quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

A Dama de Ferro

A Dama de Ferro (The Iron Lady) - 2011. Dirigido por Phyllida Lloyd. Escrito por Abi Morgan. Direção de Fotografia de Elliot Davis. Música Original de Thomas Newman. Produzido por Damian Jones. Film4, UK Film Council e Pathé / UK | France.


Para que se possa entender A Dama de Ferro (2011) em sua plenitude se faz necessária a compreensão de um conceito chave, o neoliberalismo, uma doutrina econômica que prega a menor intervenção possível do estado na economia, o que resultaria numa total liberdade de mercado e teoricamente numa melhor organização social, esta regida, conforme pressuposto, pelas mesmas normas que regulam a economia. O neoliberalismo é uma oposição ideológica e política ao welfare state (estado do bem-estar social), modelo no qual o Estado se torna o responsável pela proteção e promoção social e pela organização da economia. A doutrina neoliberal voltara a ganhar expressão global a partir dos anos 60, ela era um dos reflexos que a guerra fria provocara no mundo ocidental, que tentava combater a ameaça comunista a todo custo. No final dos anos 70, tal sistema econômico ganhou ainda mais força, este fora o jeito encontrado por algumas potencias mundiais para lidar com o exorbitante crescimento dos índices de desemprego, era a forma do Estado de dizer que não tinha nada a ver com aquilo... Entender os conceitos de neoliberalismo e também de welfare state é fundamental para a interpretação do filme dirigido por Phyllida Lloyd. Ao contrário do que alguns críticos apontaram, esta cinebiografia tem sim um forte viés político e este é permeia toda a obra.

Uma das figuras mais emblemáticas do neoliberalismo foi sem dúvidas Margaret Thatcher, primeira ministra do Reino Unido de 1979 a 1990. Sua postura rígida e inflexível lhe deu fama de linha dura, os soviéticos, após as duras críticas que receberam dela, a apelidaram de Iron Lady (dama de ferro). Esta personalidade polêmica e controversa é a protagonista de A Dama de Ferro. A astúcia do roteiro deste filme é tentar humanizar a mulher que já foi apontada como carrasca e até demoníaca. Ao invés de focar tão somente a trajetória política de Thatcher (vivida por Meryl Streep na maturidade e velhice e por Alexandra Roach na juventude), a trama retrata também a sua vida pessoal e familiar, com um zoon em seu atual estado físico e mental (ela está hoje com 86 anos). A figura senil, fragilizada pela idade, e com a mente avariada insurge como um contraponto à imagem da primeira ministra à qual estamos familiarizados.


Eu te amo tanto, mas nunca vou ser uma dessas mulheres, Denis, que ficam caladas e bonitas nos braços de seus maridos, ou distantes e sozinhas na cozinha lavando a louça... A vida tem de ser importante, Denis, além da cozinha, da limpeza e dos filhos. A vida deve significar mais do que isso, não posso morrer lavando uma xícara de chá...

A Dama de Ferro retrata através de seu roteiro não linear a trajetória de Thatcher desde a sua juventude, quando ela trabalhava ajudando o pai em uma mercearia, até os dias atuais, passando é claro pelo auge de sua carreira política, no período que ela ocupou o cargo máximo do poder executivo inglês. A relação de Margaret com sua família, principalmente com o marido, Denis Thatcher (vivido por Jim Broadbent na maturidade e velhice e por Harry Lloyd na juventude), ganha relativo destaque na trama. Ironicamente, ela que esteve distanciada da vida familiar por causa da política, se torna cada vez mais dependente da família na velhice por causa do agravamento de seu quadro de Alzheimer. Margaret não consegue superar a morte do companheiro que sempre esteve ao seu lado (mesmo quando ela o ignorava) e isto ajuda a piorar seu estado psicológico, levando-a a devaneios e alucinações.


