terça-feira, 13 de agosto de 2013

Tese Sobre um Homicídio

Tese Sobre um Homicídio (Tesis Sobre un Homicidio) - 2013. Dirigido por Hernán Goldfrid. Escrito por Patricio Vega, baseado na obra de Diego Paszkowski. Direção de Fotografia de Rolo Pulpeiro. Música Original de Sergio Moure. Produzido por Diego Dubcovsky e Gerardo Herrero. Burman Dubcovsky. Cine e Haddock Films e Tornasol Films / Argentina | Espanha.


Neste momento, enquanto escrevo esta resenha, conscientemente ou não, estou sendo refém de um ponto de vista. Toda vez que analiso uma determinada obra, as minhas considerações nascem do ângulo de visão que previamente escolhi, tal angulação irá, provavelmente, ditar os rumos do texto que estou a escrever. No caso da crítica cinematográfica, isso pode se tornar uma perigosa armadilha, pois se escolho analisar todos os filmes por uma mesma ótica, a da violência por exemplo, passo a correr o risco de enxergar aquilo que procuro, no caso a violência, até onde não tem e isso certamente irá comprometer a qualidade daquilo que escrevo e por tabela a credibilidade de meus pontos de vista. Este fenômeno, no entanto, não acontece apenas quando se trata da análise de uma obra de arte, o risco proporcionado pela subjetividade está presente em todos os julgamentos que fazemos e é a partir desta premissa que a trama de Tese Sobre um Homicídio (2013) se desenvolve. 

O roteiro do longa, escrito por Patricio Vega, baseado na obra literária de Diego Paszkowski, centra-se em uma questão bastante complexa e por isso polêmica: a influência do olhar do indivíduo nos julgamentos que ele faz. Esta é uma ideia perigosa pois ela pode levantar dúvidas sobre a eficiência de todo um sistema legal. No filme, Roberto Bermúdez (Ricardo Darín) é um respeitado jurista que optou pela vida acadêmica em detrimento da atuação direta na área. Ele acredita no sistema jurídico e em suas ferramentas, para ele o segredo de um julgamento justo está na análise dos pequenos detalhes e na atenção dedicada a eles, principalmente aqueles que podem ter passado despercebidos nas primeiras etapas da investigação. Em dado momento ele chega a descrever o juiz como um avaliador de evidências, cuja função se resumiria a um "lento processo de distinção entre o acaso e o essencial". Bermúdez defende com paixão aquilo que acredita e é esta paixão que o faz perder a objetividade e o coloca em um estranho jogo psicológico com um de seus alunos.


Gonzalo Ruiz (Alberto Ammann), o aluno em questão, é o filho de um casal de amigos de Bermúdez, ele conheceu o professor quando ainda era um garoto e desde então passou a tê-lo como uma referência. Ruiz voltou para Buenos Aires, após uma longa estadia em Portugal, para cursar a pós-graduação na qual Bermúdez leciona. A admiração demonstrada pelo jovem, no entanto, logo se transforma, dando lugar a um comportamento desafiador e competitivo, que pode ser analisado como uma tentativa do aluno de conquistar o respeito do professor através da afirmação e comprovação de seus pontos de vista. Gonzalo enxerga o judiciário de uma outra forma, para ele existem pesos e medidas variados e o que determina, em ultima instância, um veredito são as relações de poder existentes na sociedade na qual o juiz está inserido, o que indicaria que o importante não são somente as evidências, mas a forma com que aquele, em quem foi investido o poder de julgar, escolheu (consciente disso ou não) enxergá-las e avaliá-las. 


