quinta-feira, 31 de outubro de 2013

O Homem de Aço

O Homem de Aço (Man of Steel) - 2013. Dirigido por Zack Snyder. Escrito por David S. Goyer e Christopher Nolan, baseado nas histórias e personagens criados por Jerry Siegel e Joe Shuster. Direção de Fotografia de Amir Mokri. Música Original de Hans Zimmer. Produzido por Christopher Nolan, Charles Roven, Deborah Snyder e Emma Thomas. Warner Br9os., DC Entertainment e Third Act Productions / UK | USA | Canadá.


A constante necessidade de reciclar e de revisitar antigas fórmulas de sucesso faz com que a industria cultural se coloque por vezes em uma situação vergonhosa que a leva a produzir obras totalmente injustificáveis, raramente uma dessas produções se salvam... Desde que os filmes de super-heróis voltaram à moda no início da década passada, diversos personagens das HQs ganharam longas-metragem em live action, alguns desses filmes renderam continuações e outros até prequels e/ou reboots. Apesar de serem meros caça-níquéis, algumas dessas obras se destacaram, isso porque trouxeram consigo algum elemento, técnico ou dramático, que acabou funcionou como um diferencial, outras, no entanto, a grande maioria, deram apenas uma roupagem nova para antigas fórmulas. Dentre estas, tiveram aquelas que fracassaram por tentar inovar sem a dose ousadia necessária para sair do lugar comum, este é o caso de O Homem de Aço (2013) de Zack Snyder.

É quase inevitável que se crie alguma expectativa em relação a este tipo de filme, o público que consome estas obras com um entusiasmo mais elevado anseia por saber se o roteiro será ou não fiel à história original, se esta obra dará ou não continuidade às histórias já contadas com os mesmos personagens e, principalmente, se o filme passará no teste ao qual é submetida a grande maioria das adaptações: se ele é ou não melhor que a obra que o originou. No caso de O Homem de Aço, podemos somar a tudo isso três outros fatores: a presença do cineasta Christopher Nolan (que dirigiu a mais recente trilogia do Batman), como produtor e co-roteirista (ele é um dos responsáveis pelo argumento); a recepção fria que Superman: O Retorno (o filme anterior do herói) teve, quando lançado em 2006; e a estilização gráfica, característica das obras de Zack Snyder, que já chamava a atenção nos primeiros vídeos promocionais do longa, por dar a ele uma aura aparentemente reflexiva e contemplativa.


Para a decepção daqueles que criaram expectativas exacerbadas, a presença de Christopher Nolan acabou colaborando pouco para a qualidade do filme (não descarto a possibilidade de ser ele um dos grandes responsáveis por sua mediocridade, uma vez que ele provavelmente teve uma grande influência sobre o processo criativo, por ser um dos produtores). O roteiro de O Homem de Aço é extremamente raso e isso compromete toda a narrativa. Sem uma boa história para contar, Zack Snyder aposta no aspecto sobre o qual detém um relativo domínio: os malabarismos visuais. Não por acaso o filme acaba se rendendo às sucessivas sequências de destruição, repletas de efeitos especiais, que tentam o sustentar em seus últimos atos. A revisão de alguns pontos da história do herói, que poderia ter sido o grande diferencial do longa, acaba tornando evidente o quão frustrada foi a tentativa de emprestar algum realismo para a trama, os fãs do personagem alimentaram a esperança de que fossem fazer aqui algo parecido com o que fora feito na trilogia do homem morcego dirigida por Nolan, o resultado final, contudo, passou bem longe disso.


