segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Monty Python em Busca do Cálice Sagrado

Monty Python em Busca do Cálice Sagrado (Monty Python and the Holy Grail) - 1975. Dirigido por Terry Gilliam e Terry Jones. Escrito por Graham Chapman, John Cleese, Eric Idle, Terry Gilliam, Terry Jones e Michael Palin. Direção de Fotografia de Terry Bedford . Produzido por Mark Forstater e Michael White. Michael White Productions, National Film Trustee Company e Python (Monty) Pictures / UK.


Monty Python em Busca do Cálice Sagrado é até hoje apontado como uma das melhores comédias já produzidas e isso não é nenhum exagero. Diferente da grande maioria dos filmes do gênero que são rodados hoje em dia, o longa, que fora dirigido, escrito e estrelado pelos então integrantes do elenco da série inglesa Flying Circus, explora um humor inteligente e visceral, que não subestima a capacidade intelectual do espectador. As piadas encenadas pela trupe remetem ao absurdo kafkiano e ao surrealismo, por serem desapegadas de qualquer noção de realidade e de coerência; elas são montadas geralmente em torno de assuntos sérios, que são desconstruídos de uma forma sarcástica e despudorada. Questões religiosas e políticas e temas tabus são abordados sem qualquer cerimônia, o que constitui um outro diferencial em relação ao humor produzido atualmente, que se encontra na maioria das vezes castrado pela imposição do 'politicamente correto'.

O caráter anárquico e libertário que pode ser percebido em toda a obra do Monty Python, surgido da transgressão de limites estéticos e temáticos, chamou a atenção de artistas e de intelectuais ligados à contra-cultura e à movimentos de contestação, com isso o grupo ganhou o respeito e a admiração da classe artística do Redino Unido e o mesmo aconteceu nos Estados Unidos depois do Flying Circus estrear na TV americana. Esta admiração que conquistaram ajudou a trupe em diversos momentos e um deles foi durante a produção de Monty Python em Busca do Cálice Sagrado, quando integrantes de bandas como Led Zeppelin e Pink Floyd se juntaram para investir no projeto. O mesmo aconteceria quatro anos depois, quando o filme A Vida de Brian (1979), que fora recusado por uma produtora por tocar em temas religiosos, pode ser rodado graças a ajuda financeira do ex-Beatle George Harrison.


Em Monty Python em Busca do Cálice Sagrado, os comediantes Graham Chapman, John Cleese, Eric Idle, Terry Gilliam, Terry Jones e Michael Palin constroem uma hilária sátira da história do Rei Artur, que se vale das  lendas da idade média para debochar da sociedade inglesa da década de setenta. A história do filme se desenvolve supostamente no ano de 932 e começa com a busca do monarca por homens corajosos que estejam dispostos a integrar o grupo dos Cavaleiros da Távola Redonda. Após formada a equipe, o rei dos bretões e seus novos seguidores, Sir Lancelot, Sir Robin, Sir Galahad e Sir Bedevere, recebem a missão divina (dada pelo próprio criador) de buscar o Santo Graal, o cálice sagrado que estaria em algum lugar do reino. A partir daí, cada um parte em uma direção, com sua respectiva comitiva, para tentar encontrar a relíquia.


O Rei Artur e cada um dos seus cavaleiros vivenciam situações absurdas na busca pelo cálice e estas situações são mostradas em esquetes, que remetem ao formato do programa televisivo da trupe, dentre as  mais engraçadas estão aquela na qual Artur se encontra com os cavaleiros que dizem 'ni' e a que mostra o Sir Lancelot invadindo um castelo para salvar um príncipe afeminado. Outras sequências, como a da batalha contra o cavaleiro negro e da passagem do Rei por um vilarejo que adota o anarco sindicalismo, também são memoráveis. 

