domingo, 31 de março de 2013

Sr. Ninguém

Sr. Ninguém (Mr. Nobody) - 2009. Escrito e dirigido por  Jaco Van Dormael. Direção de Fotografia de Christophe Beaucarne. Música Original de Pierre van Dormael. Produzido por Philippe Godeau. Pan Européenne Production / França | Alemanha | Canadá | Bélgica.


É no mínimo um absurdo classificar Sr. Ninguém (2009) , filme escrito e dirigido por Jaco Van Dormael, como uma ficção científica sobre viagens no tempo, geralmente aqueles que o fazem são os mesmos que acusam o longa de ser confuso e sem sentido. Um outro equívoco recorrente é a classificação da trama como sendo complexa, o que definitivamente ela não é. Caso a proposta do filme seja compreendida ainda no início de seu desenvolvimento, tudo nele se torna mais claro, o que faz com que ele chegue a parecer até simplório em algumas partes. Como nós espectadores temos o mau costume de criticar aquilo que não entendemos, corremos o risco de apontar nele defeitos que ele não tem e com isso acabar negligenciando outros problemas menores, estes reais e perceptíveis em seu desenvolvimento. 

Sr. Ninguém é sobre as escolhas que fazemos durante nossa vida e como elas determinam quem na verdade somos, na história contada pelo filme, Nemo (Jared Leto), o personagem central, se encontra em algum lugar no futuro, um tempo em que as pessoas se tornaram imortais e ele é o último ser humano mortal ainda vivo. Através de uma espécie de reality show, as pessoas desta época tentam descobrir quem ele foi quando jovem e o que ele tem para contar sobre uma época em que a vida era tão diferente. Ele, no entanto, não enxerga na própria vida o sentido que os outros buscam nela, ele, apesar de guardar memórias do passado, não sabe dizer quem na verdade é, ele esteve constantemente preso á ideia de a vida era determinada pelas suas próprias ações, o que é uma ideia controversa, uma vez que cada indivíduo está inserido em uma rede complexa e não simples de causas e consequências.


Quando criança, Nemo dizia ter o dom de enxergar o futuro e de esquecer o passado, tal declaração, que ele faz ainda no início do filme, coloca pulgas atrás das orelhas de muita gente, todavia, nela não há nada de sobrenatural, na verdade ela seria, ao meu ver, apenas um fruto de uma fantasia do menino, no entanto, ela é capaz de explicar o modo de vida que ele adotaria da infância ao ocaso de sua existência. Nemo condicionou suas escolhas à crença de que elas eram capazes de impedir coisas que ele imaginava que poderiam vir a acontecer. Por conta disso, só lhe sobrava um único caminho a seguir e isso sequer podia ser chamado de escolha, pois na maior parte das situações ele sequer fazia uma opção, por acreditar que "enquanto não se escolhe tudo permanece possível". Já na velhice, ele não consegue descobrir quem na verdade é, simplesmente porque durante toda a sua vida ele não foi corajoso o suficiente para tomar decisões que o ajudassem a descobrir sua verdadeira identidade. 


Toda a narrativa do filme se baseia naquilo que o personagem poderia ter vivenciado caso tivesse feito pequenas e grandes escolhas, por isso vemos situações que parecem se repetir durante o desenvolvimento do longa, porém de uma forma diferente. Aquilo que muita gente confundiu com idas e vindas no tempo são na verdade abstrações da mente do personagem, que tenta imaginar as consequências das escolhas que poderia ter feito e como cada uma delas poderia ter lhe marcado e ajudado a compor aquilo que o diferenciaria como indivíduo. Em cada uma das reconstruções de sua própria vida, Nemo escolhe ficar com um dos pais e não com o outro, casa com uma mulher diferente, tem um emprego diferente e morre de uma forma diferente, porém, em nenhuma delas ele consegue chegar aos 117 anos, idade na qual se encontra  ao ensaiar suas reminiscências, mas em todas elas ele é feliz, simplesmente por ter vivido de verdade.


