segunda-feira, 30 de setembro de 2013

A Vida dos Outros

A Vida dos Outros (Das Leben der Anderen) - 2006. Escrito e dirigido por Florian Henckel von Donnersmarck. Direção de Fotografia de Hagen Bogdanski. Música Original de Stéphane Moucha e Gabriel Yared. Produzido por Florian Henckel von Donnersmarck, Quirin Berg, Dirk Hamm e Max Wiedemann. Wiedemann & Berg Filmproduktion / Alemanha.


Hauptmann Gerd Wiesler (Ulrich Mühe), o personagem central de A Vida dos Outros (2006), é um respeitado agente do serviço secreto da extinta República Democrática Alemã (a parte socialista do país que deixou de existir em 1990 com a reunificação), a ele é dada a missão de espionar Georg Dreyman (Sebastian Koch), um dramaturgo que vinha conquistando um considerável sucesso com suas peças humanistas , que começavam a chamar a atenção do público na parte ocidental do país. O temor de que ele poderia estar militando contro os 'camaradas' justifica a colocação de grampos e escutas em todo o seu apartamento do escritor, no entanto a questão em torno de sua fidelidade aos ideias socialistas não era a verdadeira causa da invasão de sua privacidade; Bruno Hempf (Thomas Thieme), o ministro da cultura, tinha motivações pessoais para tirá-lo de cena e estas motivações envolviam a bela Christa-Maria Sieland (Martina Gedeck), sua namorada e atriz principal de sua peça mais recente.

Ao contrário do que possa parecer à princípio, A Vida dos Outros não é tão somente um filme de cunho político sobre espionagem, sua principal temática é a meu ver a invasão de privacidade e o fascínio que por vezes alimentamos quando contemplamos o sucesso alheio. Na trama, Hauptmann se deixa ser contagiado pelo estilo de vida que Georg adota e esta admiração coloca em cheque todas as suas convicções, levando-o a repensar, à luz da ética, sua própria postura diante dos mandos e desmandos do regime. Os efeitos do fascínio despertado podem ser observado na sutil mudança de comportamento do espião, ele chega ao ponto de tomar para si um livro do Bertolt Brecht, que Georg ganhara de aniversário, a leitura da obra é uma das formas que ele encontra para entrar em um mundo que era, até então, totalmente desconhecido para ele. Em outra passagem, ele contrata uma prostituta logo depois de notar, pela escuta, que o escritor estava transando com a namorada, obviamente ele não alcança em sua rápida aventura sexual aquilo que esperava encontrar...


O distorcido processo de identificação retratado pelo filme, no qual o agente passa a ver na vida do dramaturgo um ideal de felicidade e prazer a ser alcançado, é similar aquele observado no efeito provocado pelos reality shows e até mesmo na observação da vida alheia, que comumente fazemos através da redes sociais. Tendemos a acreditar que a grama do vizinho é sempre mais verde e que a felicidade dos outros é sempre mais duradoura e consistente do que a nossa, é de tal idealização que nasce o fascínio pelo qual o espião é tomado. O roteiro salienta em determinados momentos a frustração que Hauptmann experimenta ao descobrir que a vida daqueles a quem ele observa não é tão perfeita quanto o imaginado... Ao descobrir a fragilidade de sua idealização, ele começa a fazer de tudo para mantê-la firme, como se dependesse dela para ter algo em que se apagar, isso lhe tira da condição de mero espectador, o que ocorre no momento em que ele passa a intervir na vida daqueles a quem, até então, só observava.


A Vida dos Outros chama a atenção para fragilidade e superficialidade das impressões que temos quando contemplamos a vida de outrem. A trama traça um interessante paralelo entre a atividade do espião e o teatro, não por acaso, dois dos personagens centrais aparecem pela primeira durante a apresentação de uma peça. Bertolt Brecht chegou a militar contra o tipo de produção teatral no qual o público era apenas mero espectador, para ele a platéia precisava interagir com o que estava sendo apresentado, ao ponto de se tornar coautora da obra; no filme, Hauptmann decida intervir na vida de Georg e Christa-Maria justamente depois de ler a obra Brecht, que roubara da casa suposto subversivo. Ao transcender sua condição inicial, que era caracterizada apenas pelo fascínio crescente, o agente consegue finalmente encontrar a si mesmo, comprovando a teoria defendida na peça de Georg (cuja encenação é retratada, em parte, em uma das primeiras sequências do filme): a de que as pessoas mudam...


