segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Amor

Amor (Amour) - 2012. Dirigido e escrito por Michael Haneke. Direção de Fotografia de Darius Khondji. Produzido por Margaret Ménégoz. Wega Film, Les Films du Losange e X-Filme Creative Pool / França | Alemanha | Áustria.


A  certeza da finitude da vida representa um dos maiores temores da humanidade, mas nem sempre o que assusta é a morte, mas sim a possibilidade de no ocaso da existência nos tornarmos tão frágeis e incapazes, a ponto de perdermos aquilo que antes nos caracterizava como indivíduos. O medo do abandono e de não conseguir responder como antes aos estímulos e à própria vontade insurgem como ameaças capazes de nos levar a reflexões profundas acerca do sentido da vida e da importância daquilo que construímos no decorrer dela. Em Amor (2012), obra mais recente do diretor austríaco Michael Haneke, estão presentes todas estas questões. O filme toma como microcosmo a realidade de um casal octogenário para falar de amor, sofrimento, resiliência e dor. Na trama estão presentes diversos elementos recorrentes na filmografia do cineasta, dentre eles aquele que distingue e dá propriedade à sua marca autoral, que é o incomodo proporcionado pelo contato com uma realidade que geralmente não nos é estranha, mas que é mostrada de uma forma seca e sem qualquer tipo de atenuantes. 

No relacionamento entre Georges (Jean-Louis Trintignant) e Anne (Emmanuelle Riva), o casal de idosos citado acima, há inúmeras camadas de significações, eles representam numa última instância todo o gênero humano. Suas limitações, fragilidades e amarguras apontam para algo mais amplo, para uma dor  maior que é inalienável da própria existência. O que acompanhamos durante o filme não é somente o caminho de Anne rumo à morte, fatalidade que já é anunciada na primeira sequência do filme, mas a própria trajetória da humanidade, que inevitavelmente percorre o mesmo trajeto. Mesmo tendo a ciência de que a vida é finita, costumamos negar sua finitude como se ela fosse algo distante ou como se nós estivéssemos resguardados por alguma força superior capaz de nos poupar de seguir este mesmo rumo. O que Heneke nos lembra com o filme é que a proximidade da morte é uma realidade que cedo ou tarde teremos que enfrentar e que as limitações da velhice não poupam nem mesmos aqueles que tiveram uma vida agraciada pelo contato com o sublime através da arte e da alta cultura (na trama, Georges e Anne são professores de música aposentados)...


Anne sofre um acidente vascular cerebral e perde o controle sobre o lado direito de seu corpo, ela que era independente se vê obrigada a assumir uma condição recessiva frente aos cuidados oferecidos pelo seu marido. Tudo se torna mais difícil para o casal a partir de então. A única filha que eles têm está distante e tomada por outros problemas e nas poucas vezes em que aparece, ela demonstra não ter condições de lidar com a situação. Os vizinhos e amigos oferecem alguma ajuda, mas no fim das contas tudo acaba ficando sob a responsabilidade de Georges, que assume o fardo por não querer que a mulher vá para um leito de hospital ou asilo, onde ele acredita que ela não receberia um tratamento tão bom, quanto o que ele é capaz de lhe dar. No entanto, o carinho e o cuidado oferecidos por ele não são suficientes, Anne anseia ter sua independência e sua dignidade (que ela acredita ter perdido) de volta, ela se envergonha de sua condição a ponto de esconder da própria filha a gravidade de seu estado de saúde. A situação se torna ainda mais complicada após ela sofrer um segundo AVC... 


É possível sentir o peso da mão do cineasta em cada uma das sequências, é genial a forma com que ele explora a tensão em algumas passagens e cria rimas e metáforas visuais em outras, um exemplo é a sequência que retrata os momentos antecedentes ao primeiro AVC, nela Anne está sentada a mesa com Georges tomando o café da manhã e de repente fica imóvel, como se tivesse se desligado do mundo. Ele chama por ela e ela não esboça qualquer tipo de reação. Ele corre até a pia, molha um pano e coloca na testa dela. Devido à pressa ele esquece a torneira aberta e o barulho da água que escorre atenua a tensão da cena. Enquanto Georges já estava se preparando para buscar ajuda ele escuta a torneira sendo fechada, a própria mulher a fechara... Em outra passagem, na qual Anne cai da cadeira de rodas, a tensão é reforçada pelo barulho da chuva que cai do lado de fora do apartamento, porém desta vez não é ela quem interrompe o fluxo da água, é Geoges, é ele quem fecha a janela e faz diminuir o barulho, através do sutil paralelo estabelecido entre as duas passagens, percebemos que ele está prestes a assumir o controle, que antes pertencia a ela, porém as atitudes dele não eliminam o problema, elas apenas tentam torná-lo suportável...


