domingo, 18 de dezembro de 2011

Um Lugar Qualquer

Um Lugar Qualquer (Somewhere) - 2010. Escrito e Dirigido por Sofia Coppola. Direção de Fotografia de Harris Savides. Música Original de Phoenix. Produzido por Roman Coppola, Sofia Coppola e G. Mac Brown. Focus Features, Pathé Distribution, Medusa Film, Tohokushinsha Film e American Zoetrope / USA.


Sofia Coppola constroi neste filme belíssimas sequências que, edificadas sobre trivialidades, evocam uma simplicidade capaz de, se não aplacar, ao menos diminuir o efeito do vazio existencial experimentado pelos seus personagens. Uma sensibilidade tocante emana de cenas banais como a que mostra um personagem jogando videogame, ou a do choque de idiomas durante uma entrevista, ou então aquela na qual o personagem contempla com estranheza, da janela do hotel, a vista de uma cidade, na qual ele se sente totalmente perdido; são coisas comuns, coisas que fazemos todos os dias, mas que só ao serem percebidas com um outro olhar ganham um significado maior, uma aura... Esta introdução bem que poderia descrever aquela que considero a obra prima da cineasta, Encontros e Desencontros (2002), no entanto estou falando é de Um Lugar Qualquer (2010), seu filme mais recente... Sim, a temática e também as cenas mencionadas acima, meio que se repetem neste filme, mas, absurdamente não vejo nisso um aspecto negativo como parte da crítica o fez. 

Acredito piamente que o tempo ainda irá confirmar a genialidade de Sofia, ela tem captado com enorme maestria um sentimento que está encrustado na consciência coletiva do mundo pós-moderno. O vazio existencial, pelo qual seus personagens são acometidos, talvez seja a característica mais marcante do contexto social em que vivemos. Mesmo que tentemos negar, este vazio tem se tornado cada vez maior, costumo aponta-lo como uma consequência da atual fase do capitalismo em que vivemos e do colapso das ideologias. Como bem definiu Tyler Durden em O Clube da Luta (1999): “Nós não temos uma guerra mundial, nós não temos uma grande depressão... nossa guerra é a espiritual, nossa depressão, são as nossas vidas”. De fato, não temos mais um “inimigo” real contra o qual lutar, não temos mais as respostas para as dores do mundo, porque hoje já nem sabemos quais são as perguntas, as questões se tornaram subjetivas e por isso mais complexas, também não temos mais ideais e na falta deles tentamos suprir nossa necessidade de propósitos com o hedonismo, com o consumismo e com o sexo vulgar... No entanto todas estas tentativas são vãs e é daí que vem o vazio, a frustração...


Johnny Marco (Stephen Dorff) é a personificação deste vazio em Um Lugar Qualquer, ele é um aclamado ator de cinema, que leva uma vida desregrada de abusos e prazeres intermináveis, no entanto nada disso lhe satisfaz, ele parece estar constantemente ausente, como se estivesse alheio a tudo que acontece à sua volta, sua consciência parece flutuante enquanto dançarinas de pole dance se apresentam em seu quarto de hotel, ou durante uma coletiva de imprensa sobre seu trabalho mais recente. Sua relação com todos à sua volta, é efêmera e superficial, principalmente com as mulheres, toda sua vida é aparentemente um compromisso de trabalho. Tal como em Encontros e Desencontros, neste filme quase toda a trama se desenvolve em um hotel, Sofia não poderia ter achado uma alegoria melhor para retratar o mundo pós moderno, os hotéis com seus aposentos padronizados e impessoais ilustram a morte do indivíduo diante de uma sociedade que não é capaz de reconhecê-lo como alguém dotado de sentimentos e aspirações singulares que o diferenciam dos demais.


Apesar de ter um boa aparência, de ser rico e famoso, Johnny não consegue se afirmar como indivíduo, ele se perde em meio a compromissos sociais e uma vida de aparências. Ele não está depressivo, apenas melancólico e a dor que ele sente não tem uma causa específica que a justifique, é apenas o vazio... Mas assim como em Encontros e Desencontros, Sofia aponta um caminho, uma luz no fim do túnel, a resposta para amenizar esta dor que seu personagem sente, esta solução seria encontrada em um relacionamento, se no outro filme a resposta estava uma belíssima amizade cheia de cumplicidade, neste ela está em uma relação entre pai e filha. Johnny se vê obrigado a repensar sua vida a partir do momento em que Cleo (Elle Fanning), sua filha de onze anos, aparece inesperadamente para passar uma temporada com ele. Na convivência com ela, ele encontra um sentido, de repente ele não está mais rodando em círculos na esperança de chegar a um lugar qualquer (como alegorizado na primeira sequência do filme), agora ele tem o propósito, redescobrir a maravilha de ser um pai presente.


