sábado, 20 de agosto de 2011

Fitzcarraldo

Fitzcarraldo - 1982. Escrito e Dirigido por Werner Herzog. Direção de Fotografia de Thomas Mauch. Música Original de Popol Vuh. Produzido por Werner Herzog, e Lucki Stipetic. Autoren, Project, Werber Herzog, Wildlife, ZDF. / Alemanha Ocidental | Peru.

 

Já cansamos de ouvir a máxima que diz que um indivíduo é determinado pelo tamanho de seus sonhos, talvez este aforismo seja de fato uma verdade... uma cruel verdade, vez que “não são bons tempos para os sonhadores”. Cultivamos sonhos até que, como diria Chico, a roda viva vem e os levam de nós, deixando apenas a frustração. Diante de sonhos despedaçados, ser perseverante nem sempre é fácil. Reconhecer as derrotas e recomeçar do zero com a mesma determinação é uma virtude que poucos aparentam ter. O imigrante irlandês Brian Sweeney Fitzgerald, o personagem central do clássico Fitzcarraldo (1982) de Werner Herzog, é um destes tipos raros, ele tem a vida pautada pelos seus sonhos excêntricos, aos quais quase ninguém mais dá crédito. A história do filme se desenvolve durante o ciclo da borracha no início do século passado e se passa no interior da floresta amazônica, em algum lugar do Peru. Era sem dúvidas o lugar e o contexto errado para se acreditar em sonhos e em parte é isto o que torna este filme tão fantástico. 

Fitzcarraldo, como os nativos do local chamam Brian, já tinha dedicado boa parte de sua vida ao sonho de construir uma ferrovia trans-andina, que ligasse o interior da floresta ao oceano pacífico. O insucesso desta empreitada no entanto não o desanimou, mesmo estando falido ela já alimentava um novo ideal: Construir uma suntuosa casa de ópera no meio da mata, na cidade de Iquitos, para apresentar para os nativos a beleza das óperas europeias. Ele é um grande fã do compositor italiano Enrico Caruso, este conforme seus planos deveria fazer a apresentação inaugural do teatro. Fitzcarraldo enxerga na musica o canal de comunicação perfeito entre povos de culturas tão distintas. Mo entanto nem a música escapa de ser uma forma de dominação, em uma das sequências mais belas do filme há o que pode ser entendido como um duelo entre batuques indígenas e a música clássica, que a princípio parecem se harmonizar, mas esta última acaba prevalecendo, alegorizando o domínio da cultura européia que estava prestes a ser estabelecido naquela região.

 

Fitzcarraldo tenta conseguir dinheiro para custear a obra através de um negócio tão absurdo quanto improvável, uma fábrica de gelo, que corrobora a ideia que todos têm dele, justificando a alcunha que recebeu de “Conquistador do Inútil”. Aconselhado por um homem de negócios local, Fitz abandona a produção de gelo e decide entrar no lucrativo negócio da borracha, ele consegue uma concessão do governo para trabalhar em uma área ainda não explorada. Com a ajuda de sua amante, Molly (Claudia Cardinale), que é dona de uma bordel, ele compra um barco a vapor e junta uma tripulação disposta a encarar a aventura de adentrar em territórios totalmente selvagens. No afã de encontrar uma nova rota para o transporte do material que for explorado, que não passe por quedas d'água e corredeiras, eles entram em território indígena e chegam ao absurdo de usar nativos para arrastar o gigantesco barco morro acima [numa das cenas mais clássicas do cinema]. Neste momento fica aparente a controvérsia que a figura do personagem principal representa, remetendo mais uma vez aos processos de colonização das Américas, ele explora a mão de obra e o recurso indígena, provocando mortes e muito sofrimento para alcançar aquilo que almeja.

 

Constantemente a crítica especializada tem feito um paralelo entre as personalidades do diretor Werner Herzog e do personagem central de seu filme. Herzog se recusou a usar qualquer tipo de efeito especial durante as filmagens, levou seu elenco para o interior da selva onde passaram meses, em uma época do ano de clima bem instável e “castigou” toda sua equipe com métodos de trabalho nada ortodoxos. Todos sofreram ainda com as fortes chuvas, com o lamaçal e com os mosquitos que tomavam conta do lugar. Reza a lenda ainda que membros da equipe foram mortos pelos nativos e que em dado momento, um indígena teria oferecido a Herzog para se livrar de Kinski, cuja personalidade difícil estaria atrapalhando o andamento das filmagens e prejudicando a convivência diária. Durante anos Kinski cultivou a má fama de ser um ator tenaz, egocêntrico e complicado, muitos críticos ainda se perguntam porque Herzog decidiu trabalhar com ele mais uma vez, mesmo depois de já tê-lo dirigido em filmes como Aguirre - A Cólera dos Deuses (1972) e Nosferatu – O Vampiro da Noite (1979), ocasião em que outros atritos entre eles aconteceram. A resposta talvez seja simples: pouquíssimos atores estariam dispostos a comprar a ideia do diretor e embarcar em um sonho tão excêntrico e improvável.

 

Comecei a assistir Fitzcarraldo imaginando que não iria gostar tanto de seu roteiro, uma vez que ele é lembrado mais pela ousadia de sua realização do que pela sua trama em si, eu estava completamente enganado, a história é fascinante e os personagens também. Este clássico do cinema europeu mostra do que realmente são feitos os sonhos e que o que mais vale não são as conquistas e sim o esforço despendido pra alcança-las. Se aquela seria mais uma aventura de Fitzcarraldo em busca do “inútil” não interessa, o que interessa na verdade é tudo aquilo que ele viveu e sentiu, o desfecho da trama mostra isso de forma extraordinária. Ao assistir ao filme, preste atenção na atuação magistral de Kinski e nas participações especiais de Milton Nascimento, como o porteiro de um teatro e de Grande Otelo, como o responsável por uma estação de trem abandonada. A fotografia do filme é belíssima e suas locações são realmente incríveis, um louvor à loucura e ousadia do cineasta e de sua equipe. Fitzcarraldo é uma verdadeira obra de arte, onde o contraste entre megalomania e sensibilidade não resulta em outra coisa a não ser poesia... Recomendo!



Fitzcarraldo ganhou o prêmio de Melhor Diretor em Cannes, tendo sido
indicado també
m à Palma de Ouro, prêmio máximo do festival.

Assistam ao trailer de Fitzcarraldo no You Tubeclique AQUI !


6 comentários:

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    1. Obrigado Glauber!
      Seja sempre bem vindo a este humilde espaço!

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  2. Adorei sua análise do filme. Muito gostoso de ler!

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    1. Obrigada Soraia!
      Fico muito feliz que você tenha gostado, seja sempre bem vinda!

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  3. Obrigada por sua visita ao Caçadores de Bibliotecas. Muito bom o seu blog. Vou seguir. Belos textos!!!

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    1. Seja bem vinda Soraia!
      Que bom que você gostou do Sublime Irrealidade, espero vê-la por aqui mais vezes!

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