sábado, 27 de agosto de 2011

Tudo Sobre Minha Mãe

Tudo Sobre Minha Mãe (Todo sobre mi madre) - 1999. Escrito e dirigido por Pedro Almodóvar. Direção de Fotografia de Affonso Beato. Música Original de Alberto Iglesias. Produzido por Agustín Almodóvar e Michel Ruben. El Deseo, Renn, France 2 e Via Digital. / Espanha | França.

 

Esta semana parecia que não ia ser tão diferente das outras, ela seguia o ritmo louco que a minha vida tem tomado nos últimos anos. Sem tempo para tantas reflexões e com uma já escassa esperança de que o dia seguinte pudesse ser melhor, eu apenas via o tempo passando, o trabalho, os conflitos, os sentimentos, sem tentar nenhum tipo de reação. Na última quarta-feira no entanto esta rotina foi quebrada, mas da pior maneira possível. Minha mãe passou mal e mais uma vez precisou ser internada, não era nada de tão grave, mas sustos como estes nos conduzem a uma espécia de reflexão forçada, acerca do quanto uma pessoa pode ser importante em nossas vidas. Ver minha mãe momentaneamente fragilizada sempre foi para mim um motivo de uma angústia sem tamanho, isto porque eu me acostumei à vê-la como uma mulher forte, que sempre se levantou com garra contra as situações mais adversas, sem nunca se deixar cair.

Não sei se por ironia do destino, mas dias antes eu tinha colocado o DVD de Tudo Sobre Minha Mãe (1999), de Almodóvar em cima da escrivaninha, pretendia reassisti-lo assim que tivesse tempo. Naquela noite achei que vê-lo mais uma vez depois de quase 4 anos pudesse ser uma uma forma de espantar as preocupações que me tomavam, minha mãe ainda estava no hospital e eu estava sozinho em casa, ainda imerso naquela reflexão forçada. Senti algo estranho logo na primeira cena do filme, que começa em um ambiente hospitalar. A personagem principal, Manuela (Cecilia Roth), é uma enfermeira que trabalha no setor cirúrgico de um grande hospital. A primeira sequência do longa mostra a correria para encontrar um receptor para órgãos de um homem, que acabara de falecer na mesa de operações. Manuela liga para o setor responsável por encontrar alguém compatível e a sequência termina. Na próxima cena as cores predominantemente frias do hospital são substituídas pelas “cores de Almodóvar”, estamos na casa de Manoela, ela conversa com o filho Esteban (Eloy Azorín), enquanto assistem o clássico A Malvada (1950), de Joseph L. Manklewicz.

 

Esteban questiona o porque do nome “a malvada” uma vez que “tudo sobre Eve”, a tradução do nome original tem muito a ver mais com a trama. Neste momento percebemos que o jovem escolhe o título para algo que estava escrevendo, sua mãe pergunta do que se trata mas ele não responde, só mais tarde ele explica que é um conto sobre ela, que ele está escrevendo para participar de um concurso. Ao falarem sobre atuações, Manoela conta que já foi atriz na juventude e mostra ao filho uma foto da época, o rapaz não deixa de perceber que a foto fora rasgada ao meio e que possivelmente seu pai, de quem sua mãe nunca lhe falou nada, era quem estava na outra parte da foto dilacerada. No dia seguinte Manoela o leva para ver sua apresentação em uma palestra no hospital, onde ela participa de uma dramatização sobre a doação de órgãos.

 

À noite eles vão juntos a uma encenação da peça Um Bonde Chamado Desejo do dramaturgo americano Tennessee Williams. A mulher é tocada profundamente pela peça e na saída o filho a convence a esperar, na chuva, pela saída de Huma Rojo (Marisa Paredes), uma das atrizes principais. Ao sair ela entra em um taxi, Esteban tenta bater na janela do veículo, mas ela não a abre, ele tenta correr atrás do taxi e acaba sendo atropelado por um outro carro. Em uma das cenas mais dolorosas do filme, Manoela recebe a notícia da morte de Esteban e, tal como na atuação que protagonizara naquele mesmo dia, ela se vê obrigada a decidir, naquele momento tão difícil, acerca da doação dos órgãos do filho. Desgostosa, ela decide voltar para Madrid e procurar pelo pai do rapaz, um ex-ator que também se chamava Esteban (Toni Cantó). Há dezoito anos atrás, Manoela tinha fugido de Madrid para Barcelona, ela estava grávida de Esteban na ocasião, ele, que tinha se transformado em um travesti, nunca soube da existência do filho.