A trama do filme chega a parecer minimalista, tamanha a sua resistência em se aprofundar nas questões abordadas. A passagem na qual um grupo de condenados recebe o exílio como castigo dá uma pequena noção do quão problemático é o roteiro, afinal de contas o exílio salva os condenados de desaparecerem junto com o planeta onde viviam, cuja destruição iminente já era aguardada pelo restante da população que tinha algum entendimento sobre o que estava acontecendo; isso soa no mínimo idiota, uma vez que aqueles que os condenam, mesmo sabendo disso tudo, permanecem no planeta, aguardando o momento de suas próprias mortes, sem que haja qualquer justificativa para isso. Restam ainda os clichês associados à figura do herói deslocado, que busca seu lugar no universo, e um romance forçado, pessimamente desenvolvido na trama.


Henry Cavill, que encarna o protagonista, Michael Shannon que dá vida ao General Zod e Kevin Costner que vive Jonathan Kent, o pai do herói, estão muito bem, seus desempenhos constituem um dos pontos mais positivos do filme. No entanto, nem as boas atuações, nem as cenas de ação bem construídas e tão pouco a bela fotografia são o suficiente para poupar o filme de ser uma das maiores decepções do ano. O roteiro raso e a narrativa paupérrima comprometem toda a obra e o que sobra é a impressão de que de fato este era um filme totalmente desnecessário... Não creio que seja preciso fazer aqui nenhum resumo do argumento, afinal trata-se da mesma história que já nos foi contada inúmeras outras vezes, as pequenas variações que então percebemos pouco acrescentam para a composição dos personagens e são incapazes de justificar a pseudo ousadia que Zack Snyder reivindica para si... "É um pássaro? É um avião?" Não, é a manifestação dos egos inflados de cineastas e produtores em crise... 


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A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra.

domingo, 27 de outubro de 2013

Elysium

Elysium - 2013. Escrito e dirigido por Neill Blomkamp. Direção de Fotografia de Trent Opaloch. Trilha Sonora Original de Ryan Amon. Produzido por Simon Kinberg. TriStar Pictures, Alpha Core, Media Rights Capital, QED International, Simon Kinberg Productions e Sony Pictures Entertainment / USA.


Em Distrito 9 (2009), seu filme anterior, o cineasta sul-africano Neill Blomkamp despertou a atenção do público e da crítica por conseguir, em um filme de ação, tecer contundentes críticas à desigualdade e à exclusão social. Através de metáforas muito bem construídas ele usou uma história de ficção científica, sobre invasão alienígena, para retratar os efeitos ainda existentes do Apartheid em seu país de origem. Mas, não sendo restrito à realidade específica da África do Sul, o filme acabou se tornando também uma metáfora do modelo de organização ainda vigente na maioria das grandes cidades, um modelo que culmina com o processo de favelização e com a formação de guetos, espaços não alcançados pelas políticas sociais, que se tornam uma espécie de refúgio para aqueles, uma grande maioria, que devido á própria condição se viu excluído do convívio com seus semelhantes.

Em Elysium (2013) o cineasta volta ao mesmo tema, abordando-o com a mesma inventividade, novamente o que ele nos apresenta é uma boa trama de ação e aventura, na qual as inúmeras referências às já citadas questões sociais acabam funcionando como uma denúncia à este modelo de organização, com isso ele abre margem para importantes reflexões sobre tais problemáticas e seus efeitos. O roteiro escrito por ele próprio nos conduz para uma realidade distópica, ambientada no ano de 2154, onde vemos reproduzidas algumas aberrações sociais decorrentes da ganância e da sede de poder alimentada por uma minoria que detém o controle social. Neste futuro sombrio, não tão distante da nossa própria realidade, podem ser percebidos inúmeros avanços tecnológicos, no entanto estes servem basicamente à duas funções: garantir os privilégios gozados pela minoria e exercer um controle social sobre a grande massa marginalizada.


