domingo, 19 de janeiro de 2014

Azul é a Cor Mais Quente

Azul é a Cor Mais Quente (La vie d'Adèle) - 2013. Dirigido por Abdellatif Kechiche . Escrito por Abdellatif Kechiche e Ghalia Lacroix, baseado na comic book de Julie Maroh. Direção de Fotografia de Sofian El Fani. Produzido por Brahim Chioua, Abdellatif Kechiche e Vincent Maraval. Quat'sous Films e Wild Bunch / França | Bélgica | Espanha.



Adèle (Adèle Exarchopoulos), que até então nunca tinha ficado com outra garota, teve algo despertado dentro de si logo na primeira vez que viu Emma (Léa Seydoux), ela fora tomada por um sentimento desconcertante, que a fizera perder o chão por alguns minutos. Ainda que haja um certo ceticismo em relação ao amor à primeira vista, pode-se afirmar que foi desta forma que nasceu a paixão que transformaria completamente sua vida em um espaço de tempo relativamente curto. Não demorou muito até que as duas se conhecessem, o que se deu quase ao acaso. É interessante perceber que já no primeiro encontro são assumidos alguns papéis que iriam determinar os rumos da relação que se iniciaria entre elas. Emma, mais velha e experiente, assume uma função de protetora, uma quase mentora de Adèle, esta por sua vez se entrega de corpo e alma à paixão que queima dentro de si e a intensidade desta entrega à torna relativamente vulnerável quando começam as primeiras crises no relacionamento.

Nas relações entre as garotas e seus amigos e familiares também é possível notar a extensão dos papéis que foram assumidos no dia em que se conheceram. Emma é bem resolvida, seus pais tratam com naturalidade a sua sexualidade, sem qualquer tipo de preconceito, e seus amigos a aceitam tal como ela é. Já Adèle não consegue conversar com seus pais sobre sua relação com Emma e as piadas e de suas amigas sobre sua suposta amizade com a 'garota dos cabelos azuis' a impede de abrir o jogo com elas também. Em uma evidente ânsia de se resguardar, ela se esconde e adota uma personalidade que não condiz com a sua verdadeira essência. Este é um traço da personalidade de Adèle que não está relacionado apenas à sua homossexualidade, em dado momento ela diz ter receio de compartilhar seus escritos por eles serem pessoais demais. Nota-se que o que ela está vivendo não é só um processo de descobertas, é também um processo de autoaceitação.



Não é por acaso que o filme tenha sido dividido em dois capítulos (que acabaram sendo lançados juntos), a sua história pode ser dividida em dois momentos bem distintos um do outro. O primeiro é caracterizado pela descoberta, nele vemos a transformação da paixão avassaladora que uniu Adèle e Emma em algo mais sólido, este processo é retratado de uma forma brilhante pelo filme. Neste primeiro capítulo a ingenuidade, a fragilidade e a insegurança podem ser apontados como os traços que melhor caracterizam o comportamento da protagonista. Ela ainda carrega consigo os medos e os dilemas típicos da adolescência, mas isso logo mudará. Em um segundo momento, Adèle passará por um amadurecimento forçado, que mudará completamente sua postura em relação ao mundo à sua volta e por fim sua visão sobre os relacionamentos.


Com o surgimento das primeiras crises a idealização criada em torno do relacionamento começa a se desfazer em um processo que é extremamente doloroso, principalmente para Adèle. A sucessão de erros cometidos por ambas as garotas torna a relação cada vez mais complicada e nenhuma delas consegue lidar tão bem com isso. A abordagem adotada pelo filme se abstém do olhar romantizado para retratar os relacionamentos tal como eles são, os problemas enfrentados pelas duas e os temores que elas sentem são extremamente comuns e a verdade é qualquer relação, por mais sólida que ela seja, sempre estará sujeita a ser afetada por eles. A trama de Azul é a Cor Mais Quente ganha ainda mais significado e profundidade por conseguir evocar diversas características atribuídas aos relacionamentos pós-modernos, nela podem ser observados aspectos como a fragilidade dos laços criados, a transitoriedade das relações e, principalmente, a angústia de projetar no outro aquilo que se espera da vida a dois.


As cenas de sexo explícito, que causaram bastante polêmica quando o filme foi lançado, são condizentes com a trama e eu diria até que são necessárias para o seu pleno funcionamento, afinal de contas é através delas que a narrativa trabalha as mudanças (boa parte delas sutis) que ocorrem no relacionamento entre as duas garotas e a forma com que estas mudanças impactam na relação de dominação que existe entre elas. A primeira transa entre elas, retratada em uma sequência que dura mais de seis minutos, retrata perfeitamente o processo de descoberta que se encontra em curso, o ato é selvagem e nele está evidente a explosão da paixão que ambas sentem. Porém, pouco a pouco, as sutilezas e as carícias vão ganhando mais espaço, o que indica que o sentimento primitivo, observado até então, estava finalmente se transformando em amor.


