terça-feira, 30 de julho de 2013

No - 2012. Escrito e dirigido por Pablo Larraín, baseado na peça de Antonio Skármeta. Direção de Fotografia de Sergio Armstrong. Música Original de Carlos Cabezas. Produzido por Pablo Larraín, Juan de Dios Larraín e Daniel Marc Dreifuss. Fabula, Participant Media, Funny Balloons e Canana Films / Chile | USA | França | México.


Em 1970 Salvador Allende foi eleito presidente do Chile, ele, que era um marxista convicto, deu início a um processo de nacionalização da economia do país, estatizando empresas e fechando o cerco contra o imperialismo norte-americano. Três anos depois ele foi vítima de um golpe de estado planejado e financiado pelos Estados Unidos. Allende foi morto em 11 de setembro de 1973 (eu pessoalmente não acredito na hipótese de suicídiona ofensiva comandada por Augusto Pinochet, o chefe das Forças Armadas em seu governo. Pinochet assumiu o poder e deu início à uma sangrenta ditadura, que perseguiu, torturou e matou militantes comunistas, críticos e dissidentes de seu regime. 15 anos depois, em 1988, sob forte pressão internacional, Pinochet (cujo governo fora legitimado em 1980 através da promulgação de uma nova constituinte) consentiu a realização de um plebiscito popular, que questionaria a população acerca de sua permanência no poder por mais oito anos

O filme No (2012), escrito e dirigido por Pablo Larraín, busca retratar em sua trama o trabalho da equipe de profissionais, liderada pelo publicitário René Saavedra (vivido por Gael García Bernal), que foi responsável pela campanha dos partidos de oposição, que lutavam contra a manutenção da ditadura militar. Em sua trama, o filme retrata de uma forma brilhante o surgimento de uma tendência que se firmaria nos próximos anos e se tornaria recorrente na propaganda política. Esta tendencia consistia no esvaziamento do discurso ideológico, e direcionamento do foco das mensagens para questões subjetivas e conceitos abstratos, que já eram explorados com maestria pela publicidade desde o final dos anos 50. O interessante é que no período histórico no qual o filme se passa este formato acabou dando certo e o roteiro, baseado na peça de Antonio Skármeta, mostra muito bem o porquê disso ter acontecido.



Mesmo não tendo tanto envolvimento com a política, René Saavedra chegou a ser exilado, isso tão somente por ser filho de um conhecido militante comunista. O tempo que passou no exílio acabou tirando dele o patriotismo e o sentimento de pertencimento, nota-se na trama que o passado do Chile não tem para ele o mesmo peso emocional que tem para os outros personagens... Apesar de jovem, ele acabou se tornando um respeitado publicitário após regressar ao país, seu bom desempenho chamou a atenção de José Tomás Urrutia (Luis Gnecco), que o convidou para dirigir a campanha pelo 'não'. Mesmo relutante, René aceitou o trabalho, em parte por acreditar no que a campanha propunha, mas principalmente por enxergar nela um grande desafio profissional. Seus métodos, no entanto, acabaram se chocando com o pensamento dos militantes, que não queriam que o ideal democrático fosse vendido como um bem de consumo.



Uma significativa parcela dos membros dos partidos de oposição temiam que a campanha, que tinha a alegria como principal conceito, pudesse representar um desserviço à memória histórica do país, por colocar panos quentes sobre as atrocidades cometidas durante o período ditatorial. Saavedra, porém, acreditava que qualquer abordagem negativista pudesse tirar do material que estavam produzindo aquele que era o seu conceito chave: a felicidade, que viria com a mudança na estrutura do país após sua libertação, que se tornara um pouco mais próxima com a remota possibilidade de vitória do 'não'. O embate entre estes dois pontos de vistas e as concessões de ambos os lados que compunham a esquipe acabaram ditando a tônica das propagandas, que eram exibidas na TV aberta, durante os quinze minutos diários, tempo reservado a cada uma das partes.



No filme, é interessante perceber que o próprio Pinochet não levava o plebiscito a sério, sua arrogância não lhe permitia enxergar a ameaça que ele representava para o seu governo, e isso, aliado à pressão internacional, explica o fato dele não ter tentado nenhum tipo de sabotagem ou repressão contra os representantes do lado oposto. O que o filme mostra são apenas tentativas de intimidação, que se mostram falhas frente à coragem e determinação demonstradas pelos partidários do 'não'. Acredito que se a campanha tivesse adotado um tom mais sério, com revelações e denúncias das atrocidades cometidas nos anos de chumbo, a postura de Pinochet teria sido outra. Com uma provável repressão do estado o resultado do plebiscito também poderia ter sido bem diferente... A forma com que o governo enxergava a angulação adotada nas esquetes e no material publicitário do 'não' fica evidente na passagem em que um ministro de Pinochet zomba da escolha do arco-íris como um símbolo dos partidos de oposição. 



No mostra ainda a relação de Saavedra com sua ex-esposa, que também era uma militante de esquerda, ele possui a guarda do único filho que tiveram e se desdobra para conseguir cuidar do garoto, que frequentemente o acompanha nos sets de gravação. Este núcleo familiar, apesar de ser pouco relevante para a história em si, acaba sendo de extrema importância para que conheçamos quem de fato é o protagonista. Uma das abordagens analíticas possíveis a respeito de No (talvez a mais interessante delas) diz respeito ao deslocamento afetivo e ideológico experimentado pelo personagem. A vida de Saavedra é bem diferente da realidade que ele vende em suas criações, o ideal de felicidade presente em suas peças não é um espelho de sua própria vivência. Percebe-se na trama que ele não se encontra naquilo que produz, como se ele estivesse alienado de seu próprio trabalho e isso pode ser notado em uma das melhores sequencias do filme (que é também uma das mais emblemáticas), na qual ele finalmente se vê diante de uma manifestação real da alegria, até então abstrata, que fora associada à campanha.



