domingo, 21 de agosto de 2011

Homens e Deuses

Homens e Deuses (Des Hommes et des Dieux) - 2010. Dirigido por Xavier Beauvois. Escrito por Xavier Beauvois e Etienne Comar. Direção de Fotografia de Caroline Champetier. Música Original de Lambert Wilson. Produzido por Pascal Caucheteux e Etienne Comar. Why Not Productions, Armada Films e France 3 Cinéma. / França.

 

Poucos dias após a suposta morte de Osama Bim Ladem, assisti na TV um debate acerca da cobertura midiática do acontecimento. Mesmo depois de quatro anos esquentando uma cadeira da faculdade de jornalismo eu ainda não tinha parado para fazer uma reflexão acerca das matérias veículadas que emvolvem tais acontecimentos de relevância global. Foi através dos depoimentos e argumentação dos participantes do programa que compreendi o quanto nossa produção e cobertura de jornalismo internacional ainda é primitiva. No entanto o mais assustador desta constatação é que isso não é uma exclusividade de nosso país, mesmo as grandes potências do mundo contemporâneo ainda são reféns do que divulgam as agências de notícias, sendo que estas geralmente estão comprometidas com interesses particulares de governos e outras organizações. 

Tal fenômeno também ocorre na cobertura nacional, porém não com a mesma intensidade de efeitos. Vejamos um exemplo: sempre que há uma greve de bancários, a grande mídia não noticia nada, por estar atrelada aos interesse das grandes instituições financeiras, que são suas anunciantes, no entanto nós espectadores temos uma noção do que está acontecendo, porque aquilo afeta diretamente nossa realidade, ou porque conhecemos alguém diretamente ligado aquela situação ou ainda por termos contato com veículos alternativos, que se pautam por outros compromisso e convicções, que não os mesmo dos veículos “dominantes”. Já no caso da cobertura internacional, a distância geográfica nos impede de ter contato com uma segunda visão que sirva de contraponto à apresentada pelas agências. A falta de conhecimento e a manipulação midiática fomenta em nós preconceitos, como o de que todo muçulmano seria de fato um potencial terrorista.


O belíssimo filme Homens e Deuses (2010) chegou a ser citado e indicado durante o debate, por ser uma obra que mostra um outro lado dos conflitos motivados por questões religiosas que acontecem no oriente médio. A história contada, baseada em fatos reais, se passa na Argélia em 1996, durante o período da guerra civil que começara no país em 1991, rebeldes adeptos da Jihad (guerra santa) se insurgiram contra o governo após o cancelamento de uma eleição que ameaçava tirar a Frente de Libertação Nacional (FLN) do poder. A Frente Islâmica de Salvação (FIS), o partido da oposição cresce e ganha apoio de parte da população, dando início a uma guerrilha contra os partidários do governo. Não demora e os rebeldes se voltam também contra civis pertencentes a outras minorias e imigrantes, no início do filme é mostrado um atentado, onde os insurgentes atacam e degolam operários croatas que trabalhavam no país.

 

Toda a trama é mostrada sob a visão de monges católicos cistercienses, que vivem no mosteiro de Atlas, eles percebem que é uma questão de tempo até que o mosteiro seja atacado por algum dos lados envolvidos no conflito armado, ainda assim eles se recusam a aceitar uma vigilância armada oferecida pelo exército. Em uma das sequências preliminares o monastério é invadido por rebeldes na noite de natal, mas ao contrário do que os monges temiam, os invasores não os atacam, eles estavam apenas em busca de ajuda para militantes feridos. É de uma força tremenda a cena em que o líder rebelde pede desculpas ao monge Christian (Lambert Wilson), por ter invadido o templo em um dia sagrado para os cristãos, mostrando assim respeito e tolerância para com a crença alheia. O desenrolar da trama é guiado pelo conflito que atormenta cada um dos monges, gerado pela dúvida entre voltarem para a França ou permanecerem no local e se sucumbirem como mártires. Através dos diálogos, muito bem escritos, nós espectadores vamos tendo contato com o mais profundo da alma daqueles homens que, apesar de viverem uma vida espiritualizada, são tão humanos e temerosos como qualquer um de nós.

 

O aspecto mais importante do filme, ao meu modo de ver, é a forma com que ele aborda a relação entre os monges e as pessoas que moram no vilarejo ao redor do mosteiro, o que resulta na desconstrução de muitos conceitos pré-concebidos. Os religiosos levam uma vida simples e praticam a filantropia, dando apoio e assistência àquelas pessoas tão castigadas por doenças, pela fome e pela carência das necessidades mais básicas. Em contraposição ao ódio e à intolerância praticados, tanto pelo governo, quanto pelos guerrilheiros, eles usam como arma o amor, o perdão e a compreensão das fraquezas alheias e isto realmente os aproximam da gente simples que os cercam. Ao contrário do que nos dizem nossos preconceitos, essas pessoas também demonstram valorizar estas mesmas virtudes e ansiar por uma vida de paz e tranquilidade. Porém a religiosidade que motiva sentimentos tão nobres é a mesma que justifica conflitos, guerras e tanto sofrimento. Em uma passagem um dos personagens lembra um pensamento de Pascal, o filósofo francês dizia que: ‎"Os homens nunca fazem o mal tão completamente e alegremente, tal como quando o fazem por convicção religiosa...". Uma triste constatação.

 

Os monges decidem finalmente que o mais certo a fazer seria permanecerem no mosteiro, conforme Christian pondera: “As flores não se movem para encontrar os raios do sol. Deus as torna férteis onde quer que as colocou”. Naquela que considero a cena mais bela do filme, os monges se reúnem para a que poderia ser a última ceia e a última comunhão entre eles. A sequência é acompanhada pela canção. "O Lago dos Cisnes" de Tchaikovsky, que roda em um toca fitas, a música toma todo o ambiente e tal como a personagem central do balé clássico, os religiosos decidem entregar as próprias vidas por amor. O que vemos na expressão facial de cada um deles não é angústia ou sofrimento, o que percebemos é um misto de serenidade e redenção, como se finalmente tivessem realmente encontrado a expressão do divino que têm dentro de si, contrariando poeticamente o epílogo do filme que reproduz um versículo do Salmo 82: "Vós sois deuses. Sois filhos do Altíssimo, todavia, como homens, morrereis e, como qualquer dos príncipes haveis de sucumbir". Homens e Deuses tem um ótimo roteiro, uma bela fotografia e grandes atuações, que compõem o todo que tornam esta obra imperdível não só pelas reflexões que nos proporciona. Recomendo!


Homens e Deuses ganhou o Grande Prêmio do Juri no Festival de Cannes.

Assistam ao trailer de Homens e Deuses no You Tube,
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