É difícil imaginar que Florian Henckel von Donnersmarck é o mesmo cineasta que dirigiu O Turista (2010), filme que recebeu inúmeras críticas negativas, pois o seu desempenho em A Vida dos Outros, tanto como diretor quanto como roteirista, é digno dos mais sinceros elogios. O cuidado com a composição de cada sequência pode ser percebido na escolha dos enquadramentos e nos movimentos de câmera sutis, elementos estes que ajudam a despertar em nós espectadores o mesmo fascínio que Hauptmann experimenta. Outros detalhes sutis tornam a narrativa ainda mais rica, como por exemplo a lógica de algumas situações que se repetem no decorrer do filme, como nas duas sequências que mostram Christa-Maria tomando banho no apartamento do namorado, há um elemento da narrativa que liga os dois momentos em que isso acontece e perceber este elemento nos ajuda a compreender a complexidade da personagem e qual seria a motivação de algumas das decisões que ela toma no decorrer da história.


Ulrich Mühe, que morreria pouco tempo depois da conclusão do filme, constrói aquele que talvez seja o personagem mais humano da trama, a composição de seu Hauptmann salienta a frustração e o sentimento de não realização, que o caracterizam desde o início do filme, tudo isso é muito bem trabalhado por ele através do tom de voz manso e dos olhares melancólicos, que evocam num segundo momento a insatisfação que ele sente em relação ao regime, à sua vida e a tudo aquilo que ele construiu no decorrer dos anos em que se dedicou ao serviço. Sebastian Koch e Martina Gedeck também estão muito bem, seus desempenhos tornam seus personagens ainda mais cativantes, mesmo nos momentos em que são repreensíveis, e isso também ajuda a trama a desenvolver em nós espectadores o fascínio já comentado acima.


A Vida dos Outros transcende a condição de filme de gênero e este é a meu ver o seu maior trunfo. O viés humanista de sua trama o transforma em um filme universal e nem mesmo a questão ideológica, envolta em sua história, diminui o impacto que ele causa ao chamar a atenção, não para as questões sociais da República Democrática Alemã, mas para o drama de um indivíduo na busca pela sua própria identidade...

A Vida dos Outros ganhou o Oscar na categoria de Melhor Filme Estrangeiro.


Assista ao trailer de A Vida dos Outros no You Tube, clique AQUI !

A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra.

sábado, 28 de setembro de 2013

Vanguart - Muito mais que o Amor (disco)


Alguns críticos chegaram a apontar o clima ensolarado de Muito mais que o Amor, o novo disco do Vanguart, como uma de suas características mais marcantes, a percepção de tal clima surge da comparação com o álbum anterior, o excelente e relativamente sombrio Boa Parte de mim Vai Embora. Considero muito pertinente esta constatação, há de fato nas letras e nas melodias de Muito mais que o Amor uma espécie de paz (ou seria satisfação?), que não estava presente no trabalho antecessor, no entanto, ele não deixa de ser um disco melancólico.

A melancolia, tal como notada nas novas canções, é um estado de espírito que não pressupõe uma condição de tristeza, nem tão pouco uma causa específica, tendo mais a ver com o nível de sensibilidade emocional com o qual nos posicionamos diante de uma determinada situação, o que me leva a crer que a grande marca do novo álbum talvez seja justamente a sensibilidade. Isso fica mais claro quando o consideramos uma obra autoral que dá uma espécie de sequência à condição emocional identificada em Boa Parte de mim Vai Embora.


No antecessor a melancolia surge da dor e a causa desta dor pode ser facilmente identificada,  o disco fala de rompimento e perda da primeira à última faixa e mesmo não sendo um álbum triste, há nele um estado de fragilidade emocional que dita o tom das canções e facilita o estabelecimento de alguma conexão entre a banda, como entidade artística criadora, e o público, que de alguma forma se identifica com a condição sobre a qual as músicas falam...  