A angústia que Anne e George experimentam também é retratada de uma forma simples, mas capaz de causar um forte impacto, a aflição dos personagens se torna quase papável na sequencia em que a mulher tenta falar algo e não consegue, o marido tenta entender o que ela está dizendo, mas tudo parece desconexo e sem sentido. A passagem na qual ele relembra eventos de sua infância e os acontecimentos que se seguem são de um força estonteante, assustadora. Outro ponto interessante da trama é a forma com que ela retrata a alienação dos dois personagens em relação ao mundo externo, neste aspecto é como se Haneke, através do filme, estivesse nos lembrando do quanto a própria vida é banal, assim como as preocupações e afazeres do cotidiano. Os investimentos mal feitos da filha, a turnê musical do ex-aluno, nada disso possui mais sentido para George e Anne, o que lhes sobra é apenas o amor que dá título ao filme. Um amor que não exige nada em troca, que não está baseado em sensações efêmeras, um amor tão forte que é capaz de tomar para si a dor que não pode ser suportada, na esperança de assim aliviar o sofrimento da pessoa amada. 


O lendário ator Jean-Louis Trintignant está soberbo em sua atuação, ele interpreta de uma forma extraordinária tudo aquilo que seu personagem sente, através de gestos sutis e de expressões contidas ele consegue expressar de uma forma natural e convincente a ebulição de sensações experimentadas por ele no decorrer da trama. Emmanuelle Riva, outra lenda vida da sétima arte, simplesmente aparenta não estar atuando, a impressão que se tem é a de que ela está vivendo de fato cada uma das situações vividas pela sua personagem, tamanho o realismo que ela evoca em cada movimento e em cada fala ou expressão facial, é o tipo de entrega que não se vê com tanta frequência e que seria capaz de por si só conferir um alto valor artístico ao filme. A ausência de uma trilha sonora e a opção pelo uso apenas de sons e músicas diegéticos reforçam o realismo do filme, mantém o foco nas atuações e faz com o longa escape de cair no melodrama, o que seria fácil se sua condução estivesse nas mãos de outro diretor. 


Amor é uma obra de arte, é uma poesia cinematográfica tão contundente quanto a própria vida. É evidente que não é um filme que agradará a todos, muitos daqueles que recorrem ao cinema em busca de entretenimento e prazer torcerão seus narizes para a obra de Haneke, estes, no entanto se esquecem de que a arte pode funcionar por vezes como um recorte do real e que a realidade nem sempre é tão bonita e agradável de ser apreciada... Esta é uma obra-prima que provavelmente será lembrada como um dos melhores filmes da década. Ultra recomendado!


Amor ganhou a Palma de Ouro, prêmio máximo do Festival de Cannes, o Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro e está indicado ao Oscar nas categorias de Melhor Filme, Filme Estrangeiro, Diretor, Roteiro e Atriz (Emmanuelle Riva).

Assistam ao trailer de Amor no You Tube, clique AQUI !

A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra.

Confiram também aqui no Sublime Irrealidade as críticas de Caché e A Fita Brancatambém dirigidos por Michael Haneke!

14 comentários:

  1. Bruninho querido!
    Tudo bem? Como tem sido teu início de ano? Espero que bem!
    Não assisti a este filme, ainda, e confesso que não sei se estou preparada no momento para tamanha intensidade... filmes desse quilate e desse grau de imersão.
    Conforme fui lendo tua resenha, aliás muito boa, fui recordando de um livro de Josué Guimarães: "Enquanto a noite não chega" - não sei se você leu este livro, mas impressionante a semelhança, por tratar-se também de um casal octagenário e tudo que envolve o 'amor' a partir desse casal à espera da 'noite'.

    Bruninho, você está sempre no modo ON no que tange a inteligência? Que comentários os seus! Olha, é um privilégio te ter como leitor/comentarista por lá!

    Ah! Outra coisa, hoje adotei mais um filho-gato, de 3 meses, o Quindim. Digo isso pois sei que você gosta de gatos, imagina que ele numa caixinha no meio de uma rua em pleno temporal... agora está aqui comigo com muito carinho e tudo mais.

