quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Drive

Drive (Drive) - 2011. Dirigido por Nicolas Winding Refn. Escrito por Hossein Amini, baseado na obra de James Sallis. Direção de Fotografia de Newton Thomas Sigel. Música Original de Cliff Martinez. Produzido por Michel Litvak, John Palermo, Marc Platt, Gigi Pritzker e Adam Siegel. Bold Films, Odd Lot Entertainment, Marc Platt Productions, Motel Movies, Drive Film Holdings e Seed Productions / USA.


Assisti Drive (2011) pela primeira vez no último domingo (08/01), passei os últimos dias ruminando seu roteiro... Ontem, ao começar a escrever sua resenha, voltei a ele para rever algumas cenas que não saiam de minha mente e não resisti, não me contentei em rever somente algumas cenas, o assisti por completo mais uma vez e, acreditem, a impressão foi ainda melhor. Posso garantir que se não fosse a enorme quantidade de outros filmes esperando para serem assistidos eu embarcaria facilmente em uma terceira sessão com esta, que é sem dúvidas uma das melhores películas de 2011. O maior pecado que eu poderia cometer ao falar de Drive seria rotulá-lo tão somente como um filme de ação, pois ele extrapola qualquer noção de gênero, transitando ora pelo drama intimista, ora pelo familiar, passando também pelo suspense psicológico, esta última vertente menos explicita no roteiro, porém presente.

Nicolas Winding Refn, que recebeu o prêmio de direção em Cannes, constrói em Drive uma narrativa que parte quase que exclusivamente da perspectiva do personagem principal (Ryan Gosling), um enigmático motorista, cuja personalidade parece refletir não aquilo que ele é, mas tão somente aquilo que ele faz, ele não tem nome, não tem passado, ele apenas dirige... Mas se engana quem aponta o personagem como desumanizado ou minimalista, pois ele é justamente o oposto disso. Não nos importa saber de onde ele veio, nem quais são suas reais motivações, o que interessa é o conflito ético que ele experimenta na história e é este aspecto que torna o filme ainda mais impressionante. Na trama, o personagem ocupa seu tempo trabalhando ora como mecânico, ora como dublê em filmes de ação e ainda como motorista condutor de assaltantes em fuga. Ele não tem uma vida social, não tem tantos relacionamentos e observa o mundo à sua volta com resignação e indiferença. 


Diga-me onde começamos, onde vamos e onde vamos depois, eu te dou cinco minutos depois que chegarmos lá. Estou à sua disposição nesses cinco minutos, haja o que houver... Haja o que houver após os cinco minutos estará por sua conta. Eu não participo do roubo e não porto armas, eu dirijo!

A alienação social do personagem e o clima melancólico e opressivo de Drive nos remete a Taxi Driver (1976), obra prima de Martin Scorsese, a semelhança entre os dois longas, perceptível até no nome, não para por ai, algumas tomadas e enquadramentos são bem parecidos e a similaridade está presente também no desenvolvimento do personagem central que, tal como o taxista Travis Bickle, parece não ser guiado por uma moral social constituída, mas sim por uma espécie de código ética pessoal, código este que nos dois casos parece ter sido deturpado pelas suas respectivas vivências e pela reclusão que se auto impuseram. Ambos são marginais, no sentido de viverem à margem da sociedade. Ambos não conseguem se enquadrar ao meio em que vivem e suas atitudes são em diversos pontos condenáveis. Ambos num rompante de reação, conduzidos por uma espécie de justiça própria, decidem intervir no meio para destruir o que condenam e proteger o que valorizam, tal reação apenas reforça a ideia de que são determinados não por aquilo que são, mas por aquilo que fazem.


O "protagonista" de Drive, chamado em algumas cenas apenas de "Driver" (motorista em inglês), realiza seus serviços motivado por objetivos escusos, ele visivelmente não quer dinheiro, tão pouco ascensão social e seu trabalho na oficina mecânica me parece mais algo relacionado à gratidão que ele sente em relação ao patrão, que o aceitou como empregado sem fazer qualquer questionamento acerca de seu passado, do que um meio de garantir sua subsistência (esta é apenas uma das situações em que o que aflora é a ética pessoal do "motorista" e não o moralismo vigente). Passamos a entender o personagem um pouco melhor depois que ele conhece Irene (Carey Mulligan), sua vizinha, e o menino Benício (Kaden Leos), o filho dela; ele que está diretamente envolvido com a criminalidade local (o que seria uma postura moralmente condenável), assume o risco de se envolver em uma situação altamente perigosa para garantir a segurança de Irene e de sua família (o que seria à primeira vista uma atitude louvável), eias aí a discrepância no comportamento ético do personagem que culmina no conflito silencioso que o leva à reação violenta. 