Tais avanços tecnológicos possibilitaram a criação de uma plataforma espacial, a Elysium, um lugar restrito aos que detém o poder, um espaço livre da escassez e da violência que assolam a Terra e com a cura disponível para todas as doenças. Frequentemente expedições tentam invadir a plataforma, os nativos da Terra vão em busca do conforto que o lugar pode oferecer e da cura para males intratáveis. O planeta se transformou em uma espécie de colônia superpovoada capaz de oferecer mão de obra barata e os insumos necessários para a subsistência de Elysium; qualquer semelhança com a realidade de países do terceiro mundo não é mera coincidência, lembremos que o longa é na verdade uma contundente crítica a tal realidade - Como não ver nas incursões para a plataforma espacial uma clara referência à imigração ilegal para os países desenvolvidos? Como não relacionar as atividades da corporação retratada pelo filme à atuação de grandes multinacionais em países de condições econômicas, políticas e sociais instáveis ?


Desta opressora realidade surgem alguns heróis tortos, tão distópicos e condenáveis quanto o mundo ao qual pertencem. Diferente do herói trágico, cuja ventura era determinada por uma única falha de caráter, o herói distópico alcança alguma bem-aventurança devido à algumas poucas virtudes, que se destacam em meio à uma postura sujeita a ser condenada por diversos aspectos. Max (Matt Damon) e Spider (Wagner Moura) representam no filme este tipo de herói, o primeiro é um ex-ladrão de carros que se encontra em liberdade condicional, o segundo é o líder de um grupo de rebeldes que atuam como "atravessadores" entre a Terra e Elysium. Ambos se vêm envolvidos em uma mesma missão depois que Max sofre um grave acidente na fábrica em que trabalha, ele descobre que tem poucos dias de vida e decide ir para a plataforma espacial em busca de cura...


O reencontro de Max com Frey (Alice Braga), uma amiga de infância, faz com que ele questione suas motivações e prioridades e a situação muda completamente depois que ele e Spider descobrem que têm a posse de algo tão poderoso que é capaz de transformar a realidade nos dois mundos. Este mesmo poder é cobiçado pela cruel Delacourt (Jodie Foster), a responsável pela segurança de Elysium, ela, que planeja um golpe de estado contra o atual governante, alicia na terra o mercenário Kruger (Sharlto Copley), para realizar cá embaixo todo o seu serviço sujo (a composição de Kruger faz referência às autoridades de países pobres, que sacrificam os interesses de sua própria gente devido à subserviência aos interesses dos dominantes). Apesar de ter algumas pequenas reviravoltas, a trama se desenrola sem tanta ousadia ou experimentalismo, o que nos faz lembrar de estamos diante de um mero filme de ação, cuja a proposta é apenas proporcionar um entretenimento inteligente, dando ainda uma pequena margem para uma grande reflexão. 


Esperar de Elysium um tratado filosófico sobre a desigualdade social e a determinação das relações de poder é sem sombra de dúvidas um grande erro, esta definitivamente não é a sua proposta, o que fica evidente no tipo de ritmo que ele adota: rápido e pontuado por sucessivas cenas de combate físico. A trama peca, não por evitar o aprofundamento nas questões abordadas, mas por se render em alguns momentos a clichês que pouco contribuem para a narrativa e à sequências de notável apelo emocional, que não funcionam com tanta naturalidade. Isso certamente prejudica o filme, mas não o torna uma obra ruim ou descartável, afinal de contas o que se sobressai, tal como em Distrito 9, é a sua relativa diferenciação em relação às demais produções de seu gênero, o que corrobora a ideia de que o entretenimento para funcionar como tal não precisa ser desprovido de significações maiores e de inventividade.


Todo o elenco entrega boas atuações, convincentes e com arestas bem aparadas, Wagner Moura, contudo, vai além, ele empresta ao seu personagem trejeitos e maneirismos que enriquecem sua composição e fazem com que ele roube a cena em cada um dos momentos em que aparece, sua entrega à interpretação justifica cada um dos elogios recebidos por ele no Brasil e no exterior. O que também chama a atenção no filme é o visual, e isso acontece principalmente nas passagens nas quais são salientadas a pobreza e a devastação da terra. Trent Opaloch, que também fotografou Distrito 9, entrega aqui um excelente trabalho, que aliado à direção de arte, ajuda a compor um conjunto de imagens que remete a um futuro distante mas sem perder o link com a realidade de nossa própria época. O tom predominantemente amarelado e/ou metalizado, remete à pobreza, ao domínio exercido através da tecnologia e à escassez de água e de vegetação, o que reforça a impressão do quão inóspito é aquele lugar.


