terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

A Hora Mais Escura

A Hora Mais Escura (Zero Dark Thirty) - 2012. Dirigido por Kathryn Bigelow. Escrito por Mark Boal. Trilha sonora original composta por Alexandre Desplat. Direção de Fotografia de Greig Fraser. Produzido por Kathryn Bigelow, Mark Boal e Megan Ellison. Columbia Pictures, Annapurna Pictures e First Light Production / USA.


Continuo acreditando que serão necessários, no futuro, um bom número de filmes revisionistas para desfazer a visão preconceituosa e reacionária da cineasta Kathryn Bigelow sobre a atuação dos Estados Unidos no oriente médio. O que ela fez em suas duas últimas obras pode ser facilmente confundido com uma propaganda ideológica encomendada pelo governo americano, tamanha a exaltação da atuação das tropas no Iraque e no Afeganistão, que, convenhamos, não está tão distante do terrorismo que elas dizem combater. Em A Hora mais Escura (2012) Bigelow chega ao ponto de tentar justificar a tortura contra prisioneiros de guerra, prática que constitui, ao meu ver, uma distorção de tudo aquilo que os americanos alegam defender. Tal como em Guerra ao Terror (2009), neste filme fica difícil separar a ideologia defendida dos demais aspectos, mas, mesmo considerando reprovável a forma absurdamente parcial com  que ele recria os eventos deste período histórico recente, tentarei avaliá-lo por aqueles que são seus melhores atributos. 

A Hora mais Escura retrata as atividades de uma equipe de elite do exército americano, a responsável pela  suposta captura e morte do terrorista Osama Bin Laden. Maya (Jessica Chastain) é uma agente da CIA que fora enviada para o oriente médio para interrogar prisioneiros de guerra. À princípio ela demonstra uma certa sensibilidade às práticas usadas para forçar os capturados a entregarem outros terroristas e a darem detalhes de suas operações, no entanto, com pouco tempo ela se adapta à esta realidade e se convence de que a tortura é o único meio de arrancar a verdade dos prisioneiros, que tentam permanecer fiéis às suas crenças até o limite do suportável. Em um dos interrogatórios surge uma pista frágil que pode levar à descoberta do paradeiro de Bin Laden e a agente se agarra à esta pista com todas suas forças. Contrariando orientações e sem se preocupar com o descrédito por parte de seus superiores, ela insiste em averiguar a fundo este que pode ser o seu grande achado, se mantendo firme no propósito de fazer o líder da al-Qaeda pagar pelo que fez ao seu país.


Durante todo o filme há a impressão de que a trama é imparcial e de que ela mostra aquilo que os Estados Unidos tentam esconder, mas não se enganem, até isso faz parte da estratégia e da propaganda ideológica feita pela produção, tudo o que vemos nela, inclusive as atrocidades, está previamente justificado (tenho que reconhecer a genialidade do roteiro neste aspecto, ainda que seja algo negativo em uma análise que vá além das questões cinematográficas). Na primeira sequência do filme, ouvimos uma conversa ao telefone que se dá entre uma atendente (aparentemente dos bombeiros) e uma mulher que estava em uma das torres do World Trade Center quando um dos aviões foi lançado contra ela, este diálogo choca e desperta a sensibilidade do espectador, preparando-o para a vingança que será iniciada e para a aceitação das práticas que logo serão retratadas. Olho por olho, dente por dente, esta é a ética à qual o filme recorre em sua cruzada em favor de uma pseudo-democracia e contra um terrorismo, que o governo americano encontraria facilmente em suas próprias práticas, caso deixasse de se ver como o juiz onipotente do mundo.


