sábado, 23 de fevereiro de 2013

O Mestre

O Mestre (The Master) - 2012. Escrito e Dirigido por Paul Thomas Anderson. Direção de Fotografia de Mihai Malaimare Jr.. Música Original de Jonny Greenwood. Produzido por Paul Thomas Anderson, Megan Ellison, Daniel Lupi e JoAnne Sellar. The Weinstein Company, Ghoulardi Film Company e Annapurna Pictures / EUA.


O Mestre (2012), obra mais recente de Paul Thomas Anderson, começa com uma imagem do mar, que nos é mostrada de uma perspectiva que nos leva a crer que estamos em uma embarcação e que algo fora deixado para trás. Depois de um corte é feito um close no rosto de Freddie Quell (Joaquin Phoenix), um dos personagens centrais, ele é mostrado por detrás de algo e por estar de capacete vemos apenas parte de seu rosto. Este recorte da imagem dá a entender que ele está em meio a uma batalha, a falta de foco no secundo plano não nos permite saber onde de fato ele se encontra. Seu olhar permanece fixo por uns instantes, como se ele tivesse mirando algo, mas de repente, num sutil movimento, ele se vira para o lado e seu olhar se perde no vazio. Ao associarmos a primeira cena, a do mar, com esta na qual é feito o close, compreendemos que talvez o personagem esteja voltando da guerra... No campo de batalha ele provavelmente não se permitiria perder o inimigo de vista para mirar o vazio, mas ele já não está mais em combate, todavia, ele sabe que seu maior conflito, o interno, está apenas começando.

Ainda na cena do close, uma das músicas mais marcantes da trilha sonora começa a tocar, ela pontua e dá ritmo para algo de selvagem que o personagem tem dentro de si, um impulso externalizado através de seu comportamento violento, de seu alcoolismo e de sua sexualidade quase bestial. Estas características, determinantes da personalidade de Quell, são delineadas através de construções simples, feitas por meio de cenas nas quais ele é retratado junto com outros soldados num momento de descontração em uma praia. Em uma das cenas mais marcantes da introdução do filme, Freddie simula o ato sexual com um corpo feminino moldado na areia, a princípio seus companheiros se divertem com a brincadeira, mas logo suas expressões ganham um outro contorno, eles parecem se assustar à medida em que percebem que Quell talvez esteja no limiar de sua sanidade... A notícia que oficializa o fim da guerra vem através de uma transmissão de rádio, chegara a hora de voltar; após passar por uma avaliação psicológica, Freddie retorna à vida de civil, porém, traumatizado e com sua mente ainda mais degenerada pelo que ele vivenciara no front


Sem qualquer perspectiva de futuro, Freddie pula de um emprego para outro, seus rompantes de violência e o alcoolismo o impedem de ficar muito tempo em um mesmo lugar e de criar relacionamentos. Após uma fuga desesperada o ex-fuzileiro naval vai parar em um barco que estava ancorado no cais, lá estava acontecendo a festa de casamento da filha de Lancaster Dodd (Philip Seymour Hoffman), o mestre ao qual o título do filme se refere. Dodd, que se diz ser, dentre outras coisas, escritor, médico, físico nuclear e filósofo teórico é uma clara referência a L. Ron Hubbard, criador da cientologia. Ele acabara de lançar um livro, chamado 'A Causa', no qual pregava que o ser humano não era um animal como outro qualquer, mas um ser superior, cujo aperfeiçoamento podia ser feito através de sessões nas quais indivíduos eram postos em contato com seu próprio passado e com suas supostas vidas anteriores. Dodd vislumbra em Quell uma oportunidade de comprovar aquilo que defendeu em sua obra literária. Ele credita a afeição e a simpatia que teve por aquele pobre diabo à uma experiência ainda não conhecida, que eles provavelmente teriam vivido juntos em uma época remota. 