A trama começa a se desenrolar após o assassinato de uma jovem no campus da faculdade, o corpo da garota fora encontrado no estacionamento da instituição, curiosamente, no momento que Bermúdez discorria em sala de aula sobre a importância dos detalhes para um julgamento justo e preciso. Gonzalo escolhe o caso como tema para um trabalho acadêmico e isso, juntamente com outros fatos que acontecem no decorrer da história, faz com que o professor comece a desconfiar de suas reais intenções e é então que vem a suspeita de que ele possa ter algum envolvimento com o crime. Surgem então as seguintes questões: Até que ponto as evidências e os detalhes observados podem ser consideradas provas cabais de um crime? No filme, não seriam elas apenas um fruto da obstinação do professor em comprovar a sua própria tese e refutar a de seu aluno? Pode o julgamento subjetivo fazer com que evidências frágeis se tornem verdades inquestionáveis? 


Tese Sobre um Homicídio funciona também como uma contundente crítica social, por expor a fragilidade de um dos três poderes que sustentam um estado democrático de direito, sua trama nos conduz à uma reflexão sobre a eficiência do aparato judicial e sobre até que ponto a justiça é de fato justa. É interessante perceber que a crise pela qual Bermúdez passa à partir de determinado momento do filme é a crise da própria justiça e, por extensão, da sociedade como um todo. É este tipo de abordagem que faz com que o longa vá muito além dos lugares comumente explorados em filmes do gênero, o desfecho de sua história deixa evidente que mais importante que o suspense puramente sensorial é a reflexão que ele traz junto consigo. O roteiro cumpre bem aquilo que propõe e a prova disso é que a reflexão induzida permanece, junto com algumas dúvidas, mesmo após o fim da sessão.


Ricardo Darín, como já era de se esperar, entrega um personagem muito bem construído e dotado de motivações plausíveis e consistentes. Vale destacar a forma com que o ator encarna a transformação pela qual o seu personagem passa no decorrer da trama, é possível notar isso nos gestos, no tom e na velocidade da voz e até mesmo na postura corporal, que vai progressivamente deixando de ser altiva à medida em que Roberto Bermúdez se vê diante de dilemas e de situações que o assustam. Alberto Ammann, que também está muito bem no filme, chama a atenção pela sutileza da construção de seu Gonzalo Ruiz e pela forma com que ele compõe a ambiguidade e a malícia que o caracteriza.


É praticamente inevitável que se faça algumas comparações com o excelente O Segredo dos Seus Olhos (2009), também protagonizado pelo Ricardo Darín, ambos possuem personagens obstinados, o ponto de partida de suas tramas é um assassinato de uma jovem mulher e ambos usam o processo de investigação para evocar questões maiores, mais complexas. Todavia, apesar de não ser tão genial quanto o filme de Juan José Campanella, Tese Sobre um Homicídio tem sua individualidade resguardada e consegue se firmar como um dos melhores filmes lançados neste ano. Longe de indicar repetição, o filme de Hernán Goldfrid vem provar, mais uma vez, o quanto a produção argentina tem crescido em valor artístico e em qualidade técnica. 


Tese Sobre um Homicídio também não é uma mera reprodução de um formato hollywoodiano como alguns críticos têm apontado, nela a qualidade técnica não é usada apenas como camuflagem para a fragilidade da narrativa, muito pelo contrário, todo o aparato técnico é usado à favor da trama. Os enquadramentos, o uso de imagens desfocadas, os travelings e toda a composição da mise-en-scéne tem como objetivo a inserção de nós espectadores na realidade diegética. O roteiro nos induz a fazer o que o personagem propõe, a prestar atenção nos pequenos detalhes e eles de fato fazem toda a diferença, eles são uma clara evidência da riqueza e da excelente construção da narrativa, que se desenvolve em um ritmo relativamente lento, porém capaz de prender a atenção do expectador da primeira à última cena.


Assista ao trailer de Tese Sobre um Homicídio no You Tube, clique AQUI !

A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra.


Post dedicado à amiga Ana Cecília, autora do blog Letras de Ana Cecília Romeu e grande fã do Ricardo Darin e entusiasta do cinema argentino!

