quinta-feira, 9 de maio de 2013

Amores Brutos

Amores Brutos (Amores Perros) - 2000. Dirigido e produzido por Alejandro González Iñárritu. Escrito por Guillermo Arriaga. Direção de Fotografia de Rodrigo Prieto. Música Original de Gustavo Santaolalla. Altavista Films e Zeta Film / Mexico.


Em Amores Brutos (2000), seu primeiro longa metragem, Alejandro González Iñárritu adentrou em um universo que seria recorrente a partir de então em todos os seus filmes. Ao retratar situações de tensão, dor e sofrimento ele cria representações universais que apontam para aquele que também viria a ser o mote de suas obras seguintes: a busca de indivíduos corrompidos por algum tipo de redenção. O foco da trama deste debut está no processo de desumanização, do quais seus personagens se tornam vítimas ao serem inseridos em situações extremas. O excelente roteiro escrito pelo Guillermo Arriaga (que colaboraria com Iñárritu em outros dois filmes) explora o mesmo tipo de construção de narrativa que seria reutilizado em 21 Gramas (2003) e em Babel (2006), no qual sub-tramas independentes são desenroladas até chegar a um ponto de convergência, onde se encontram e ganham uma espécie de sentido maior.

A história de Amores Brutos, que se passa na Cidade do México, é composta por três núcleos distintos, ligados à princípio pelo fato de que em todos eles há a presença de cachorros, cujos comportamentos parecem em alguns momentos se confundirem com o dos personagens humanos (não por acaso, o título do filme no original seria, em tradução literal, algo como 'amores caninos'). Octavio (Gael García Bernal), o protagonista da primeira das três sub-tramas, é um jovem desempregado que mora em uma região suburbana com a mãe, o irmão mais velho, o sobrinho ainda bebê e a cunhada. Tomado pela ambição de ganhar algum dinheiro, que torne possível seu plano de fugir com Susana (Vanessa Bauche), a mulher do irmão, ele decide inscrever seu cachorro em violentas rinhas, que são organizadas de forma clandestina. 


Na segunda história, conhecemos a Valeria (Goya Toledo), uma modelo que goza de considerável prestígio no meio em atua, ela é a amante do empresário Daniel (Álvaro Guerrero), um homem rico que vive com a esposa e duas filhas ainda pequenas. Cumprindo o que já vinha prometendo há algum tempo, Daniel abandona sua família e compra um apartamento para morar com Valeria. A tensão, que é crescente nesta sub-trama, começa quando o poodle da moça entra por uma fresta no assoalho e acaba se perdendo no vão que há entre o piso de madeira e chão do apartamento, deixando como sinal de vida apenas seus grunhidos, que podem ser ouvidos em diversos pontos do apartamento. A apreensão provocada pelo andamento da trama é atenuada em um segundo momento, após uma trágico agravante.


A terceira sub-trama gira em torno de Chivo (Emilio Echevarría), um andarilho, que vaga pelas ruas da cidade juntando materiais recicláveis para vender. Este é o personagem mais enigmático e talvez o mais interessante do filme, em sua composição é possível perceber claramente a construção metafórica que Iñárritu e Arriaga buscam associar à história contada. Chivo vive cercado de cachorros de rua, ele os acolhe e divide com eles o pouco que tem, em sua relação com eles está o seu último elo de ligação com um humanismo, que ele aparentemente perdeu. Tempos atrás, ele se viu obrigado a tomar uma decisão que o afastou de sua esposa e de sua única filha, que na época ainda era uma criança. Ele não se arrepende de ter agido de tal forma no passado, mas espera um dia ter o perdão da filha, que sempre acreditou que ele já estava morto.


Em dado momento, uma situação interliga as três histórias. Um acontecimento trágico dará início a um penoso processo de transformação, que será vivenciado por boa parte dos personagens. É a partir deste ponto que se iniciará a busca de alguns deles por algo que seja capaz de tornar suportável o sofrimento vivenciado. Enquanto uns acreditam poder ter de volta aquilo que perdeu, outros agonizam diante da possibilidade de que os planos, nos quais depositavam todas as suas esperanças, jamais venham a se concretizarem. É então que surgem as perguntas que dão todo o sentido para a trama: Estamos à mercê do meio em que vivemos? O condicionamento, fruto da influência do meio, pode por si só justificar os atos violentos e isentar da culpa aqueles que os cometem? É possível encontrar paz e redenção, estando ainda imerso em um mundo que parece, a cada dia, se tornar mais cruel e embrutecido?


