sábado, 15 de setembro de 2012

On the Road - O Livro

On the Road - O Manuscrito Original de Jack Kerouac. Lançado originalmente em 1957. Tradução de Eduardo Bueno e Lúcia Brito. Porto Alegre, RS. L&PM POCKET, 2011.


On the Road de Jack Kerouac, publicado em 1957, é um dos livros mais importantes e influentes da segunda metade do século passado. Dizer que ele abriu as portas para a contra-cultura e para a pós modernidade não é nenhum exagero, uma vez que ele tem sido frequentemente apontado como referência por algumas das personalidades mais importantes do mundo artístico nas últimas décadas. Pode-se dizer que ele inaugurou o protagonismo juvenil nas artes, protagonismo este que esteve em sintonia com a explosão do rock´n´roll nos anos 50, e serviu de impulso para o movimento hippie e a contra-cultura na década de  60 e para o movimento punk na de 70. A busca pela liberdade e por um sentindo maior para uma vida destituída de qualquer sentido é a principal tônica desta, que é a obra mais importante do escritor Jack Kerouac e da Geração Beat (à qual o autor teve o nome associado a contragosto). No livro são narradas as desventuras de personagens reais que estão inconformados com o establishment e que decidem viver de forma marginal (no sentido de estar à margem), de acordo com suas próprias leis e princípios. 

Logo após sua publicação, o livro se tronaria o porta voz de uma juventude que começava a reivindicar seu lugar no mundo e na história, no entanto, há que se reconhecer que o passar do tempo lhe tirou um percentual significativo da periculosidade que ele representou quando foi lançado em meados da década de 50, naquela ocasião o mundo ainda não estava preparado para um debate aberto sobre sexo e qualquer abordagem sobre consumo de drogas ilícitas ainda era tido como um tema tabu na literatura. Se tivesse sido lançado nos dias de hoje, On the Road não teria talvez força alguma, pois seria tão somente uma história de jovens que pegam a estrada juntos, se drogam e fazem sexo de forma inconsequente. No entanto, seria um erro analisá-lo por esta ótica, pois antes de qualquer reflexão sobre ele e aquilo que ele representa é necessário que se faça a contextualização, ou seja, é preciso relacioná-lo á época na qual ele ele foi escrito e de que forma ele se relaciona com as leis, os princípios e moral que regiam a sociedade naquele período.

O autor Jack Kerouac
A história de On the Road é narrada através de um alucinado e aparentemente ininterrupto fluxo de recordações no qual, conforme reza a lenda, o autor Jack Kerouac teria mergulhado por algumas semanas sob o efeito de benzedrina (droga estimulante derivada da anfetamina). Todo a proza que compõe a obra foi digitada em uma grande rolo de papel, feito pelo próprio escritor, para não precisar de fazer pausas para trocar a folha na máquina de escrever e assim interromper o fluxo. A versão que li, que agora comento, reproduz o texto deste manuscrito original, sem as alterações que foram impostas pelos editores e com os personagens sendo identificados pelos seus nomes reais. A ausência de parágrafos e de qualquer tipo de pausa ou divisão no texto denota o ritmo que obra tem, o que por sua vez seria um resultado do processo de composição que acabei de comentar - Confesso que vi a ausência de 'quebras' no texto como um pequeno dificultador para a leitura, uma vez que estou acostumado a usar parágrafos e mudanças de capítulos para demarcar pausas.

Kerouac e o manuscrito original.
A narrativa começa quando Jack, logo após a morte de seu pai, decide fazer uma viagem que deveria percorrer algumas partes do território americano junto com alguns de seus amigos. Kerouac deixara Nova York em julho de 1947, com uma mochila nas costas e cinquenta dólares no bolso, para encontrar com os companheiros em San Francisco. O plano inicial dele era chegar no meio oeste, curti bastante com sua turma, que já estaria lá, e logo após tentar conseguir emprego em algum navio cargueiro, esta seria para ele uma forma de ganhar dinheiro e de fazer uma viagem inesquecível pelo Pacífico... 