Um fato curioso, que pode passar despercebido, é que uma das sequências, a que se passa em castelo repleto de mulheres sedutoras, foi refilmada em 1999, quando o filme foi relançado em DVD, a passagem original tinham cenas de nudismo e por isso a própria trupe decidiu tirá-la para baixar a classificação etária do filme. O desfecho da história, que obviamente não contarei aqui, revela algo que torna toda a trama ainda mais engraçada.


O enorme talento dos membros do Monty Python fica evidente em cada uma das caracterizações que eles dão para os diversos personagens que interpretam no longa, o timing cômico de cada um deles pontua e encerra no momento certo cada uma piadas, dando assim a deixa para a tirada que virá em seguida, sem que em momento algum a peteca caia. 

O legal é que tudo no filme é motivo para uma tirada, desde os créditos de abertura até a direção de arte e os efeitos visuais, os comediantes debocham de si mesmos e isto torna até a precariedade do filme engraçada. Em dado momento, por exemplo, um dos personagens revela que um castelo, que eles vêm admirados, trata-se na verdade de uma maquete. Este tipo de piada, feita com o próprio filme, é a saída encontrada para tornar a restrição orçamentária um ponto a favor e não contra, o que funciona perfeitamente. 


As filmagens de Monty Python em Busca do Cálice Sagrado foram bastante tumultuadas e não só pela escassez de recursos, Gilliam e Jones, que co-dirigiram o filme, tiveram que superar várias divergências que surgiram durante o processo criativo e Grahan Chapman, que interpretou o Rei Artur, foi por si só um dos maiores problemas a serem enfrentados, ele, segundo o que contam, esteve bêbado durante quase todo o tempo de gravação e por diversas vezes esqueceu as próprias falas e foi incapaz de encenar gags físicas (Chapman morreu em 1989 em decorrência de complicações provocadas pelo alcoolismo). 

Apesar de todos os percalços, o resultado final foi melhor do que o esperado; depois deste, o grupo ainda produziria como sua formação original mais dois longa-metragens, o já citado A Vida de Brian e o excelente O Sentido da Vida (1983), ambos clássicos do gênero.


O formato criado pelo Monty Python influenciou comediantes do mundo inteiro e tal influência pode ser percebida em programas que vão do Saturday Night Live ao Casseta e Planeta, e ainda em boa parte dos besteiróis que chegam às salas de cinema todos os anos. Uma pena que esta influência se deia, na maior parte das vezes, tão somente em relação ao formato e não ao conteúdo. Poucas comédias de hoje conseguem atingir o mesmo nível de sofisticação intelectual, o que é lastimável.  

Monty Python em Busca do Cálice Sagrado é uma obra-prima, reafirmo que se trata de uma das melhores comédias já realizadas, todavia, há que se reconhecer que ele explora um tipo de humor ao qual nem todos estão acostumados, suas tiradas nonsense podem causar algum estranhamento, principalmente na parcela do público que esperar encontrar nele os mesmos atrativo das comédias atuais. Por outro lado, para os que curtem um humor inteligente e ácido, este clássico continua sendo um verdadeiro deleite! 


Assistam ao trailer de Monty Python em Busca do Cálice Sagrado no You Tube, clique AQUI !

A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra,

33 comentários:

  1. Boa noite, José Bruno.
    Junto com os filmes do Chaplin, Jerry Lewys, Essa Pequena é Uma Parada e Um Convidado bem Trapalhão, esta é uma das minhas comédias preferidas.
    O humor aqui é anárquico e inteligentíssimo, debochando das leis inglesas, da religião, da falta de lógica comum na Idade Média e do que mais aparecer pela frente.
    Realmente, com não está acostumado com a metalinguagem do grupo pode não entender as gags, mas isso é o de menos.
    Abraço.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Pois é Jacques, eu também elevaria este filme ao mesmo patamar em que estão algumas das obras e artistas que você citou!

      Excluir
  2. Já ouvi muito falar do Monty Phyton, mas não cheguei a assistir material deles.. vou aproveitar o link para conferir.
    Abraços!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Tem várias esquetes deles no you tube, é uma boa forma de conhecer o tipo de humor que eles exploram...