É interessante ver em
No o trabalho de filmagem das peças, com as discussões sobre aquilo que estava sendo produzido e depois a peça já pronta (em imagens reais da época) sendo exibidas na TV. Sergio Armstrong, o diretor de fotografia, faz verdadeiros milagres no filme, ele consegue extrair imagens belíssimas apesar dos recursos tão limitados. A opção por fotografar o filme com o mesmo aparato técnico com o qual eram produzidos os conteúdos para a TV na época em que ele se passa foi uma decisão muito bem sucedida, a estética resultante do processo de filmagem adotado faz com que imagens reais de arquivo e as do próprio longa se confundam e isso dá a ele uma maior verossimilhança e reforça o tom documental de sua trama. A trilha sonora, por sua vez, é engrandecida pela canções incluídas de foma diegética no filme, principalmente por aquelas presentes nas propagandas. Já a montagem confere ao filme um ritmo rápido, que faz com que a história flua com grande facilidade e leveza.



As atuações são ao meu ver um dos grandes destaques do filme, todo o elenco está muito bem e a composição de cada personagem dá a eles a veracidade e a credibilidade que a trama lhes exige. O Gael García Bernal está muito bem, o que não é nenhuma surpresa, considerando sua já vasta e multinacional trajetória. Alfredo Castro, Luis Gnecco, Néstor Cantillana, Antonia Zegers, Marcial Tagle, Pascal Montero e Jaime Vadell também entregam desempenhos elogiáveis. A direção de Pablo Larraín (que dirigiu outros dois filmes sobre a ditadura no Chile) é segura e eficiente e seu mérito está principalmente no fato de o filme não ter se tornado apenas mais um dentre tantos produzidos na América Latina sobre variações deste mesmo tema. 

No é obviamente um filme político, mas é também sobre a postura do indivíduo frente à falência das ideologias em um mundo cada vez mais imediatista, onde tudo, até mesmo a alegria, se tornou nada mais que um mero emaranhado de imagens e conceitos reunidos para vender produtos... 

No foi indicado ao Oscar na categoria de Melhor Filme Estrangeiro, e recebeu em Cannes o prêmio da Confederação Internacional de Cinemas de Arte na mostra paralela Quinzena dos Realizadores



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A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra.

sábado, 27 de julho de 2013

Só Deus Perdoa

Só Deus Perdoa (Only God Forgives) - 2013. Dirigido e escrito por Nicolas Winding Refn. Direção de Fotografia de Larry Smith. Música Original de Cliff Martinez. Produzido por Lene Børglum, Sidonie Dumas e Vincent Maraval. Bold Films, Gaumont, Wild Bunch, A Grand Elephant e Film i Väst / FRança | USA | Tailândia | Suécia.


Só Deus Perdoa (2013) do diretor e roteirista Nicolas Winding Refn era um dos filmes mais aguardados deste ano, e não era para menos, Drive, a obra anterior do cineasta, ganhou o prêmio de Melhor Diretor em Cannes e entrou em diversas listas dos melhores filmes de 2011. Mas, como já era de se esperar, toda a expectativa criada em torno do novo trabalho o colocou em uma difícil situação, para ser bem sucedido ele precisava repetir o feito do anterior, mas sem repetir a mesma fórmula. Winding Refn, no entanto, entregou o que já era esperado: um filme ainda mais violento e conceitualmente complexo do que o antecessor. De Drive, a nova produção herdou o teor reflexivo, a narrativa lenta, o cuidado estético e o uso da violência como elemento gráfico e de significação, contudo, são filmes bem diferentes entre si. 

A relativa complexidade dos temas abordados torna Só Deus Perdoa um filme ainda mais difícil de ser digerido do que Drive, este último tinha a seu favor a elegância de sua composição visual, a qualidade de sua trilha sonora saudosista e o fato de que sua trama podia funcionar com facilidade, ainda que suas referências e inferências não fossem prontamente compreendidas. No novo filme nada é tão simples. Sua fotografia é muito bem trabalhada, porém sem a compreensão de conceitos chaves, que não estão tão explícitos na narrativa, ela se torna apenas um embalagem bonita. Já a trilha sonora soa em alguns momentos demasiadamente experimental, como nas passagens em que um dos personagens solta a voz, interpretando canções que não deixam de nos causar algum tipo de estranhamento. 


Contudo, o que pode realmente tornar o filme confuso e indigesto para uma grande parcela do público é o fato de que ele não funciona sem a concomitante compreensão de seus simbolismos e metáforas. A sequência de eventos que o filme retrata não é difícil de ser entendida e isso me leva à conclusão de que a trama em si é simples e que o que a torna complexa são os seus sub-textos, aquilo que está presente nas entrelinhas e que exige do expectador doses maiores de reflexão e de atenção. No filme, Julian (Ryan Gosling) é um americano radicado em Bangcoc, um traficante de drogas que usa uma escola de boxe tailandês para lavar o dinheiro sujo de sua atividade ilícita. Ele divide com Billy (Tom Burke), seu irmão mais velho, a gestão da academia e dos negócios relacionados ao tráfico, porém, esta sociedade termina de forma trágica ainda no primeiro ato do filme. Billy é morto pelo pai de uma prostituta de 16 anos, a quem ele espancara até a morte em um bordel.