É possível perceber durante todo o filme um toque onírico, que torna cada passagem parecida com algo que poderia ter saído de um sonho, pode-se reparar também que há no longa uma predominância de padrões estéticos que não condizem com a percepção da realidade, tudo é colorido demais, cada coisa está em seu devido lugar e isso reforça a ideia de que o que vemos não são lembranças, não é real, mas tão somente uma construção um tanto romantizada da mente do personagem central. A fotografia confere ao filme um visual belíssimo,  que faz jus à intensidade de cada uma de suas temáticas e dos sentimentos experimentados pelo protagonista. A trilha sonora, que conta com nomes como Pixies, Buddy Holly, Ella Fitzgerald, e Eurythmics, é simplesmente maravilhosa, cada uma das canções utilizadas se encaixa perfeitamente com a passagem em que toca, gerando assim alguns momentos sublimes.


Todo o elenco do filme está muito bem, principalmente o Jared Leto, que chama a atenção não só pelas diversas caracterizações de seu personagem, mas também pelas sutis variações na construção do mesmo, que podem ser percebidas em cada uma das memórias/imaginações que compõem a trama. O filme peca pela sua longa duração, que acho desnecessária, uma vez que o essencial da trama caberia em um tempo bem menor, e também pelas variações de ritmo, que ele sofre em algumas passagens, o que chega a prejudicar o impacto provocado por ele, principalmente em seu desfecho. Mas nada disso tira do filme o brilhantismo que ele tem, ele não é uma obra perfeita, mas é sem dúvidas um filme que merece ser visto e acima de tudo refletido.


Sr. Ninguém é no fim das contas uma exaltação humanista à vida e à cada uma das experiências que ela nos oferece, sejam elas boas ou ruins. Ele me fez lembrar de que é melhor assumir as consequências de uma escolha do que permanecer passivo diante dela, afinal, tudo pode até permanecer possível enquanto uma escolha não é feita, mas isso não é uma garantia de que ao menos uma das possibilidades venham a se concretizar de fato e de nada vale uma longa vida não vivida... Assista ao filme! Nunca se esqueça de viver! 


Assista ao trailer de Sr. Ninguém no You Tube, clique AQUI !

A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra.

31 comentários:

  1. Olá Bruno,

    bom saber que você gostou do Convergência Cinéfila. Já faz algum tempo que estamos compartilhando filmes mesmo diante do fechamento de sites de compartilhamento e das mudanças nas políticas de privacidade desses sites.

    Já adicionei o teu blog à lista dos blogs que indico. E aproveito para fazer uma proposta de parceira para além da troca de links: li algumas resenhas de filmes que você postou por aqui, e gostaria de saber se é você mesmo que elabora as resenhas (no Convergência Cinéfilas as resenhas, sinopses e demais informações são extraídas de outras fontes)? Em caso afirmativo, poderíamos fazer o seguinte: escolheríamos alguns filmes a serem postados simultaneamente nos dois blogs, de modo que divulgaria a sua resenha/crítica do filme "X" no Convergência Cinéfila e você disponibilizaria o link do filme para download na resenha do filme. O que você acha da proposta?

    Abraço.

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    1. Olá Hilarius, todos os textos publicados aqui no Sublime Irrealidade são de minha autoria. Apesar de eu defender o compartilhamento de arquivos pela internet, eu prefiro não disponibilizar links aqui no blog, principalmente para não tirar o foco dos textos. Proponho que façamos da seguinte forma: Você pode usar um texto meu sempre que for postar algum link de um filme sobre o qual eu já tenha escrito e eu terei um imenso prazer em ajudar na divulgação...

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    2. Tranquilo, Bruno. Entendo o seu posicionamento. Sugeri a postagem do(s) link(s) como uma forma de divulgação, porém, pode ser da forma como você expôs.

      Então, façamos assim: sempre que for postar um filme darei uma vasculhada por aqui, e achando-o posto no Convergência Cinéfila com os devidos créditos, daí te aviso aqui no blog.

      Valeu pela atenção.

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  2. Puxa Brunão... Que linda essa sua resenha!
    Você falou sobre o filme e das coisas que o cercam com conhecimento de causa! Parabens.

    Hahahahaha, dá até vergonha de te convidar pra ir lá no meu blog, ler a crítica que fiz sobre o filme O palhaço, hahahahahahaha, mas se tiver coragem passa lá!

    Um abraço!

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  3. José Xará, mais uma vez uma baita postagem. Me animei demais pra assitir o filme tanto pelo tema super interessante, quanto á bela fotografia e trilha sonora. Em certo momento me lembrei de O Velho e o moço dos Los Hermanos. Grande abraço.