Elysium não merece ser visto apenas pela presença dos atores brasileiros, pensar desta forma seria negligenciar tudo aquilo que ele pode nos oferecer, seria portanto puro reducionismo. Ele vale a pena também pelo bom entretenimento que nos oferece (sua duração de quase duas horas passa em um piscar de olhos) e também pela reflexão que ele ao menos incentiva... Volto afirmar, Neill Blomkamp não é um dos melhores cineastas da atualidade, mas seu trabalho merece muito ser acompanhado bem de perto. 


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A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra.


Confiram também aqui  no Sublime Irrealidade a crítica de Distrito 9,
também dirigido pelo Neill Blomkamp.

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Passion

Passion - 2012. Escrito e dirigido por Brian De Palma, adaptado do roteiro original de Natalie Carter e Alain Corneau. Direção de Fotografia de José Luis Alcaine. Música Original de Pino Donaggio. Produzido por Saïd Ben Saïd. SBS Productions, Integral Film e France 2 Cinéma / França | Alemanha.


A competitividade, o imediatismo e a busca enlouquecida pelo poder são alguns dos temas abordados em Passion (2012), o novo filme de Brian De Palma,  um triller psicológico ambientado no mundo hostil das grandes corporações. Em seu desenvolvimento, o longa conduz o expectador pelo que seriam níveis diferenciados de realidade, no quais o absurdo kafkiano, que gradativamente toma conta da narrativa, se torna um elemento capaz de chamar a atenção para a irracionalidade de alguns atos e posturas, que evocam a natureza deste meio, no qual não raramente a ambição desmedida se sobrepõe à conduta ética. Algumas sequências do filme chegam a parecer forçadas e improváveis beirando assim ao surreal; acredito, porém, que esta foi a forma encontrada para retratar o quão degenerado é o ambiente no qual a história se passa.

Isabelle James (Noomi Rapace), a protagonista, trabalha no setor de criação de uma grande empresa, seu comportamento nos primeiros momentos do filme evidencia uma certa ingenuidade, à princípio ela aparenta acreditar que sua ascensão profissional acontecerá quando reconhecerem a qualidade de seu trabalho, por conta disso ela acaba se dedicando a ele com total entrega, porém, ao ter seu tapete puxado pela sua superiora hierárquica, a perigosa Christine Stanford (Rachel McAdams), ela decide entrar de fato na disputa e jogar o mesmo jogo que seus pares e superiores aparentam jogar. Tal decisão a coloca em um processo de crescente degeneração moral, que a torna cada vez mais semelhante ao meio no qual está inserida.


Christine Stanford, por sua vez, aparenta ter tomado a forma deste meio já há muito tempo, a naturalidade com que ela lida com a própria falta de escrúpulos evidencia uma total ausência de culpa em seu comportamento. Pode-se dizer que ela é um arquétipo, afinal de contas a aparente complexidade de sua criação não lhe subtrai o maniqueísmo, ela é basicamente aquilo que aparenta ser, não há camadas em sua composição e este acaba sendo o seu traço mais marcante. É por meio de Isabelle - esta sim uma personagem pressupostamente complexa - que o roteiro tenta envolver o expectador com a temática abordada e com a reflexão proposta, nota-se que nas primeiras passagens há uma evidente intenção de aproximar a protagonista do público e a condição de vítima, na qual ela é apresentada, colabora muito para que isso realmente aconteça.