Crystal (Kristin Scott Thomas), a mãe de Julian e Billy, vai para a Tailândia para enterrar o seu primogênito e para cobrar do caçula uma postura firme em relação à morte do irmão. Ela, que também está envolvida com o tráfico, tem sede de vingança e quer que o assassinato de Billy seja cobrado na mesma moeda. Julian, no entanto, prefere não se envolver, ele, diferente da mãe, compreende que o irmão foi o principal culpado pela sua própria morte e se compadece da situação na qual se encontra o algoz, que aparentemente não é um homem mal. Contudo, a postura de Julian se mostra frágil diante da pressão exercida pela mãe e aqui temos o primeiro ponto da trama que precisa ser destacado: Crystal é extremamente dominadora e o filho se sujeita sem tanta resistência à sua influência nefasta.


O real motivo do assassinato de Billy não nos é revelado de imediato, mas tudo indica que o crime tem alguma relação com as atividades de Chang (Vithaya Pansringarm), um policial aposentado que age como se estivesse acima da lei e blindado o suficiente para se resguardar das consequências de seus atos, ele é um personagem cercado de mistério e a história não deixa tão evidentes quais são suas motivações. Chegamos então ao segundo ponto da trama que precisa ser destacado: Chang age guiado por uma conduta ética própria, ele se coloca em uma posição de controle e reserva para si o direito de julgar e de punir de acordo com um conjunto de princípios que nós espectadores não conhecemos a fundo. É interessante perceber que há em seus atos uma lógica que se mantém em todo o desenvolvimento do filme, esta lógica atribui a eles um sentido maior, que é o que nos interessa para uma análise mais minuciosa da obra.


Na desconstrução das situações que destaquei é possível identificar algumas referências e um conjunto de metáforas que nos ajudam a compreender melhor aquela que é a temática central do filme: a luta do indivíduo contra sua própria natureza (sim, este é o mesmo tema que fora abordado em Drive). Diversos elementos da história contada pelo longa apontam para um dos maiores clássicos da dramaturgia grega, o mito de Édipo, escrito por Sófocles por volta de 427 a.C.. Tal como o herói trágico, que mata o próprio pai e se casa com a mãe sem saber quem na verdade eles são, o protagonista de Só Deus Perdoa tenta inutilmente contrariar sua natureza e fugir de seu próprio destino, mas se descobre impotente diante do fatalismo de sua existência. A referência ao mito vai além, ela está presente em diversos pontos da narrativa, podendo ser percebida no fato que levou Julian a se refugiar na Tailândia e também no relacionamento (sugestivamente incestuoso) que ele tem com sua mãe.


Julian se encontra durante todo o filme diante de um dilema que é ao mesmo tempo moral e ético, ele sabe que um ato de vingança é injustificável, dada as condições nas quais seu irmão foi morto, no entanto, ele se deixa guiar pela influência da mãe, cuja pressão lhe coloca em posição de confronto com o implacável Chang. Em sua condição, que lembra a de outro personagem trágico, a Lady Macbeth de Shakespeare (no contexto da trama, Julian guarda mais semelhanças com a personagem do que sua mãe), o protagonista tem a capacidade de representar o gênero humano como um todo; as dúvidas que ele tem e os questionamentos que ele faz estão diretamente ligados à questões seminais da humanidade, como a noção de livre arbítrio, perdão, pecado, culpa e propiciação. Tal compreensão torna plausível também a associação dos personagens Chang e Chistal a deus (justiça) e ao diabo (pecado) respectivamente (tal interpretação explica alguns dos diálogos, que estão aparentemente soltos no filme, e a predominância dos tons avermelhados na fotografia, o que remete ao inferno).


Chistal representa no filme a natureza contra a qual o protagonista luta, natureza esta da qual ele próprio é um fruto (aqui pode ser feito um link com a teologia judaico/cristã e com a ideia da perda do paraíso e da da natureza divina que existia no homem antes da queda), enquanto que Chang personifica uma intervenção externa, uma força (que não deixa de ser moral) que atua no indivíduo e aponta para ele o único caminho para a redenção: a purgação dos pecados através da autoimposição do sofrimento (temos aqui mais uma referência à obra de Sófocles)... Similar ao teatro grego, Só Deus Perdoa deve ser visto e analisado como alegoria e não como representação da realidade, de tal modo ele será capaz de atender, ou quem sabe superar, algumas das expectativas que criamos em relação a ele. Por outro lado, se deixarmos de lado o potencial alegórico, sua trama se tornará vazia de significações e nos soará demasiadamente estranha e improvável.


Ryan Gosling constrói novamente o tipo de personagem no qual parece ter se tornado especialista, o tipo calado, violento e dotado de complexidade psicológica. Aqui, mais uma vez ele usa elementos não verbais da atuação para desenhar aquilo que seu personagem é, seu Julian tem propriedade e é notadamente um personagem diferente daquele que ele interpretou em Drive, por exemplo, e tal diferenciação é feita através de sutilezas que poucos atores conseguem explorar. A Kristin Scott Thomas está ótima em cena, sua composição, que salienta a força, a sensualidade e perversidade de sua personagem foi muito bem realizada. Vithaya Pansringarm, por sua vez, dá vida a um dos personagens mais interessantes do filme, seu bom desempenho me permite dizer que talvez um dia seu Chang se torne icônico, como já aconteceu com vários outros personagens de filmes que o tempo se encarregou de tornar cults


Nicolas Winding Refn me convenceu mais uma vez. Desde que eu o assisti há alguns dias, Só Deus Perdoa só cresceu em minha mente (confesso que demorei para correlacionar as peças que ficaram soltas e para achar um significado para elas). Hoje já posso afirmar que ele me proporcionou uma grandiosa experiência cinematográfica e isso me deixa ainda mais curioso em relação ao próximo trabalho do cineasta. 


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A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra.

Confiram também aqui no Sublime Irrealidade a crítica de 
Drivetambém dirigido por Nicolas Winding Refn.

domingo, 21 de julho de 2013

Elena

Elena - 2012. Dirigido e produzido por Petra Costa. Escrito por Petra Costa e Carolina Ziskind. Direção de Fotografia de Janice D'Avila, Will Etchebehere e Miguel Vassy. Música Original de Fil Pinheiro. Busca Vida Filmes / Brasil | USA.