O excelente clipe de Mi Vida Eres Tu (faixa que abre o Boa Parte de mim Vai Embora) ilustra bem a condição experimentada pelo autor/personagem das letras, ele é alguém que está machucado pelo término de um relacionamento e tenta buscar algo que nem ele mesmo sabe o que é. No clipe, o fato do personagem ser interpretado por uma criança seria a meu ver uma representação de sua fragilidade emocional, o que me leva a acreditar que o que ele busca na verdade não é uma aventura amorosa, mas alguma espécie de afago (o que fica evidente na sequência final do clipe, que evoca o beijo não realizado).


Passada a noite sombria, vem uma ensolarada manhã... “A vida é tão mais vida de manhã, quando eu vejo você, é, saiba você é meu sol... eu já me preparei demais e declaro ‘agora é a hora’. O amor profundo, o amor que salva vem depressa, não demora, meu sol...”.

Em Muito mais que o Amor a dor do rompimento já foi expurgada, já não há mais o sofrimento narrado nas letras do segundo disco. O que dita o tom neste novo trabalho é a satisfação do amor realizado e paz de ter a pessoa amada ao seu lado. Gosto de imaginar Meu Sol, a quarta canção do álbum, como uma continuação de Depressa, a última do anterior, que o próprio vocalista Hélio Flanders chegou a apontar como uma canção que diz muito sobre o disco como um todo - não por acaso ela foi o seu primeiro single.

Depressa encerra Boa Parte de mim Vai Embora com uma espécie de desabafo do personagem/autor sobre a sua ânsia pelo reencontro com a pessoa que ama, ela fala da angústia da espera e da aflição de tentar ter de volta o amor que fora perdido. Ele sabe que talvez ainda não seja a hora de uma reaproximação, pois os fantasmas do passado ainda estão presentes, todavia ele se prepara, há um trecho em que ele diz ter saído com uma 'roupa emprestada' na esperança de encontrá-la, o que evoca a sua disposição de olhar para si mesmo, reconhecer onde errou e ensaiar algum tipo de mudança, representada na música pela vestimenta nova.


Meu Sol, que talvez seja a canção que melhor define o novo disco, descreve uma situação bem diferente da relatada nas letras de Boa Parte de mim Vai Embora, agora o personagem/autor não vaga pelos 'lugares onde nem Deus andaria' (uma clara referência ao seu estado de espírito), aqui ele encontra uma nova motivação, o amor realizado (que é metaforicamente representado na letra pelo sol), que lhe traz esperança e o ensina que a vida continua valendo a pena ('a vida tem mais vida de manhã', ele descobre) e que o que ela lhe cobra é apenas a entrega, da qual a letra da canção fala em seu primeiro verso ('Minha alma, sabe que viver é se entregar').

A paz então observada gera um forte contraste com a dor de outrora e este contraste ajuda a explicar a sensibilidade que conduz ao estado de melancolia. É da vivência anterior que vem a poética que marca as novas composições. A fragilidade do autor/personagem, que potencializa os efeitos daquilo que ele vive, e a ebulição dos sentimentos, que o álbum como um todo evoca, são similares àquele choro de felicidade, que surge em um momento de transição, marcado pela ideia de que a dor pode finalmente ficado para trás e o que vem a partir de então pode ser muito mais que o amor...

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Amor Bandido

Amor Bandido (Mud) - 2012. Escrito e dirigido por Jeff Nichols. Direção de Fotografia de Adam Stone. Música Original de David Wingo. Produzido por Sarah Green, Lisa Maria Falcone  e Aaron RyderEverest Entertainment, Brace Cove Productions e FilmNation Entertainment / USA.


No afã de aproximar os lançamentos das expectativas comumente criadas pelo público médio, as distribuidoras de filmes acabam por vezes ousando na escolha do título nacional de algumas obras, em raras ocasiões a ousadia se dá de forma criativa e o nome dado à obra acaba fazendo algum sentido, mas na maioria das vezes não é isso que acontece. O novo filme de Jeff Nichols foi vítima de um destes erros grotescos. Amor Bandido, o título dado a ele aqui no Brasil, é reducionista e não contempla nem de longe a complexidade de sua trama. No entanto, ele tem mais apelo comercial que Mud, o título original, e isso é o que basta para que a lambança seja feita. Por mera questão de conveniência, escolhi manter o péssimo nome nacional como título da postagem, mas farei referência ao filme no desenvolvimento do texto apenas por meio de seu título original, este sim coerente com a sua trama e com a sua proposta. 