 

Ao chegar em Madrid, Manoela se encontra com a velha amiga Agrado (Antonia San Juan, que carrega praticamente sozinha a veia cômica do filme), um travesti que está cansado da realidade violenta das ruas. Através de Agrado, Manoela conhece também a doce Irmã Rosa (Penelope Cruz), que presta serviços de assistência social às prostitutas e travestis. Em uma outra bela referência à A Malvada, Manoela vai novamente ao teatro assistir a Um Bonde Chamado Desejo em Madrid e acaba ganhado a confiança de Huma nos bastidores, ambas saem na noite pelo submundo da cidade em busca de Nina (Candela Peña), outra atriz da peça, que está viciada em heroína. Em alguns momentos o filme sugere que há uma relação homossexual entre Huma e Nina, mas no fim das contas o que aflora entre elas é uma relação quase maternal. Em meio a tantas almas femininas, Almodóvar constrói uma trama forte e corajosa, que toca em diversos temas que são recorrentes em sua filmografia, como perversão sexual, hipocrisia religiosa e relacionamentos improváveis.

 

A fotografia e a direção de arte, como de praxe nos filmes de Almodóvar, são impecáveis. O colorido forte e extravagante de seus filmes me remete à belíssima obra de Frida Kahlo, cujos quadros revelam um sofrimento doloroso e latente, mas que são retratados com uma lirismo quase onírico e com uma beleza estética inebriante, que de alguma forma torna o sofrimento suportável e a vida menos atormentadora. Fica evidente no filme, a homenagem e a reverência do cineasta à alma feminina, que ele parece conhecer tão bem, apenas não concordo que a sensibilidade, que transborda de seus filmes seja em si uma característica afeminada, pensar isso seria até machismo. De alguma forma isso me incomodava em suas obras, pois durante muito tempo, me pareceu que Almodóvar só conseguisse encontrar emoções verdadeiras e pungentes neste universo povoado por mulheres e gays. Fale com Ela (2002) provou que eu estava estava equivocado e quebrou esta má impressão que eu tinha, mas esta é uma outra história. Almodóvar é um gênio e uma citação de Tudo Sobre Minha Mãe serve muito bem para resumir sua obra: “Nós ficamos mais autênticos, quanto mais nos parecemos o que sonhamos que somos”.

 

Tudo Sobre Minha Mãe me ajudou a ver a situação pela qual minha mãe tem passado de outra forma, o filme me ajudou a compreender que sensibilidade nem sempre é sinônimo de fraqueza e que mesmo em um choro desesperado ou em lágrimas que rolam discretas existe uma força tremenda que simplesmente não consigo descrever, acho que se tivesse em outro estado de espírito eu jamais teria percebido isso... Quem se dispuser a assistir ao filme despido de qualquer tipo de preconceito irá se deparar com uma das mais belas representações da figura materna, aquela que acolhe e conforta sem fazer julgamentos e em cujo o coração sempre cabe mais um. O filme termina com uma das mais belas dedicatórias do cinema: “a todas as atrizes que viveram atrizes. A todas as mulheres que representam. Aos homens que representam e se tornaram mulheres. A todas as pessoas que querem ser mães. À minha mãe”... Ultra recomendado!


Tudo Sobre Minha Mãe ganhou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Em Cannes Pedro Almodóvar ganhou os Prêmios de Melhor Diretor e o do Juri Ecumênico e o filme ainda foi indicado à Palma de Ouro, prêmio máximo do festival.

Assista ao trailer de Tudo Sobre Minha Mãe no You Tube, clique AQUI !

Confiram também aqui no Sublime Irrealidade
a resenha crítica de outros filmes de Almodóvar: 

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4 comentários:

  1. querido,que belo post sobre o filme...este é um de meus favoritos de almodóvar justamente por esta questão maternal e a forma como a figura feminina é retratada e cultuada.

    Gosto dessa citação ''Aos homens que representam e se tornaram mulheres'' ...lindo o ver a personagem Agrado,minha favorita dentro disso.

    as cores,a trilha,penélope....tudo lindo e perfeito...Tudo Almodóvar!


    ameeei o post!

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  2. OUTRA CRITICA DO FILME

    http://www.facebook.com/notes/cr%C3%ADtica-livre-de-cinema/um-filme-imperd%C3%ADvel-de-almod%C3%B3var-hoje-1803-as-2200-hrs-no-telecine-cult-tudo-sob/212169812224441

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