Elena tinha um sonho e lutou para que ele se tornasse realidade, de sua parte não faltou esforço nem dedicação, mas o simples passar dos dias, em um espaço de tempo relativamente curto, se encarregou de mostrar para ela que havia um mundo de solidão, dor e frustração entre o aconchego do lar que ela deixara e aquilo que ela perseguia com tanto afinco. Ela herdara da mãe o sonho de ser atriz, só que, ao contrário dela, Elena não enxergava o casamento como uma opção a ser considerada, ela não cabia no papel de mãe e de dona de casa, sabia disso desde criança. A separação dos pais veio comprovar aquilo que para ela já era uma certeza, a felicidade esperada estava bem longe do monótono conforto de sua casa. Elena, cujo voo no teatro já tinha se mostrado bem sucedido, queria ir mais alto, muito mais alto, ela se mudou para Nova Iorque com a expectativa de tornar mais próxima a sua meta de ser uma atriz em Hollywood. 

Porém, ao contrário do que a ética triunfalista nos diz, não basta acreditar que o sonho é possível e às vezes o maior esforço do mundo não é o suficiente para torná-lo real. Ao se deparar com sucessivas frustrações, Elena se esgota, seu ânimo se esvai pouco a pouco e sua vida perde completamente o sentido. A arte, na qual ela tinha encontrado um razão de ser, acaba se tornando o motivo de sua morte prematura - suicídio em 1990, aos 20 anos. O documentário que leva o nome da jovem foi dirigido por Petra, sua irmã caçula, que tinha apenas sete anos quando ela se matou. No filme, o que vemos é uma tentativa da cineasta de reencontrar a si mesma em meio à culpa e ao sentimento de incapacidade que carregou consigo durante os 23 anos que se passaram desde a tragédia.


Após a morte de Elena, Petra aparenta tomar para si a responsabilidade de preencher o espaço deixado pela irmã e com o tempo a personalidade das duas passa a se confundir, em dado momento, a cineasta, que também narra o filme, conta que pessoas próximas comentavam que ele estava se tornando, fisicamente, cada vez mais parecida com a irmã, com quem não tinha tanta semelhança quando ainda era criança, ela se atormenta com isso mas acaba se apegando a esta ideia numa tentativa de lidar com o sofrimento advindo da perda. A confusão de personalidades parece se estender para outras áreas da vida de Petra e isso fica evidente quando ela opta pela carreira de atriz, aos 17 anos, decisão esta que também lhe atormenta profundamente, ela sente como se tudo isso não fosse o fruto de uma escolha, mas um fardo, legado pelo destino, do qual ela jamais conseguiria escapar.


Na busca pela irmã, que Petra faz através de seu diário, dos vídeos caseiros, recortes de jornais e de entrevistas com amigos, há um verdadeiro mergulho em questões existenciais e de identidade. A coragem da cineasta de lidar com seus próprios fantasmas pode ser notada na autenticidade de seus sentimentos, principalmente de sua dor, que emana quase palpável das cenas que ela mostra e comenta o cuidado, quase maternal que a irmã mais velha tinha com ela, quando ela ainda era um bebê, e na angustiante passagem em que ela descreve a morte de Elena e a reação da mãe e a sua própria ao receber a notícia. É algo extremamente doloroso, até mesmo de ser assistido, mas Petra conta tudo com tamanha sutileza, que torna até a dor mais profunda, sentida por uma criança diante da morte de uma pessoa querida, algo singelo e dotado de uma poética impressionante. 


Li An, a mãe de Elena e Petra, surge no documentário como o galho da árvore genealógica do qual advém a extrema sensibilidade artística, não por acaso, o roteiro destaca o fato de ela também ser uma atriz frustrada, alienada de seu próprio sonho. A dor que ela sente está estampada em seu rosto sofrido, principalmente no olhar, nota-se que ela ainda experimenta o mesmo esvaziamento existencial que levou sua filha mais velha a um destino tão trágico e isso mostra que há um outro fio, além do da experiência compartilhada,  que liga as três. Há entre elas uma troca de projeções constante, como se uma estivesse o tempo todo buscando nas outras as respostas para seus próprios conflitos (isso pode ser notado até mesmo na insistência de Elena, de que a irmã também explore sua própria veia artística).


Longe de ser apenas uma busca pessoal da cineasta por alguma espécie de catarse, Elena se firma como um filme universal sobre perda, dor e frustração. A experiência que ele nos proporciona vai muito além do simples contato com a história de uma garota que morreu jovem demais, diante dele somos instigado à uma reflexão incômoda sobre o sentido que tentamos dar para as nossas próprias vidas, sobre nossos sonhos e nossas expectativas. O documentário é também um tratado sobre a arte, em seu estado mais bruto, e sobre uma entrega visceral a ela, uma entrega tão fascinante quanto destrutiva. Petra soube mesclar de uma forma sublime no filme estes dois elementos - o fascínio e a destruição - e este talvez seja o seu maior trunfo...


Em relação à linguagem, Elena representa uma espécie de rompimento com a estrutura do gênero ao qual foi associado. Ele se distancia do rigor jornalístico e abre margem em sua abordagem da história para um poética, que traz consigo uma verdadeira eclosão de sentimentos. Ao invés de usar as imagens apenas como registro histórico e como comprovação daquilo que está sendo narrado (como é comum no gênero), Petra Costa opta por extrair dos registros em VHS, que sua família guardou por décadas, diversas metáforas visuais e simbolismos, como na passagem maravilhosa em que sua mãe mostra a beleza de uma árvore em Nova Iorque e a câmera se vira sutilmente para a copa frondosa e imponente, que preenche a tela por alguns segundos, após um corte esta imagem é substituída por um registro em preto e branco que mostra galhos secos de uma outra árvore, esta aparentemente já sem vida. 


