sexta-feira, 15 de março de 2013

Nausicaa - A Princesa do Vale dos Ventos

Nausicaa - A Princesa do Vale dos Ventos (Kaze no tani no Naushika) - 1984. Escrito e dirigido por Hayao Miyazaki. Trilha Sonora Original de Joe Hisaishi. Produzido por Rick Dempsey e Isao Takahata. Hakuhodo, Nibariki, Tokuma Shoten e Topcraft (PEA) / Japão.


Assistir a um filme do Hayao Miyazaki é algo mágico, sublime e incomparável. A obra deste mestre da animação é de uma riqueza tamanha, capaz de provocar fascínio, reflexão e de nos transportar para um mundo fantástico, repleto de significações e metáforas. Suas produções são verdadeiras obras de arte,  capazes de trazer à tona algo de um valor imensurável: as lembranças e os sonhos de nossa meninice perdida. Miyazaki não está interessado em dialogar com nosso intelectual, mas com a criança que fomos um dia - o que de fato ele consegue. Suas histórias conseguem despertar em nós valores e sentimentos, típicos da infância, que há muito já havíamos perdido. Ao sermos transportados para um mundo de fantasias, temos a oportunidade de ver uma espécie de espelho do que seria a nossa própria realidade, que é remontada através de alegorias tão bem construídas, que é necessário um olhar sensível e curioso, tal como de uma criança, para desconstruí-las. 

Nausicaa - A Princesa do Vale dos Ventos (1984), o segundo longa-metragem de Miyazaki, pode ser considerado seu primeiro trabalho completamente autoral, visto que nele, pela primeira vez o cineasta assumiu o controle sobre todo o processo criativo, do roteiro (que é baseado em um mangá de sua própria autoria) à edição final. O sucesso comercial do filme em seu país de origem foi surpreendente, seu expressivo resultado de bilheteria levou à criação do lendário Studio Ghibli, produtora através da qual o cineasta lançaria suas obras a partir de então. O sucesso alcançado não foi um mero fruto do acaso, afinal o filme é uma preciosidade, um poema em audiovisual da primeira à última sequência, todo o reconhecimento conquistado por ele foi, portanto, merecido. Nele já podiam ser observados alguns elementos que se tornariam recorrentes na filmografia do diretor, como as questões ambientais, os ritos de passagem e a incursão de personagens em mundos que lhe são estranhos.


A trama de Nausicaa - A Princesa do Vale dos Ventos acontece em um futuro pós-apocalíptico, 'mil anos após o colapso de uma civilização industrial'. Uma floresta de fungos que liberava vapores tóxicos, chamada Fukai, tomou conta de boa parte da superfície da terra, ameaçando a existência da humanidade, que agora vive dividida em pequenos reinos. Insetos gigantes, que vivem na Fukai, também representam uma grande ameaça e o ataque de suas manadas é temido por todos. O Vale dos Ventos é o único reino que não se envolveu com as constantes guerras que têm dizimado os outros povos, todavia, é chegada a hora em que sua população se verá obrigada a entrar no conflito. Nausicaa, a herdeira do trono do Vale dos Ventos, é uma garota dócil, que tem um incrível poder de tocar e transformar os corações alheios com seu amor (este poder, no entanto, aparenta não funcionar com humanos), temendo pelo futuro de seu povo, ela embarca em uma missão para impedir que a 'paz armada', que alguns defendem, se torne o início do fim. 


Nausicaa - A Princesa do Vale dos Ventos traz em sua trama uma forte influência da época na qual ele foi realizado, podendo ser considerado um produto direto da guerra fria, período no qual a corrida armamentista acirrava as tensões do mundo bipolarizado, com a crescente ameaça de que a qualquer momento um dos blocos puderia recorreu ao seu arsenal, composto por armas de destruição em massa. O reflexo de tal contexto no filme chega a ser óbvio, a paz armada, que alguns dos reinos buscam na trama é uma alegoria da corrida armamentista e o Deus Soldado, um monstro detentor de grande poder de destruição, que um dos reinos tem supostamente ao seu lado, é uma personificação da ameaça de uma guerra nuclear e do risco que ela oferece para todo o planeta. O filme ilustra bem, através de suas metáforas, o temor, que era uma forte expressão da consciência coletiva na época em que ele foi produzido.


É genial a forma com que Hayao Miyazaki nos chama a atenção para a questão ambiental (isso, décadas antes do tema se tornar uma tendência). Ele planta na trama as sementes de uma importante lição, a de que a nossa sobrevivência depende muito mais da forma com que nos relacionamos com a natureza e com os recursos que ela nos oferece, do que das questões políticas e étnicas que nos dividem. Outro ponto que também merece ser analisado em Nausicaa - A Princesa do Vale dos Ventos é o processo de amadurecimento da personagem central (tema recorrente na filmografia de Miyazaki), a trajetória que ela percorre na trama (da inocência ao profundo conhecimento sobre a natureza) é similar ao caminho que nós, como humanidade, também percorremos. Nas lições aprendidas por Nausicaa na história estão importantes mensagens que o cineasta direciona para cada de nós espectadores, que possuímos, tal como a personagem, a capacidade de intervirmos no meio em que vivemos, transformando-o para melhor. 