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    1. Engraçado Bruno, falei a mesma coisa (sobre 'O Velho e o Moço') para um amigo no dia em que assistimos o filme...

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  4. Nossa, parece ser MUITO bom e o tipo de filme que eu gosto. Fiquei muito curiosa pra ver!!

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  5. Olá, José Bruno.
    Não conhecia este filme, valeu pela dica.
    Gosto de filmes que instiguem o espectador a tirar suas próprias conclusões e tenham uma mensagem válida.
    Abraço.

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  6. Uma das melhores resenhas que li sobre o filme, parabéns Bruno.
    Dôra

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  7. Todas essas memorias, vidas paralelas, não passavam de uma longa abstração que ele teve. É impressionante que no momento que ele teve que escolher entre o pai e a mãe, ele pensou tudo aquilo...Depois de muito meditar nas várias possibilidades que várias escolhas poderiam causar, ele escolhe o caminho do meio.

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  8. "enquanto não se escolhe tudo permanece possível": "Mr. Nobody é uma filme que traz questionamentos sobre a existência de realidades paralelas e como o tempo e espaço são ilusões da percepção.
    Através da vida de Nemo o filme nos ajuda a refletir sobre nossas escolhas e suas consequências, a existência de um "Observador"/"Deus", que é a nossa consciência.
    O filme aborda o despertar da consciência de Nemo para sua multidimensionalidade e existência fora do tempo e espaço, enquanto ao mesmo tempo nos mostra, de maneira abstrata, as simplicidades e complexidades dos comportamentos de nós humanos."

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  9. Essa versão que postei é a que mais me identifico, porém não creio que exista uma certa ou errada. Cada um tem a sua percepção da "realidade".

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  10. Agradei imensamente do filme: as outras 2 pessoas que assistiam junto comigo: foram dormir! Mas penso que voltaram a assistir novamente.
    É...bem tudo está entrelaçado e sim: ele fazia as escolhas referentes a cada uma das janelas: eu gostaria muito de experimentar uma situação assim: experiência de mente, consciência, alma! Todos nós passamos pelo chamado Véu do esquecimento; penso que o Nemo conseguiu lidar muito bem com o fato dele carregar todas as lembranças das outras vidas! E sinto que ele se tornou imortal tb: fez que iria morrer, previu a morte aliás...mas ele não morre! o relógio do não tempo dá uma boa marcha a ré!

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  11. Quero agradecer e parabenizá-los pela iniciativa deste blog onde se encontra texto maravilhosos e filmes excelentes! Obrigado.

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  12. Muito interessante sua análise e acho que é quase isso, mas vc desconsiderou coisas importantes, como por exemplo a física quantica e a importancia do amor. Se observar, vai ver que no final, ele assopra uma folha, num momento decisivo de escolha, mostrando que ali, a escolha não é definida apenas por ele (uma folha ao vento vai onde tiver que ir), e feito isso, ele descobre que a melhor escolha é a do amor. Depois que ele entrega tudo, que vira um mendigo, sua melhor escolha, o amor, se realiza. Grata.

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  13. Inclusive se observar, perceberá que a escolha pela Ana, a que ele ama, foi feita não através da vida com o pai (cujo casamento deu errado) nem da vida com a mãe (a mestiça). A Ana, ele conheceu e amou antes de tudo, através da chamada de seus sentimentos.

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    1. Sabe que desacredito desse estilo de Amor antes de Tudo!: é bonito na verdade: mas...desacredito! quase no finalzinho do finalzinho ele: " Ana"...
      Ana...
      Esta folha assoprada nas três vezes em que assistir ao filme ( vou chegar a umas 15!!!) eu digo: Forrest Gump!

      Entendo praticamente " nada" de física quantica, mas procuro dar umas lidas, conversar com a moçada cabeça " sobre".

      Agradecida também sim! Até!

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    2. Não sei a que tipo de amor se refere. Se fizer a ligação do mendigo com amor, realmente fica babaca. Não é amor romantico. É a escolha através dos sentimentos (e o mendigo só quis dizer que ele desistiu de outros valores, "aquela entrega do ultimo suspiro"). Quando seu pp coração decide, está fazendo a escolha certa. Não são os valores dos outros e nem a carencia afetiva que te leva a escolher o melhor.

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  14. Escolhas...surgem, afloram quando acontece uma afinidade energética por assim dizer! Os valores " penso, sinto" serem: o do conviver!

