sábado, 28 de setembro de 2013

Vanguart - Muito mais que o Amor (disco)


Alguns críticos chegaram a apontar o clima ensolarado de Muito mais que o Amor, o novo disco do Vanguart, como uma de suas características mais marcantes, a percepção de tal clima surge da comparação com o álbum anterior, o excelente e relativamente sombrio Boa Parte de mim Vai Embora. Considero muito pertinente esta constatação, há de fato nas letras e nas melodias de Muito mais que o Amor uma espécie de paz (ou seria satisfação?), que não estava presente no trabalho antecessor, no entanto, ele não deixa de ser um disco melancólico.

A melancolia, tal como notada nas novas canções, é um estado de espírito que não pressupõe uma condição de tristeza, nem tão pouco uma causa específica, tendo mais a ver com o nível de sensibilidade emocional com o qual nos posicionamos diante de uma determinada situação, o que me leva a crer que a grande marca do novo álbum talvez seja justamente a sensibilidade. Isso fica mais claro quando o consideramos uma obra autoral que dá uma espécie de sequência à condição emocional identificada em Boa Parte de mim Vai Embora.


No antecessor a melancolia surge da dor e a causa desta dor pode ser facilmente identificada,  o disco fala de rompimento e perda da primeira à última faixa e mesmo não sendo um álbum triste, há nele um estado de fragilidade emocional que dita o tom das canções e facilita o estabelecimento de alguma conexão entre a banda, como entidade artística criadora, e o público, que de alguma forma se identifica com a condição sobre a qual as músicas falam...  

O excelente clipe de Mi Vida Eres Tu (faixa que abre o Boa Parte de mim Vai Embora) ilustra bem a condição experimentada pelo autor/personagem das letras, ele é alguém que está machucado pelo término de um relacionamento e tenta buscar algo que nem ele mesmo sabe o que é. No clipe, o fato do personagem ser interpretado por uma criança seria a meu ver uma representação de sua fragilidade emocional, o que me leva a acreditar que o que ele busca na verdade não é uma aventura amorosa, mas alguma espécie de afago (o que fica evidente na sequência final do clipe, que evoca o beijo não realizado).


Passada a noite sombria, vem uma ensolarada manhã... “A vida é tão mais vida de manhã, quando eu vejo você, é, saiba você é meu sol... eu já me preparei demais e declaro ‘agora é a hora’. O amor profundo, o amor que salva vem depressa, não demora, meu sol...”.

Em Muito mais que o Amor a dor do rompimento já foi expurgada, já não há mais o sofrimento narrado nas letras do segundo disco. O que dita o tom neste novo trabalho é a satisfação do amor realizado e paz de ter a pessoa amada ao seu lado. Gosto de imaginar Meu Sol, a quarta canção do álbum, como uma continuação de Depressa, a última do anterior, que o próprio vocalista Hélio Flanders chegou a apontar como uma canção que diz muito sobre o disco como um todo - não por acaso ela foi o seu primeiro single.

Depressa encerra Boa Parte de mim Vai Embora com uma espécie de desabafo do personagem/autor sobre a sua ânsia pelo reencontro com a pessoa que ama, ela fala da angústia da espera e da aflição de tentar ter de volta o amor que fora perdido. Ele sabe que talvez ainda não seja a hora de uma reaproximação, pois os fantasmas do passado ainda estão presentes, todavia ele se prepara, há um trecho em que ele diz ter saído com uma 'roupa emprestada' na esperança de encontrá-la, o que evoca a sua disposição de olhar para si mesmo, reconhecer onde errou e ensaiar algum tipo de mudança, representada na música pela vestimenta nova.


Meu Sol, que talvez seja a canção que melhor define o novo disco, descreve uma situação bem diferente da relatada nas letras de Boa Parte de mim Vai Embora, agora o personagem/autor não vaga pelos 'lugares onde nem Deus andaria' (uma clara referência ao seu estado de espírito), aqui ele encontra uma nova motivação, o amor realizado (que é metaforicamente representado na letra pelo sol), que lhe traz esperança e o ensina que a vida continua valendo a pena ('a vida tem mais vida de manhã', ele descobre) e que o que ela lhe cobra é apenas a entrega, da qual a letra da canção fala em seu primeiro verso ('Minha alma, sabe que viver é se entregar').

A paz então observada gera um forte contraste com a dor de outrora e este contraste ajuda a explicar a sensibilidade que conduz ao estado de melancolia. É da vivência anterior que vem a poética que marca as novas composições. A fragilidade do autor/personagem, que potencializa os efeitos daquilo que ele vive, e a ebulição dos sentimentos, que o álbum como um todo evoca, são similares àquele choro de felicidade, que surge em um momento de transição, marcado pela ideia de que a dor pode finalmente ficado para trás e o que vem a partir de então pode ser muito mais que o amor...

2 comentários:

  1. Olá Brunão!
    Rapaz... Vc esmiuçou o disco hein!!!
    Eu tenho o primeiro cd do Vanguart e te digo que na época me decepcionei com ele. Mas depois de ouvi-lo algumas vezes, acabei digerindo-o melhor. Mas não tive vontade de comprar ou baixar os outros.
    Vendo aqui a sua opinião sobre o novo trabalho, eu com certeza vou procurar, porque musica é comigo mesmo. Hahahahahaha.

    Tenha uma linda semana!

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  2. e ai Bruno, eu ouvi o album boa parte de mim vai embora e achei bem interessante,uma banda que tem sua qualidade mas o nosso meio musical é foda, agora vou escutar esse album que você resenhou ! valeu

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