segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Habemus Papam

Habemus Papam - 2011. Dirigido por Nanni Moretti. Escrito por Nanni Moretti, Francesco Piccolo e Federica Pontremoli. Direção de Fotografia de Alessandro Pesci. Música Original de Franco Piersanti. Produzido por Nanni Moretti, Jean Labadie e Domenico Procacci. Sacher Film, France 3 Cinéma, Fandango e Le Pacte / Itália|França.


Na época de seu lançamento, Habemus Papam (2011) de Nanni Moretti foi apontado por uma significativa parcela da crítica como uma sátira da Igreja Católica, eu, no entanto, penso que estaria sendo reducionista se decidisse analisá-lo tão somente por este viés, uma vez que sua trama não se limita à tal proposta e retratar a  igreja como instituição não é nem de longe a sua principal intenção. É evidente que há em sua narrativa uma crítica sutil ao distanciamento que há entre o Vaticano e seus fiéis e à forma com que os costumes e ritos se sobrepõem ao indivíduo de modo que este perca aquilo que o caracteriza como tal. Entretanto, o foco do filme não está na instituição, mas sim na debilidade da condição humana, que se manifesta mesmo em homens que estariam pressupostamente mais próximos de Deus.

Nanni Moretti acertou ao não deixar evidente no filme qualquer conotação religiosa que pudesse ser motivo de polêmica e alvoroço. Apenas olhares bem atentos serão capazes de captar e compreender as críticas que ele tece. Ao manter o foco sobre os relacionamentos humanos ele se distancia dos dogmas e do proselitismo religioso, que se estivessem presentes poderiam por a perder aquilo que o filme tem de mais interessante, que é a identificação e a empatia que o personagem principal é capaz de despertar em nós espectadores. O tema central do filme é a paralisia de um papa recém-eleito frente às obrigações que lhe são impostas pelo pontificado, paralisia esta que pode ser experimentada por qualquer um de nós diante de uma mudança radical em nossas vidas.


Habemus Papam começa com uma sequência que mostra o cortejo fúnebre do Papa João Paulo II, que intercala imagens reais com outras feitas para o filme. Logo em seguida vemos os cardeais seguindo em procissão para o Conclave, rito no qual será eleito o novo Papa. Esta sequência de abertura é cheia de significados e de extrema importância para o filme, pois ela mostra bastante daquilo que será sutilmente desconstruído durante o desenrolar da trama. 

A imagem dos cardeais orando nos passa uma ideia de  santidade e serenidade, impressão que é desfeita quando a câmera invade o Palácio Apostólico para mostrar o processo eleitoral. Um outro lado dos religiosos começa a ser exposto no trecho que eles são mostrados, em oração, pedindo para não serem eles o 'escolhido' por Deus; à primeira vista esta postura  pode ser confundida com humildade, mas na verdade ela mostra é o quanto a possibilidade de receber uma grande responsabilidade os atormenta. 


Melville (Michel Piccoli) é o escolhido pelos demais cardeais para assumir o posto mais alto da hierarquia católica, ele aceita a eleição canônica por acreditar que ela manifesta a vontade de Deus. Porém, logo ele percebe o peso do fardo que acabara de assumir, uma ataque de pânico o faz desistir de fazer o pronunciamento para os féis que aguardavam o resultado do Conclave na Praça de São Pedro. 

A crise de ansiedade se agrava à medida que ele percebe que não conseguirá corresponder as expectativas de todos que estão à sua volta, ele então se sente indigno da função que lhe fora confiada e incapaz de tomar qualquer decisão em relação a isso. Após examiná-lo, um médico conclui que ele não tem qualquer problema de saúde, é então que seu porta-voz (Jerzy Stuhr) decide levar um psicanalista (vivido pelo diretor Nanni Moretti) até a palácio para consultá-lo. 


Após uma sequência de fatos, Melville acaba fugindo e passa a vagar nas ruas sem ser reconhecido pelas pessoas. Enquanto isso, o psicanalista, que é ateu, se vê impedido de sair da residência papal por já saber qual foi o resultado do Conclave, interage com os outros cardeais, que permanecem acreditando que o Papa se encontra seguro e descansando em seus aposentos...