Peggy Dodd (Amy Adams), esposa de Lancaster, vê com desconfiança o relacionamento do marido com Freddie, ela acredita que este pode estar colocando em risco a seita e a credibilidade das ideias que a sustentam, o marido no entanto desconsidera a opinião dela e continua apostando na regeneração do novo discípulo. Da controversa cumplicidade entre estes dois homens de comportamento aparentemente antagônicos surgem algumas das reflexões mais interessantes propostas pelo filme. A relação mestre/discípulo é totalmente desconstruída no desenrolar da trama, pouco a pouco percebemos que Dodd e Quell não são tão diferentes um do outro, o que distingue seus comportamentos é apenas o autocontrole  que o primeiro se impõe através da religião que criou. O ex-marinheiro se submete às práticas e ritos da seita, da qual agora faz parte, não por coerção ou por imposição de seu líder, mas porque ele próprio enxerga em tudo isso um caminho para a redenção. Em algumas passagens fica evidente que o que o impulsiona é a culpa e em diversos momentos ele se atormenta ou busca formas de se punir pela perda do controle.


Através da seita retratada no filme, Paul Thomas Anderson propõe uma reflexão sobre temas comuns a diversas outras religiões, como o charlatanismo, o controle social exercido através da fé e a incapacidade da religião de mudar de fato a natureza dos indivíduos, alterando apenas a fantasia que estes vestem nos meios sociais em que transitam. É interessante perceber que a possível regeneração de Freddie Quell representa para Lancaster Dodd uma oportunidade de atestar aquilo que prega, todavia, a ameaça de fracasso, que ronda todo o processo, não é vista como um indício da falência dos princípios que sustentam a religião, mas como uma falha isolada, cuja o único culpado é o próprio indivíduo (qualquer semelhança com a doutrina de algumas religiões, das quais estamos relativamente próximos, pode não ser mera coincidência), é este silogismo que garante a sustentabilidade da 'Causa' e de tantas outras seitas, sendo assim, mesmo que haja provas consistentes de que aquilo que elas pregam não passa de uma abstração mais confortável de uma realidade dura (como era do período pós-guerra), elas permanecerão imunes e atrativas para novos seguidores.


Joaquin Phoenix está formidável no filme, sua atuação é de uma entrega assustadora, ele expressa a deformação moral e psicológica de seu personagem através do olhar perdido, da testa franzida, do corpo ligeiramente entortado e dos movimentos involuntários, que denotam seu constante nervosismo. Quando olho para ele simplesmente não consigo ver o ator, este praticamente desaparece, o que vejo é algo ainda maior que um simples personagem, é uma alegoria da própria humanidade  em seu estado bruto, latente e sem adornos ou qualquer tipo de fantasia. Diferente dos demais personagens, o Freddie Quell de Phoenix é o que é, ele não tenta (ou simplesmente não consegue) esconder o que há de reprovável em seu comportamento e isso o torna, ainda que condenável pelos demais aspectos,  menos hipócrita do que aqueles que o cercam, por isso o personagem nos causa tanto impacto, sua profundidade aliada à excelente construção feita pelo ator é uma das melhores coisas do filme. 


O Philip Seymour Hoffman também está ótimo (o que não é novidade), ele dá vida a um personagem ambíguo e controverso, seu desempenho é tão consistente que em nenhum momento as atitudes de seu Lancaster Dodd nos pareçam falsas, ainda que contraditórias. A Amy Adams também entrega uma atuação madura e repleta de nuances que engrandecem sua personagem no decorrer da trama, a forma com que ela expressa o poder que Peggy tem, mesmo sendo aparentemente tão frágil, é genial (prestem atenção numa passagem na qual ela alerta o marido sobre os malefícios de sua amizade com Freddie). 


A trilha sonora é um elemento de extrema importância no filme, ela está atrelada à narrativa e como tal ela ajuda a compor a linguagem do filme, nos dizendo muito sobre os personagens e sobre as motivações que estão ocultas em suas mentes, motivações estas que vêm á tona em algumas passagens através de manifestações quase involuntárias, instintivas. As canções de Jonny Greenwood cumprem este papel de forma excelente, elas reforçam tanto a tensão quanto a degeneração psicológica que permeia todo o desenrolar da trama. Já a fotografia do filme denota um enorme cuidado e um alto conhecimento da linguagem, o que já era algo esperado em se tratando de um filme do Paul Thomas Anderson. Iluminação, enquadramentos e travelings ajudam a compor uma estética que remonta aos clássicos de décadas anteriores, mas sem perder o frescor e a força do novo.