Standart (Oscar Isaacs), o pai do filho de Irene, está preso, o que facilita a aproximação do "Driver", que ganha então a confiança da mulher e do garotinho. Irene começa a se deixar envolver por ele quando recebe a notícia de que o marido estaria ganhando a liberdade dentro em breve. O retorno de Standart, que poderia ser o mote para o desenvolvimento de um forte conflito, acaba nos deixando ainda mais intrigados acerca da personalidade do motorista, este aceita participar de um assalto para ajudar o ex-presidiário a quitar dividas contraídas enquanto estava na prisão. É então que surge a dúvida, por que ele colocaria sua vida em risco para tentar salvar o marido da mulher por quem está apaixonado? Ele de fato não estaria ganhando nada que compensasse o risco que correria ao participar do crime, tão pouco conquistaria o amor e o respeito de Irene com isso, mas ele o faz simplesmente porque acredita que é o certo a se fazer (outra vez a sua ética pessoal se sobressaindo diante da moral estabelecida).


O motorista de Drive talvez seja um dos personagens mais interessantes e intrigantes concebidos pelo cinema em 2011, ele não precisa falar muito ou ter frases de afeito para nos instigar já no início da exibição do filme. Ryan Gosling, em uma ótima atuação, consegue transmitir pela expressão facial (preste atenção nos closese pelos poucos gestos a frieza de seu personagem e a violência contida por ele, que ameaça explodir a qualquer momento. A fotografia cheia de contrastes acentuados, um belíssimo trabalho de Newton Thomas Sigel, nos dá plena noção dos sentimentos e sensações que cada cena transpira, o clássico jogo entre a luz e a sombra (que aparentam estar em um constante conflito em cada um dos fotogramas), parece materializar as contradições comportamentais e éticas do motorista. As tomadas feitas à noite são belíssimas, nalas a fotografia ajuda a delinear ao mesmo tempo a beleza e a hostilidade de Las Vegas. A captura de imagens feita de dentro do carro em movimento, que lembram algumas de Taxi Driver, consegue reforçar a ideia do distanciamento social e da solidão do personagem de uma forma sublime.


O ritmo do filme segue lentamente, como se buscasse contemplar uma áurea não tão aparente, presente em cada um dos personagens, principalmente no principal, tal ritmo é então subitamente quebrado pela explosão da violência, que não nos surpreende por já ter sido anunciada desde as primeiras sequências do longa. É durante a transição rítmica que percebemos a competência e a habilidade de Nicolas Winding Refn, em outras mãos a alteração abrupta poderia nos parecer imprecisa ou no mínimo estranha, o que definitivamente não é o que acontece no caso de Drive. Como se não bastasse tudo isso, o filme ainda tem uma trilha sonora fantástica, que remonta à uma sonoridade típica dos anos 70 e 80, as belíssimas canções ajudam não só na construção no clima predominante no filme, mas também na transição de ritmo e na leitura que fazemos de cada uma das atitudes do personagem principal... Drive é uma obra prima que precisa ser vista por todos! Ultra Recomendado!


Drive está indicado ao Globo de Ouro na categoria de Melhor Ator Coadjuvante (Albert Brooks). Em Cannes, o filme foi o vencedor na categoria de Melhor Diretor.

Assistam ao trailer de Drive no You Tube, clique AQUI !


18 comentários:

  1. Bela crítica, belo filme! Top 10 de 2011, sem dúvida.

    ResponderExcluir
  2. Oi Bruno, mais uma dica legal de filme, ainda não vi, mas segundo sua resenha vale à pena assistir, gosto do ator principal, ele fez um filme que tenho aqui em casa que acho maravilhoso, se chama "Diário de um amor", um filme bem gostoso e divertido, pode conferir, vai gostar.

    Abração pra ti.

