sábado, 27 de julho de 2013

Só Deus Perdoa

Só Deus Perdoa (Only God Forgives) - 2013. Dirigido e escrito por Nicolas Winding Refn. Direção de Fotografia de Larry Smith. Música Original de Cliff Martinez. Produzido por Lene Børglum, Sidonie Dumas e Vincent Maraval. Bold Films, Gaumont, Wild Bunch, A Grand Elephant e Film i Väst / FRança | USA | Tailândia | Suécia.


Só Deus Perdoa (2013) do diretor e roteirista Nicolas Winding Refn era um dos filmes mais aguardados deste ano, e não era para menos, Drive, a obra anterior do cineasta, ganhou o prêmio de Melhor Diretor em Cannes e entrou em diversas listas dos melhores filmes de 2011. Mas, como já era de se esperar, toda a expectativa criada em torno do novo trabalho o colocou em uma difícil situação, para ser bem sucedido ele precisava repetir o feito do anterior, mas sem repetir a mesma fórmula. Winding Refn, no entanto, entregou o que já era esperado: um filme ainda mais violento e conceitualmente complexo do que o antecessor. De Drive, a nova produção herdou o teor reflexivo, a narrativa lenta, o cuidado estético e o uso da violência como elemento gráfico e de significação, contudo, são filmes bem diferentes entre si. 

A relativa complexidade dos temas abordados torna Só Deus Perdoa um filme ainda mais difícil de ser digerido do que Drive, este último tinha a seu favor a elegância de sua composição visual, a qualidade de sua trilha sonora saudosista e o fato de que sua trama podia funcionar com facilidade, ainda que suas referências e inferências não fossem prontamente compreendidas. No novo filme nada é tão simples. Sua fotografia é muito bem trabalhada, porém sem a compreensão de conceitos chaves, que não estão tão explícitos na narrativa, ela se torna apenas um embalagem bonita. Já a trilha sonora soa em alguns momentos demasiadamente experimental, como nas passagens em que um dos personagens solta a voz, interpretando canções que não deixam de nos causar algum tipo de estranhamento. 


Contudo, o que pode realmente tornar o filme confuso e indigesto para uma grande parcela do público é o fato de que ele não funciona sem a concomitante compreensão de seus simbolismos e metáforas. A sequência de eventos que o filme retrata não é difícil de ser entendida e isso me leva à conclusão de que a trama em si é simples e que o que a torna complexa são os seus sub-textos, aquilo que está presente nas entrelinhas e que exige do expectador doses maiores de reflexão e de atenção. No filme, Julian (Ryan Gosling) é um americano radicado em Bangcoc, um traficante de drogas que usa uma escola de boxe tailandês para lavar o dinheiro sujo de sua atividade ilícita. Ele divide com Billy (Tom Burke), seu irmão mais velho, a gestão da academia e dos negócios relacionados ao tráfico, porém, esta sociedade termina de forma trágica ainda no primeiro ato do filme. Billy é morto pelo pai de uma prostituta de 16 anos, a quem ele espancara até a morte em um bordel.


Crystal (Kristin Scott Thomas), a mãe de Julian e Billy, vai para a Tailândia para enterrar o seu primogênito e para cobrar do caçula uma postura firme em relação à morte do irmão. Ela, que também está envolvida com o tráfico, tem sede de vingança e quer que o assassinato de Billy seja cobrado na mesma moeda. Julian, no entanto, prefere não se envolver, ele, diferente da mãe, compreende que o irmão foi o principal culpado pela sua própria morte e se compadece da situação na qual se encontra o algoz, que aparentemente não é um homem mal. Contudo, a postura de Julian se mostra frágil diante da pressão exercida pela mãe e aqui temos o primeiro ponto da trama que precisa ser destacado: Crystal é extremamente dominadora e o filho se sujeita sem tanta resistência à sua influência nefasta.


O real motivo do assassinato de Billy não nos é revelado de imediato, mas tudo indica que o crime tem alguma relação com as atividades de Chang (Vithaya Pansringarm), um policial aposentado que age como se estivesse acima da lei e blindado o suficiente para se resguardar das consequências de seus atos, ele é um personagem cercado de mistério e a história não deixa tão evidentes quais são suas motivações. Chegamos então ao segundo ponto da trama que precisa ser destacado: Chang age guiado por uma conduta ética própria, ele se coloca em uma posição de controle e reserva para si o direito de julgar e de punir de acordo com um conjunto de princípios que nós espectadores não conhecemos a fundo. É interessante perceber que há em seus atos uma lógica que se mantém em todo o desenvolvimento do filme, esta lógica atribui a eles um sentido maior, que é o que nos interessa para uma análise mais minuciosa da obra.


Na desconstrução das situações que destaquei é possível identificar algumas referências e um conjunto de metáforas que nos ajudam a compreender melhor aquela que é a temática central do filme: a luta do indivíduo contra sua própria natureza (sim, este é o mesmo tema que fora abordado em Drive). Diversos elementos da história contada pelo longa apontam para um dos maiores clássicos da dramaturgia grega, o mito de Édipo, escrito por Sófocles por volta de 427 a.C.. Tal como o herói trágico, que mata o próprio pai e se casa com a mãe sem saber quem na verdade eles são, o protagonista de Só Deus Perdoa tenta inutilmente contrariar sua natureza e fugir de seu próprio destino, mas se descobre impotente diante do fatalismo de sua existência. A referência ao mito vai além, ela está presente em diversos pontos da narrativa, podendo ser percebida no fato que levou Julian a se refugiar na Tailândia e também no relacionamento (sugestivamente incestuoso) que ele tem com sua mãe.