Nanni Moretti conduz o filme com um ritmo lento, que permite que sejam explorados detalhes sutis do comportamento e da personalidade dos clérigos. A sutileza da narrativa resulta em passagens belíssimas como a que mostra os cardeais se recolhendo em seus aposentos à noite e do campeonato de vôlei que o terapeuta organiza. O filme ainda tem uma forte veia cômica que torna seu desenvolvimento mais leve e algumas sequências bem engraçadas.


O que torna Habemus Papam tão interessante é o caráter humanista que ele tem, o que fica evidente principalmente na forma com que ele retrata o cotidiano, os medos, as incertezas, as fraquezas e a imperfeição dos cardeais. No drama do personagem principal é possível enxergar  sentimentos que não nos são de todo estranhos, dentre eles estão o medo de perder a individualidade e de não fazer jus aquilo que todos esperam, a carência afetiva e a solidão... 

Quando questionado em uma sessão de psicoterapia, Melville diz que não possui relações afetivas, o que deveria ser no mínimo estranho, uma vez que ele que ele está cercado de fiéis e religiosos. É em pontos como este que ficam evidentes a críticas que Moretti faz á igreja como instituição - uma crítica bem pertinente ao meu ver.


Um ponto interessante do viés crítico que o filme possui é a associação do Vaticano e de seus ritos à uma encenação teatral. Este paralelo que Nanni Moretti e os outros roteiristas criam fica evidente em diálogos e em diversos elementos da narrativa. 

Em tal associação o Conclave seria o espetáculo, a janela do aposento do Papa o palco (as sobras de alguém se movimentando por detrás das cortinas despertam a curiosidade dos cardeais, dos fiéis e da mídia, referência maior impossível), os religiosos os atores (eles negam a si mesmo ao adotarem um personagem, uma máscara social que cai quando eles se fecham em seus aposentos) e os fiéis seriam o público, para quem este suntuoso espetáculo é feito.


O ator veterano Michel Piccoli está ótimo no filme, ele vive com uma propriedade incrível a fragilidade psicológica de seu personagem. Sua expressão de temor e de dúvida é tão real que se torna quase impossível não se compadecer pela situação vivida pelo religioso que ele interpreta. Seu desempenho torna algumas passagens bonitas e tocantes. 

Já Nanni Moretti entrega um trabalho excelente como diretor, mas deixa bastante a desejar como ator, seu personagem, apesar de participar de algumas das melhores sequências do filme, sou por vezes deslocado e seu desempenho não dá credibilidade às ações e motivações dele. Felizmente a atuação (medíocre, quando comparada às dos demais atores) de Moretti não chega a comprometer em nada o resultado final do filme, permitindo que ele cumpra com êxito a sua proposta de mostrar um lado humano (ainda que não real) de uma instituição que parece se abster de qualquer humanismo... Recomendo!


Assistam ao trailer de Habemus Papam no You Tube, clique AQUI !

A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra,

31 comentários:

  1. Olá Brunão! Tudo beleza?

    Rapaz, parece que essa história é legal. Imaginar as dúvidas na cabeça de uma pessoa que foi recem eleita pra ser papa é uma coisa interessante, pois o papa deveria ter certesa de que isso era a vontade de Deus e que Deus o capacitaria para tal cargo!

    Gostei, vou procurar!


    Um abração amigo!

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    1. Procure sim André, esta certeza que você diz que o Papa deveria ter é tão somente o que esperamos dele, na prática ela não existe, seria apenas uma mera questão de fé.

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  2. Oii amigo, ainda não tinha ouvido falar nesse filme, embora não me interesse muito por filmes de cunho religioso seja de critica ou não, penso que vale assistir pelos cenários que devem aparecer nas cenas! Valeu! Abraçosss

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    1. Não se preocupe Kellen, "Habemus Papam" não pode ser considerado um filme religioso, o Vaticano é apenas o pano de fundo, o foco da trama está é no drama vivenciado pelos indivíduos!

