domingo, 18 de agosto de 2013

Meu Pé Esquerdo

Meu Pé Esquerdo (My Left Foot: The Story of Christy Brown) - 1989. Dirigido por Jim Sheridan. Escrito por Jim Sheridan e Shane Connaughton, baseado no livro autobiográfico de Christy Brown. Direção de Fotografia de Jack Conroy. Música Original de Elmer Bernstein. Produzido por Noel Pearson. Ferndale Films, Granada Television e Radio Telefís Éireann (RTÉ) / UK | Irlanda.


A cinebiografia do pintor e escritor irlandês Christy Brown, que nasceu com uma grave paralisia cerebral, poderia ter optado por trilhar um dos caminhos mais fáceis e óbvios. O resultado poderia ter sido um filme de cunho motivacional sobre superação ou talvez um doloroso drama sobre o sofrimento proporcionado pela doença, contudo, Jim Sheridan, que dirigiu e escreveu a adaptação tendo como base o livro de memórias de Christy, escolheu a sutileza e esta se tornou a característica mais marcante de seu filme. Meu Pé Esquerdo (1989) narra a história do artista de seu nascimento até à sua conturbada vida adulta, o roteiro mantém o foco no núcleo familiar, destacando a relação do protagonista com a sua mãe (vivida por Brenda Fricker), que o protege com todo o cuidado do mundo, apesar das dificuldades. O primeiro ato no filme, no qual é retratada a infância de Christy, possui um forte viés saudosista que é reforçado pela simplicidade com que a realidade da Irlanda das décadas de 30 e 40 é retratada.

Christy Brown teve, durante muito tempo, sua inteligência subestimada até mesmo pela sua própria família, ele demorou para começar a falar e isso reforçou a impressão que as pessoas próximas a ele tinham de que a paralisia cerebral havia comprometido também o desenvolvimento de sua razão e de seu intelecto. Ele então se viu obrigado a se afirmar sozinho diante de sua própria casa e do preconceito dos vizinhos, que o consideravam um fardo pesado demais para a sua já sofrida família. As péssimas condições sociais em que viviam, tornavam a vida ainda mais difícil para Christy, seus pais e seus irmãos, além da doença eles tinham que lidar com a falta de recursos, que atenuava os efeitos da fome e do frio, e ainda com o alcoolismo do pai (vivido por Ray McAnally), que não era uma má pessoa, mas aparentava buscar na bebida uma espécie de refúgio, onde acreditava poder se esconder de seus fantasmas interiores.


Já Christy queria sair de seus esconderijos, ele queria se ver livre das amarras que o prendiam, queria viver e sentir... Através da arte ele começa uma espécie de ensaio de sua própria libertação. Na literatura e na pintura ele encontra meios de expressão, tanto para sua dor, advinda da limitação física, quanto para sentimentos que o tomavam, como o amor, a solidão e a frustração. Nos quadros que ele pinta com o seu pé esquerdo (a única parte do corpo que ele consegue controlar) está transposto tudo aquilo que ele guardou consigo durante tanto tempo, trata-se de uma arte forte, crua e antes de tudo genuína. Seu trabalho logo desperta a curiosidade de outras pessoas envolvidas no meio e este é o primeiro passo para o reconhecimento, que nem ele próprio imaginou que um dia iria conquistar. Porém, a valorização de sua arte não lhe traz e esperado alívio para as questões pessoais que tanto lhe incomoda e daí nasce o maior de seus dramas.


Meu Pé Esquerdo transita por temas complexos e espinhosos, como a rejeição e o preconceito, sem perder em nenhum momento a leveza que o caracteriza, nele. Sua trama constitui uma verdadeira ode à vida, ao humanismo e à uma constante busca pela auto-superação. Não se trata do tipo de filme que nos acaricia com um positivismo tolo baseado em um triunfalismo que só existe em tese, a lição implícita na trama é a de que o mundo pode ser um lugar hostil, povoado por pessoas que podem ser cruéis, mas nada disso não deve nos impedir de viver, de buscar novas experiências e de ousar na transposição de nossos próprios limites, ainda que não tenhamos nesta 'aventura' nenhuma garantia de vitória.


