sábado, 7 de maio de 2011

Mau Dia Para Pescar

Mau Dia Para Pescar (Mal Día Para Pescar) - 2009. Dirigido por Alvaro Brechner. Roteiro de Alvaro Brechner & Gary Piquer baseado em um conto de Juan Carlos Onetti. Direção de Fotografia de Álvaro Gutiérrez. Música de Mikel Salas. Produzido por Adolfo Blanco. Baobab Films / Espanha - Uruguai.

 

São filmes como Mau Dia Para Pescar (2009) que me incentivam a continuar direcionando meu olhar para além do espetáculo de Hollywood, esta co-produção entre Uruguai e Espanha, dirigida por Alvaro Brechner, pode parecer à princípio, pela sua sinopse, um tanto estranha e bizarra demais, porém ao assisti-lo percebe-se que seu maior trunfo não é a estranheza e sim o poética retirada justamente do realismo da trama. Mau Dia Para Pescar é um recorte metafórico, tanto belo quanto forte, sobre a natureza humana. O filme nos coloca em contato com pessoas diferentes, mas que de igual forma querem apenas lucrar com a ingenuidade e a boa vontade alheia. Neste sentido o ponto de vista da história pode parecer pessimista, mas é apenas real. Em um emocionante desfecho, um pingo de esperança sobre a superação de tal condição é lançado, mas ele será fruto da culpa e não da benevolência.

Na trama, Orsini (Gary Piquer), que se auto proclama príncipe, é um trapaceiro nato, com sua boa lábia ele se aproveita da ingenuidade alheia para aplicar seus golpes. Ele usa Jacob Van Oppen (Jouko Ahola), um lutador de vale tudo natural da Alemanha Oriental, já velho e mentalmente perturbado, para ganhar dinheiro de pequenas cidades no interior de países da América do Sul. Ao chegar em cada lugarejo ele apresenta o lutador como um campeão mundial e oferece mil dólares para quem o desafiar e conseguir se manter em pé mais que três minutos no ringue. Na verdade, cada luta é previamente combinada, o que explica a invencibilidade do “campeão”. Para que nada de errado aconteça, apenas uma luta é realizada em cada cidade por onde eles passam. Ao chegar na pequena Santa Maria, onde maior parte do filme se passa, o desafio é proposto e Orsini consegue o apoio de um ambicioso jornalista local para a organização e divulgação do evento e de ante-mão encontra e contrata o perdedor ideal para se deixar derrubar por Jacob.

 

Tudo parecia correr conforme o previsto até que o lutador desafiante, que já tinha sido comprado por Orsini, se envolve com a polícia aós uma bebedeira e acaba sendo preso. Para frustrar por completo os planos do trapaceiro, entra em cena a bela Adriana (Antonella Costa), que quer a qualquer custo inscrever o noivo como desafiante, ela cobiça o dinheiro do prêmio pois pretende o usar para realizar seu casamento. Sem outra alternativa, devido às pressões do dono do jornal que o apoiava, Orsini acaba aceitando o desafio do rapaz, que tem apenas 23 anos. Porém o vigor juvenil, aliado ao porte físico e à fama de durão do desafiador coloca o trapaceiro em sérios apuros, ele não tem o dinheiro para pagar o desafio e sabe que Jacob, pelo seu estado de saúde, não aguentaria mais de 1 minuto lutando.

 

Desde as primeiras cenas, percebemos que uma tragedia já está anunciada, o que sustenta o suspense que se arrasta até a sequência final do filme. Alguém irá pagar, e caro, pelo plano que deu errado. Mas enquanto o momento da luta, uma das melhores sequências do filme, não chega, acompanhamos Orsini, que se debate contra o desespero proporcionado por sua situação. Numa sequência memorável, que se passa na noite anterior à luta, ele abre o jogo com Jacob sobre a situação em ambos se meteram, neste momento de temor e fraqueza percebemos a fragilidade de cada um dos personagens, que se aflora para nos lembrar que são apenas humanos e sendo assim dotados de falhas de caráter e iniquidades.

 

O roteiro não se atem a estereótipos e todos os personagens são muito bem construídos, sendo dotados de profundidade psicológica e características singulares e marcantes. Jacob é um belo exemplo disso e tal situação se reflete nos diálogos (muito bem escritos) que ele tem com o “príncipe”. Adriana, mesmo sendo movida por uma causa mais nobre que a de Orsini, demonstra pelas suas atitudes, que tem um caráter semelhante ao dele, o que exemplifica bem a visão pessimista do filme sobre a natureza humana. Os habitantes da cidade, que pareciam tão ingênuos à princípio, reforçam ainda mais tal ponto de vista negativista, eles acabam mostrando para o trapaceiro que ele também pode ser vítima da mesma fraqueza que explora nos outros: confiar demais...

 

O roteiro de Mau Dia Para Pescar é ótimo e a forma com que a história começa a ser construída com constantes flashbacks, que nos inserem no contexto que os personagens centrais estão envolvidos, é altamente eficaz. Apesar de ser uma trama de pouca ação, onde predominam os diálogos, o filme não é arrastado, nem se torna chato em momento nenhum. Seu ritmo nos aproxima das tramas individuais de cada um dos personagens, o que acaba despertando nossa compaixão por eles, mesmo sendo eles tão ambíguos e condenáveis, compreendemos no final que eles são humanos e que a trama é mais real do que o absurdo da sinopse pôde nos sugerir. Ao assistir, preste atenção na beleza da fotografia, da direção de arte e da trilha sonora, realmente é uma pena que produções do tipo permaneçam restritas a um circuito ainda tão fechado. Indicado para quem ainda é capaz de ser sensibilizado por uma grande obra de arte! Corra atrás!


Assista ao trailer de Mau Dia Para Pescar no You Tube, clique AQUI !
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5 comentários:

  1. Filme nota 10, o Jacob é sensacional, super humano e surpreendente

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    1. Este lado humano que o roteiro salienta em cada um de seus personagens é um de seus maiores trunfos!

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  2. Assisti ontem à noite, 31.01.14, na excelente TV Brasil, que mostra filmes do mundo inteiro e da qual terminei me tornando fã. Aí descobri que muitos cinéfilos são fãs dela também. Devia ser mais divulgada. É mesmo estatal?

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  3. Um filme que eu gostava de ver muito, o elenco é um ponto que promove. O desempenho do ator César Troncoso, amado. Eu agora estou vendo na O Hipnotizador (http://www.hbomax.tv/o-hipnotizador/) uma nova série , onde eu espero continuar withthe sucesso que teve até ao momento.

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  4. Uma comédia leve, divertida e que oferece muita coisa boa para pensarmos! Tem uma crítica em
    www.artigosdecinema.blogspot.com/2016/07/mau-dia-para-pescar-mal-dia-para-pescar.html

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