A aventura marítima que tinha sido planejada nunca aconteceria, porém esta seria a viagem na qual Jack descobriria sua paixão pela estrada e por tudo aquilo que ela representava, da liberdade à possibilidade de inúmeras descobertas e experiências e isto fica evidente no fascínio com que ele descreve cada uma das pessoas com quem encontra e as experiência que ele vive junto com elas.

Jack Kerouac e Neal Cassady
Ainda que Kerouac seja o narrador e um dos 'personagens' mais importantes, o foco da trama está é em seu amigo Neal Cassady, sobre quem ele fala com entusiamo e admiração. Neal era um delinquente juvenil que havia passado uma boa parte de sua vida em um reformatório, ele possuía um temperamento instável, mas ao mesmo tempo cativante. 

Ao se ver livre da instituição onde estivera recluso Neal decide recuperar o tempo perdido e tudo o que ele queria a partir de então era curtir a vida ao máximo. Curtição para ele era sinônimo de mulheres, drogas, bebop (gênero musical derivado do Jazz tradicional, porém bem mais nervoso) e, obviamente, a estrada. Cassady fora atraído pelos conhecimentos sobre literatura e filosofia que Jack e sua turma detinham e sua ingenuidade e  simplicidade, aliadas à sua paixão pela liberdade, cativaram Kerouac imediatamente, desta admiração mútua surgiria uma amizade forte e duradoura, mas potencialmente destrutiva para ambos.

Neal Cassady e Al Hinkle
Em suas andanças pelo território americano, Jack, Neal e seus amigos, dentre estes Luanne Henderson (namorada de Neal), Al Hinkle, Allen Ginsberg, Frank Jeffries e William S. Burroughs, vivem experiências que os transformam e os amadurecem, algumas vezes da pior maneira possível. O amadurecimento forçado pode ser notado na diferença em seus comportamentos e atitudes em cada um das cinco viagens descritas. A vida desregrada lhes traria inúmeros prazeres, mas também cobraria o seu preço, o que não era algo inesperado para nenhum dos que a abraçavam. Eles sabiam que estavam assumindo um alto risco, mas para eles a diversão valia a pena e o preço não era tão alto a ponto de os fazerem recuar. 

Em meio a tantos pontos repreensíveis e até condenáveis observados no caráter e nas ações de cada um destes jovens impetuosos, acho que posso destacar como algo louvável a coragem que eles tiveram de bater de frente com o mundo e de se jogarem contra cada um dos obstáculos que suas respectivas vidas lhes impuseram, coragem esta que eu invejo. 

O manuscrito original do livro - ele esteve exposto no Museu das Letras e Manuscritos
na França entre maio e agosto deste ano.
On the Road me fez refletir sobre minha própria inércia e acomodação, em diversos momentos da leitura ele conseguiu despertar em mim algo que eu já considerava morto, o desejo pelas pelas experiências autênticas, aquelas que são capazes de nos mostrar que ainda estamos de fato vivos... 

Tendo ou não o impacto que tivera outrora, o livro continuará sendo um clássico e seus frutos, diretos e indiretos, bons ou ruins, continuarão aí ainda por muito tempo. As experiências vividas pelos 'personagens'  serviram como uma espécie de ensaio para a libertação sexual, o experimentalismo e a desobediência civil que caracterizariam as décadas seguintes e a proza simples e sem firulas de Kerouac apontaria novos caminhos para literatura, apresentando um modelo no qual a força da narrativa estava na experiência contada por ela e não nas palavras que a compunham (qualquer semelhança com os três acordes do punk rock ou até mesmo com as transformações que o cinema americano viveu na década de 70 não é mera coincidência).