Amores Brutos é inegavelmente um filme violento e isso o torna indigesto para uma boa parte do público, todavia, a violência que impressiona nele não é a gráfica, mas aquela edificada sobre situações triviais e por isso passíveis de acontecer om qualquer um de nós. O terror psicológico, que tem sua intensidade aumentada à medida que a trama se desenrola, chega a se tornar uma experiência angustiante em determinadas passagens, ora por evocar complexas questões éticas e morais, ora por nos assustar com a revelação daquilo de mais brutal e cruel que somos, como humanidade, capazes de fazer. Diante das passagens que retratam as horríveis brigas de cães, somos incitados a questionar quem de fato são os animais irracionais e violentos, os cachorros que se mutilam nas disputas ou aqueles que os treinam para tal. Da mesma forma, somos levados a refletir sobre até que ponto o comportamento violento dos indivíduos não são, tal como o dos cachorros, uma espécie de resposta aos estímulos externos que recebem e não o resultado de uma natureza intrínseca...


O impacto do filme é reforçado pela força das atuações, que tornam o drama de cada um dos personagens plausível e condizente com tipo de abordagem - sem lirismos - que o filme adota. Destaco os desempenhos do Gael García Bernal, que na ocasião era ainda um ilustre desconhecido, e do Emilio Echevarría, ambos imergem de uma forma assustadora em seus respectivos personagens e dão a eles veracidade e credibilidade. A montagem fragmentada e o desenvolvimento do roteiro não linear dão ao filme um ritmo rápido, que faz com que ele consiga estimular a tensão e prender a atenção do expectador da primeira à última cena, sem que sua história se torna cansativa ou desinteressante em nenhum momento. Destaco ainda a ótima trilha sonora original, composta por Gustavo Santaolalla, outro colaborador habitual do Alejandro González Iñárritu, ela pontua os momentos de tensão e salienta o quão algumas situações são desesperadoras.


Creio que seja necessário deixar claro que as cenas que retratam as brigas de cães na rinha não são reais (confesso que o temor de que elas o fossem, como muitos afirmam, foi um dos motivos que me fizeram deixar o filme em segundo plano durante tanto tempo). Olhares mais atentos perceberão que a suposta veracidade de tais passagens é fruto de um excelente emprego da técnica cinematográfica. Ótimos trabalhos de edição e mixagem de som, cortes nos momentos certos, movimentos rápidos de câmera e a trilha sonora, que atenua a tensão, são alguns dos elementos responsáveis pelo realismo das cenas e pelas polêmicas que elas continuariam rendendo até hoje (vide comentários na página do filme no Filmow). Eu certamente não indicaria Amores Brutos para os que são sensíveis à exploração da violência pela narrativa, contudo, ainda acredito que ele seja uma das melhores obras de um dos mais competentes cineastas da atualidade. Recomendo-o para os que têm coragem suficiente para se expor ao contunde retrato da podridão humana que ele nos oferece!



Amores Brutos foi indicado ao Oscar na categoria de Melhor Filme em Língua Estrangeira e em Cannes recebeu o Critics Week Grand Prize e o Young Critics Award.


Assistam ao trailer de Amores Brutos no You Tube, clique AQUI !

A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra.

Confiram também aqui no Sublime Irrealidade a crítica de Babel (2006), também dirigido pelo Alejandro González Iñárritu.

3 comentários:

  1. Bruninho Bom Dia ,

    Tudo Bem?

    Excelente resenha, moço!
    Soui fã do trabalho cru e poético de Iñárritu. Neste filme todo destaque vai para Chivo(o meu preferido) e olha que tenho uma queda pela atuação do Gael ;)

    saudades de ler você :)


    besos.

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  2. Acho Iñárritu um dos mais admiráveis na contemporaneidade (Biutiful é um dos meus favoritos) e o trabalho com o Arriaga tem muita sintonia. Ótima resenha! Beijo

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  3. Oi Bruno,

    Tudo bem? Continuo encrencada com as atividades e por isso só agora, chego aqui. Não conheço o filme, mas já ouvi falar de González Iñárritu. Não me empolgo pela violência do cotidiano, mas gosto da ideia de filmes que alentam a questão da desumanização e da tentativa de refugo quando encontramos apenas as partes de uma realidade maior. Anotado!

    Beijos.

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