunca mente', a diretora afasta Lucas do trabalho e convoca uma reunião com os pais dos outros alunos para expor o ocorrido. A partir de então, mesmo sem uma investigação criteriosa dos fatos, quase todos passam a considerá-lo culpado.


Alguns dos amigos de Lucas se afastam, outros passam a agredi-lo verbalmente e até fisicamente, isso faz com que sua vida se torne um verdadeiro inferno, pouco a pouco ele acaba perdendo tudo aquilo que mais valorizava. Seu filho Marcus escolhe permanecer ao seu lado, contrariando a vontade da mãe, e por isso acaba sendo mais uma vítima da agressividade de vizinhos e conhecidos da família. Em determinada cena o garoto perde o controle, devido à situação a que é exposto, e acaba sendo agredido por um antigo amigo de seu pai, esta passagem deixa claro o tipo de reflexão que o filme evoca, ela nos leva a questionar o valor da moral enquanto regulador social, uma vez que esta mesma moral "permite" a agressão de um garoto por um crime do qual o pai dele (e não ele) é apenas suspeito. O absurdo da situação fica ainda mais evidente pelo fato desta agressão também se tratar de um caso de violência contra uma criança, o que parece ser completamente ignorado no trama.


Theo (Thomas Bo Larsen), o pai de Klara, é o melhor amigo de Lucas, eles se conhecem há muito tempo, no entanto nem a força deste relacionamento é suficiente para que Theo questione a veracidade das declarações de sua filha, sua reação comprova o quão frágil era o laço de amizade que existia entre eles... Na primeira sequência do filme vemos Lucas, Theo e diversos outros personagens (todos eles caçadores) em um momento de descontração á beira de um lado. Nesta passagem nem o tom amistoso das "brincadeiras" tira o aspecto animalesco que pode ser percebido no comportamento de boa parte destes homens. Analisando esta passagem, pode-se perceber que ela constitui um primeiro estudo dos personagens e do ambiente no qual eles estão inseridos. A caça, que é também uma espécie de rito compartilhado na cidade, evoca o embrutecimento daqueles indivíduos, o mesmo embrutecimento que volta à tona no decorrer do filme.


Em A Caça não há praticamente nada do Dogma 95, movimento do qual Thomas Vinterberg foi um dos idealizadores. Tal como Lars Von Trier, outro mentor da corrente, ele optou, já há muito tempo, por subverter as suas próprias regras e o que sobra aqui como distinção de sua marca autoral é apenas a sua visão amarga da vida, perceptível em suas obras na reprodução de um mundo sombrio, inóspito e extremamente cruel com os mais fracos. Desapegado das restrições autoimpostas de outrora, o cineasta entrega um filme de inquestionável excelentcia técnica. A variação de tons na fotografia é sutil, mas coerente com a proposta do filme, é interessante perceber que os tons quentes surgem nos momentos em que há algum tipo de manifestação de humanismo, enquanto os tonalidades frias, predominantes na maior parte do filme, se manisfestam nas passagens que retratam a injustiça, a dor e a falência do ser humano como ser social.


As atuações, que são destituídas de qualquer exagero dramático, reforçam o realismo e a crueza da trama e na sutileza da composição de cada um dos personagens se encontra um dos grandes trunfos do filme. Mads Mikkelsen, por exemplo, constrói um personagem complexo e plausivelmente real, suas ações e reações nos levam a crer que ele próprio é tão embrutecido quanto aqueles que o acusam, no entanto, o sofrimento o torna emocionalmente mais frágil e a expressão de tal fragilidade se dá de forma contida, sem obviedades, e o ator a expressa de uma forma brilhante. Podemos notar a angústia e o medo estampados no olhar trêmulo nas feições abatidas e no olhar trêmulo de Lucas, sua expressão facial remete à imagem de um animal forte, robusto, que se encontra acuado diante da ameça representada pela arma de um caçador, que se encontra apontada em sua direção... Destaco ainda os desempenhos de Thomas Bo Larsen e da pequena Annika Wedderkopp.


A Caça definitivamente não é um filme de fácil digestão, o incômodo que ele é capaz de nos causar não é puramente sensorial. O desconforto que sentimos durante sua exibição não é provocado por elementos técnicos como trilha sonora, fotografia ou movimentos de câmera, mas sim pela reflexão à qual a trama nos conduz. Ouso dizer que seu valor artístico está atrelado à disposição de cada expectador de embarcar na angustiante reflexão que ele propõe sobre a falência do indivíduo e da sociedade que ele integra; sem a participação ativa do público ele é apenas um bom suspense, com ela ele se torna digno do título de obra de arte. 




Assistam ao trailer de A Caça no You Tube, clique AQUI !

A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra.