domingo, 26 de maio de 2013

O Som ao Redor

O Som ao Redor - 2012. Escrito e Dirigido por  Kleber Mendonça Filho. Direção de Fotografia de Pedro Sotero e Fabricio Tadeu. Música Original de DJ Dolores. Produzido por Emilie Lesclaux. CinemaScópio / Brasil.


"Nascido da união de várias formas de expressão que não perdem inteiramente suas leis próprias (a imagem, a palavra, a música, os ruídos até), o cinema está na obrigação de compor, em todos os sentidos da palavra. É de imediato uma arte, sob a pena de não ser nada. Sua força ou fraqueza consiste em englobar expressividades anteriores; algumas são plenamente linguagens (o elemento verbal), outras apenas num sentido mais ou menos figurado (a música, a imagem, os ruídos)."

A citação acima, retirada do artigo 'Cinema: Língua ou Linguagem?', escrito pelo teórico francês Christian Metz e publicado em sua obra A Significação no Cinema, nos ajuda a compreender onde está, ao menos em parte, o mérito de O Som ao Redor (2012), filme dirigido por Kleber Mendonça Filho, que é de longe uma das melhores obras produzidas pelo cinema nacional nos últimos anos. A força deste contundente tratado cinematográfico sobre a tensão crescente nas grandes cidades se encontra justamente na maneira com que ele usa formas de linguagem não verbais, principalmente o som (diegético e não diegético), para construir sua narrativa. O diretor demonstra ter plena ciência de que o cinema como expressão artística é, tal como Metz defende, uma composição e que seu valor pode ser nulo se for evidente sua incapacidade de proporcionar uma convergência entre as linguagens 'anteriores', das quais a sua própria é constituída.

A máxima, repetida por inúmeros críticos e cinéfilos, de que o cinema é tão somente imagens em movimento é  reducionista, por cometer um erro primário, ela contraria a preposição de Metz, na qual acredito, de que o cinema nasce é da união de outras formas de expressão, não sendo portanto uma arte plena em inovação e capaz de se esgotar em si mesma. Neste ponto, vale lembrar que mesmo nos tempos do cinema mudo, a música e outros efeitos sonoros, que eram executados ao vivo nas salas de projeção, já ajudavam a compor ou complementar a linguagem de alguns filmes, aos quais davam acompanhamento. Acredito, portanto, que o cinema é a arte da convergência e que habilidoso é o cineasta capaz de exercer um domínio sobre os elementos de linguagem presentes em seus filmes e de usá-los a favor da construção da narrativa. Mendonça Filho demonstra ter este pleno controle, o que fica evidente na forma com que ele estabelece em seu longa um contínuo fluxo de comunicação não verbalizado, construído por meio de enquadramentos, da montagem e principalmente da edição e mixagem de som. 


Em cada aspecto de O Som ao Redor há uma gama de significações e mensagens capazes de provocar um enorme impacto no espectador, que pode, dependendo de seu nível de compreensão, ficar sem entender de onde vem tal sensação. É este fenômeno que me leva a classificar o filme como uma obra predominantemente sensorial. Todavia, apesar de sua notável capacidade de induzir reações diversas em seu público, ele pode ser classificado ainda como um filme reflexivo, eu até filosófico; parece contraditório, mas não é. O incômodo e a apreensão que ele nos proporciona nos conduz a inúmeros questionamentos, que surgem do fato de que a origem daquilo que sentimos durante a sessão não nos é prontamente revelada. Não se trata de um filme com respostas prontas ou com conflitos de fácil resolução e por conta disso os mais desatentos correm o risco de não enxergar onde de fato está o epicentro da trama, que é complexa e não alivia para o espectador em suas diversas inferências.