Tem-se dito por ai que o filme ameniza o lado negativo da personalidade cine-biografada ao tentar humanizá-la, mas definitivamente não é isso que acontece e o desfecho do filme deixa isso bem claro. É interessante ver que no interior da rígida “pele de ferro”, idealizada pelos assessores da primeira ministra, há um ser humano dotado de emoções e fragilidade, isto a torna real, há aqui a desconstrução do mito (aspecto que chegou a incomodar setores da política inglesa), contudo tal angulação não justifica em nenhum momento a conduta ética da Thatcher, nem algumas das decisões extremas que ela tomou enquanto estava no poder... Sempre digo que em todos os filmes há dois tipos de conotações no que diz respeito à sua abordagem temática, tem as conotações originais, que são atribuídas pelos diretores e roteiristas, e as adquiridas, que são percebidas por cada espectador de acordo com a forma com que este decodifica o filme. Não sei especificar se esta é uma conotação original ou adquirida, mas eu não pude deixar de interpretar toda a trama do filme como uma ironia à atual crise que assola toda a Europa.


Vale lembrar de forma resumida que o neoliberalismo foi indiretamente uma das causas da instabilidade econômica pela qual o continente europeu vem passando desde 2008. Apesar de estar afetando principalmente os membros do bloco do euro, a crise tem gerado reflexos significativos também nos outros países do velho continente e por tabela no resto do mundo. Entendamos então: Um Estado que interfira menos na economia e que exerça um menor controle social consequentemente arrecada menos impostos, e é justamente a baixa arrecadação que tem sido apontada por alguns economistas como uma das principais causas da crise. Quando a crise foi deflagrada em 2008, provando que as leis do mercado não são autossustentáveis, diversos países chutaram o neoliberalismo para escanteio e recorreram ao welfare state, eles criaram bilionários pacotes de ajuda financeira para evitar assim uma situação de desemprego em massa, era o Estado intervindo diretamente na economia, o problema é que diversos países não estavam preparados para isso, com a arrecadação fiscal baixa eles não tinham reservas suficientes para honrar com os compromissos assumidos, o resultado foi um grande endividamento, que levou à elevação do "risco-país" de de diversos membros do bloco do euro e que gerou o atual quadro de incertezas e pessimismo.


A minha conclusão é a de que a Margaret Thatcher retratada no filme é uma clara alegoria da falência do modelo neoliberal observada na atual situação de diversos países europeus como Portugal, Irlanda, Grécia e Espanha. Como não ver na fragilidade da ex-primeira ministra, em seu atual estado, uma representação da decadência do modelo econômico do qual ela se tornou um símbolo? Como não enxergar em sua incapacidade a inaptidão do mercado de se auto regular? Na trama Thatcher descobre que precisa da família para continuar sobrevivendo, enquanto no atual contexto mundial o mercado descobre que precisa do Estado para recolocá-lo nos trilhos... Numa das cenas mais memoráveis do filme, Margareth lamenta não se reconhecer mais ao ver a si mesma, quando ainda era ministra, em um programa de TV; pouco antes disso ela diz para o esposo que um dia ela será reconhecida por ter feito a coisa certa enquanto detinha o poder (maior ironia impossível)...


O roteiro de A Dama de Ferro, apesar de ser engrandecido pela conotação que abordei acima, é irregular e se mostra como o aspecto mais fraco do filme, que poderia ter sido um dos melhores do ano. Abi Morgan põe tudo a perder ao recorrer a um recurso, que beira o realismo fantástico, para representar as alucinações e devaneios de Thatcher. Tal artifício narrativo não parece estar em consonância com o restante do filme, onde predomina uma abordagem mais realista. Durante todo a história a personagem dialoga como o esposo já falecido, o que gera algumas cenas que beiram ao ridículo. Por ser abusivo tal recurso se torna pedante e cansativo. Já a opção de construir a trama de forma fragmentada e não linear, como se estivesse acompanhando o fluxo de lembranças da mente avariada da personagem, funciona bem, apesar de ser prejudicado pelo artifício que mencionei anteriormente. A atuação de Meryl Streep é de longe o melhor aspecto do longa, a atriz chega a  estar irreconhecível em algumas passagens, é mais uma vez assustadora a forma com que ela entra em seu personagem. A Dama de Ferro não é um filme de todo ruim, mas também não é nem de longe um dos melhores de 2011, contudo vale a pena conferi-lo pela abordagem política bem atual e pelo desempenho espetacular de Meryl. Recomendo!


A Dama de Ferro ganhou o Globo de Ouro na categoria de Melhor Atriz de Drama (Meryl Streep) e está indicado ao Oscar nas categorias de Melhor Atriz (Meryl Streep) e Melhor Maquiagem.

Assistam ao trailer de A Dama de Ferro no You Tube, clique AQUI !