No decorrer do filme, no entanto, há um processo de distanciamento da personagem em relação ao público, que culmina no ato que comprova que ela de fato vendera sua alma, este processo é de extrema importância para a narrativa, pois é através dele que o roteiro desenvolve e alimenta o suspense presente em todo o seu desenvolvimento. É interessante perceber como alguns elementos que compõem a parte visual do longa dialogam com a questão central de sua trama, que é a degeneração moral da personagem principal, à medida em que Isabelle passa a fazer escolhas condenáveis, sua figura adquire uma aura sombria e o reflexo disso se torna presente em todo o ambiente à sua volta, a construção da mise en scène sugere que podemos estar dentro de um pesadelo e tal impressão é reforçada pelos cenários sombrios, que são fotografados em formatos assimétricos e distorcidos (o que remete à estética do expressionismo alemão). 


A assinatura do Brian De Palma pode ser facilmente notada na escolha dos enquadramentos e nos movimentos de câmera, sua perícia técnica é inquestionável, todavia, ainda cabe aqui a seguinte pergunta: Tudo isso realmente funciona? Eu particularmente acredito que sim, mas não em sua plena potencialidade. Se por um lado a adoção do absurdo - que influencia diretamente na escolha dos elementos de linguagem - reforça a sensação de estramento que o filme é capaz de causar, por outro ele acaba diminuindo o impacto provocado pela trama, que, penso, poderia ser mais forte se a história fosse plausivelmente real. Porém, considero o roteiro o aspecto mais frágil de Passion, o ritmo por ele conferido faz com que tudo no filme acontece relativamente rápido demais, inclusive a transformação da protagonista, e esta velocidade reduz consideravelmente a margem para reflexão e o filme como obra autoral acaba perdendo muito com isso. 


Eu, particularmente, não acredito que Passion tenha sido uma grande decepção, como uma boa parte da crítica tem apontado, de fato ele não consegue atender às inúmeras e enormes expectativas criadas em torno de seu lançamento, mas ele não deia de ser um bom filme, que continua merecendo ser visto por diversos motivos, dentre eles os já citados elementos técnicos (nos quais se concentra a quase totalidade da expressão autoral de De Palma) e as boas atuações do elenco principal. Não é nem de longe uma obra-prima, mas também não chega nem perto de ser um dos maiores desacertos do ano.


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A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra.

sábado, 12 de outubro de 2013

Bling Ring: A Gangue de Hollywood

Bling Ring: A Gangue de Hollywood (The Bling Ring) - 2013. Escrito e dirigido por Sofia Coppola, baseado no artigo The Suspect Wore Louboutins de Nancy Jo Sales, publicado na revista Vanity Fair. Direção de Fotografia de Christopher Blauvelt e Harris Savides. Música Original de Daniel Lopatin e Brian Reitzell. Produzido por Sofia Coppola, Roman Coppola e Youree Henley. American Zoetrope e NALA Films / UK | USA | França | Alemanha | Japão.


Bling Ring: A Gangue de Hollywood (2013), o novo filme da Sofia Coppola, pode causar inicialmente a impressão de que a temática que marcou seus antecessores fora finalmente deixada de lado, ledo engano, o que vemos nele é apenas mais uma explanação em torno de um tema que esteve nitidamente presente em todos os outros trabalhos da cineasta: o vazio existencial. A trama, que é baseada em fatos reais, gira em torno de um grupo de adolescentes que invadem casas de celebridades em Hollywood para roubar jóias, roupas e acessórios. Eles não o fazem tão somente pelo dinheiro que podem conseguir, prova disso é que em determinada passagem eles vendem parte do que tinham roubado por uma quantia que chega a ser irrisória se comparada ao real valor dos objetos, na verdade, o que os motiva é a experiência fugaz e efêmera de provarem do cobiçado estilo de vida dos famosos. Em uma busca imediatista pela sensação, o grupo se lança em uma inconsequente aventura, que inclui as invasões das mansões e outros delitos, além do consumo desenfreado de drogas.