Além do excelente roteiro, o filme de Jim Sheridan tem a seu favor o alto nível das atuações, o Daniel Day-Lewis está excelente na pele do protagonista, sua composição realista do personagem chega a ser assustadora, o que é o resultado de uma cuidadosa e sistemática composição. Reza a lenda que ele se recusava a sair da cadeira de rodas nos intervalos das gravações, isso para não ter que sair do personagem e não colocar em risco, de tal modo, a verossimilhança de sua atuação. Hugh O'Conor, que dá vida ao Christy Brown em sua infância, entrega um desempenho tão formidável quanto o de Day-Lewis, o perfeccionismo de sua composição pode ser notado em seu olhar inquieto, nos seus gestos abruptos, nos movimentos compulsivos e até mesmo no ritmo ofegante de sua respiração; o fato dele não ter falas torna ainda mais impressionante a sua interpretação. 


Brenda Fricker e Ray McAnally também estão muito bem em seus respectivos personagens e isso ajuda a torná-los mais do que meros coadjuvantes. A bela fotografia, onde predominam os tons pastéis e esverdeados, aliada à direção de arte e ao figurino, que mantém a mesma lógica de tonalidades, confere ao filme uma belíssima estética retrô, que potencializa o sentimento nostálgico que emana de trama, principalmente nos primeiros atos. A trilha sonora composta pelo veterano Elmer Bernstein explora bem o viés emotivo da narrativa, sem soar apelativa em nenhum momento, demonstrando assim um consonância com a sutileza notada na trama. Meu Pé Esquerdo traz ainda consigo a relevância de abordar temas que precisam ser discutidos com urgência, como a acessibilidade e o preconceito contra aqueles que possuem limitações físicas ou mentais... Resumindo, o que temos aqui é o cinema no exercício de sua plena capacidade artística, de fato uma obra-prima!


Meu Pé Esquerdo ganhou o Oscar nas categorias de Melhor Ator (Daniel Day-Lewis) e Melhor Atriz Coadjuvante (Brenda Fricker), tendo sido indicado também aos prêmios de Melhor Filme, Roteiro Adaptado e Fotografia. No Globo de Ouro o filme recebeu indicações nas categorias de Melhor Ator em um Filme de Drama (Daniel Day-Lewis) e Melhor Atriz Coadjuvante (Brenda Fricker).


Assista ao filme Meu Pé Esquerdo completo no You Tube, clique AQUI !

A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra.

6 comentários:

  1. Eu estava pensando neste filme ainda esta semana!
    Assisti-o quando tinha nove anos, e a história me marcou. Sempre tive vontade de assisti-lo de novo, e só pude realizar este desejo agora, tendo acesso a sites de filmes online. (Nunca encontrei o dito em locadoras).
    Simplesmente adoro a história, e quero assistir de novo,com meu olhar "adulto", pois com certeza alguns detalhes terão escapado de meus olhos infantis na época. Um de meus filmes preferidos desde sempre.
    Ah, claro, sua crítica como sempre maravilhosamente escrita, parabéns.
    Abraços e boa semana.

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  2. Sem dúvida, um marco e um filme sensível que ainda continua contagiando muita gente. Aliás, contagiando e transformando, pois é um ato de reflexão e como seu texto mesmo diz, esperança e com um viés otimista que embala. A mensagem é clara, é fácil se identificar com o que Christy viveu. O filme tem uma boa direção, um roteiro honesto e cuidadoso, mesmo tão simples e objetivo, é franco. Mas, é Day-Lewis que aqui vem com sua atuação com força e totalmente entregue, o Oscar foi mera consequência deste grande trabalho. Gostei muito e fiquei feliz de ver você postar esse filme dele aqui.

    Aproveite e veja ou reveja Em Nome do Pai, a grande obra-prima do Sheridan e que traz, de novo, o Day-Lewis com uma atuação tão ou mais sensacional que esta aqui. Aquele filme é um soco e um apelo ao senso da justiça e moral!

    abs! Parabéns pelo post.

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  3. o filme e muito bom pena que acabou

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  4. Parabéns denovo Zé, fiquei ansioso por sua opinião a respeito desse filme que, no meu julgamento, é um dos dramas mais marcantes do cinema!

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  5. Baixar o Filme - Meu Pé Esquerdo - Filme recomendado para pessoas que não acreditam em seu próprio potencial - http://mcaf.ee/a81ky

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  6. muito obrigada pelo texto, limpo, claro, sensibilíssimo. Um viva à sua grande alma.

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