8 comentários:

  1. Bruninho,
    depois retorno com calma para dizer mais algumas palavras. Anunciei um OFF no facebook por uns dias, e por acaso acessei hoje e vi tua chamada.
    Bah! (interjeição gauchesca :) muito, muito boa tua resenha! Você tem uma capacidade impar para capitar 'los detalles'! Fico impressionada com isso! Parabéns!

    E muito obrigada pela dedicatória. Sim, sou muito fã do Darín e entusiasta do cinema argentino!

    Grande beijo!
    Já vou compartilhar por lá. Depois retorno.

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  2. Ésta é uma matéria para se ler com calma e concentrado. É muito profunda. Passei a noite sem dormir para terminar o Consciência da Mata. Por isto, escolherei melhor momento para voltar a ler esta preciosidade.

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  3. Meu querido, confesso que já queria assistir esse filme pelo simples fato de ter o Darin, que pra mim é um espetáculo! Outro motivo é por ser argentino. O cinema argentino tem me fisgado de "cum força", como dizemos por aqui!!! Um amigo me indicou, há algumas semanas. Sua resenha ficou mara... agora é só me preparar pra ver.

    bjinhos :*

    Umas e outras...

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  4. Excelente resenha! Vou assistir ao filme e seguir o seu blog. Beijo!!!

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  5. Olá, Bruno!

    Gostei do filme, também, e de sua análise.
    O diálogo mental com O segredo... é obrigatório: o mesmo ótimo Darín com a mesma barba e dentro de um personagem muito parecido em cena; a mulher estuprada e assassinada. Afasta-se do "Segredo..." porque faz uma construção meio tosca da premissa, desde meu ponto de vista.
    Como você, gosto da cinematografia. Mas do meu ponto de vista os closes, as seleções de enquadramento, a montagem como um todo conduzem a leitura do espectador - como a do personagem principal - para a culpabilidade do garoto. A câmera não é a subjetiva direta que capta a todo tempo o olhar do personagem do Darín, é uma objetiva, e ao selecionar apenas os elementos que atestam a culpabilidade do garoto, reforça a tese de que ele é o criminoso. A conversa sobre a borboleta e depois, a falta da impressão digital; a espada da justiça usada como arma; o crime solucionado português, reproduzido literalmente; a conta da farmácia. Tudo me mostrou que o garoto era culpado e, por ser mais esperto que o professor, acabou se saindo impune e destruindo a vida do outro. Além de se sair na pior, o personagem do Darín ainda foi moralmente punido por brincar com a justiça, ao transformar um caso jurídico numa brincadeira pessoal de gato e rato. Aliás, como no Segredo de seus olhos. Mas como O Segredo é romântico, nele a assertividade do mocinho recebe boa paga.

    Bjs e, espero, até logo. Queria voltar pra cá com mais frequência, mas os compromissos me seguram pelas pernas!...
    Dani

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  6. Ótimo texto, J. Bruno, como de praxe. Também acredito que o filme transcenda sua temática inicial, galgando a crítica a um dos poderes democráticos como vc mesmo citou. A sua margem não é tão pequena quanto parece.

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  7. Mama mia, Casa comigo!? rsrsrs Assisti ao filme hoje a tarde, e estava procurando algo sobre o mesmo quando me deparei com esta preciosidade, intensa sua visão do contexto do filme, e como o direito esta intimamente ligado a minha própria existência (por formação...) fiquei bastante satisfeita com os elementos ligados ao direito penal...e você fez uma ótima analise!

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  8. Acabei de ver o filme e fiquei achando que o real assassino (quem não viu não continue a ler) pode não ser o garoto, mas a irmã dela. Há muitos detalhes que mostram que ela poderia ter algum tipo de inveja e querer ser como a irmã. Pra mim o ponto mais forte disso é quando ela corta o cabelo e fica idêntica. Além disso ela foi a única pessoal a entrar na casa do professor. Nós nunca sabemso como era o relacionamento de ambas.

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