quarta-feira, 1 de maio de 2013

De Tanto Bater Meu Coração Parou

De Tanto Bater Meu Coração Parou (De Battre Mon Coeur s'est Arrêté) - 2005. Dirigido por Jacques Audiard. Escrito por Jacques Audiard e Tonino Benacquista, inspirado no roteiro original de James Toback. Direção de Fotografia de Stéphane Fontaine. Produzido por Why Not Productions / França.


Às vezes deixamos de lado os sonhos que tínhamos e enveredamos por caminhos que em algum momento nos pareceram mais práticos e convenientes, em boa parte das vezes uma má escolha deste tipo é sucedida por um paralisante comodismo, que nos mantém presos à estrada errada e cada vez mais distantes do sonho de outrora. Este é o drama vivido por Thomas Seyr (Romain Duris), o personagem central de De Tanto Bater meu Coração Parou (2005), filme dirigido pelo cineasta francês Jacques Audiard. Em sua trama, o longa, que é uma releitura do americano Fingers (1978), retrata os obstáculos que o personagem supracitado se vê obrigado a transpor quando decide abandonar uma vida de contravenções e se dedicar a uma atividade que lhe traz prazer e autorrealização. 

Thomas deixara de lado uma promissora carreira de pianista para trabalhar ao lado do pai, Robert Seyr (Niels Arestrup), que ganha a vida com negócios sujos ligados à especulação imobiliária. As atividades ilícitas que realizam juntos incluem o emprego da violência na cobrança de aluguéis atrasados, o despejo de pessoas que invadem imóveis abandonados (o que também é feito de forma violenta) e a prática de trapaças para desvalorizar imóveis que estão à venda (como soltar ratos em seus aposentos). Este é um negócio lucrativo para ambos, porém Thomas sabe dos riscos que eles correm por estarem se envolvendo com gente perigosa, isso, somado à sua falta de realização neste trabalho, o faz voltar-se para o seu antigo sonho, o de ser pianista, que fora reacendido após um convite para uma audição. 


A música possui ainda outro significado para o rapaz, ela é a herança que lhe fora legada por sua mãe, que também era pianista, dela ele herdou ainda a sensibilidade artística, que em diversos momentos da trama acaba se chocando com a brutalidade do meio em que ele atua. Ciente de que precisa retomar a velha forma antes da audição, Thomas decide voltar a estudar música e sua busca por um professor o leva até Miao Lin (Linh Dan Pham), uma pianista chinesa residente em Paris, que se dispõe a discípula-lo. Miao não fala uma palavra sequer em francês e isso dificulta a comunicação entre eles, no entanto, pouco a pouco, a própria música insurge como uma linguagem universal capaz de tornar compreensível aquilo que cada um deles sente e busca.


Evocando um contexto que já é característico dos filmes de Jacques Audiard, De Tanto Bater meu Coração Parou adota em sua narrativa um realismo seco, indigesto, que só é amenizado na trama quando os personagens entram em contato com o sublime através da arte. Num brutal cenário de poucas oportunidades e de parca esperança, Thomas luta para não perder aquilo que ainda é capaz de alimentar seu sonho, a sua sensibilidade, o que remete ao significado poético do belíssimo título dado ao remake. É como se a própria sensibilidade de Thomas fosse a causa de sua ruína artística, por medo de sentir tanto, ele um dia negou seu próprio dom, esperando com isso silenciar seu coração, que lentamente volta a bater no decorrer da trama, à medida que ele se dispõe a lutar contra o fatalismo de sua vida... 


Romain Duris, Niels Arestrup e Linh Dan Pham estão ótimos em seus personagens. Duris interpreta de uma forma magistral as dúvidas e o dilema ético que acomete Thomas e a briga que ele trava contra si mesmo para reascender em seu coração o ardor de algo que um dia alimentou sua alma. Arestrup também dá vida a um personagem complexo, que reconhece a própria falência e a do mundo à sua volta, mas não consegue se imaginar em uma vida diferente da que leva, a sutileza da atuação do ator veterano é o que torna Robert tão humano, mesmo sendo tão desprezível em algumas passagens. Dan Pham também está muito bem naquela que talvez seja a atuação mais complicada do filme, mesmo dizendo poucas palavras compreensíveis, ela consegue, através de gestos sutis, olhares e expressões, expressar de forma clara os sentimentos, incertezas e temores de sua personagem.


De Tanto Bater meu Coração Parou não é um feel good movie, nem tão pouco uma história sobre superação, portanto, não se pode esperar dele um desfecho reconfortante. Mantendo o viés realista, o roteiro sabiamente descarta em seu desfecho qualquer apelo motivacional e assim evita cair na armadilha de querer dar uma resolução para cada um dos conflitos surgidos no decorrer da história. Aqueles que esperam dele uma abordagem diferente desta podem acabar decepcionados, por outro lado, os que entendem que o valor artístico de uma obra cinematográfica não está no fato dela ser cativante ou triunfalista certamente irão reconhecer que estão diante de uma grande obra, um filme bruto e ao mesmo tempo sensível, tal como a vida por vezes o é. Ultra recomendado!


Assistam ao trailer de De Tanto Bater meu Coração Parou no You Tube, clique AQUI !

A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra.


Confiram também aqui no Sublime Irrealidade a crítica de Ferrugem e Osso (2012), também dirigido pelo Jacques Audiard.

2 comentários:

  1. Gostei da resenha, não conheço esse trabalho do Audiard, mas por vezes já esbarrei nele. Imaginava algo diferente... O cinema francês tem uma sensibilidade enorme para trabalhar essas temáticas. Curioso que dessa vez o sentido foi inverso, franceses fazendo remake de americano. Fiquei curioso também em assistir o original. Abração!

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  2. Ixi Brunão... Parece um filme dificil de assistir. Daqueles que tem que ver num dia em que se está com a alma leve, para poder apreciar a arte.

    Gostei da sua resenha como sempre né? Vc é mestre nisso.

    Parabens meu amigo e tenha uma linda semana!

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