15 comentários:

  1. Oi, Bruno.

    Muito boa a sua resenha desse filme que, como você bem apontou, vale sobretudo pela atuação da protagonista. Eu sou da parcela da crítica que acha que a política foi subaproveitada nele; mesmo assim gostei de saber mais sobre o neo-liberalismo (conceitos da Economia não são meu forte...). Tenho, ao contrário de você, a impressão de que Tatcher é a todo momento pintada como um exemplo de fortaleza. Mesmo quando a cabeça dela está em frangalhos o que ela faz é se portar como uma lady, dizer em público só coisas apropriadas (a moça que se ajoelha em frente a uma Tatcher já velha é bem prova de onde a ex-primeira ministra simbolicamente é colocada - num espaço de louvação e não de análise crítica). Prova também do olhar simpático à insânia dela é o ritmo de musical que deram para tudo - ela jovem ou velha rodopiando no salão com o marido morto ou vivo estabelecem uma relação de continuidade entre passado e presente; ambos vicejantes, ágeis, nos quais quem dá as cartas é ela (mesmo o marido é marionete). Em meio a tanto "Shaw we dance", a política naufragou. Sobram frases feitas e posicionamentos que a colocam invariavelmente como heroína (tanto que é estapafúrdia a sequência em que ela é convidada a sair - depois de um quiproquó bobo, e não de uma situação política que ela própria criou).
    Mas pra dizer a verdade, eu particularmente achei a coisa toda divertida. Fiquei sim meio incomodada com as sequências quase farsescas dela com o marido morto, sequências que pediam o riso fácil da plateia. Mas nem todos os filmes são grandes, e a gente perdoa aqueles que nos divertem...

    Bjo
    Dani

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    1. Eu achei que a montagem do filme, apesar de ser bem capenga, tenta desconstruir tal visão que temos da Margaret forte e inflexível, momentos como o que ela recorre á ajuda dos filhos (mesmo do que está distante dela) são uma prova disso, ela não se reconhecer mais ao se ver na TV também... As sequências dela com o marido são de longe as piores do filme...

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  2. Oi Bruno,

    Tudo bem? Sou fã de carteirinha de Margaret Thatcher. Percebo no seu texto um conhecimento impar sobre política fiscal, principalmente, do relevante papel da intervenção do papel do estado no mercado. As crises de 2008 e 2010 comprovam que o mercado não se regula isoladamente. Keynes já discutia isso no passado, mas como o modelo neo-liberal veio como modismo, muitos se perderam com a crise no capitalismo.

    Quanto a Meryl Steep vou falar o que a Veja da semana falou: é um assombro e a primeira ministra é tudo o que os britânicos precisavam naquele período.

    Estou maluca porque nao assisti o filme, pois esse carnaval cai na folia, literalmente e nada de livros, posts ou filmes, mas vamos recuperar.

    Quero passar aqui após ter os me3us comentários sobre o que verifiquei.

    Beijos.

    Lu

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    1. Eu lhe esperarei Luciana, estou curioso para saber qual a sua visão sobre o filme, uma vez que você a admira tanto... Eu queria poder conhecer melhor sobre a vida dela, sobre o lado humano (do qual o filme não serve como parâmetro), afinal a única visão que tenho sobre ela foi aquela passada pelas bandas anarco-punks oitentistas da Inglaterra...

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  3. Jose...vc pelo visto naum é de ouvir criticas, ne? so quer elogios...seu blog é muito incrivel e lindo...e vc sabe escrever divinamente...mas voce prolonga demais seus textos..sao enormes...cansativos...voce detalha demais o filme...serio, pouca gente aki vai ler tudo...ainda mais quem naum viu o filme neh...mude isso...reduza...volte a antigamente...no começo do blog aki vc escrevia mais objetivo...e sabia fazer...voce detalha demais..joga tantas informaçoes...repense isso...ta querido? esse texto aqui mesmo voce inseriu tantas coisas...politica...apanhado historico..falou taaaanto do filme...fica chato, as vezes..pense mesmo..beijux!