    E Fernando sentiu a resepito:

    O amor romântico é como um traje, que, como não é eterno, dura tanto quanto dura; e, em breve, sob a veste do ideal que formámos, que se esfacela, surge o corpo real da pessoa humana, em que o vestimos. O amor romântico, portanto, é um caminho de desilusão. Só o não é quando a desilusão, aceite desde o príncipio, decide variar de ideal constantemente, tecer constantemente, nas oficinas da alma, novos trajes, com que constantemente se renove o aspecto da criatura, por eles vestida.

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  15. Excelente sua análise do filme - freudiana, não importa, mas coerente. Jamais havia ouvido falar desse filme, eu que procuro sempre estar atenta aos novos trabalhos dos diretores e , muitas das vezes, os atores que aprecio. Vou procurar nas locadoras porque acabei de o ver num dos canais da TV a cabo. Em todas as faces da nossa vida (poliédrica sempre) a 1ª escolha é a que aponta as seguintes. Vou procurar ler sempre o que escreve sobre filmes.

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  16. Este filem é simplesmente sensacional. comecei a assistir por sorte no canal por assinatura (passou apenas 1 vez) e quando vi já estava preso ao contexto. Filme que leva você a pensar, e quando chega ao final te deixa meio que anestesiado, pensando ainda um bom tempo a frente. Fazia tempo que não assistia filme assim. Agora gostaria de rever mas não consigo achar em lugar algum. Se alguém souber onde encontro agradeceria. Por fim, resenha muito bem escrita, dizendo exatamente o que o filme trouxe.

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  17. Náo tinha visto o nome do filme, mas fiquei totalmente envolvida, dp que acabou vim dreto pra net pesquisar. Adorei filme e a critica. Gosto de produções que fazem a gente pensar...

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  18. Assisti o filme ontem e hoje li tu resenha, perfeita, acima de tudo um filme muito humano, realmente poderia ser compilado em menos tempo, mas não tirou o brilho dele. Fotografia, cenários, enredo, música, atores, tudo nota dez.

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  19. ótima resenha, fiquei c/ vontade de assistir o filme, alguém sabe algum site que posso encontrar???

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  20. Ótima resenha, parabéns! O filme é ótimo, imenso, mas muito bom. Aguça nossa imaginação no sentido de tentar entende-lo em todo o seu contexto.

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  21. Perfeitas colocações, foie xatamente o que entendi do filme também, gostei, quem gosta gosta d atrama e do gênero , inteligente porém ficticio, inteligente porém dramático em alguns pontos,inteligente porém "contraditório", no fim o filme realmente é muito bem dirigido, a direção tem muito crédito neste filme, e a história é muito bacana, o que seria de cada um se fizesse outras escolhas, ninguem nunca saberá essa resposta, muito bom.

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  22. Bela crítica parabéns blog e filme muito bons, Sr, Ninguém possui diversos aprendizados para vivermos as nossas vidas, bela trilha sonora, boa imagem, demais mesmo uma obra de arte!

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  23. Filme no geral é péssimo.
    Fotografia e atuação dos atores muito boa.
    Perde mais de duas horas pra desenrolar uma ideia de uns 40 min.
    Uma coisa é um filme inteligente, outra é um filme que tenta ser inteligente.
    Final brochante.
    Até entendo a preocupação do autor do blog em dar sentido em sua resenha (boa por sinal, pois fazer resenha deste filme é complicado).
    Quem quer um filme moroso, enfadonho e entediante é uma boa pedida.

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  24. Um dia estava lendo algo sobre 4° dimensão e uma pessoa nos comentários falou desse filme, daí eu o vi, achei legal a cena que ele cita o Brasil (desemprego),

    Tomara que na vida a gente consiga encontrar este amor platônico e que consigamos ter uma paixão correspondida!

    Não entendi como ele foi parar no futuro, gostaria que alguém explicasse!

    Sempre é bom ler os comentários!
    Alexandro

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  25. Acabei de assistir e estou aqui me perguntando: Por que não assisti essa preciosidade antes? Enfim, entrou para a lista dos meus preferidos com toda a certeza!

    - "Antes ele era incapaz de fazer uma escolha, porque ele não sabia o que aconteceria. Agora que ele sabe o que acontecerá, ele é incapaz de fazer uma escolha."

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