No centro da narrativa de Mud (2013) estão dois garotos que encontram um velho barco suspenso em meio a árvores em uma ilha próxima ao local onde moram. Desbravando a embarcação eles descobrem que tem alguém morando lá, não demora muito e eles acabam estabelecendo contato com o estranho, ele é Mud (Matthew McConaughey), um homem misterioso que aparenta estar se escondendo de algo. A região na qual o filme se passa é composta por pequenas ilhas fluviais, não tão distantes uma das outras, Ellis (Tye Sheridan), um dos garotos, mora em um barco com os pais, eles sobrevivem da venda dos peixes que pescam no rio. Neckbone (Jacob Lofland), o outro, mora com o tio, Galen (Michael Shannon), um mergulhador boa vida, que aparenta não se preocupar tanto com o sobrinho. As relações desenvolvidas nestes dois núcleos familiares são um fator decisivo no desenvolvimento da trama. 


Os pais de Ellis estão se separando e o filme em algumas passagens nos induz a crer que o rompimento é o resultado de um longo processo, algo que já vinha se desenrolando há bastante tempo. Para o garoto, no entanto, tudo é novo, os conflitos, a falta de diálogo e principalmente a ideia do divorcio. Por analisar tudo de tal ponto de vista, ele conclui que os pais não estão dispostos a lutar pelo casamento, ele acredita que eles não têm a mesma coragem demonstrada por Mud, que acaba se tornando para ele uma espécie de referência. Mud conta para Ellis e Neckbone a sua história errática, que inclui o seu conturbado relacionamento com a problemática Juniper (Reese Witherspoon), ele se coloca como  vítima e com isso acaba ganhando a confiança dos garotos, passando então a exigir deles favores que o colocam em uma arriscada situação.

O grande mérito do filme é conseguir amarrar o ótimo roteiro de forma com que a complexidade dos temas abordados não lhe tirem a simplicidade e a singeleza, que lhe são conferidas pelo olhar curioso e relativamente inocente dos meninos. Há na história elementos que remetem a inúmeros clássicos da literatura e do cinema que também retratam a complicada transição da infância para a vida adulta. Não creio que seja exagero afirmar que há em Ellis e Neckbone um pouco de Huckleberry Finn e no universo do filme e em sua temática uma forte influência da literatura do escritor americano Mark Twain, que também explorou em algumas de suas obras o drama da desestruturação familiar sob o olhar de crianças e adolescentes.


Vale ressaltar também o fato do filme não se render ao lugar comum de retratar as relações de forma simplicista, com finais felizes e ausências de conflitos complexos, o que vemos nele é uma reprodução realista dos relacionamentos tal como eles são (o que não quer dizer que todos os relacionamentos passem pelos mesmos dramas retratados pelo longa) e é interessante perceber o quanto ambos os garotos amadurecem (principalmente Ellis) ao descobrirem que a verdadeira coragem pode estar em aprender a lidar com separações e perdas e não na decisão de prolongar uma relação já fadada ao fracasso, que pode abrir feridas ainda mais profundas.


O peso da direção habilidosa de Jeff Nichols pode ser sentido no fio de tensão que percorre toda a trama até explodir no último ato em sequências de tirar o fôlego; ele consegue ainda extrair excelentes desempenhos de todo o elenco. O fato de não se tratarem de personagens maniqueísta, aliado ao naturalismo da composição dos mesmos, reforça o tom realista das interpretações e torna convincente o drama vivenciado pelos personagens e a evolução pela qual eles passam no decorrer da história. Os jovens Tye Sheridan e Jacob Lofland estão muito bem, é interessante observar a destreza com que eles transitam tanto pela leveza, que caracteriza os primeiros atos do filme, quanto pelo drama. A Reese Witherspoon também entrega um grande desempenho, ela consegue tornar notável a dor que sua personagem sente apenas pelo olhar e pela expressão facial, vemos as marcas do sofrimento estampadas em seu rosto belo, porém visivelmente melancólico.