Esta lógica, que predomina tanto nas imagens de arquivo quanto naquelas que foram produzidas exclusivamente para o filme, demonstra a maturidade da linguagem trabalhada pela cineasta e da eficiência da composição de sua narrativa, que mescla diversos elementos de forma tão harmoniosa  Destaco ainda duas outras passagens que também são carregadas de simbolismos, uma na qual as vozes da mãe e das duas filhas se misturam, evidenciando a confusão de identidades que experimentam, e outra, presente no último ato do filme, que representa a 'libertação' que Petra buscava alcançar com o filme... Ainda que Elena traga consigo uma verdade inconveniente para os que ainda acreditam que exista no universo alguma espécie de mágica que recompensará os esforçados por sua persistência, ele precisa ser lembrado, discutido e principalmente sentido por todos... Não tenho dúvidas, estamos diante de uma obra-prima!

Elena ganhou no Festival de Brasília os prêmios de Melhor Documentário, Direção, Montagem e Direção de Arte e ainda recebeu a Menção Especial no Festival Internacional de Cinema de Guadalajara e no Festival Internacional de Documentários ZagrebDox


Assistam ao trailer e a um dos vídeos promocionais de Elena no You Tube, clique AQUI e AQUI


A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra.

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Segredos de Sangue

Segredos de Sangue (Stoker) - 2013. Dirigido por Chan-wook Park. Escrito por Wentworth Miller. Direção de Fotografia de Chung-hoon Chung. Música Original de Clint Mansell. Produzido por Michael Costigan, Ridley Scott e Tony Scott. Scott Free Productions, Indian Paintbrush e Fox Searchlight Pictures / USA | UK.


"Até laços de família perdem sentido com escassez de comida [...] Ainda que a rivalidade fraterna pareça cruel, no final é melhor assim. Cada dia na cabana aproxima a águia da maturidade. O mais paciente dos predadores, a águia negra, ronda por horas esperando o momento perfeito de atacar [...] A montanha não é lugar para os fracos de coração, o terreno ingrime e o clima severo criam um ambiente desafiador até para a mais forte das espécies. Ainda que a águia prefira achar suas próprias refeições, não há nada errado em pedir uma pequena ajuda, qualquer vantagem na natureza deve ser apreciada, além de ser uma refeição calorosa para o pássaro faminto que vai viver para caçar mais um dia..."

A citação acima foi incluída de forma diegética em Segredos de Sangue (2013), o primeiro filme do cineasta sul-coreano Chan-wook Park produzido em Hollywood, ela é dita em um documentário sobre a luta das águias pela sobrevivência, que uma das personagens assiste em um quarto de hotel. A citação não está no filme por acaso, ela diz muito sobre a trama e sobre aquele que é seu principal tema, a influência do meio na formação e no comportamento do indivíduo, que pode chegar ao ponto de condicioná-lo à determinadas ações e/ou reações. A história contada é relativamente simples e seu mote é o reaparecimento do misterioso Charles Stoker (Matthew Goode) após a morte de Richard (Dermot Mulroney), seu irmão. India (Mia Wasikowska), a filha de Richard, e Evelyn (Nicole Kidman), a viúva, são surpreendidas pelo retorno do parente, que estivera durante muito tempo viajando pelo mundo a trabalho.


A volta de Charles acaba tornando India ainda mais distante da mãe, a garota não suporta a ideia de ter o lugar de seu pai tomado pelo tio, com quem ela nunca tinha tido contato até então. Evelyn, por sua vez, parece se render com facilidade aos encantos do cunhado, em algumas passagens ela dá a entender que o vê como uma versão rejuvenescida do marido, os modos e a aparência do rapaz a fazem lembrar de Richard na época em que se conheceram e isso a atrai. Em outros momentos nota-se que a relação dela com o falecido já estava há algum tempo desgastada, isso talvez explique o fato dela enxergar em Charles a oportunidade de reviver uma época em que fora verdadeiramente feliz, ainda que ela não tenha nenhum tipo de garantia ou evidência de que isso venha a acontecer.

Apesar do suspense, que mantém o desenrolar da trama em uma tensão sempre crescente, este não se trata de um filme puramente sensorial. A estilização, que pode ser notada nos enquadramentos, nos movimentos de câmera e na composição da mise-en-scène não é apenas uma excentricidade técnica, ela, além de salientar o tom alegórico do filme, ajuda ainda na criação de inúmeras metáforas visuais, que em alguns momentos nos dão pistas do que está para acontecer e em outros colaboram com a narrativa na construção das diversas inferências, que estão presentes do início ao fim do filme. Isso não é novidade na filmografia de Chan-wook Park, sua já clássica 'trilogia da vingança' usa e abusa de tal tipo de estilismo.


Cenas, aparentemente deslocadas, como a que mostra uma aranha subindo pelo perna da personagem principal, ou aquela na qual ela enfileira à volta de si os pares de sapatos, do mesmo modelo, que ganhara  desde que era criança a cada aniversário, são dotadas de inúmeros significados que nos ajudam a compreender os personagens e a ter ao menos uma noção da complexidade do contexto sócio/afetivo no qual eles estão inseridos. Seria reducionismo classificar Segredos de Sangue como um filme sobre o rito de passagem da infância para a vida adulta, pois o que ele retrata, ainda que de forma não tão aprofundada, é todo um processo deturpado de amadurecimento e de formação moral, vemos isso claramente na composição de dois de seus personagens: India e Charles. Ambos são, de certa forma, um resultado da influência perversa do meio em que cresceram e seus comportamentos refletem o deslocamento de cada um deles em relação à sociedade.