O curioso é que mesmo com o evidente amadurecimento do relacionamento, a relação de dominação é mantida, o que pode ser percebido em uma outra cena de sexo (aquela que considero a mais bonita do filme), em dado momento Emma interrompe o ato por acreditar que Adèle gritaria devido ao orgasmo, o barulho certamente chamaria a atenção de seus pais (esta é a primeira vez que elas transam na casa de Adèle); esta construção tão simples deixa mais uma vez evidente que é Emma quem está conduzindo, não só a transa, mas toda a relação, ainda que este domínio seja exercido por meio do afeto. Em última análise, é a existência deste afeto que torna tudo ainda mais complicado e doloroso... A consequência da intensidade da entrega de Adèle remonta à principal causa da superficialização das relações: o temor provocado pela ameaça de que o amor e o afeto, quando não mais correspondidos na mesma proporção, se tornem insuficientes para sustentar um relacionamento, levando assim à uma frustração que pode ser aniquiladora...


Adèle Exarchopoulos está excelente no filme, sua atuação é caracterizada por uma completa entrega à personagem, o que fica evidente na verdade contida em cada um de seus sorrisos e olhares. É a grandiosidade de sua atuação que torna a protagonista ainda mais humana e seus sentimentos ainda mais palpáveis, por isso nos identificamos tanto com sua história e com sua ventura, nos vemos nela, afinal seu drama não nos é de todo estranho. Destaco ainda a fotografia e os enquadramentos, que são também essenciais para o desenvolvimento da narrativa, e o ótimo trabalho de edição de som, que prioriza os ruídos diegéticos na ausência de uma trilha sonora. Eu, sinceramente, tenho pena daqueles que deixarão de assistir ao filme, ou de apreciá-lo, pelo preconceito que, infelizmente, pode ser despertado pela sua trama, estes certamente perderão uma das melhores obras lançadas em 2013, sem mais.


Assistam ao trailer de Azul é a Cor Mais Quente no You Tube, clique AQUI !


A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra.

6 comentários:

  1. Nossa, adorei sua visão sobre o filme. É bem esclarecedora e acredito que condiz com o que o autor quis passar. Eu adorei a trama e concordo quando diz da superficialidade das relações atuais, bem como, de como Adèle é viva em sua personagem.
    Outra característica que achei interessante foi a utilização de cenários e situações rotineiras, o que vincula a película ainda mais à vida real.

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  2. Bruninho,
    ainda não vi,rs
    Acredita?
    Tô muito relapsa e meio sem inspiração, hehe.
    Sentimentos palpáveis,amores expressos, futilidades de sentimentos....
    Gosto desse seu modo de enxergar película,
    parabéns, meu eterno amigo *fã de Meia Noite em Paris*

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  3. Olá,
    Sou do blog "DVD, sofá e pipoca", onde estamos promovendo nosso 4° Bolão do Oscar. Uma blogagem coletiva para incentivar a discussão cinéfila. Como você também é fã de filmes achamos que gostaria de participar da brincadeira, e resolvemos convidá-lo.

    Passe no post do bolão para conhecer as normas (http://goo.gl/pZrkOf).

    Te esperamos lá, e boa sorte!

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  4. Só li ótimas críticas desse filme e da forma crua como o diretor filma, mas ainda não o assisti. Preciso fazer isso...

    Abraços.

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  5. Eu assisti e também gostei muito.
    Uma coisa que me chamou atenção foi a personagem principal com os cabelos bagunçados, comendo e dormindo de boca aberta, chorando com o nariz escorrendo. Isso foi muito legal, muito diferente dos filmes de hollywood em que tudo é perfeito, as pessoas dormem e acordam maquiadas e com o cabelo impecável... Além disso, a cor azul sempre presente na cena e a mudança na cor dos cabelos da Emma quando a trama muda.

    Adorei o seu texto!

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  6. Já vi esse filme algumas vezes, sempre me toca muito. A explicitação do sexo entre elas é completamente necessária para o entendimento do processo. Conheço histórias parecidas, e o mais importante pra mim é que agora são entendidas. Vamos conversar sobre este tb!
    Já vi quase todos de sua lista, não comentarei todos...mas iremos conversando sobre. Suas reflexões são muito pertinentes. Bjo

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