      Excluir
  3. Extremamente divertido, com piadas politicamente incorretas e algumas intraduzíveis.

    O grupo marcou época e seus integrantes ainda conseguiram carreiras solos de qualidade, com exceção de Graham Chapman que faleceu cedo.

    Abraço

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. O Terry Gilliam, por exemplo, tem algumas obras primas em sua carreira solo como diretor.

      Excluir
  4. Adoro este filme, mas da trupe ainda prefiro A Vida de Brian.

    Sinto falta deste humor politicamente incorreto e escrachado que parece ter sumido do mapa do cinema atualmente e quando surgem vêm sempre de forma grosseirona e ofensiva.

    Abraços.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Muitos não concordarão, mas vejo o mesmo viés cômico em obras do Sasha Baron Cohen. Quanto ao fato de ser grosseiro e ofensivo, não vejo como um problema, acredito que a trupe também tenha sido apontada desta forma durante os anos setenta.

      Excluir
  5. Olá Bruno!

    Tudo bem?

    Apesar de nunca ter visto nenhum filme de Monty Python, gostei da tua análise que me despertou a curiosidade. :)

    Obrigada pela visita.

    Um beijo,

    Cris Henriques

    http://oqueomeucoracaodiz.blogspot.com

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Quando tiver alguma oportunidade assista algum dos filmes que eles fizeram juntos ou alguma das esquetes do programa de TV que você encontra com facilidade no you tube.

      Excluir
  6. Olá!Boa noite!
    Bruno!
    Tudo bem por aqui?
    ...eu tenho o filme e a série,( não sei se te falei, é que comprei um lote de filmes diversos de uma locadora falida)e para que nunca viu eu recomendo, e para quem conhece vale a pena ver de novo...um amigo vive dizendo que é igual ao Chaves...ou seja, você pode ver várias vezes e ainda será engraçado.Meio exagerado, mas, realmente é daqueles filmes de humor verdadeiro, ou como vc disse, politicamente incorreto...
    Bom domingo!
    Abraços
    ah..obrigado pela visita!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Olá Felisberto, fiquei com inveja de sua aquisição. Concordo contigo, Monty Python é para ver e rever diversas vezes!

      Excluir
  7. Baita trupe de comédia - vou me permitir chamar assim!
    Monty Python tem um humor que se é bem trabalhado - como no caso deles - ganha uma dimensão cômica bem amplas... e, com certeza, é o tipo de filme para ser visto no idioma original!

    ;D

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Ver no idioma original é sempre essencial, porém no caso deles é obrigatório, parte da construção do timing cômico deles está na voz.

      Excluir
  8. Sou fã de Gilliam, tu sabe ne´?rs.
    E Monty é o melhor exemplo do que é COMÉDIA(como se faz, tempo de comédia, inteligência, sarcasmo, surrealismo e atualidade)!

    adoreiiiii, ter colocado Gilliam seu blog!

    bjs

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Ainda presento comentar outras obras a filmografia dele Patrícia, aguarde!

      Excluir
  9. Oi Bruno,

    Tudo bem? Não assisti a esse filme, mas não poderia ser diferente á medida que o diretor Terry Gilliam é considerado um estranho no meio. O filme Doze Macacos revela-se também como um obra-prima. A linguagem é sempre atemporal. Esse não é um longa para o público casual ou adoradores do enfoque Hollywood. Talvez nessa geração de Bussunda e Pânico seja considerado jurássico pela geração Z.

    Assim, como Mateus que sempre fala que é um adorador dos filmes geniais de baixo orçamento, me enquadro nessa linha. E por falar em Mateus, continua assistindo filmes, mas com muitas atividades de aula durante o dia, mas voltará em breve.

    Bom domingo e beijos.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Eu tinha reparado mesmo no sumiço do Mateus, mas já vi que postou uma resenha nova.