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    1. Olá,
      Sabe, não é que eu não ouço críticas, muitas das mudanças que fiz no blog desde que ele foi criado foram resultados de críticas e sugestões de leitores, eu já tinha respondido seu primeiro comentário na resenha do filme "A Fita Branca", porém como voc~e não se identificou eu não pude entrar em contato para lhe responder pessoalmente, então reproduzo aqui uma parte de minha resposta:

      "o tamanho de casa resenha não é algo proposital ou pré-definido, é algo que acaba fluindo de acordo com a impressão que tive de cada filme... Quanto á questão da objetividade, é um aspecto que não preocupo tanto, pois vejo cada filme como uma obra de arte (seja ela boa ou ruim) e quando se trata de arte, definitivamente não tem como ser objetivo. E a falta de objetividade é um forma de subverter também o modelo de texto jornalístico com lead e "pirâmide invertida", que eu particularmente desprezo... Sobre contar muito do filme, eu não creio que eu o faça, geralmente as informações que passo estão presentes também na sinopse ou no trailer, senda assim não dá para dizer que são spoilers... Quando à desconstrução da obra, que tento fazer em cada análise, ela é mais pessoal e sendo assim, será provavelmente diferente com cada um que assistir ao filme..."

      No caso da resenha acima, eu não acho que eu tenha inserido tanta coisa como você disse, eu apontei uma teoria e a defendi, para isso tive que contextualizar, para que minha argumentação não fosse de todo vazia... Eu sempre tento escrever o tipo de texto com o qual eu gosto de me deparar na internet, sinceramente para mim o tamanho não é o problema... lembro de um dos posts do Zeca Camargo em seu blog que ele comentou, que seus narizes de cera eram para espantar o público que não gosta de ler, pois estes não o interessavam... Eu penso um pouquinho diferente, para mim me interessam todos os públicos, porém me recuso a me enquadrar em determinado padrão apenas para agradar a um público médio, se fosse fazer de tal forma estou certo de que eu perderia todo o tesão...

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  4. Meryl Streep arrasa mais uma vez, mas isso já é normal, não é verdade?

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    1. Ela atua em um padrão bem acima do normal, ela é sobrenatural Gilberto!!!

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  5. Estava na lista para ser visto durante o feriadão que passou... mas, acabei me empolgando com essa de ficar reclusa, sem contato algum com o mundo externo! hahahah... ficou pra próxima! Ouvi algumas críticas de que não foi tão bom... mas, como não dou ouvidos, prefiro ver e tirar minhas próprias conclusões! Sacomé, ne? Sou dessas...hahaha Sem contar que é com a Diva Meryl, atriz que adooooooro!

    bjkssss

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    1. O filme não é tão bom Joicy, ele é fraco, mas também não é algo tão horrível como todos estão dizendo! O melhor é assisti-lo para tirar suas próprias conclusões... e não se esqueça de voltar aqui depois! Beijão!

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  6. O filme não é grande coisa, mas a atuação de Streep é gigantesca. Se ela não levar o Oscar será uma sacanagem.

    O Falcão Maltês

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    1. Levou! Justiça foi feita meu caro Antonio!

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  7. Interessante sua interpretação, embora acho que o filme almeje muito menos que isso. É só uma cinebiografia extremamente convencional que, discordo de você, só mistifica mais a biografada. Você sai do cinema com as mesmas informações com que entrou. Ou seja, não sabe quem foi Margaret na sua vida pessoal, quem foi sua figura política, nem nada. Uma das maiores causas disso é a pretensão enorme dos roteiristas, buscando retratar três fases da vida dela, de forma que acabam não se aprofundando em nenhuma. Além disso, a direção da mulher do Mamma Mia! é absurdamente ridícula, em planos sem lógica, com pouco domínio narrativo - ou nenhum, eu diria. O marido da Margaret também destoa em relação ao resto do filme, enchendo o saco... Claro, Meryl Streep dá show, mas isso não é surpresa. E não achei sua atuação de outro mundo, confesso. Há algumas pessoas que dizem ser a melhor de sua vida. Bem, dos recentes, citaria, pelo menos, Dúvida, que não só ela, como o filme, são melhores.

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    1. Acho que a proposta foi boa, no entanto nem a montagem, nem o roteiro ajudaram, por isso o filme não corresponde plenamente as expectativas, mas como eu disse, eu não o acho um filme de todo ruim, ele tem algumas boas sequências e alguns aspectos bem legais...

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  8. Baixar o Filme - A Dama de Ferro - Dublado - http://mcaf.ee/s03qb

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