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  3. Olá, José Bruno.
    Conheço muito pouco do cinema italiano e achei o tema deste filme bem interessante, apesar de eu não seguir religião alguma.
    Vi Sinédoque Nova York alguns dias atrás e ainda estou digerindo o filme, que é montado em forma de espiral de metalinguagem, o que exige nossa atenção máxima ao assisti-lo.
    Agradeço os elogios aos meus escritos, e devo confessar que o seu é o único blog de resenhas de filmes que frequento, já que consegues desconstruí-los isentando-se de seu próprio gosto pessoal, o que não é nada fácil.
    Abraço, José Bruno.

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    1. "Sinédoque Nova York" é uma obra fantástica, que parece expandir em nossa mente à medida que o tempo passa, se não fosse tantos outros filmes na lista de espera eu me disporia a revê-lo em breve!

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  4. Tb gostei muito desse filme. O pessoal costuma implicar com ele, no entanto, acredito que seja uma obra que satiriza de forma competente a Instituição. As cenas dele ensinando sobre antiansioliticos e o campeonato de volei são genialmente hilárias. Parabéns pelo texto.

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    1. São algumas das melhores cenas do filme, estas que você citou Celo. Acho que a parcela da crítica e do público que não gostou dele espera uma crítica mais contundente à igreja, ou uma comédia mais escrachada e esta não é a proposta dele.

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  5. Olá!Bom dia!
    J.Bruno!
    Tudo bem por aqui?
    ... não assisti!
    ... gostaria de ver de que forma sutil o conflito entre características humanas X obrigações divinas foi abordado.
    Concordo com Jacques, suas críticas/resenhas são isentas de cunho pessoal, o que nos faz ficar atentos aos detalhes descritos para sabermos se vale a pena assistir ou não!
    Obrigado!
    Boa quarta feira!
    Abraços
    ...espero q já esteja mais tranquilo!Passei alguns anos de minha vida como bancário do "falecido" banco América do SUL

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    1. Que legal Felisberto eu não sabia que você também já tinha sido bancário, com certeza então você me entende rsrsrs

      O filme é muito interessante e acho que você irá gostar bastante dele. Quanto aos meus textos, eu não acho que eles sejam tão isentos de um cunho pessoal, acho que eles são totalmente parciais por serem frutos, à priori, de minha impressão. O que tento fazer é encontrar argumentos que justifiquem, ou expliquem, a impressão que eu tive de cada obra...

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  6. Ollá Brunão,
    O lado sutil é presente no filme. Porém,o pano de fundo subliminarmente ainda é o Catolicismo como terceiro poder.
    Adorei o texto!
    bjs

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    1. Ainda acredito que o catolicismo seja tão somente o pano de fundo, ele poderia facilmente ser ambientado em outra instituição, religiosa ou não e ainda manter o mesmo foco dramático que é a insegurança do indivíduo frente às cobranças que o mundo à sua volta lhe faz.

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  7. Olá, parceiro, depois de umas pequenas férias, O FALCÃO MALTÊS está de volta, disposto a continuar celebrando sua paixão pelo cinema clássico.
    Belo post... Grande atuação de Piccoli...

    Cumprimentos cinéfilos!
    O Falcão Maltês

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  8. Mesmo não tendo visto o filme, apenas pelo que estou lendo aqui, me parece interessante, apesar de não ser fã de filmes italianos. Aprecio mais o estilo francês de fazer acontecer.

    Abraço

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    1. Eu também acho que posso dizer que gosto mais do cinema francês, mas talvez isso seja tão somente pelo fato de eu ter mais contato com ele do que com o italiano...

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  9. Oi Bruno
    Mais uma bela crítica feita por um ótimo crítico de cinema que vc é. Eu vi o cartaz do filme, mas não me empolguei muito. Quem sabe agora eu assita-o. Anotado.
    Bjão. Fique com Deus!

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    1. Assista sim Luciana, tenho certeza de que você irá gostar dele.

