domingo, 28 de agosto de 2011

Sinédoque, Nova York

Sinédoque, Nova York (Synecdoche, New York) - 2008. Escrito e dirigido por Charlie Kaufman. Direção de Fotografia de Frederick Elmes. Música Original de Jon Brion. Produzido por Anthony Bregman, Spike Jonze, Charlie Kaufman e Sidney Kimmel. Likely Story, Projective Testing Service, Russia e Sidney Kimmel Entertainment. / USA.

 

Final dos anos 50, um grupo de críticos de cinema franceses, que escreviam para a revista Cahiers du Cinéma, lançaram um manifesto que defendia um cinema mais autoral, onde a figura do diretor substituísse a do produtor como responsável pelas obras. Esta nova concepção revolucionava drasticamente toda a teoria acerca do cinema, elevando-o ao status de obra de arte, na qual estaria impressa a expressão dos sentimentos e da ideologia de seus diretores e não mais apenas a ganância por grandes bilheterias almejadas pelas grandes produtoras. Direta ou indiretamente esta concepção, que daria origem à Nouvelle Vague francesa, influenciaria também toda a nova geração de cineastas hollywoodianos que despontaria em meados dos anos 70, que seria composta por nomes como Coppola, Brian de Palma, Martin Scorsese e George Lucas. Ainda hoje existe muita polêmica acerca de quem deve ser considerado de fato o autor de um filme, o Oscar de Melhor Filme por exemplo é sempre entregue aos produtores, o que eu pessoalmente acho uma injustiça, não querendo com isso desmerecer ou negar a importância da produção.

Recentemente a noção de autoria foi mais uma vez colocada em cheque e o responsável não era um diretor ou um produtor, mas sim um roteirista. Fato curioso, uma vez que os escritores continuam sendo os profissionais mais subestimados da indústria cinematográfica e não é a toa que é a única categoria ligada ao meio que vira e mexe está fazendo greve e lutando para conquistar respeito e para garantir direitos essenciais. Charlie Kalfman é o nome em questão, ele surpreendeu já em sua estréia, com o ótimo Quero ser John Malkovich (1999), dirigido por Spike Jonze, o filme recebeu 3 indicações ao Oscar, dentre elas a de Melhor Roteiro Original. Não era apenas sorte de principiante, seu estilo ousado e nada convencional se manteve nítido e pungente nos próximos filmes, cujo roteiro escreveu, dentre eles o genial Adaptação (2002) e o ótimo Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças (2004). O estilo de Kaufman é marcado pelas figuras de linguagem que usa com maestria, pelo existencialismo melancólico e pelo absurdo Kafkiano que permeia suas tramas. Ele próprio reconhece o cunho autoral de suas obras, uma vez que sua própria personalidade é sempre determinante na concepção de cada um de seus personagens, principalmente os protagonistas, que podem ser vistos como uma espécie de alter ego dele.

 

Na ocasião da estréia de Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças no Brasil, Charlie Kalfman deu uma entrevista ao jornalista Bruno Ghetti, colaborador da Folha de São Paulo, na qual falou de suas inspirações e influências e dos planos para o futuro. Ao ser questionado pelo repórter se pretendia se tornar um diretor, como sonhara na época da faculdade, Kaufman disse que sim, apesar de não ser uma “vontade tão urgente”. De fato, demoraram quatro anos até que ele estreasse na função, com o complexo Sinédoque, Nova Iorque (2008). A primeira impressão que se tem assistindo a este filme é a de que Kaufman foi longe demais em suas viagens, o que poderia ser motivado pela falta de um diretor, que pudesse lhe impor limites. Mas eis a questão: O que há de mal nisso? Eu pessoalmente acredito que o cinema, como qualquer outra arte, seja campo para experimentações e ousadia, que possam nos conduzir para além do mais do mesmo e do lugar comum, oferecidos pelas obras mais convencionais. Partindo deste pressuposto, tenho que reconhecer que, apesar de estar aquém de outros filmes que escreveu, Sinédoque, Nova Iorque é uma obra singular e de uma grandiosidade estética e filosófica que nos remete até mesmo à 8 ½ (1963) de Fellini.

