domingo, 19 de maio de 2013

8 Mulheres

8 Mulheres (8 Femmes) - 2002. Dirigido por François Ozon. Escrito por François Ozon e Marina de Van, livremente baseado na peça de Robert Thomas. Direção de Fotografia de Jeanne Lapoirie. Música Original de Krishna Levy. Produzido por Olivier Delbosc e Marc Missonnier. BIM, Canal+, Centre National de la Cinématographie (CNC), Fidélité Productions, France 2 Cinéma, Gimages 5, Local Films e Mars Distribution / França | Itália.


Em sua livre adaptação da peça de Robert Thomas, François Ozon reúne influências de diversos gêneros, inclui um bocado de citações à clássicos do cinema e explora um tipo de humor baseado no exagero e no absurdo. Do texto original, o roteiro, escrito por ele e pela Marina de Van, preservou a crítica social e a visão sarcástica da moral constituída e dos costumes da sociedade no período retratado, além de diversos outros elementos típicos da linguagem teatral. O tom tragicômico que a trama adota em seu desenvolvimento torna menos incômoda, mas não menos contundente, a visão amarga e fatalista dos relacionamentos, que se sobressai no retrato de uma família em processo de desestruturação. Neste ponto está um dos mais notáveis feitos do filme: ele consegue ser ácido sem perder a leveza e criticar sem perder seu senso de humor, que beira ao nonsense em algumas passagens.

A história gira em torno das oito mulheres, às quais o título do filme se refere, elas ficam presas em uma mansão, após um misterioso assassinato, do qual todas são suspeitas. A vítima foi Marcel (Dominique Lamure), o provedor da casa, ele fora encontrado pela manhã em seu quarto com uma faca cravada em suas costas. Isoladas devido à neve alta que cerca a casa e sem poder chamar a polícia, porque os fios do telefone foram cortados, as oito mulheres iniciam uma investigação para elucidar o crime, com um inquérito que acaba pautado pelas inúmeras acusações que trocam e pela revelação de vários segredos, que vêm à tona à medida que o cerco vai se apertando contra cada uma delas. Com o desenrolar da trama, se torna mais difícil apontar uma inocente do que uma culpada, uma vez que todas, sem exceção, são de alguma forma responsáveis pela situação em que a família já se encontrava antes do crime.  


Gaby (Catherine Deneuve), esposa de Marcel, é a herdeira legal de seus bens e isso, somado ao fato de que seu casamento estava em crise, a torna uma das primeiras a serem acusadas. Suzon (Virginie Ledoyen), a filha mais velha, que acabara de chegar para passar o natal,  tem à princípio um bom álibi, não por acaso é ela quem conduz as investigações num primeiro momento, porém, após algumas revelações ela acaba se tornando vítima de sua própria inquisição. Catherine (Ludivine Sagnier), a filha caçula, já não aguenta mais ser tratada como criança e sua revolta adolescente, associada ao seu gosto por livros sobre mistérios e assassinatos, a torna um alvo fácil para acusações e calúnias. Mamy (Danielle Darrieux), sogra do morto, se torna suspeita devido à sua ambição desmedida e seu descontentamento em relação à sua própria situação na casa, a de uma dependente do genro.


Augustine (Isabelle Huppert), cunhada de Marcel, é a típica solteirona afetada, que justifica seu comportamento pedante com seus ataques fingidos e suas falsas doenças, o fato de ela ser uma mentirosa nata a coloca em maus lençóis durante a investigação. Pierrette (Fanny Ardant), irmã da vítima, é dançarina de cabaré e seu comportamento liberal a torna a ovelha negra da família e, óbvio, uma outra grande suspeita, ela, que é a última a entrar em cena, diz ter recebido uma ligação avisando sobre a morte do irmão e por isso resolveu aparecer para checar se a informação era ou não verdadeira. Louise (Emmanuelle Béart), a camareira, desperta a desconfiança das demais com seu jeito sensual e seu comportamento misterioso, típico de uma mulher fatal. Madame Chanel (Firmine Richard), a outra empregada, aparentemente não tinha motivos para cometer o crime, porém ela poderia tê-lo feito para proteger uma outra personagem. 


A reunião deste grupo de personagens caricatos sob um mesmo teto resulta em situações improváveis, que chegam a parecer surreais tamanho o exagero com que são retratadas, todavia, em meio ao absurdo da trama, podem ser percebidos elementos que permitem que ela seja classificada como uma 'farsa', gênero caracterizado pela construção de uma crítica social através de um retrato burlesco das imperfeições e fraquezas humanas. A trama de 8 Mulheres retrata a hipocrisia, a mesquinhez e os preconceitos que a sociedade se nega a aceitar que tem, o tom crítico ganha evidência nas passagens em que são retratados o abismo que existe entre as classes sociais retratadas e o preconceito contra aquele que adota um comportamento diferente do que é tido como padrão, o que se nota na forma com que as empregadas são tratadas e na reação das demais quando uma das personagens assume sua homossexualidade.