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  10. Olá Bruno.

    Uma proposta de cinema diferente, mas interessante. Geralmente, não vemos o Vaticano sobre esta visão, falo por mim, claro.

    Obrigada pela visita e pelos comentários. Acho o teu blog muito bom, porque tu não criticas, tu simplesmente analisas sem desconstruir os filmes.

    Um beijo,

    Cris Henriques

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    1. Concordo contigo Cris, tentei recapitular agora em minhas memórias as vezes que o Vaticano foi retratado no cinema e só lembrei de dois tipos de abordagem, aquela na qual o aspecto religioso é enaltecido, geralmente em filmes católicos e aquela na qual o foco são as críticas feitas à igreja, abordagem na qual incluo a adaptação "Anjos e Demônios"...

      Entendi o que você quis dizer com 'desconstruir', mas gosto de usar o termo para classificar aquilo que eu tento fazer em cada resenha, porém com uma outra conotação. Entendo o processo desconstrução como o ato de separar a obra em partes e analisar a importância e significação dela de forma individual...

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  11. Oi Bruno,

    Tudo bem? Vi a chamada desse filme e tive uma visão preconceituosa, tipo lá vem outra discussão de religiosidade. Só que depois alguém me falou da questão da humanização do clero, como homens com medos e limites que nem sempre se sentem confortáveis com a realidade que os move. Então é segunda análise positiva e vou listá-lo amanhã.

    Beijos e bom final de semana.

    Gostei da dica que você me deixou. Obrigada.

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    1. A primeira vez que eu vi algo sobre ele, antes de seu lançamento, eu tive a mesma impressão que você. Percebi que poderia estar enganado depois que vi que era um filme do Nanni Moretti, que é ateu confesso. Mas como eu disse no texto a questão religioso não é a tônica principal do filme, mas sim a questão do medo e da ansiedade que personagem central sente.

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  12. Não me interessei por esse filme.
    Não gosto muito de filmes religiosos.
    Mas valeu pela dica!

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    1. Não é um filme religioso Mateus. Ele merece ser visto.

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  13. Bruninho, achei suuuuuuuuuuuuuuuper interessante esse seu texto. Quero anotar como dica de filmes para eu ver num futuro(próximo). Principalmente por não focar na questão religiosa(como vc deixou claro, é apenas um pano de fundo). Toda a temática que gira em torno da obra, me fez sentir ainda mais vontade de assistir.

    bjks JoicySorciere => CLIQUE => Blog Umas e outras...

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    1. Joicy simplesmente assista, tenho certeza de que você vai gostar, não tem como não sentir empatia pelo personagem central, que é muito bem interpretado pelo Michel Piccoli.

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  14. Li, e perfeito seu texto. Agora fiquei mais curioso para assistir a este projeto, que é muito discutido de formas positivas ou negativas na opinião das críticas em geral. Parabéns José Bruno. Abraço. Até mais...

    http://www.leituradecinema.com.br/2012/09/os-vingadores.html

    http://www.leituradecinema.com.br/2012/08/planeta-dos-macacos-origem.html

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    1. Assista sim Matheus, você gostando ou não, o filme terá valido a pena pela excelente atuação do Michel Piccoli e pela direção de arte, que é soberba.

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  15. Eu gostei muito do filme. Há esse distanciamento entre representantes da Igreja e fiéis, mas o foco não fica restrito a isso. As fragilidades humanas são ressaltadas e vemos que, até quem está no topo, pode descobrir sua insegurança e seu desconhecimento sobre a vida. Bjs.

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    1. Realmente Marilene e é isso que torna o filme tão interessante e tão bom.

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  16. Esse filme, antes de tudo, fala sobre seres humanos, vida e destinos. Muitos críticos esperaram que o diretor fizesse algo para deixar a Igreja no chão (é o que me pareceu), mas construiu uma obra delicada e que ofende só os que não entenderam bem o recado. Humanizar algo que é considerado santo é genial, assim como colocar um ateu no meio do poder católico. Uma obra poderosa, de muitas referências e de humor genial.

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