    ResponderExcluir
  3. Opa, é a minha primeira visita por aqui :D
    Já estou seguindo e curtindo a página no Face hehe
    Adorei sua crítica sobre o filme, parece ser muuuuito bom.
    Vou procurar, para assistir ;) Valeu a dica.
    Fique a vontade para visitar meu cantinho ;D
    E espero que goste, sucesso sempre, abração .

    Ewerton Lenildo - Academia de Leitura
    papeldeumlivro.blogspot.com
    @Papeldeumlivro

    ResponderExcluir
  4. Muito bom! Ryan Gosling em ótima fase da carreira e escolhendo bem os projetos, uma pena que o ator ainda só seja reconhecido na esfera pessoas sentadas na platéia e não muito em premiações. Espero que este erro seja corrigido. Blue Valentine já era ótimo. DRIVE tem algo de eletrizante, suspense um "Q" realmente de Taxi Driver, muito embora o tom seja outro. Carey Mulligan tb ótima em cena, uma atriz que ainda vai dar o que falar

    Abs.

    ResponderExcluir
  5. Muito bom o texto, as imagens e o blogger de uma maneira geral. Não vi,ainda,mas confesso que fiquei curioso. Um abraço. Seguindo...

    ResponderExcluir
  6. Grato por sua visita ao De tudo um pouco minha opinião. Retorne sempre que quiser. Um grande abraço.

    ResponderExcluir
  7. Oi meu queridããããoooo! Saudades de vc e do Sublime... cheguei de viagem! Voltarei depois para ler seus últimos posts com o carinho e atenção que vc merece.

    bjksssss ;)

    Câmbio, desligo-me!

    ResponderExcluir
  8. É sempre um prazer receber a visita de cada um de vocês aqui no Sublime Irrealidade, àqueles que o visitaram pela primeira vez, eu desejo boas vindas e espero que tenham gostado e que voltem a visitar este humilde espaço... Desculpem-me pela demora em responder os comentários, meu HD foi danificado e acabei ficando off por cinco dias... aguardem pois em breve terá coisa nova por aqui... Quanto ao filme, eu o recomendo para cada um dos que não o tenham assistido ainda, os comentários acimas de colegas que já o assistiram não me deixam mentir!

    ResponderExcluir
  9. Ryan está numa ótima fase... prova disto é este filme que realmente surpreende!

    ;D

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Estou curioso para conferir a atuação dele em "Tudo Pelo Poder"...

      Excluir
  10. Pela sua descrição esse filme deve ser muito bom.Achei ótimo o seu blog.Parabéns!

    ResponderExcluir
  11. Drive está na listinha dos que mais quero ver. E, por isso mesmo, estou aguardando pra ver se ele chega nos cinemas goianos! Está todo mundo falando muito bem... As semelhanças com Taxi Driver são ainda mais bizarras: tem Albert Brooks como coadjuvante e foi De Niro que presidiu os jurados de Cannes e deu o prêmio pra direção de Drive! Loucura.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Ainda têm outras semelhanças no roteiro que preferi omitir para não publicar spoilers... quando você assisti-lo me avise para podermos trocar algumas ideias sobre ele. Você como fã confesso de "Taxi Driver" vai poder me dizer se algumas das semelhanças que percebi são de fatos reais ou meros equívocos...

      Excluir
  12. Interessante as semelhanças entre Drive e Taxi Driver que você apontou. Acho que todo mundo que dá uma checada no poster ou no trailer - pra não falar no próprio título - deste longa já adquire essa concepção de que pode ser um Taxi Driver moderno. E isso pode ser enganoso, embora as características compartilhadas por Travis Bickle e o motorista feito por Gosling têm sentido na sua explanação. Realmente curioso.

    A propósito, também comentei o filme no Lumi7: http://www.lumi7.com.br/2012/03/drive.html

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Eu não creio que tais referências tenham sido de fato propositais, mas elas existem e depende da forma com que cada um analisa os dois filmes... eu acho que tem ainda mais semelhanças entre eles do que as que citei no texto...

      Excluir
  13. Muito bom seu texto.
    Realmente, o filme tem um pé em Taxi Driver(mesmo que distante) Em Taxi Driver o isolamento, os dramas são mais intensos e o protagonista(De Niro) é quase um 'sociopata'...Anyway...
    Tenho uma amiga que adora este filme,rs.
    Vou indicar seu texto pra ela ;)
    beijos.

    ResponderExcluir