Há no filme a abordagem de um tema recorrente na filmografia de Chan-wook Park, que é o isolamento como condicionante moral. Se a moral, ao contrário da ética, é um fator externo ao indivíduo, há de se pressupor que uma pessoa ao ser isolada tenda a desenvolver um comportamento amoral (não confundir com imoral) devido à sua não exposição à influência do pensamento coletivo e isso é o que vemos em quase todo o desenvolvimento de Segredos de Sangue. A conduta que evidencia a negação da moral pré-estabelecida é o que torna os personagens, aos olhos do expectador, tão frios e desumanizados. É interessante perceber a polaridade de forças que Charles e India representam no filme; o processo de amadurecimento desestruturado fez com que ele passasse a enxergar o ataque como única forma de lidar com os eventos contrários à sua vontade, enquanto que ela aprendeu a se colocar sempre na defensiva, atacando apenas quando é atacada.


O que vemos no filme é o embate entre estas duas forças que se formam em polos opostos, mas semelhantes entre si. Devido a um grave erro que cometeu quando ainda era criança, Charles fora privado do convívio com sua família e tal punição acabou sendo determinante para a sua formação, gerando como reflexo o tipo de comportamento que ele viria a ter na vida adulta. Já India, foi desde cedo treinada pelo pai para reagir de maneira racional, mesmo diante de situações extremas, a coragem que lhe era exigida fez com que ela se tornasse madura em alguns aspectos; continuando, porém, completamente infantil em outros. Percebemos isso claramente na forma com que ela reage aos estímulos externos, em alguns momentos com resiliência e prudência e em outros de uma forma bastante imatura e inconsequente.  


O embate entre os protagonistas ganha expressão naquela que considero uma das melhores passagens do filme, a que India e Charles tocam piano juntos, em uma espécie de duelo, que se dá carregado de violência e de erotismo. Não creio que seja exagero associar esta passagem a um ato de violência sexual, na sequência a garota sucumbe diante de uma força bem superior à dela, contra a qual ela não tem qualquer chance de reação. A interrupção abrupta da música (e, consequentemente, do processo de sedução) deixa a garota atormentada, é como se naquele momento ela descobrisse que algo nela estava ainda incompleto e que anos de preparação não foram o suficiente para torná-la forte o suficiente para lidar com uma situação extrema do tipo que seu pai já antevia.


A citação reproduzida no primeiro parágrafo aponta para a animalização dos personagens, que, tal como as águias descritas no documentário, apresentam comportamentos instintivos que visam a sobrevivência e a satisfação das necessidades individuais em detrimento dos laços afetivos e familiares. Neste ponto fica já fácil compreender qual é a problemática filosófica que está implícita na trama, que acaba sendo o seu norte e o mote para algumas boas reflexões que ela fomenta, ela seria a questão da moral constituída como elemento de humanização e a amoralidade como condicionante para a bestialização do comportamento humano. Interessante é que este é o mesmo tema que norteia a história de Oldboy (2003), a obra prima de Chan-wook Park, no entanto, desta vez a abordagem é bem distinta. 


Demonstrando um preciosismo técnico, que já se tornou característico do cinema oriental, o cineasta torna cada fotograma e cada movimento de câmera um verdadeiro deleite para aqueles que valorizam o cuidado extremo com os efeitos visuais. O uso da fotografia, dos cenários e dos figurinos não tem como fim apenas a beleza estética, há uma gama de significações, por exemplo, na atemporalidade que emana das roupas e objetos cênicos, principalmente nas primeiras sequências do filme (o que vejo como uma referência aos filmes de suspense das décadas de 40 e 50 - vale lembrar que há bastante influência Hitchcock na trama e na forma de se conduzir o suspense). A trilha sonora original, composta por Clint Mansell atenua o suspense em algumas cenas e ainda confere ao filme um ar clássico e requintado. Vale destacar ainda as duas peças de piano compostas pelo Philip Glass, que também fazem parte da trilha. 


O desempenho do elenco principal torna o filme ainda mais grandioso, Matthew Goode e Nicole Kidman conseguem dar veracidade e consistência aos seus personagens, mesmo eles fazendo parte de um contexto que é predominantemente alegórico e em alguns momentos surrealista. No entanto, é Mia Wasikowska que rouba todas as cenas, a composição de sua India é repleta de nuances, o que evoca um alto nível de complexidade e profundidade. Para quem já teve a oportunidade de conferir seu desempenho na versão americana da série In Treatment, o que ela entrega aqui não é nenhuma surpresa, trata-se de mais uma prova daquilo que já venho afirmando há algum tempo: No tocante à atuação esta linda jovem australiana é um verdadeiro monstro! 

Esta declaração pode gerar polêmica, mas, ao meu ver, Segredos de Sangue está à altura da filmografia de Chan-wook Park, uma pena que ele não tenha sido recebido por todos com os elogios que merece... Começa a ser formada a minha lista pessoal dos melhores do ano... 


Assistam ao trailer de Segredos de Sangue no You Tube, clique AQUI ! 

A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra.

Confiram também aqui no Sublime Irrealidade a crítica de Lady Vingança (2005), também dirigido pelo Chan-wook Park.

domingo, 14 de julho de 2013

Vanguart - Cataguases 13/07/2013 (show)

"Não te opõe ao curso do rio, prestidigitar a frustração
Tem dias que a vida é um ato de coragem..."