Apesar da profundidade dos temas abordados, a trama do filme se mantém leve e de fácil compreensão; o ritmo variante (ora ágil, ora contemplativo), que Miyazaki utiliza com tanta destreza, não permite que a história se torne demasiadamente lenta ou cansativa e ainda deixa espaço para a devida apreensão e reflexão acerca dos temas abordados. Nausicaa - A Princesa do Vale dos Ventosapesar de ser um filme com bastante ação, é uma das obras mais sensíveis e tocantes do cineasta, sua sequência final, por exemplo, é sublime, uma das coisas mais belas que já assisti, uma passagem que traz consigo uma belíssima mensagem sobre a proteção da vida selvagem. Diversas outras cenas também são capazes de encher nossos olhos de lágrima, sem que ao menos percebamos isso...




A beleza visual de Nausicaa - A Princesa do Vale dos Ventos é estonteante, o que não é novidade em se tratando de um filme do Hayao Miyazaki. A qualidade da animação, que pode ser notada no detalhismo de cada quadro e nos movimentos dos personagens mostra que o diretor é de fato um artista e não apenas um artesão, como muitos profissionais do ramo, seu brilhantismo torna questionável a atual exaltação da animação computadorizada, em detrimento da feita com pinceis e tintas, o que constitui ao meu ver um avanço tecnológico, mas ao mesmo tempo um lamentável retrocesso artístico... A trilha sonora também merece o devido destaque, ela é composta por belíssimas canções, que flertam tanto com pop quanto com à música folclórica/tradicional japonesa. 


Hayao Miyazaki, em mais de trinta anos de atividade, permanece alheio às tendências que transformaram a animação como gênero e se mantém fiel à estética única e praticamente intransferível que ele ajudou a criar. Como eu já havia dito na resenha de A Viagem de Chihiro (2001), não é exagero nenhum afirmar que ele  está no mesmo patamar dos grandes mestres da sétima arte... Nausicaa - A Princesa do Vale dos Ventos nos oferece uma prova incontestável de sua genialidade, trazendo doses cavalares da poesia e do encantamento que caracterizam sua marca autoral... Este é um filme mais que obrigatório, eu diria até necessário, dada a importância de sua mensagem. Ultra Recomendado!

Obs.: Apesar do filme não ter ganho uma edição nacional, ele acabou ficando conhecido no Brasil com dois títulos distintos, o que usei nesta postagem e Nausicaä do Vale do Vento.


Assista ao trailer de Nausicaa - A Princesa do Vale dos Ventos no You Tube, clique AQUI !

A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra.

3 comentários:

  1. Bruninho,
    Bom Dia!
    Que nostalgia você me proporcionou ein?
    Faz um booooooooooom tempo que vi o filme do Mestre.
    Dentre poucos que vi: Castelo de Cagliostro, Castelo no Céu, Chihiro ..Ainda prefiro este.
    É muito mágico e ao mesmo tempo sutil em sua mensagem.
    Este filme consegue passar a mensagem exatamente do jeito que deveria ser.
    Adorei a resenha, viu?!
    Tô tentando lembrar de um outro filme (vi faz muito tempooo) que é fantasioso no mesmo estilo , com uma mensagem fantástica...O diferencial é que é a história de uma garota que em seu mundo real(caótico) ela acaba indo parar em uma fantasia(beeeem estilo LSD) na qual ela tem que salvar(não lembre se é a mãe...) Cara, esse filme você iria PIRAR...
    Não sei se tem estrelas no Título, Viagem...Oh! Shit...Não me lembro.
    O filme tem criaturas gigantescaaaaaas semelhante aos incomparáveis insetos da Nausicaa;tem bicicletas gigantes...
    aaaaaaaaaaah! tenho que lembrar,rs.

    Anyway,amei o sms e estava curiosa!

    besos.

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  2. Como sempre, um ótimo texto. Ainda não assisti esse, aliás, assisti poucos filmes do Miyazaki, preciso arrumar um tempo para suprir essa falha. Esse filme parece mesmo ser um primor. Abraço!

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  3. Olá, José Bruno.
    Assisti a este excelente desenho pouco tempo atrás e o achei realmente encantador, e apesar de nele vermos um Myiazaki menos experiente e com cenas de violência um pouco fortes, a mensagem e a forma praticamente poética como ela é passada são realmente magistrais e dignos de serem vistos.
    Abraço.

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