Marc (Israel Broussard), o personagem central, se matriculou em um novo colégio depois de passar algum tempo em um modelo de educação domiciliar, ele, que possui baixa auto-estima, teme não conseguir se relacionar com os novos colegas, mas o medo de ser excluído praticamente desaparece depois que ele conhece a problemática Rebecca (Katie Chang). A garota o apresenta para o restante de sua turma, da qual também fazem parte as belas e igualmente problemáticas Nicki (Emma Watson), Chloe (Claire Julien) e Sam (Taissa Farmiga). A sequência de aventuras do grupo começa quando Marc e Rebecca decidem invadir a casa de Paris Hilton, enquanto esta estava, segundo um site de fofocas, dando uma festa em Las Vegas. A ideia parece à princípio um tanto surreal, no entanto eles conseguem aquilo que queriam: entrar na mansão da atriz e roubar joias, roupas e objetos pessoais. O 'sucesso' desta primeira empreitada motiva o restante do grupo, que passa a participar das invasões que sucedem esta primeira.


Em Bling Ring, Sofia Coppola se abstém de fazer julgamentos morais, a realidade diegética é retratada com um determinado distanciamento, que não chega a tornar a narrativa impessoal. Na maior parte do tempo a trama adquire uma perspectiva relativamente próxima da dos jovens que a protagonizam, principalmente da de Marc, e a adoção de tal perspectiva não se dá por acaso. O roteiro do longa foi baseado em um artigo escrito pela Nancy Jo Sales, colunista da revista Vanity Fair, que teve como principal fonte de informações os relatos daqueles que integraram a gangue, sendo assim é natural que a história sofra a influência do ponto de vista destes jovens que a viveram e a narraram... O filme não chega a exaltar o estilo de vida autodestrutivo e superficial que retrata e é possível perceber nas entrelinhas não uma crítica a este estilo de vida, mas uma constatação de que ele é um fruto do mesmo vazio existencial que acometeu os protagonistas dos outros filmes da cineasta.


Marc é o único personagem a ganhar um tratamento mais elaborado e consistente, é através de sua construção que Sofia trabalha na trama a questão do vazio. Em uma entrevista dada à articulista da Vanity Fair, retratada em uma das primeiras cenas do filme, ele deixa transparecer uma de suas motivações: ele se sente deslocado por não se achar tão bonito quanto os outros garotos, esta confissão deixa evidente a sua busca por autoafirmação, que é o que o leva a cometer a série de crimes. No decorrer da trama testemunhamos sua fixação em relação à sua própria imagem, é tal fixação que o leva a atualizar suas redes sociais com fotos em que ele e as garotas aparecem usando os objeto que foram roubados das celebridades. Ciente da falta de significados de sua vida, Marc encontra nas invasões das residências dos famosos e no consumo de drogas pesadas alguma espécie de realização, como se o risco que ele compartilha com as garotas lhe fizesse se sentir de fato vivo e lhe desse finalmente a sensação de fazer parte de alguma coisa, com a qual ele acredita se identificar.


No entanto, Marc volta a se deparar com a realidade depois que uma das garotas o trai, neste momento é como se todas as experiências que compartilharam perdessem o significado. Ele é então posto novamente em contato com o vazio, que conforme a entrevista mostrada no início do filme deixava claro, já não lhe era algo de todo estranho. Porém, neste estágio do filme (o último ato), o vazio já não precisa ser verbalizado como no início, demonstrando a sutileza que lhe é característica, Sofia o deixa expresso apenas no rosto do personagem, que de repente perde a expressão de fascínio, que esteve estampada nele durante quase todo o desenvolvimento da história. É como se o filme todo caminhasse para estas duas passagens, que se insurgem como um interessante contraponto para o tipo de sequência (com linguagem tipicamente publicitária) predominante nele até então.