De 1957 para cá, muitos jovens começaram seus anos de rebeldia com este livro em suas cabeceiras, dentre eles estava o músico Robert Allen Zimmerman, que, depois de seu primeiro contato com a obra, tomou coragem de abandonar a faculdade e ir tentar a sorte em Nova Iorque. Zimmerman adotaria o pseudônimo de Bob Dylan e faria a sua própria revolução no cenário cultural, mas esta é uma outra história... É de Dylan a citação presente na capa desta edição do livro, na qual ele afirma enfaticamente: "Este livro mudou minha vida" - Talvez On the Road não tenha mudado tão somente a vida do músico, talvez ele tenha mudado o mundo, coisa que Jack Kerouac jamais imaginaria quando escreveu um bilhete para a mãe, que estava no trabalho, e caiu fora em direção ao Pacífico no verão de 47....

Mapa das cinco viagens de Kerouac, que foram narradas por ele no livro
Neste ano, o livro ganhou sua primeira adaptação cinematográfica, que foi dirigida pelo brasileiro Walter Salles, o filme recebeu diversas críticas negativas pela sua suposta superficialidade, o que talvez seja o resultado da inegável dificuldade de adaptar uma obra com tantos 'personagens', cuja essência dificilmente poderia ser capturada com imagens...


Visitem a página de On the Road no Skoob, clique AQUI!

14 comentários:

  1. Depois que li seu texto, esse livro virou um must-have pra mim. Como pode um livro inspirar tantos jovens? Preciso lê-lo. Ainda não assisti esse filme, e nem sei se minha mãe deixaria rsrsrs.
    Abraço.

    ResponderExcluir
  2. Olá, Bruno.
    Muitas obras literárias são criticadas quando adaptadas para o cinema. Acredito que a grande dificuldade nessas adaptações é fazer com que uma longa história, que a gente leva muitos dias pra ler, caiba em noventa minutos, ou pouco mais que isso.
    Além disso, tem o fato de, por vezes, o diretor, numa adaptação livre, alterar a história, introduzir personagens ou descartar alguns.
    Excelente resenha crítica. Como todas que já li aqui.

    Um abração.

    ResponderExcluir
  3. Bruno, meu texto está errado, não são as obras que são criticadas quando adaptadas para o cinema, mas o contrário, eu quis dizer que muitas adaptações de obras literárias para o cinema é que são criticadas, rs.

    Às vezes a gente pensa uma coisa e sem perceber acaba escrevendo outra.

    Desculpe, rs. :(

    Um abraço.

    ResponderExcluir
  4. Post sensacional Bruno!

    Eu adorei este livro, infelizmente o filme do Waltinho não evidenciou a geração beat.

    Parabéns pelo texto.

    Abs.

    ResponderExcluir
  5. Bruno... Muito bom meu amigo! Maravilhosa crítica essa que vc fez, e inteligentemente vista da forma como devem ser analizadas as obras. Ou seja, analizadas à luz do tempo em que foi escrita. Como vc mesmo falou, hoje talvez essa obra não tivesse muito a crescentar mas naquele tempo....

    Parabens amigo!

    ResponderExcluir
  6. Olá!Boa noite!
    Bruno!
    interessante, confesso que não sabia sobre esse "manuscrito"! Uma ideia genial para a época!Penso eu!Ah..sim...e concordo: a adaptação da Bíblia da geração beat não foi muito evidenciada nas telonas, penso que porque não se conseguiu as descrições bem detalhadas de paisagens e pelos diálogos escritos por Jack Kerouac, em uma escrita cinematográfica...de resto, parabéns pela crítica literária!
    Boa semana!
    Obrigado!
    Abraços

    ResponderExcluir
  7. Bruninho,
    mas olha só! Li este livro, que considero básico para qualquer pessoa que trabalha em comunicação, ou mesmo que se pretende escritor, na minha adolescência, e mais recente, mas interessante isso, que ler ele na adolescência tem um gostinho todo especial, porque somos um pouquinho essa geração, de alguma forma, mesmo que estejamos no século 21, 22, creio que certos anseios serão os mesmos.

    É a voz maior da geração beat nic, o Kerouac aprovando isso ou não, mas é e foi a representação de todos os anseios dos baby bommers (a geração que nasceu no pós segunda Guerra Mundial), e junto com ele, muitos outros escritores 'malditos', como Hemingway, vieram nessa trilha, fazendo uma certa iconoclastia de tudo até então, e isso, creio, é arte, pois ruptura.