O foco da narrativa está no cotidiano de um grupo de moradores de uma mesma rua, localizada em um bairro de classe média do Recife e na forma com que ele se altera após a chegada de uma equipe de agentes, que oferecem, por um bom preço, um serviço de vigilância noturna. Neste microcosmo, capaz de representar a sociedade como um todo, podem ser percebidos inúmeros conflitos, alguns surgidos do atrito entre as classes sociais distintas que dividem este mesmo espaço urbano, outros do contínuo aumento da violência e da criminalidade no local. Durante todo o desenvolvimento do filme pode ser notada uma tensão crescente, uma espécie de agonia, que pode ser sentida mesmo nas sequências mais banais. Esta sensação é de certo modo uma extensão do medo que cada um dos personagens experimentam. A impressão é a de que paira no ar algum tipo de ameaça invisível, um perigo iminente, que sutilmente transforma as relações interpessoais e acaba afetando a estrutura de toda a sociedade. 


Kleber Mendonça Filho se preocupa em retratar o aprisionamento do qual a classe média se tornou vítima, em diversas passagens, os personagens são capturados de uma perspectiva que os mostra atrás das grades de janelas e portões (uma genial metáfora visual) e os enquadramentos salientam a altura dos muros e o isolamento, quase paranoico, daqueles que se escondem de fatos sociais que eles próprios ajudam a perpetuar. O roteiro destaca ainda a hipocrisia e os preconceitos de membros das camadas sociais ditas 'superiores', que gozam de alguns confortos às custas da exploração daqueles que estão à margem, e o desenvolvimento da narrativa nos incita a refletir sobre isso, somos instigados a questionar sobre até que ponto nós também não alimentamos o mesmo tipo de sentimento em relação àqueles que não possuem os mesmos privilégios que nós.


Em dada passagem, em uma reunião de condôminos, é posto em votação o destino de um dos porteiros do prédio, que, como alguns defendem, estaria já cansado demais para o trabalho; uma das mulheres presentes aponta a demissão do homem, que já estava perto de se aposentar, como a resolução mais viável para o problema e se justifica dizendo que a Revista Veja, que ela assina, tem sido entregue fora do plástico - esta talvez seja uma das passagens mais memoráveis do filme e sem precisar forçar muito é possível extrair do depoimento da moradora algumas inferências interessantes, ela ilustra bem a preocupação de algumas pessoas em garantir a manutenção das regalias às quais tem acesso (ainda que elas custem o bem estar de outrem), e ainda o estranho apreço daqueles que são oprimidos pelas ideologias que validam e sustentam tal opressão - No fim das contas, o suposto interesse do porteiro por uma revista, que representa uma classe social da qual ele não faz parte, pode ser um dos 'justos motivos' de sua demissão, irônico não?


A cena de abertura de O Som ao Redor mostra uma sequência de fotografias em preto e branco da época em que o Pernambuco estava dominado pelos senhores do engenho, estas imagens contrapõem o sofrimento daqueles que trabalham nos canaviais e nas usinas com o conforto dos fazendeiros que estão no topo deste que é quase um sistema de castas. A fatalidade associada à condição social fica evidente no restante do filme, que mostra de uma forma sutil que a organização social de hoje em dia não é tão diferente daquela retratada nas fotografias do início, isso porque há entre elas uma estreita relação de causa e consequência. É interessante também perceber que mesmo com o aumento do poder aquisitivo, impulsionado pelo crédito, e com a melhoria nas condições de vida da parcela menos favorecida da população, ainda não há um rompimento real com o tipo de organização social que se mantém firme desde a época dos engenhos. Há uma parca reorganização, mas não uma reestruturação real do status quo


No filme, percebemos que há, por parte da classe média emergente, uma tentativa de subverter o fatalismo e assim ascender na pirâmide social, o que se dá principalmente através do consumo, e daí nasce parte da tensão que vigora durante o filme. Além disso, há a questão da violência, que insurge como uma ameça capaz de tirar a tranquilidade e o sono de muitos, principalmente daqueles que têm muito a perder. Aqueles que sempre detiveram o poder se sentem ameaçados por aqueles que agora o reivindicam e os emergentes que acreditam já tê-lo conquistado também se atormentam com o medo de perdê-lo. Em ambas as situações a questão da insegurança se torna crucial e é através da sonoplastia que ela é trabalhada na trama, o medo de ter a tranquilidade violada ganha expressão quando barulhos exteriores invadem as casas, atravessando os muros e as grades, provocando assim algum tipo de incômodo, cuja percepção e reação varia de um personagem para outro e até mesmo entre nós espectadores. 