Julian se encontra durante todo o filme diante de um dilema que é ao mesmo tempo moral e ético, ele sabe que um ato de vingança é injustificável, dada as condições nas quais seu irmão foi morto, no entanto, ele se deixa guiar pela influência da mãe, cuja pressão lhe coloca em posição de confronto com o implacável Chang. Em sua condição, que lembra a de outro personagem trágico, a Lady Macbeth de Shakespeare (no contexto da trama, Julian guarda mais semelhanças com a personagem do que sua mãe), o protagonista tem a capacidade de representar o gênero humano como um todo; as dúvidas que ele tem e os questionamentos que ele faz estão diretamente ligados à questões seminais da humanidade, como a noção de livre arbítrio, perdão, pecado, culpa e propiciação. Tal compreensão torna plausível também a associação dos personagens Chang e Chistal a deus (justiça) e ao diabo (pecado) respectivamente (tal interpretação explica alguns dos diálogos, que estão aparentemente soltos no filme, e a predominância dos tons avermelhados na fotografia, o que remete ao inferno).


Chistal representa no filme a natureza contra a qual o protagonista luta, natureza esta da qual ele próprio é um fruto (aqui pode ser feito um link com a teologia judaico/cristã e com a ideia da perda do paraíso e da da natureza divina que existia no homem antes da queda), enquanto que Chang personifica uma intervenção externa, uma força (que não deixa de ser moral) que atua no indivíduo e aponta para ele o único caminho para a redenção: a purgação dos pecados através da autoimposição do sofrimento (temos aqui mais uma referência à obra de Sófocles)... Similar ao teatro grego, Só Deus Perdoa deve ser visto e analisado como alegoria e não como representação da realidade, de tal modo ele será capaz de atender, ou quem sabe superar, algumas das expectativas que criamos em relação a ele. Por outro lado, se deixarmos de lado o potencial alegórico, sua trama se tornará vazia de significações e nos soará demasiadamente estranha e improvável.


Ryan Gosling constrói novamente o tipo de personagem no qual parece ter se tornado especialista, o tipo calado, violento e dotado de complexidade psicológica. Aqui, mais uma vez ele usa elementos não verbais da atuação para desenhar aquilo que seu personagem é, seu Julian tem propriedade e é notadamente um personagem diferente daquele que ele interpretou em Drive, por exemplo, e tal diferenciação é feita através de sutilezas que poucos atores conseguem explorar. A Kristin Scott Thomas está ótima em cena, sua composição, que salienta a força, a sensualidade e perversidade de sua personagem foi muito bem realizada. Vithaya Pansringarm, por sua vez, dá vida a um dos personagens mais interessantes do filme, seu bom desempenho me permite dizer que talvez um dia seu Chang se torne icônico, como já aconteceu com vários outros personagens de filmes que o tempo se encarregou de tornar cults


Nicolas Winding Refn me convenceu mais uma vez. Desde que eu o assisti há alguns dias, Só Deus Perdoa só cresceu em minha mente (confesso que demorei para correlacionar as peças que ficaram soltas e para achar um significado para elas). Hoje já posso afirmar que ele me proporcionou uma grandiosa experiência cinematográfica e isso me deixa ainda mais curioso em relação ao próximo trabalho do cineasta. 


Assistam ao trailer de Só Deus Perdoa no You Tube, clique AQUI !

A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra.

Confiram também aqui no Sublime Irrealidade a crítica de 
Drivetambém dirigido por Nicolas Winding Refn.

4 comentários:

  1. Excelente texto J. Bruno!!!

    Estava com grandes expectativas quanto a esse filme, pois virei fã do filme Drive. Quando vi que a parceria seria repetida nesse filme, já fiquei bem entusiasmando.

    E agora ao ler a sua opinião, quanto a trama, e as qualidades do longa, só me instigaram ainda mais.

    Grande abraço!

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  2. Este filme parece ter tudo o que Drive tinha e mais ainda! Algumas críticas têm-me confundido, o estilo parece o mesmo.

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  3. Ótima crítica!!, vi o filme no feriado "God save the Papa" e gostei. Sua crítica tem fundamento de A a Z, gostei muito da fotografia do filme e para mim foi um filme que a interpretação tomou a vez do roteiro, por que o ambiente a a interpretação foram além de palavras (isso está se tornando uma característica do Nicolas Winding Refn). A interpretação de Kristin Scott Thomas e Vithaya Pansringarm foram brilhantes.

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  4. Olha, foi bom ler uma resenha positiva sobre o filme. A maioria das pessoas que assistiu estão falando mal. O que me causa mais curiosidade, pois costumo gostar dos filme que a maioria repudia. rssrsrs

    Enfim, assim que tiver um oportunidade assisto Só Deus Perdoa (esse é o título no Brasil, no caso de você querer mudar).

    Abração!

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