Bem, acho que posso dizer que foi um pequeno ato de coragem que me levou ontem ao último dia do Fórum Dissonâncias em Cataguases (MG). Após a desistência de alguns amigos, com quem eu tinha combinado de ir, parti sozinho de Ubá com o plano de chegar a Cataguases, fazer o check-in no hotel (o mesmo que eu tinha ficado uma semana antes, quando fui para o show do Silva com um amigo), ir para o debate preliminar, que tinha como tema a indagação se 'ainda há espaço hoje para reflexões conceituais na música brasileira', depois para o show do Vanguart, que encerraria o evento, e por fim, após a apresentação da banda, voltar para a hospedaria. Este plano foi por água abaixo pouco tempo depois de eu ter chegado em Cataguases... Contarei mais adiante. 

O Fórum Dissonâncias, promovido pelo Projeto Usina Cultural com o apoio da Energisa e do Governo Estadual (através da lei estadual de incentivo à cultura), tinha começado dois dias antes, na última quanta feira (11/07), tendo em sua programação outras mesas de debate sobre a música contemporânea e shows com a banda Kashymir e o com o cantor Odair José. Pelo tom do debate no último dia se via que os anteriores também tinham rendido uma boa discussão, com algumas discordâncias e muita indagação e reflexão. Saindo ligeiramente do roteiro pré-estabelecido, a mesa acabou focando uma outra questão no debate que assisti, a abrupta mudança na realidade do mercado fonográfico após a quebra de paradigmas proporcionada pelas novas tecnologias.


O debate aconteceu no auditório do Centro Cultural Humberto Mauro e a mesa foi composta pelo jornalista e crítico musical Alex Antunes, que a coordenou, pelo produtor Pena Schmidt, pelo músico e produtor Daniel Figueiredo, pelo jornalista e crítico musical Marcos Preto e pelo músico Hélio Flanders (o vocalista do Vanguart). A discussão fluiu com bastante facilidade e houve interação muito boa com o público. Foi após uma pergunta minha que a discussão acabou mudando de rumo e isso, lógico, a tornou ainda mais interessante para mim, principalmente porque o tema é bastante pertinente. Terminada a mesa de debates, fui junto com os amigos, que conheci logo que cheguei, para a praça Rui Barbosa, onde o palco estava montado, faltava pouco para o início...


O show foi simplesmente maravilhoso, o repertório predominantemente formado por canções do segundo disco, intitulado Boa Parte de mim Vai Embora, trouxe também algumas músicas do primeiro CD, autointitulado, além de duas inéditas, que estarão no terceiro álbum (que tem o lançamento previsto para o final de agosto) e um cover da clássica Ouro de Tolo do Raul Seixas. Acredito que uma boa parte do público presente na praça não tinha sequer noção de quem era o Vanguart, talvez para eles o show não tenha feito tanto sentido, afinal sabemos que mesmo em uma cidade com uma cena cultural tão forte, a verdadeira arte não exercer um apelo tão significativo sobre o público médio, que tem pouco ou nenhum contanto com este tipo de produção, mas, o que deu para notar é que uma grande maioria dos presentes curtiu o que viu e ouviu.


Para nós fãs, a apresentação foi perfeita e isso foi consenso entre todos com quem conversei, os músicos demonstraram uma técnica apurada, que ficou evidente em cada música e na execução de cada um dos instrumentos (o violino da Fernanda Kostechack e a forma com que ele se encaixa em cada canção em que é usado é simplesmente sublime, de arrepiar). Mas só técnica não é o suficiente para se fazer a música conceitual, tão discutida na mesa de debates, e é aí que está o ponto forte da banda surgida em Cuiabá (MT), mais do que a perícia, o que se sobressaiu em cada canção foi uma ebulição de sentimentos quase palpável de tão real, o que podia ser notado tanto na composição quanto na interpretação de cada uma das músicas. Antes do show, no debate, o vocalista Hélio Flanders, quando questionado sobre a serventia da música, disse que ela, como expressão artística, tinha como fim colocar-nos em contato com Deus (leia-se com o sublime) e isso foi o que senti ontem em diversos momentos...


A show terminou e estávamos cientes que tínhamos vivido uma experiência maravilhosa, já estava perfeito, mas a noite estava apenas começando... Fomos no backstage para autografar os CDs e camisas que tínhamos comprado, pegamos uma fila bem grande (o que me surpreendeu, pois continuo acreditando que nem todo mundo que estava ali já conhecia a banda anteriormente), mas valeu a pena. A surpresa veio quando o Hélio me convidou para continuarmos a discussão sobre a cena musical em um bar, junto com o pessoal da banda, o convite também foi feito para um outro amigo. Aceitamos, lógico. Ali começava a segunda parte de uma noite que seria inesquecível para cada um de nós. 


O bate papo descontraído (com alguns picos de exaltação) durou mais de cinco horas, se estendendo até quase o raiar do dia, quando os garçons abaixaram as portas e começaram a recolher as mesas que estavam à volta da nossa. Ainda ficamos um bom tempo conversando na rua, em frente ao hotel, onde os músicos estavam hospedados. Durante toda a madrugada, conversamos sobre o cenário musical, literatura, sexualidade e inúmeros outros assuntos, isso sem contar outros episódios, de caráter mais pessoal, que alguns de nós certamente guardaremos por muito tempo. Quando nos despedimos já eram cerca de cinco e meia da manhã, levei duas amigas, recém conhecidas até a casa de uma delas, voltei para o hotel, peguei minhas coisas e fui direto para a rodoviária, onde me reencontrei com o pessoal de Muriaé (MG) que esteve comigo durante toda a noite. Nenhum de nós acreditava no que tinha acontecido... 



Seguimos o curso do rio, prestidigitamos a frustração, tivemos um ato de coragem e o resultado foi uma das melhores noites do ano. Foi perfeito! Um brinde à arte que nos proporcionou tudo isso!!! 