Como eu disse, não há julgamento moral em Bling Ring, o peso da constatação de que o prazer efêmero não pode aplacar a sensação de vazio por si só já deixa evidente a posição da cineasta em relação à realidade retratada em seu filme. Quem atentar para o que está nas entrelinhas perceberá outros elementos que ajudam a tornar a obra um retrato plausível da época em que vivemos, nela estão a falência das instituições tradicionais (uma personagem educa as filhas baseada em uma religião inspirada pelo livro de autoajudo O Segredo) e crise de referenciais (Paris Hilton e Lindsay Lohan se tornam modelos a serem seguidos, enquanto um comportamento contido, como o da atriz Angelina Jolie, é tripudiado pelas garotas). A presença de todos estes elementos dão consistência ao filme e o tornam muito mais do que uma divertida história sobre um grupo de delinquentes. 


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A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra.

sábado, 5 de outubro de 2013

A Caça

A Caça (Jagten) - 2012. Dirigido por Thomas Vinterberg. Escrito por Tobias Lindholm e Thomas Vinterberg. Direção de Fotografia de Charlotte Bruus Christensen. Música Original de Nikolaj Egelund. Produzido por Sisse Graum Jørgensen , Morten Kaufmann e Thomas Vinterberg. Zentropa Entertainments / Dinamarca.



Podem ser desastrosos os efeitos de um julgamento equivocado, vidas inteiras podem ser destruídas em um curto espaço de tempo e ainda que a verdade venha à toda e o julgamento inicial seja revisto, dificilmente o estrago pode ser reparado por completo. É em torno desta temática que o roteiro de A Caça (2012), o mais recente filme do cineasta Thomas Vinterberg, se desenvolve. Sua trama acaba nos proporcionando muito mais do que simples história sobre uma acusação injusta, ao explorar questões ainda mais complexas como a fragilidade dos laços que criamos com as pessoas com quem convivemos no dia-a-dia e a maleabilidade da moral constituída... Em dado momento, um dos personagens, aturdido pela culpa, pondera: "existe muita maldade no mundo...", esta declaração aponta para uma visão amarga da vida (e por extensão das relações humanas) que está presente em todo o filme, isso se reflete na narrativa, que segue a crueza que já se tornou uma das características mais marcantes da filmografia do diretor dinamarquês

Lucas (Mads Mikkelsen), o protagonista, começou a trabalhar no jardim de infância depois que perdeu seu emprego de professor em um colégio, ele está em processo de divórcio e, devido a uma decisão judicial, ele acaba tendo pouco contato com seu único filho, Marcus (Lasse Fogelstrøm). A vida relativamente pacata que Lucas leva na pequena cidade onde mora é completamente abalada depois dele ser acusado de abuso sexual. Klara (Annika Wedderkopp), uma aluna do jardim da infância de apenas cinco anos, conta para a diretora da escolinha que Lucas teria lhe mostrado seu órgão genital. As perguntas que são feitas para a garota a partir de então são sugestivas e a induzem a dar um falso testemunho acerca dos fatos. Partindo da premissa um tanto absurda de que 'uma criança nunca mente', a diretora afasta Lucas do trabalho e convoca uma reunião com os pais dos outros alunos para expor o ocorrido. A partir de então, mesmo sem uma investigação criteriosa dos fatos, quase todos passam a considerá-lo culpado.


Alguns dos amigos de Lucas se afastam, outros passam a agredi-lo verbalmente e até fisicamente, isso faz com que sua vida se torne um verdadeiro inferno, pouco a pouco ele acaba perdendo tudo aquilo que mais valorizava. Seu filho Marcus escolhe permanecer ao seu lado, contrariando a vontade da mãe, e por isso acaba sendo mais uma vítima da agressividade de vizinhos e conhecidos da família. Em determinada cena o garoto perde o controle, devido à situação a que é exposto, e acaba sendo agredido por um antigo amigo de seu pai, esta passagem deixa claro o tipo de reflexão que o filme evoca, ela nos leva a questionar o valor da moral enquanto regulador social, uma vez que esta mesma moral "permite" a agressão de um garoto por um crime do qual o pai dele (e não ele) é apenas suspeito. O absurdo da situação fica ainda mais evidente pelo fato desta agressão também se tratar de um caso de violência contra uma criança, o que parece ser completamente ignorado no trama.