O filme busca despertar em seu público o mesmo sentimento de vingança que o move, para tal ele transforma qualquer árabe em um potencial terrorista e qualquer prisioneiro em um detentor de alguma verdade que se revelada pode impedir que um novo ataque aconteça. Em boa parte do desenrolar da trama, as cenas de tortura são intercaladas com outras que mostram atentados que realmente aconteceram, isto para nos lembrar que os terroristas (todos os muçulmanos de acordo com o que o filme dá a entender) são desumanos e por isso merecem ser tratados como tal. Os árabes são divididos pelo roteiro entre aqueles que optaram por colaborar com os soldados americanos (agindo como espiões e/ou delatores) e aqueles que merecem ser torturados e mortos por serem inimigos da democracia; não há meio termo. Já dentre os agentes e soldados que está a serviço do Tio Sam só existem heróis; dentre estes estão o torturador que brinca com macaquinhos nas horas vagas,  demonstrando sua sensibilidade; a agente, mãe de duas filhas, que demonstra sua coragem arriscando a própria vida em busca de informações e a personagem central, uma óbvia personificação daquele cidadão reacionário que teima em acreditar que matando um terrorista o mundo estará novamente à salvo e cada um de seus conflitos resolvidos... 


Não tenho dúvidas de que a Jessica Chastain seja a atriz certa para o papel (apesar de eu não gostar de vê-la em um filme defensor de uma ideologia tão condenável), ela consegue com uma destreza formidável nos convencer tanto da fragilidade quanto da força de sua personagem, ela está excelente tanto nos momentos em que sente repulsa, medo ou asco, quanto naqueles em que se impõe frente a pessoas mais fortes e poderosas que ela. A construção de sua personagem também está condizente com a proposta do filme, em sua fraqueza há uma grande potencialidade de identificação, afinal ela se considera uma vítima do terrorismo, sentimento que é compartilhado por inúmeras pessoas, principalmente nos Estados Unidos, e a força que ela demonstra ter em algumas passagens a transforma no tipo de herói que cada uma destas pessoas buscam. Este processo de identificação e admiração é crucial, pois é através dele que o filme transmitirá boa parte de sua carga ideológica. A intenção do roteiro é fazer com que cada espectador passe pelo mesmo processo de transformação vivido pela personagem, através do qual ela passa a aceitar as práticas condenáveis que o filme retrata. 


A Hora Mais Escura adota um tom quase documental em sua narrativa, estratégia muito bem utilizada para nos convencer do realismo daquilo que nos é mostrado, a naturalidade das imagens capturadas por uma câmera instável que tremula o tempo todo, atenua a tensão e reforça a ideia de que aquilo que estamos vendo não é tão somente um filme, mas uma reconstrução quase perfeita da realidade, algo próximo do que poderíamos ver em um tele-jornal, por exemplo. Tudo isso denota uma excelente qualidade técnica, mas é ao mesmo tempo algo perigoso, pois corremos o risco de tomarmos como real o que é apenas uma visão unilateral e tendenciosa dos fatos. Outros aspectos técnicos do filme também evidenciam o enorme cuidado que se teve com sua produção. Figurinos, enquadramentos, escolha das locações, direção de arte e a trilha sonora composta pelo sempre competente Alexandre Desplat, funcionam muito bem em favor da narrativa e daquilo a que ela se propõe. 


Tenho que reconhecer que A Hora Mais Escura não deixa a desejar em nenhum de seus aspectos técnicos e artísticos. Tento esquecer do quão reprovável é sua abordagem ideológica para apontá-lo como um dos melhores filmes da temporada (considero merecidas cada uma de suas indicações ao Oscar). Seu roteiro, apesar de toda a parcialidade, é muito bem escrito e a edição e a montagem dão a ele um ritmo frenético que não permite que ele se torne cansativo, mesmo sendo predominantemente um 'filme de gabinetes'. Apesar de tudo que mencionei no decorrer desta resenha, acho que ele merece ser assistido e principalmente debatido por todos, a minha recomendação é a de que ele deve ser visto com o senso crítico o mais aguçado possível, principalmente em relação às verdades que ele tenta nos vender. Recomendo (com as mesmas ressalvas com as quais recomendaria obras clássicas do D. W. Griffit e da Leni Riefenstahl)! 

 
A Hora Mais Escura ganhou o Globo de Ouro de Melhor Atriz de Drama (Jessica Chastain) e está indicado ao Oscar nas categorias de Melhor Filme, Atriz (Jessica Chastain), Roteiro Original, Montagem e Edição de Som.

Assistam ao trailer de A Hora Mais Escura no You Tube, clique AQUI !


A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra,

7 comentários:

  1. Vi e gostei.
    Sério..rs.Não sei se é meu lado REVENGE falando mais alto ou se é meu amor por EUA...Sou fã de algumas pessoas que moram por lá(colegas) sou fã de alguns bairros, alguns artistas by Soho e até um pouco fã do modo de SER de alguns americanos( saio de casa desse jeito e Fod...-se...o resto) Não no sentido consumismo/capitalismo ao extremo...Aqui, temos um pseudo moralismo irritante..Não podemos isso, nem aquilo, nem vestir isso...Muitos brasileiros adoram 'preconceituar' tudo e todos.
    Lógico, que partilho da mesma opinião :'nem todo árabe é terrorista'.
    E nem todo americano é 'love guns' ao extremo, não é?
    Acho que a ideologia :'Ame a America' é sempre um ponto alto alto na maioria dos filmes , sua visão distorcida da maioria dos países também é sempre presente. Tendo em vista o modo como eles enxergam nosso País(o que acho até certo ponto louvável) somos o País do Futebol, Cerveja, Carnival e Corrupção.
    Enfim, para assistir filmes com essa temática temos que ter em mente o BOM SENSO.
    O que você demonstrou muitissimo bem em sua resenha ;)
    Novamente, gostei do filme, das atuações, do aspecto sombrio quando o assunto é terrorismo e até a subliminar na cena da atendente dos bombeiros.
    Vale premiação ou não?
    Vale siiiiiiiiiiiiiiiiiiiiim, hehe.

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  2. Gostei muito dessa resenha! Realmente se não houver a sensatez e a destreza em discernir a ideologia das constantes guerras e revides aos ataques por parte dos árabes aos Eua, seremos fatalmente tentados a acatar essa abrupta e agressiva aplicação da Lei de Talião por parte desse país, os EUA! O filme "Guerra ao Terror" tentou nos passar semelhante convencimento, bem como a afirmação por parte do governo de George W.Bush (visceralmente 'mordido' pelo ataque ao WTC -11 de Setembro) e que usou como pretexto a ocupação do Iraque, devido à sua doente convicção da existência de "fabricação de armas de destruição em massa" nesse país; cavucaram tudo, mataram um monte de inocentes e nada foi encontrado; e o resto da história o mundo inteiro conhece..,
    Por fim, eu gostaria de declarar o meu amor ao EUA, a despeito de. Eu queria estar lá, viver lá, por "n" razões; mas, convenhamos, é preciso "separar o joio do trigo"!
    Valeu Bruno! Você é incrível.., (mas eu já disse isso né?., rs rs rs).
    Beijão grande! Lu Janis, (mlsilva27@gmail.com)

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  3. Acho Katryn Bigellow supervalorizada. Parece que a academia a valoriza, em depreciação a James Cameron, que é antipático e eles não gostam.

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  4. Bruno,

    Tudo bem? Parabéns pela critica! Diferente da maioria não gostei de Guerra ao Terror pela sensação de estar sendo enganada. Entendo que nesse filme há cunho ideológico para o convencimento e pouca neutralidade.

    Beijos.

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  5. Brunão, geralmente concordo 100% com seus textos, mas tenho que ser defensor da Bigellow. Concordo que fizeram uma ideologia, mas o filme não deixa de ser uma aula de história incrível.

    E outra se ela fizesse realmente tudo isso..seria o filme tão retaliado nas premiações? Opiniões, como a minha, é que se trata do melhor do ano passado.

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  6. Bruno,

    Boa tarde! Voltando para dizer que diferentemente do que previa, adorei o filme e viva a atuação da Jessica Chastain.

    Beijos.

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  7. Olá, José Bruno.
    Concordo que esse deve ser um bom filme no aspecto técnico mas falho no aspecto ideológico.
    O que ele deve deixar de contar é que os ataques terroristas de 11/9 só ocorreram por causa das ações dos EUA no oriente médio.
    Abraço.

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