 

Gramaticalmente, a sinédoque é uma figura de linguagem, que ocorre quando há em uma frase a substituição de um termo por outro, havendo ampliação ou redução do sentido usual da palavra numa relação quantitativa. Por exemplo: Quando dizemos que os filmes de Kalfman são complexos, estamos querendo dizer que os filmes cujo o roteiro foram escritos por Kaufman são complexos. O termo ganha na oração um significado maior do que aquele que teria usualmente. Para que possamos fazer uma correlação entre o título e a história contada no filme, precisamos fazer uma sinopse que nos possibilite entendê-lo, mas fazer uma sinopse ou resume de um filme de Kalfman é uma tarefa árdua, mas vamos à ela. Caden Cotard (Philip Seymour Hoffman) é um diretor de teatro, que está passando por uma boa fase criativa, sua última peça foi um sucesso de crítica, no entanto em casa as coisas não andam nada bem. Sua esposa, Adele (Catherine Keener), é uma pintora de miniaturas que já não suporta mais a negligência e a excentricidade do marido, que é paranoico e sofre de hipocondria.

 

Adele decide dar um tempo na relação e leva a filha Olive (Sadie Goldstein) de quatro anos para uma viagem à Paris, sem previsão de volta. Caden parece nem se dar conta do que esta acontecendo em sua volta, por estar preocupado apenas com as doenças que tem, ou que imagina ter. Sua vida muda completamente depois que ele recebe um carta, informando sobre uma doação milionária que ele recebera para investir em sua nova peça. A liberdade criativa que lhe é conferida o leva a mergulhar em uma empreitada ousada e tão excêntrica quanto sua personalidade. Ele pretende encenar sua própria vida e a concepção desta mesma peça, complicado não é, mas é só o começo (e qualquer semelhança com Adaptação, não é mera coincidência). Caden, em sua megalomania, constrói uma Nova Iorque dentro de um estúdio e transfere para lá toda sua existência (eis aí a sinédoque, a substituição do todo pela parte). O mergulho na obra é tão profundo que em vários momentos ele se confunde com seu próprio personagem e a realidade se mistura com a peça encenada. Desde o início do filme percebemos que o tempo é apenas uma mera ilusão. Em uma das primeira sequências do filme, meses se passam sem corte aparente, a cena em questão mostra um rotineiro café da manhã, o decorrer do tempo é percebido pelos mais atentos apenas pela data do jornal nas mãos de Caden.

 

Outro aspecto que aproxima bastante Sinédoque, Nova Iorque de 8 ½ de Fellini são os relacionamentos entre o personagem principal e as mulheres que o cercam, relações estas que são totalmente destrutivas para ele, que não compreende seus próprios sentimentos. Simbolicamente, ele não consegue conter as lágrimas que escorrem pelo seu rosto e a melancolia que o toma durante as transas. Após a partida de Adele, Caden se envolve com Claire (Michelle Williams), a protagonista da peça que está montando e com Hazel (Samantha Morton), a bilheteira do teatro, que mora em uma casa que está constantemente em chamas, fato que também está carregado de simbolismo. Em dado momento do desenrolar da trama, há algo que muda completamente o entendimento sobre o filme e que pode ser o definidor da opinião que ao final formaremos sobre ele. Só que este fato, apesar de ser evidente, não está tão aparente, podendo passar despercebido para os mais desatentos.

 

Além do roteiro, que é excelente, o principal destaque do filme, que também não é novidade, é a atuação de Philip Seymour Hoffman, esse cara é sem dúvidas um dos melhores atores em atividade, sua atuação neste longa só perde na minha opinião, para sua performance em Dúvida (2009). Boogie Nights (1997), Magnolia (1999) e Capote (2005) também são prova de sua competência em transitar com habilidade e destreza pelos mais diferentes tipos. Ao final do filme fica apenas uma sensação um tanto ruim de que ficou faltando algo, que o transformasse em uma obra imperdível e indispensável. Em alguns momentos o desenrolar da trama, que já é lento, parece perder o ritmo, mas não sei dizer bem ao certo se isso foi intencional ou não, pois em se tratando de Kaufman, o sentimento de vazio que sobra no final da exibição tem tudo para ser proposital. Se sua carreira como diretor vai ser tão brilhante quanto a de roteirista, só o tempo pode dizer, a certeza que tenho até então é a de que toda a obra em que ele colocar as suas mãos, vale a pena ser ao menos conferida. Recomendo!


Assista ao trailer de Sinédoque, Nova York no You Tube, clique AQUI !

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