O Matthew McConaughey entrega aquela que talvez seja a melhor atuação do filme, em seus olhares temerosos e na insegurança que ele deixa transparecer nos pequenos gestos de seu personagem fica perceptível o paralelo criado na trama entre ele e os garotos que passam a reverenciá-lo como uma distorcida figura paterna - nota-se que ele é na verdade tão imaturo quanto os dois meninos. Tal como Ellis ele não tem a coragem necessária para lidar com a iminente possibilidade de perder uma pessoa que ama e isso o torna mais humano e seus dilemas morais mais compreensíveis aos olhos dos expectadores. McConaughey trabalha de forma genial o contraste entre a suposta infantilidade de seu personagem, que reforça o carisma que ele tem, e o perigo que ele representa pra si mesmo e para as pessoas à sua volta.


Pode-se dizer que Mud dialoga com a temática explorada em O Abrigo (2011), o filme anterior de Jeff Nichols, ambos retratam em suas respectivas tramas a apreensão causada pela possibilidade de que o núcleo familiar possa ser desintegrado por alguma ameaça interna ou externa. Em ambos vemos o quanto o padrão de felicidade associado à ilusão de segurança, representada nos dois casos pelos laços familiares, pode ser nos fim das contas tão frágil... Mud vem confirmar aquilo que O Abrigo já indicava, Nichols merece ser acompanhado de perto, afinal ele tem se despontado como um dos mais talentosos cineastas americanos da atualidade.



Assista ao trailer de Mud no You Tube, clique AQUI !


A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra.


Confiram também aqui no Sublime Irrealidade a crítica de O Abrigo (2011), também dirigido pelo Jeff Nichols.


Vencedores do Emmy Awards 2013

Confiram a lista dos vencedores 65ª edição do Emmy Awards!



Melhor Série Dramática:
Breaking Bad

Melhor Série Cômica:
Modern Family

Melhor Minissérie ou Telefilme:
Behind the Candelabra

Melhor Ator de Série Dramática:
Jeff Daniels  por The Newsroom

Melhor Ator de Série Cômica:
Jim Parsons por The Big Bang Theory

Melhor Ator de Minissérie ou Telefilme: 
Michael Douglas por Behind the Candelabra

Melhor Atriz de Série Dramática:
Claire Danes por Homeland

Melhor Atriz de Série Cômica:
Julia Louis-Dreyfus por Veep

Melhor Atriz em Minissérie ou Telefilme:
Laura Linney  por The Big C


Melhor Ator Coadjuvante em Série Dramática:
Bobby Cannavale por Boardwalk Empire

Melhor Ator Coadjuvante em Série Cômica:
Tony Hale por Veep

Melhor Ator Coadjuvante em Minissérie ou Telefilme:
James Cromwell por American Horror Story

Melhor Atriz Coadjuvante em Série Dramática:
Anna Gunn por Breaking bad

Melhor Atriz Coadjuvante em Série Cômica:
Merritt Wever por Nurse Jackie

Melhor Atriz Coadjuvante em Minissérie ou Telefilme:
Ellen Burstyn por Political Animals

Melhor Roteiro – Série Dramática:
Harry Bromell por Q&A  de Homeland

Melhor Roteiro – Série Cômica:
Tina Fey e Tracey Wigfield por Last Lauch de 30 Rock

Melhor Roteiro – Minissérie, Telefilme ou Especial:
Abi Morgan por The Hour

Melhor Direção – Série Dramática:
David Fincher por Chapter 1 de House of Cards

Melhor Direção – Série Cômica:
Gail Mancuso por Arrested de Modern Family

Melhor Direção – Minissérie, Telefilme ou Especial:
Steven Soderbergh por Behind The Candelabra

Melhor Reality Show de Competição: 
The Voice

Melhor Série de Variedades
The Colbert Report

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Festival Mundial das Artes pela Paz


A estimativa era de que cerca de 1800 artistas de 118 países estariam presentes na edição do Festival Mundial das Artes pela Paz que foi realizada em Ubá/MG entre os dias cinco e 15 de novembro, mas não foi o que aconteceu. O público, formado em sua grande maioria por pessoas que já estão são ligadas direta ou indiretamente à produção cultural local, foi relativamente pequeno, o povo não compareceu. Já o número de artistas presentes fez parecer utópica a quantidade mencionada acima. Algo deu errado e este já era um desastre anunciado. O amadorismo que pode ser observado na realização do evento caracterizou também aquela que deveria ter sido a fase de planejamento. Muito pouco do que fora prometido na cerimônia inaugural, na qual Ubá foi oficialmente anunciada como sede do Festival, foi cumprido. Todavia, não se pode culpar apenas os realizadores, afinal trazer para uma cidade do interior um evento do porte pretendido não era uma tarefa fácil e talvez o grande erro dos envolvidos no projeto tenha sido o de acreditar que o seria. Ubá está acostumada a consumir entretenimento, não arte, e esta realidade já representava desde o início um grande desafio a ser enfrentado.