    Beijos e ótimos dias!

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    1. A dica do livro já está anotada Cissa!
      Sua consideração sobre a intensidade do mergulho é pertinente, "Amour" é um filme que incomoda e é capaz de nos deixar despedaçados diante de sua trama...

      Fico super feliz com o carinho que você teve com o gato, certamente ele lhe retribuirá tudo isso, com seu companheirismo!

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  2. Linda observação. Adorei o filme, mas confesso ficar estarrecido com o desenrolar da trama... nada de emoção, o que me veem em mente é a sensação de provar um chocolate amargo... você consegue ver em alguns momentos espaços que tocam a alma, com pequenas sutilezas, que posteriormente desencadeia o brutal, mas não de maneira grotesca ou apelativa... apenas cenas que anestesiam os tabus do amor (ao menos aquele que você pensa existir, finge ter, deseja suprimir ou viver. abs

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    1. Pois é Thiago, sua reação a ele foi bem parecida com a minha. E isso é na verdade uma característica recorrente nos filmes do Haneke.

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  3. ps: escreva mais coisas sobre Literatura, pls!!!!! Sua escrita é inspiradora, sucesso.

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    1. Obrigado pelos elogios Thiago!
      Eu não tenho publicado resenhas sobre livros nos últimos meses, por um motivo vem simples, estou tendo relativamente pouco tempo para ler. No momento estou lendo, bem vagarosamente, três obras e comentarei cada uma delas assim que terminar a leitura...

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  4. Haneke é um diretor que eu não conhecia. Mas depois de assistir esse fantástico drama me interessei mais por ele. A Fita Branca tem tudo para ser um de meus filmes prediletos.

    Abraço!

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    1. "A Fita Branca" continua sendo meu favorito dele Emerson, é uma obra pima!

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  5. Um filme amargo, cru, doloroso...mas, não menos emocional e intenso, achei denso e instigante a maneira como nos torna próximos do casal. A intensa Riva sabe bem dosar a complexidade de sua personagem, desde os primeiros "sintomas" à face da morte...Trintignant me cativou também, principalmente naquela cena terrível e forte que ele...
    Enfim, eu acho um trabalho digno de Oscar de filme estrangeiro, atriz e, por que não, direção! Sem dúvida, um filme que não apela do público, ainda que seja bem dramático e chocante em umas situações. Mas, Haneke trabalha com devioda paciência e sutileza, eu o admiro por isso.

    Seu texto está muito bem feito, tem amor e detalhes no que escreve, só cuidado pra não contar muito do filme, tem gente que não viu e pode evitar conhecer seu excepcional blog em função disso. Seria bom alertar no texto as passagens "spoiler".

    Abraço!

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    1. As revelações feitas nos comentários (sobre os AVCs) estão também na sinopse do filme e em seu trailer, o que proponho no texto é que situações aparentemente simples sejam vistas com olhos mais atentos...

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  6. Bruno,

    Tudo bem? A sua crítica está impecável. Esse filme para mim é um diálogo perfeito sobre o fim provável. Todavia, percebo um fim que pode ser consciente das limitações e da essência de que podemos muito quando nos aceitamos.

    Beijos.

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  7. Cara, simplesmente adorei a sua resenha. Já estava com uma baita vontade de assistir esse filme, desde que o vi ganhando o Globo de Ouro por Melhor Filme Estrangeiro. Conferi o trailler, e me apaixonei pela simplicidade do enredo e das atuações. Dessa semana, não passa.

    Abração.

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  8. E aí José, lembra quando disse no facebook que só leria seu texto assim que publicasse o meu sobre o filme? Enfim, quando o publiquei na quinta-feira o li, mas depois notei que esqueci de comentá-lo. No entanto, hoje passei e o li de novo sua análise, que digo está ótima. Sua insistência em ressaltar que o filme é uma obra de arte é completamente justificada pela sua escrita. Parabéns pelo texto deste filme excelente!

    Apaguei o comentário acima pq queria acrescentar aqui uma dica para que veja "Breaking The Weaves", de Lars von Trier. É também uma obra-prima que discorre acerca de um casal e seus relacionamentos obsessivos. Se não viu, fica a dica.

    Abraço.

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  9. Amei!Quero assistir! De vez em quando é bom percebermos a finitude da vida para dar mais valor as pequenas cenas do cotidiano. Carla

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