    No cinema, além de filmes como 'juventude transviada', acho que o filme que melhor representou tudo isso, foi 'easy reader', como Peter Fonda, me esqueci totalmente o nome adotado aqui no Brasil (será que é: sem destino? ou algo assim..., me deu um branco). E assim, uma série de filmes on the road começaram a aparecer.

    O próprio 'acossado', primeira direção do Spielberg, se formos analisar, além de ser on the road, pode bem ser uma metáfora de tudo o que essa geração passou, o gosto pela liberdade, mas ao mesmo tempo a perseguição implacável disso. Aqui numa analogia 'viagem' a minha.

    Parabéns, Bruninho! Sempre me acrescenta muito vir aqui em teu espaço, bem como os teus comentários.

    Beijos e ótima semana!

    ResponderExcluir
  8. Parabéns, ótima reflexão. Li o livro pela primeira vez no ano passado, e desde então se transformou num dos meus favoritos de todos os tempos. Ele realmente tem o poder de instigar e provocar mudanças, mesmo que sejam pequenas.

    ResponderExcluir
  9. Olá amigo, olha qdo vc fala que o livro despertou em vc o desejo de viver experiências autênticas, já falou a minha língua! rsr Dica anotada! Abraçosse parabéns pela descrição do livro!

    ResponderExcluir
  10. Os filmes não conseguem passar a essência de um livro. Não nos permitem ver as pessoas como as imaginamos ao tomar conhecimento do que realizaram. Você foi brilhante. Bjs.

    ResponderExcluir
  11. Salve, Bruno!

    Gostei bastante de suas considerações sobre "on the road" e principalmente situando-o em um contexto específico - hoje provavelmente não faria essa diferença e influência toda, mas se não fosse por ele não teríamos passado por aquela efervescência cultural nos anos 50 e 60.

    Curioso que Kerouac foi praticamente quem criou o termo "beat". Se não me engano tudo aconteceu no apartamento de Ginsberg (outro pilar do "movimento", autor do fundamental "Uivo") em que Kerouac cunhou o termo beat mais como uma ironia para a "geração perdida" - e, pelo visto, se arrependeu disso depois rs.

    Embora tenha sido escrito em apenas 03 meses, "On the Road" já estava sendo imaginado há algum tempo por Keroauc e as viagens que realizou foram impulsionadas pelas literatura - e eu acho isso bárbaro!

    É um livro que desperta. "Só" isso: desperta.

    Abraço!

    ResponderExcluir
  12. Olá, José Bruno.
    Pelo jeito, escrever esse livro para Kerouak foi uma viagem e uma viajem.
    Eu comecei a lê-lo escanaeado tempos atrás, daí tive de formatar o pc e ele foi apagado, agora que li o quanto ele realmente significou (e ainda significa) para a cultura e o comportamento de toda uma geração.
    Abraço.

    ResponderExcluir
  13. Eu queria mto ter lido o manuscrito original, mas eu só soube que existia essa versão após comprar o livro editado. rs
    Incrível que o Kerouac é um escritor bom (segundo as críticas pois eu não li, mas acredito que é difícil tanta gente no mundo estar errada), mas escreveu on the road como se fosse um amador. E é esse o espiríto da obra mesmo, então, a gente aceita, rs

    ResponderExcluir
  14. Para narrar todas as aventuras e desventuras de On The Road seria necessário, certamente, gravar um filme com duração de 7 anos em 3 semanas, a plateia estaria dopada com benzendrina e maconha e as cadeiras simulariam a cabine de um Hudson Hornet. O filme em minha opinião é bom e bonito. Não capta espírito disso ou daquilo porque - obviamente - é só um filme. Sou fã incondicional do Kerouac e posso afirmar que gostei do filme, apesar de achar a atuação do Hedlund meio fraca (para captar o Dean ou Neal você teria de estar tão doidão quanto o próprio além de ter de ingerir uma quantidade impensável de líquidos). O livro é sensacional e dispensa comentários.

    ResponderExcluir