A qualidade das apresentações musicais salvou o Festival de ser um enorme fiasco, pois o que se viu durante os onze dias de programação foi uma série de erros grosseiros... Um dos vídeos promocionais, divulgado poucos dias antes do evento, convidava o público para conhecer o mural Guerra e Paz de Cândido Portinari, obviamente tratava-se de uma réplica, mas a chamada não deixava isso claro. A grande surpresa, no entanto, foi descobrir que não só Guerra e Paz era uma réplica, mas também boa parte das obras expostas na galeria improvisada. A má qualidade da impressão conferiu às telas reproduzidas um tom desbotado, que comprometeu seriamente o impacto que acredito que elas seriam capazes de causar aos visitantes. Sem a cor e a textura original, sobrou apenas o tecido descolorido sobre a moldura e sua intenção de recriar aquilo que o originou representava. Destituídas de qualquer valor artístico, tais cópias poderiam ao menos funcionar como material didático (ainda que esta não fosse a proposta do Festival), mas isso também não aconteceu, boa parte dos quadros não tinham nenhum tipo de identificação, o que tornava impossível para um leigo como eu descobrir, por exemplo, em que ano eles foram pintados ou quem eram os autores e os seus países de origem - informações essenciais como estas foram simplesmente negligenciadas. 

Em meio ao grande número de cópias de má qualidade se sobressaiam as obras originais de artistas e artesões da região, estas sim merecedoras de todo o respeito do público presente. Tenho a impressão de que o evento teria sido melhor sucedido se tivesse aberto mais espaço para obras como estas. Tudo poderia ter funcionado melhor se não fosse a megalomania dos realizadores do evento, que chegaram a considerar irrelevante a participação de artistas da cidade e região, mal sabiam eles que estes possuíam algo que o Festival como um todo não teve: a capacidade de dialogar e interagir com o público não erudito. Penso que talvez tenha faltado aos realizadores um pouco mais de conhecimento sobre as diversas expressões artísticas presentes no Festival e acima de tudo sensibilidade, isso justifica tropeços tão grotescos quanto o de posicionar a frente de um palco atrás de uma grande pilastra, quando suas laterais estavam livres (!)... Não tenho dúvidas, onde abundou negociatas, trocas de favores e politicagem faltou um trabalho sério e competente de curadoria. 

Todavia, há que se reconhecer também os aspectos positivos do evento, que não eliminaram, mas ao menos diminuíram os efeitos dos equívocos cometidos. Infelizmente, por questões de saúde, não consegui estar presente em todos os dias, o que eu queria muito ter feito, sei que com isso acabei perdendo muita coisa boa, mas ainda assim tive a oportunidade de conferir espetáculos memoráveis, como o excelente show da banda Cosmosoul, que foi formada em Barcelona na Espanha por músicos de diversas nacionalidades, e o retorno da banda americana Santa Esmeralda, que voltou à cidade quase um ano após o trágico show em que o baterista Brad Parker teve uma parada cardíaca no palco, enquanto tocava, e veio a falecer a caminho do hospital. As duas bandas presenteou o público minguado com ótimas performances, que mereciam um contingente de pessoas muito, muito maior...

Ainda que não tenha acontecido como o planejado e tenha deixado tanto a desejar, o Festival veio para somar. Só o fato de termos um evento cultural a mais na cidade (ainda que tenha sido uma única edição) já é um motivo para grande comemoração. Por hora, apenas torço para que os erros cometidos sejam reconhecidos e nos tragam algum aprendizado. Vale lembrar também que as críticas, por mais devastadoras que elas possam parecer, também servem para abrir os olhos e colocar pés flutuantes no chão... 