O tipo de interpretação que todas as oito atrizes entregam é condizente com a proposta do filme, em seus  gestos largos, empostações vocálicas ritmadas e expressões pitorescas está uma espécie de extensão daquilo que também pode ser observado na direção, no roteiro e na parte técnica da longa. Há uma certa desproporcionalidade em cada um desses aspectos; as interpretações são dramáticas demais, as cores excessivamente saturadas, a trilha sonora recorre aos clichês mais manjados e os números musicais, interpretados por cada uma das oitos personagens, soam deslocados, devido à forma abrupta com que são encaixados na trama. À primeira vista, há a impressão de que estamos diante de uma encenação tosca e pobre em significações, no entanto, a adoção da estética kitsch não se torna um problema para o filme, muito pelo contrário, na verdade, nela se encontram todo o seu potencial reflexivo e originalidade.


François Ozon usa os excessos como elementos da narrativa e imprime em cada um deles a sua marca autoral (a convergência entre linguagens distintas é recorrente em sua obra). Nas mãos de um outro cineasta esta adaptação corria o risco de se tornar um grande fiasco, Ozon, no entanto, elimina todo este risco com seu total domínio da linguagem cinematográfica, o que lhe permite um flerte tão bem sucedido com a linguagem teatral. 


8 Mulheres é uma deliciosa comédia de costume, com ares de mistério e suspense, capaz de nos proporcionar ótimos momentos de entretenimento e reflexão, coisa rara em filmes do gênero hoje em dia. Ao assisti-lo, preste atenção na ótima atuação da Isabelle Huppert (o que constitui um dos melhores aspectos do filme) e no número musical da Fanny Ardant, no qual ela começa um strip tease e para após tirar as luvas  (uma clara referência à cena clássica de Gilda (1946)). 


8 Mulheres ganho o Urso de Prata de Contribuição Artística no Festival de Berlim, um reconhecimento ao desempenho de seu elenco.

Assistam ao trailer de Dentro da Casa no You Tube, clique AQUI !

A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra.

Confiram também aqui no Sublime Irrealidade a crítica de 
Dentro da Casa (2012)também dirigido por François Ozon.

11 comentários:

  1. talvez o melhor momento de ozon no cinema. cumprimentos cinéfilos, caro amigo.

    O Falcão Maltês

    ResponderExcluir
  2. Belo filme........diretor que me conquistou com Sitcom - Nossa Linda Família.

    Concordo com o amigo Antonio Nahud Júnior......melhor momento de Ozon no Cinema.

    abs

    ResponderExcluir
  3. Humm, gostei demais Bruno! Amo filmes de suspense e este aqui tem algumas pitadas, talvez não do tipo "Àgatha Christie", mas ainda assim, bastante instigante! Preciso vê-lo já..rs. Parabéns mais uma vez pelo brilhantismo de suas impecáveis resenhas! Sou fascinada pelo "Sublime Irrealidade"!
    Beijão!

    ResponderExcluir
  4. Olá Bruninho,
    Tudo Bom?
    Ainda não vi este...Mas, gosto do trabalho do Ozon.

    Parabéns, pelo texto ;)
    bjão

    ResponderExcluir
  5. Ele e também, Almodóvar, os únicos capazes de dar esse toque feminino esperto e extrair um nível de atuação exagerado do elenco feminino, todas acertam e estão em seus melhores desempenhos. Fanny Ardant esta sensacional!

    Eu também gostei, Ozon, com este filme, demonstrou ser tão bom quanto um Almodóvar. "8 Mulheres" tb me faz lembrar do clássico da comédia "Assassinato Por Morte", inspirado na obra de Neil Simon, Murder By Death, 1976. Tem um elenco de estrelas, Peter Falk, Perter Sellers, Alec Guinness, Elsa lanchester... se não assistiu, recomendo! É mais pastelão. Hahaha!

    Abs!

    ResponderExcluir
  6. O título me lembrou Felini, por causa do número. Mas só ficou na lembrança, pois após ler seu post, verifiquei que são outras as referências. O amigo também comentou Assassinato por Morte, que também envolve mistério e comédia com um elenco de estrelas. Vale a pena conferir.

    ResponderExcluir
  7. Oi Brunão, meu amigo!
    Rapaz, apesar de sua resenha estar como sempre maravilhosa, bem escrita e competente; a história do filme não assanhou minhas lombrigas para assistí-lo! Eu detesto musicais, hahahahahahahahahahaha. Acho muito sem propósito cenas de musica dentro de filmes. Mas eu não sou o dono da verdade, hahahahaha, apenas não gosto!

    Mas valeu por poder ler mais uma bela postagem sua. Quem sabe assim um dia eu aprendo a fazer resenhas, hahahahahaha.

    ResponderExcluir
  8. Oi Bruno,

    Tudo bem? Quando assisti esse filme, tive a sensação que o universo feminino é muito semelhante, independente de cultura e local de origem. E como se fosse a história da minha família, da minha sala ou da vizinhança. Parabéns pela reflexão!

    Beijos.

    ResponderExcluir
  9. Não concordo que seja o melhor momento de Ozon que o amigo acima afirma. É um filme bom, mas fica aquém de obras como O Refúgio, Gotas D´Água em Pedras Escaldantes, Ricky e até mesmo o recente Dentro da Casa. Quando fala em Ozon, sou especialista... ehhehe... Vi praticamente todos!

    ResponderExcluir
  10. Como se consegue arranjar o livro em Português?

    ResponderExcluir
  11. Como se consegue arranjar o livro em Português?

    ResponderExcluir