Theo (Thomas Bo Larsen), o pai de Klara, é o melhor amigo de Lucas, eles se conhecem há muito tempo, no entanto nem a força deste relacionamento é suficiente para que Theo questione a veracidade das declarações de sua filha, sua reação comprova o quão frágil era o laço de amizade que existia entre eles... Na primeira sequência do filme vemos Lucas, Theo e diversos outros personagens (todos eles caçadores) em um momento de descontração á beira de um lado. Nesta passagem nem o tom amistoso das "brincadeiras" tira o aspecto animalesco que pode ser percebido no comportamento de boa parte destes homens. Analisando esta passagem, pode-se perceber que ela constitui um primeiro estudo dos personagens e do ambiente no qual eles estão inseridos. A caça, que é também uma espécie de rito compartilhado na cidade, evoca o embrutecimento daqueles indivíduos, o mesmo embrutecimento que volta à tona no decorrer do filme.


Em A Caça não há praticamente nada do Dogma 95, movimento do qual Thomas Vinterberg foi um dos idealizadores. Tal como Lars Von Trier, outro mentor da corrente, ele optou, já há muito tempo, por subverter as suas próprias regras e o que sobra aqui como distinção de sua marca autoral é apenas a sua visão amarga da vida, perceptível em suas obras na reprodução de um mundo sombrio, inóspito e extremamente cruel com os mais fracos. Desapegado das restrições autoimpostas de outrora, o cineasta entrega um filme de inquestionável excelentcia técnica. A variação de tons na fotografia é sutil, mas coerente com a proposta do filme, é interessante perceber que os tons quentes surgem nos momentos em que há algum tipo de manifestação de humanismo, enquanto os tonalidades frias, predominantes na maior parte do filme, se manisfestam nas passagens que retratam a injustiça, a dor e a falência do ser humano como ser social.


As atuações, que são destituídas de qualquer exagero dramático, reforçam o realismo e a crueza da trama e na sutileza da composição de cada um dos personagens se encontra um dos grandes trunfos do filme. Mads Mikkelsen, por exemplo, constrói um personagem complexo e plausivelmente real, suas ações e reações nos levam a crer que ele próprio é tão embrutecido quanto aqueles que o acusam, no entanto, o sofrimento o torna emocionalmente mais frágil e a expressão de tal fragilidade se dá de forma contida, sem obviedades, e o ator a expressa de uma forma brilhante. Podemos notar a angústia e o medo estampados no olhar trêmulo nas feições abatidas e no olhar trêmulo de Lucas, sua expressão facial remete à imagem de um animal forte, robusto, que se encontra acuado diante da ameça representada pela arma de um caçador, que se encontra apontada em sua direção... Destaco ainda os desempenhos de Thomas Bo Larsen e da pequena Annika Wedderkopp.


A Caça definitivamente não é um filme de fácil digestão, o incômodo que ele é capaz de nos causar não é puramente sensorial. O desconforto que sentimos durante sua exibição não é provocado por elementos técnicos como trilha sonora, fotografia ou movimentos de câmera, mas sim pela reflexão à qual a trama nos conduz. Ouso dizer que seu valor artístico está atrelado à disposição de cada expectador de embarcar na angustiante reflexão que ele propõe sobre a falência do indivíduo e da sociedade que ele integra; sem a participação ativa do público ele é apenas um bom suspense, com ela ele se torna digno do título de obra de arte. 




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A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra.