quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Um conto sobre intolerância e medo...

Faltava pouco para meia noite quando dona Madalena, aos prantos, empurrou a porta principal e se dirigiu trôpega à mesa grande que ficava na outra ponta do saguão. Ela veio acompanhada de Lúcia, uma vizinha, que em vão tentava acalmá-la. Aquela era a primeira vez que entrava em uma delegacia de polícia e um mal pressentimento a atormentava mais do que a falta de informação sobre o que estava acontecendo. Ainda não conseguia imaginar o porquê de Ricardo, o filho único, ter sido detido. O susto que levou ao receber a ligação do distrito policial foi tamanho, a ponto dela sequer prestar atenção na última informação que lhe foi passada, a de que o filho estava hospitalizado e, provavelmente, só estaria à disposição da polícia para prestar depoimento e outros procedimentos padrões na manhã do dia seguinte - "Cadê meu filho, o que vocês fizeram com ele?" - O desespero aumentou quando contaram a ela que ele estava ferido... 

Ricardo cursava o quinto período de geografia, não era muito de sair de casa e seus companheiros mais frequentes eram os livros, que ele teimava em deixar espalhados pelo quarto sempre que vinha passar o final de semana na casa da mãe. Dona Madalena estranhara o fato de que nos dois últimos finais de semana ele passara muito pouco tempo em casa, o que definitivamente não era normal... Naquela manhã quando saiu, disse apenas que tinha compromissos no centro da cidade. Mesmo não compreendendo a mudança repentina ela não o questionou. "Ele nunca me deu motivos para preocupação", pensou, "talvez seja melhor eu confiar nele"... Tudo tinha se tornado mais complicado após a morte de Antônio, o pai do Ricardo, Madalena fazia milagres com a pensão deixada pelo marido e com a renda que obtinha em sua atividade de costureira. O filho chegou a pensar na possibilidade de trancar o curso e arrumar um emprego fixo para ajudar em casa, mas ela logo o repreendeu, "vê-lo formado era o maior sonho do seu pai, não jogue tudo fora agora"...

Eram oito e meia da manhã quando o celular tocou, Ricardo, que ainda escovava os dentes, demorou para atender. Pela insistência de quem ligava, parecia ser algo urgente... "Porra cara, estamos te esperando aqui já tem mais de meia hora!", era o Adriano, "O Adriano, calma aí cara, tô atrasado mas nem tanto, ainda faltam 20 minutos para as nove, chego aí em 10". "Nove horas? Combinamos às oito e já está todo mundo aqui, agiliza aí!" A confusão de horários fez com que Ricardo desistisse de tomar o café da manhã, ele apenas guardou na mochila aquilo que tinha separado aos pés da cama e desceu apressado, na escada quase trombou com a mãe que voltava de aguar as plantas do pequeno jardim que tinham na frente da casa - "O filho, aonde você indo tão cedo?" - "Tenho alguns compromissos no centro da cidade mãe...". 

Enquanto percorria o caminho entre a sua casa e a praça onde tinha combinado de encontrar Adriano e os outros, Ricardo pensava sobre o sentido daquelas ações. Ele, que nunca fora de se expressar, estava a caminho de sua terceira manifestação. Mesmo tomado por dúvidas acerca da eficácia daquilo que estava a fazer, ele sabia que não podia mais ficar calado, nos últimos meses ele testemunhara o avanço de ideais altamente perigosos, o que muito lhe preocupava. O medo e a intolerância pareciam se propagar como uma onda, que pouco a pouco ia tomando e inundando todos os espaços. O discurso de ódio estava presente na sala de aula, na fila do banco, até na conversa de boteco e não demorou para que tudo aquilo deixasse de ser apenas um discurso. Tinha aumentado assustadoramente os casos de agressão e de linchamento público e o estopim das manifestações fora a morte de Natan, 18 anos, esfaqueado a dois quarteirão de sua casa por estampar em sua camisa uma afirmação de sua sexualidade. 

"E onde que tá o pai do rapaz?", perguntou o delegado após ser abordado por Madalena. "Eu sou a mãe dele, pelo amor de Deus, meu filho é um menino bom, eu sei que ele não fez nada de mal", "Senhora, calma lá que aqui nós não prendemos nenhum menino bom, o filho da senhora é bandido!" 

Ricardo desceu do ônibus a alguns quarteirões de sua casa, apesar de ser uma sexta-feira a rua estava vazia, ouvia-se um latido ou outro ao longe e nada mais. A mãe não gostava que ele voltasse pra casa nas sextas à noite, ela preferia que ele o fizesse nos sábados de manhã - "O bairro está cada vez mais perigoso meu filho" - Ele, no entanto, queria aproveitar parte da madrugada pra adiantar um trabalho e imaginou que fosse ter mais paz em casa do que no alojamento da universidade, onde aconteceria uma festa... Ao dobrar uma esquina ele se deparou com um grupo de homens, um deles, aparentando estar bastante alcoolizado, o encarou e lhe perguntou com um sorriso sarcástico que lhe meteu medo: "Onde a mocinha pensa que vai?" - Ele não respondeu, seguiu andando em meio aos risos do grupo; chegou em casa trêmulo, subiu direto para o quarto e não contou nada para a mãe... Não demorou muito tempo e o silêncio da rua foi quebrado pelo burburinho das pessoas que saiam de suas casas e em seguida pelo som das sirenes das viaturas. Natan fora encontrado já sem consciência, com três perfurações no abdome, morreu a caminho do hospital, nenhum testemunha, ninguém viu nada...

A tropa de choque da polícia tentava dispersar a passeata, aparentemente em vão, o número de manifestantes só aumentava, e não demorou até que recorressem à repressão ultra violenta, que já se tornava costumeira. Cassetetes, balas de borracha, bombas de gás. Ricardo acabou se perdendo de Adriano no meio do tumulto. O suor frio descia e borrava a tinta preta, sinal de luto, em seu rosto. Quando a primeira bomba de gás lacrimogênio explodiu, ele ficou sem reação por alguns segundos. Mas, de repente, veio-lhe a consciência de que, sendo ou não uma ação eficaz, era ali que ele precisava estar. Tomou coragem, tirou a câmera de mochila e começou a capturar as cenas da repressão. A segunda bomba explodiu e desta não foi a consciência que lhe fugiu por alguns instantes, foi a visão. Ao conseguir abrir os olhos, ainda vacilantes, ele se deparou com aquele mesmo sorriso sarcástico - "Onde a mocinha pensa que vai?" - Uma forte pancada no rosto e ele apagou, acordou sob a acusação de ter tentado agredir um policial... 

Quando Madalena chegou ao hospital o filho já não estava mais lá. Tentaram convencê-la de que Ricardo tinha fugido. Todavia, o instinto materno lhe dava a certeza de que não era isso que tinha acontecido. Sabia como ninguém que o filho não era bandido, sabia que ele não tinha porque fugir... 

Ela nunca se conformou com a ideia de que Ricardo não mais voltaria.

2 comentários:

  1. Muito bom, José Bruno, mais uma vez!

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  2. Fiquei imaginando se isso representa o hoje ou algo mais extremo. Mas não tirei da cabeça um possível andamento de golpe militar vindo do seu texto.
    Tudo muito perigoso, logicamente.

    Grande abraço
    perplife.blogspot.com

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