O Mestre não é o tipo de filme fácil de cair no gosto popular, afinal nele não há nada pronto, desde a primeira sequência o cineasta nos convida a participar da obra, a construí-la junto com ele, somando a ela nossas próprias reflexões e posições sobre os temas abordados, aqueles que não estiverem dispostos a fazer isso, certamente terão dificuldades para achar algum sentido na história contada. Definitivamente não é uma obra indicada para aquela significativa parcela do público que está sempre ávida por resoluções simples para os conflitos abordados e por roteiros que lhes entreguem mastigado o conteúdo que caberia a eles decodificar...


Certamente, ter tocado em um tema tão polêmico como a cientologia (principalmente em Hollywoodprejudicou a aceitação do filme em algumas frentes, este talvez seja o motivo pelo qual algumas cenas, que chegaram a ser incluídas em trailers, ficaram de fora do corte final... Isto, no entanto, não diminui em nada a força desta obra-prima, muito pelo contrário. O Mestre é mais um filme do Paul Thomas Anderson que já nasceu clássico... Ultra Recomendado, principalmente para aqueles que apreciam e valorizam o cinema autoral!

O Mestre está indicado ao Oscar nas categorias de Melhor Ator (Joaquin Phoenix). Ator Coadjuvante (Philip Seymour Hoffman) e Atriz Coadjuvante (Amy Adams ).

Assistam ao trailer de O Mestre no You Tube, clique AQUI !

A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra,

7 comentários:

  1. Demorei para gostar do filme, como vocÊ mesmo disse...precisei discutir e debater por horas e acreditar no que vi...realmente é uma grande obra

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    1. De fato, também fiquei refletindo um bom tempo sobre o filme após assisti-lo, não é uma experiência fácil, assim como é difícil ficar em cima do muro sobre ele. No fim das contas, achei um baita filme. Joaquin Phoenix é quem realmente merece o oscar de melhor ator deste ano.

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  2. Amigo esse é um diretor que possui muito crédito.

    O elenco tem realmente recebido muitos elogios. Quero muito assistir.

    abs

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  3. J. Bruninho... tô de volta. Agora é verdade! ahahahha

    Olha, este filme eu ainda não vi... mas, só de ter o "quim quim"(viu a intimidade da moça aqui?), já me vale a tentativa! Quero muito assistir!!! :D

    bjks

    JoicySorciere => CLIQUE => Blog Umas e outras...

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  4. Bom texto. Estou super ansioso em assisti-lo. Infelizmente acho difícil esse filme e o Lincoln(2012) chegarem aqui. O jeito é esperar o DVD. rsrsrsr

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  5. Bruno, muito boa a sua leitura de The Master! Como você, achei o Phoenix sensacional como o personagem do ex-combatente insano que o mestre deseja pôr nos eixos. Tinha me esquecido do background da personagem. Quantos filmes dos anos 40, 50, feitos pouco posteriormente à guerra, não se puseram a discutir os danos psicológicos causados por ela, né? Lembro agora de "Randon Harwest" e de "Spellbound", dos anos 40. A ótima escolha justifica ainda uma vez a homenagem ao cinema clássico. Você apontou bem a decupagem de algumas cenas. Logo no início veremos que esse será um grande filme.

    Bjs
    Dani

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  6. Brunão,

    Tudo bem?
    Este fim de semana deixei de lado minha 'mente' e assisti um montão de filmes(alguns primeira vez outros milésima,rs) Este foi um deles,rs.
    ADOREI o filme, sou fã do trabalho do Phoenix, do Hoffman desde Dragão Vermelho e Amy que um dia ganhará o Oscars.
    O papel do Joaquin é muito complexo(falando em linguagem corporal do Ator) caso o ator não se entregue de corpo, alma e pesquisa sairá muito caricato
    , superficial e com exageros.
    Óbvio, que quando falamos de Phoenix, não poderiamos esperar nada menos do que um espetáculo, não é?
    Gostei da trama, da fotografia, do TSO e deveria ter levado mais prêmios.

    ah! como sempre excelente resenha, tá?

    bjs

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