O Vanguart é formado por David Dafré (guitarra e vocais), Douglas Godoy (bateria), Halio Flanders (voz, violão, trompete e gaita), Luiz Lazzaroto (piano, teclados e rhodes) e Reginaldo Lincoln (voz e baixo). 

Dedico este post aos amigos Gabrielle Rosa, Luiz Kutianski, Tainah Curcio, Kate Balashova, Eduarda Crecembeni, Lucas Borges, a cada um dos integrantes do Vanguart e aos outros presentes que tornaram esta noite tão especial. 

domingo, 7 de julho de 2013

O Último dos Valentões

O Último dos Valentões (Farewell, My Lovely) - 1975. Dirigido por Dick Richards. Escrito por David Zelag Goodman, baseado na obra de Raymond Chandler. Direção de Fotografia de John A. Alonzo. Música Original de David Shire. Produzido por Jerry Bruckheimer e George Pappas. E.K. Corporation e ITC Entertainment / USA. 


Enquanto o formato e a narrativa de grande parte dos filmes rodados nos anos 70 apontavam para frente, para o novo, O Último dos Valentões (1975) apontava é para o passado e não é para menos, ele, que é a terceira filmagem da obra Adeus, Minha Adorada, do lendário escritor e roteirista Raymond Chandler, se vale da mesma fórmula que fora usada em The Falcon Takes Over (1942) e Até a Vista, Querida (1944), as duas primeiras adaptações. O que vemos nele é apenas uma remontagem do noir clássico, com direito a todos os elementos característicos do gênero, que vão da presença de um protagonista ambíguo e de uma femme fatale (neste caso, várias), à ambientação em um mundo urbano de corrupção e violência, passando, é lógico, pelo aparato técnico, que se vale, como de praxe, da narração em off e de uma fotografia que dá o devido destaque para a aparência sombrio dos ambientes.

No centro da trama está o detetive particular Philip Marlowe (Robert Mitchum), personagem recorrente da obra de Chandler, ele, no início da história, é abordado por Moose Malloy (Jack O'Halloran), um homem que passara sete anos na cadeia e que agora, já em liberdade, queria reencontrar sua amada Velda, uma prostituta a quem ele pedira em casamento antes de ser preso. Marlowe acaba aceitando o trabalho, e a investigação sobre o paradeiro da mulher, que o faz mergulhar no submundo de Los Angeles, acaba por despertar o interesse e a suspeita da polícia, afinal com freqüência ele é encontrado na cena dos mais misteriosos crimes e o destino lhe coloca sempre ao lado dos corpos encontrados pelos policiais.


A busca incansável realizada por Marlowe bate de frente com os interesses de muita gente perigosa, o que nos leva a crer que há algum mistério envolto no desaparecimento de Velda. Em sua procura o detetive acaba se esbarrando com diversos personagens saídos dos becos e quartos escuros da cidade, ele sabe que em nenhum deles ele pode confiar. A ameaça que paira constantemente no ar acentua o suspense do filme, que aumenta à medida que a investigação avança e se torna assim mais arriscada...

O Último dos Valentões funciona, a meu ver, mais como uma homenagem a um gênero e a uma época do que como uma obra dotada de individualidade e de qualidades próprias, afinal nada do que vemos nele é novo. Por mais que ele seja bem realizado, o que não se pode negar, ele não transcende sua própria condição de mera refilmagem. Nele, a narração em off não chega a ser um problema, mas também não funciona como deveria, em diversas passagens ela apenas descreve, provavelmente com trechos da obra literária, aquilo que vemos na tela e isso a torna redundante e desnecessária. Sua trilha sonora é boa, gosto da forma com que ela foi usada, ora para reforçar o suspense, ora para salientar emoções e sensações do personagem central, mas nela também não há nenhuma novidade, o que ouvimos é apenas a sonoridade que já se tornou característica do gênero.


No tocante às atuações o filme não deixa a desejar, apesar de não nos apresentar nada de tão extraordinário (a meu ver a indicação de Sylvia Miles ao Oscar de Atriz Coadjuvante foi um pequeno exagero) e o desempenho Robert Mitchum, que é apenas bom, acaba sendo o principal destaque, ele empresta ao personagem um olhar melancólico e um jeito taciturno, que contrasta com a sagacidade e o sarcasmo das observações que ele faz na narração, forjando assim a ambiguidade que o caracteriza. Ainda referente a este aspecto, uma curiosidade é a ponta feita pelo Sylvester Stallone, que interpreta um capanga em uma das sequências do filme.


Os melhores aspectos do filme são, a meu ver, a fotografia e a direção de arte, juntas elas ajudam a compor os belos quadros que vemos durante toda a duração do filme. O visual do longa constitui ainda um diferencial em relação aos noir do período clássico, nele a fotografia em preto e branco, sempre associada ao gênero, é substituída por um colorido onde predominam o preto, os tons pastéis e nos momentos de tensão a saturação da cor vermelha. Já a direção de arte confere ao filme uma estonteante beleza estética, o cuidado com ela pode ser notado pela seleção e disposição dos objetos cênicos, que fazem referência ao glamour um tanto decadente do período no qual o filme se passa.


O Último dos Valentões merece ser visto e relembrado, porém sem tanto entusiasmo, é um filme bom, mas que não alcança o mesmo nível de qualidade de outras produções cujos roteiros foram adaptados da obra de Raymond Chandler, ou escritos por ele, nos anos 40, como À Beira do Abismo (1946), Pacto de Sangue (1944) e Pacto Sinistro (1951), estes sim verdadeiros clássicos.


O Último dos Valentões foi indicado ao Oscar na categoria de Melhor Atriz Coadjuvante (Sylvia Miles).

Assistam ao trailer de O Último dos Valentões no You Tube, clique AQUI !


Crítica escrita para o blog E o Oscar foi para..., publicada originalmente em 10 de outubro de 2012.