Algumas lições que precisam ser lembradas: Nunca prometa o que não pode cumprir. Jamais pense em cobrar ingressos de um evento que teve a 'entrada franca' divulgada. Convide/contrate pessoas que entendam de fato do assunto para ajudar na organização. Não venda a arte da mesma maneira que se vende um móvel. Aumente o tamanho da letra nos outdoors.  Valorize a produção local. Planeje. Não deixe nada para a última hora. Faça um cronograma compreensível e respeite-o. E, acima de tudo, respeite o público e os artistas convidados... Este já um começo! 

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

A Identidade - Milan Kundera (Livro)

A Identidade de Milan Kundera. Lançado em 1997. Tradução de Teresa Bulhões Carvalho da Fonseca. São Paulo. Companhia das Letras, 2009.



Meu primeiro contato com a obra do escritor tcheco Milan Kundera foi através do já clássico A Insustentável Leveza do Ser, livro que causou um impacto enorme em minha percepção sobre aquilo que sou e principalmente sobre a maneira com a qual lido com meus sentimentos. Desde que o li pela primeira vez, há cerca de um ano, tenho percebido reflexos do que foi dito pelo autor em quase todas as áreas de minha vida. Nenhuma outra obra literária provocou em mim reações tão intensas e marcantes e, como valorizo autores capazes de me proporcionar este tipo de imersão, fui logo em busca de outros escritos de Kundera e foi assim que cheguei até A Identidade, obra não tão grandiosa, mas tão bela e profunda quanto a primeira que li.

Em A Identidade, que foi escrito em 1997, podem ser percebidos diversos elementos que estão presentes também em A Insustentável Leveza do Ser, dentre eles as reflexões acerca da sexualidade, a dor existencial e o estudo minucioso do comportamento humano, realizado através da construção psicológica de cada um dos personagens. Pela maneira cuidadosa com que apresenta e desenvolve cada um deles, Kundera, de uma forma poética e cheia de sensibilidade, nos leva à identificação com alguns de seus pensamentos e atitudes e à medida em que ele ensaia reflexões sobre a história contada, somos instigados a refletir sobre a nossa própria condição.

Em A Identidade, Chantal é uma publicitária de meia idade que começa a viver uma crise ao perceber que não é mais desejada pelos homens como fora um dia, ela não quer se envolver com nenhum dos estranhos, cujos olhares cobiça, o que ela deseja é sentir-se ainda capaz de acender a libido dos desconhecidos, como se a atenção devotada por eles fosse uma espécie de confirmação de que ela ainda não perdeu aquilo que acredita ser a sua essência, sua identidade.


Quando já estava tomada pela melancolia, Chantal começa a receber cartas anônimas de um admirador que conhece sua rotina e acompanha seus passos, estas correspondências reascendem nela o amor próprio e um tesão que há muito ela não sentia. Curiosamente, o assédio do desconhecido dá um novo gás para o relacionamento de Chantal com Jean-Marc, seu segundo marido. Este já vinha percebendo há algum tempo a dor que ela dissimulava, porém sem saber o fazer para ajudá-la, ele sabia que todo seu amor e carinho já  não eram o suficiente para ela. 

No decorrer da história, uma atitude bem intencionada, quase inocente, desencadeia uma série de acontecimentos que atenua a dor existencial sentida por Chantal, levando-a a profundas reflexões sobre sexualidade e a natureza do amor. Ela se vê dividida entre a rotina segura e tranquila que leva ao lado de seu esposo e uma vida de aventuras sexuais com estranhos capazes de satisfazer sua maior necessidade, a de se reencontrar com uma parte de si mesma que já não mais existia. Esta dicotomia conduz a personagem à uma decadência psicológica que faz com que sua noção do que é de fato real se torne cada vez mais fragilizada. 

A Identidade consegue, em suas poucas páginas, transcender a história que conta, se tornando desta forma muito mais que um romance. Não seria exagero afirmar que ele, assim como A Insustentável Leveza do Ser, é também um livro filosófico, nele as ponderações de Kundera sobre o a identidade que buscamos  adquirem tanta consistência que chegam bem próximo de constituir um ensaio sobre a limitação e a submissão do individuo frente aos inúmeros olhares alheios que estão direcionados ou não para si, ora punindo, cobrando-o, cobiçando-o, ou tão somente ignorando-o, forjando assim frágeis identidades que nem sempre condizem com o real...


Resenha publicada originalmente em 15/02/2013 no Blog Antes que Ordinárias!