      Eu também gosto muito de "Doze Macacos" Luciana, excelente roteiro.

      Excluir
  10. Bruno, você mais uma vez me dando ótimas sugestões de filmes e me deixando morrendo de curiosidade aqui para assisti-los. Adoro comédias (qualquer uma que não seja com o Adam Sandler). Vou conferir esta aí com certeza!

    http://monteolimpoblog.blogspot.com.br/2012/08/the-walking-dead-torn-apart-legendado.html

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Confira sim Gabriel, você não se arrependerá!

      Excluir
  11. Oii Bruno, amigo não sou fã de comédias, dificilmente uma me faz rir de verdade, e olha que sou super bem humorada, mas qdo o assunto é filme de comédia, eu nem assisto por que não vou rir e então vão me achar mal humorada rsrsr Abraçoooosss

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Eu gosto bastante de comédias Kellen, mas ainda sou bem mais exigente quando se trata de comédia do que em relação à outros gêneros cinematográficos. Relativamente pouca coisa me agrada. Acho que você deveria assistir alguma das obras do Monthy Python, ainda acho que você iria gostar!

      Excluir
  12. Adoro!!!!

    http://estilohedonico.blogspot.pt/

    xoxo

    ResponderExcluir
  13. Outra excelente postagem, Bruno. Esse filme, não assisti. Não sou muito ligada a comédias. Mas sua resenha o mostra com detalhes que nos chamam a atenção. Deve valer a pena conferir. Bjs.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Vale sim Marilene! Obrigado pela visita!

      Excluir
  14. Bruninho, tudo bem?
    Já havia lido tua resenha e também o comentário do Jacques haha (si, foi no teu blog que vi ele citar 'um convidado bem trapalhão').

    Assisti ao 'em busca do cálice sagrado', duas vezes, no entanto faz muuuito tempo, o suficiente para me lembrar pouquíssimo. Mas a cena do ataque do coelho é antológica!
    Sou muito fã de Monthy Python, por tudo que representa para a contra-cultura, como você mesmo abordou. Mas o filme 'sentido da vida', como o tenho aqui em casa, vejo e revejo, teria mais coisas a falar. Mas existe a genialidade do roteiro, com certeza.
    Questões de baixo orçamento, ou mesmo, especificamente neste filme, nos bastidores, eu até desconhecia, por tratar-se de filme de 1975, não se percebe claramente essa questão orçamentária, como poderia se perceber se fosse nos dias de hoje, talvez por uma carência aqui e ali nos efeitos visuais, por exemplo.

    Beijão e ótima semana!

    PS.: Você já resenhou ou assistiu alguma vez ao 'incrível exército de Brancaleone' (filme italiano), penso ser uma das grandes comédias de todos os tempos.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Os próprios integrantes do grupo comentaram em uma entrevista que diversas situações que vemos no filme ficaram daquela forma pelas restrições de orçamento, o exemplo dos cavalos (que não existem) foi um dos exemplos dado por eles...

      Excluir
  15. Concordo contigo, Monty Python é uma obra clássica, extremamente original. Aliás, os outros filmes dessa trupe é de uma originalidade ímpar!
    abraço

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Eles eram extremamente criativos e tanto nos filmes quanto na série de TV isso fica evidente, principalmente pelo leque de temáticas com as quais eles fazem piada...

      Excluir
  16. O filme parece ser bom. Não assisti ainda, mas tem cara de ser engraçado. Adorei seu blog, e já te sigo!
    Abraços e boa semana!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigado Iza, o filme é mesmo muito engraçado e vale a pena ser visto! Abraços pra ti também e seja sempre bem vinda!

      Excluir
  17. Muito bom o texto! É realmente difícil encontras fãs de Monty Python, tanto que criei uma página no Facebook (http://www.facebook.com/OMinistroDoAndarTolo), e está difícil conseguir fãs para curti-la... eles estão cada vez mais escassos.

    Abraço

    ResponderExcluir