Os latidos do cachorro do vizinho, a música alta na rua, a sirene da viatura da polícia, a furadeira sendo usada em uma pequena reforma... em todos estes barulhos há a representação de algo maior, em uma análise um pouco mais ousada, eu diria que eles são a própria narrativa. Os sons são no fim das contas mais significativos do que as histórias fragmentadas de cada um dos personagens, no entanto, isso não tira o mérito sobre a construção de cada um deles, que são isentos de maniqueísmos e dotados de uma grande capacidade de representação de conceitos e ideologias, apesar de estarem inseridos dentro de um contexto fragmentado, formado apenas por recortes de uma realidade mais ampla. Destaco as atuações do Irandhir Santos, que dá vida ao agente de segurança particular Clodoaldo e a da Maeve Jinkings, que encarna Bia, uma dona de casa, que sofre com insônia e fuma maconha, escondida do marido e dos filhos, para tentar aliviar a pressão constante que sente (esta é uma das personagens que melhor representa a dita classe média emergente).


O Som ao Redor é quase um oásis em meio a um deserto de lugares comuns e fórmulas saturadas. Chega a ser recompensador estar diante de uma obra autoral, em nenhum momento subestima a capacidade intelectual de seu espectador; o que explica o considerável reconhecimento que lhe foi devotado tanto por parte da crítica quanto por uma significativa, porém segmentada, parcela do público, o que resultou em diversos prêmios e inúmeras críticas e impressões positivas. Bom seria se todos os filmes nacionais que alcançam este mesmo nível de qualidade (e eles existem) conseguissem também o feito de sair do circuíto de festivais e mostras e chegar às salas de cinema ou ao menos à rede por meio do compartilhamento de arquivos (prática que o próprio Kleber Mendonça Filho, sabiamente, defende). Arrisco dizer que este talvez seja o filme nacional mais importante das últimas décadas, sem exageros...


O Som ao Redor ganhou no Festival Internacional do Rio de Janeiro os prêmios de Melhor Filme e Roteiro. No Festival de São Paulo o de Melhor Filme Brasileiro. No Festival de Gramado, ele foi o vencedor nas categorias de Melhor Som e Roteiro, sendo também o escolhido pela crítica e pela audiência dentre os filmes de longa metragem em 35mm. O filme ainda ganhou prêmios nos festivais de Oslo, Rotterdam, Copenhagen e  Lleida.



Assistam ao filme completo no You Tube, clique AQUI !

A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra.

4 comentários:

  1. Puxa Brunão... Assanhou minhas lombrigas cinéfilas!
    Vou procurar o filme pra ver.

    Parabens pela resenha!

    ResponderExcluir
  2. Parabéns pelo inspirado texto, meu camarada. De fato, O Som ao Redor é um dos melhores filmes produzidos pelo recente cinema nacional. Não é uma unanimidade. Acho que o público não curte olhar e ver o próprio reflexo. Sem dúvida, sensorial e reflexivo em todos os aspectos.

    ResponderExcluir
  3. Como disse o Celo,
    este filme é um retrato muito próximo de nós mesmos!
    Gostei do seu texto, bj.

    ResponderExcluir
  4. J. Xará, ler seu blog é sempre um aprendizado. Um belo posto para um belíssimo filme. Saí do cinema com a cabeça fervilhando e lembro-me que uma semana depois ainda discutia o filme com a minha mãe.

    ResponderExcluir