Voltemos então à questão da repetição, como eu já havia dito, acredito que o tempo tornará a filmografia de Sofia Coppola ainda mais respeitada e cultuada, a minha teoria é a de que de alguma forma os filmes escritos e dirigidos por ela estejam dialogando entre si, eles estariam compondo algo maior, como uma espécie de tratado cinematográfico sobre o vazio. Se realmente existe de fato esta pretensão, não seria exagero afirmar que cada uma das cenas que aparentemente se repetem teriam sido planejadas para funcionar desta forma. Analisando isto à luz da temática abordada pelo filme, percebo que uma provável intenção seria a de mostrar que são experiências comuns à qualquer indivíduo (desde o momento de lazer à contemplação daquilo que nos causa estranheza), são repetições que comprovam que estaríamos em teoria fazendo parte de uma massa homogenia que consome os mesmos tipos de coisas e demonstra os mesmos tipos de reações a estímulos similares... O que poderia nos libertar desta repetição? De acordo com Sofia, seria o olhar diferenciado impulsionado pela descoberta de algo que nos possa dar este sentido maior que continuamente buscamos, estando nós conscientes disso ou não...



Além das cenas que mencionei no primeiro parágrafo, o filme ainda traz outras sequências belíssimas como a do mergulho dos dois personagens centrais em uma piscina e aquela que mostra a personagem de Elle Fanning patinando no gelo, como se estivesse sendo levada pela melodia melancólica da música que toca de fundo. Por falar em música, este é sempre um dos aspectos que mais merecem destaque nos filmes de Sofia ,e Um Lugar Qualquer não é uma exceção, ele traz em sua trilha belíssimas canções de bandas como The Strokes, The Police, Foo Fighters, T. Rex e Phoenix (esta última uma presença elementar meus caros leitores). Outro aspecto que merece destaque são as ótimas atuações de Stephen e Elle, eles transbordam naturalidade e demonstram uma química que faz toda a diferença nas cenas mais intimistas do filme. A direção e o roteiro de Sofia Coppola dispensam qualquer comentário adicional, o papito deve estar orgulhoso de tudo isso. O filme certamente não é do tipo que agradará a todos, mais uma vez a ausência de um clímax e a lentidão contemplativa podem afastar os ávidos por velocidade, no entanto aqueles dotados de alguma sensibilidade irão se deliciar... Recomendo!


Um Lugar Qualquer ganhou o Leão de Ouro, prêmio máximo do Festival de Veneza.

Assistam ao trailer de Um Lugar Qualquer no You Tube, clique AQUI !

Confiram também aqui no Sublime Irrealidade a resenha crítica 
de Encontros e Desencontros, também escrito e dirigido por Sofia Coppola.


10 comentários:

  1. Mais um que vai pra minha lista de "quero ver"...Excelente texto. Quando assistir volto aqui. Beijo José Bruno!

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  2. Oi, Bruno!

    Agradeço o convite para a visita de seu blog. Entrei e gostei muito dele. Passarei por aqui muitas mais vezes.

    Esse texto sobre Somewhere é ótimo. Bem melhor, aliás, que o filme, e aqui sou obrigada a discordar de você sobre a excelência dele: Achei-o lento, sim, mas um lento ruim, denotativo da ausência de pulso firme da diretora. Não há um eixo narrativo claro e essa questão do mal-estar do sujeito contemporâneo, que você tão bem coloca, fica totalmente perdida entre imagens banalíssimas de refeições sendo preparadas, dançarinas bailando números musicais inteiros, inúmeras viagens de carro - elementos que somados nos levam a nowhere, com o perdão da piada...
    Só gostei mesmo da irmã da Dakota Fanning, que prova no filme que talento é genético. Do mais... Conheci a Sophia Coppola por Somewhere e me desintusiasmei a ver os outros trabalhos dela. Mas aí me disseram que "Encontros e desencontros" resolve com mais destreza as questões que coloca, então pretendo vê-lo logo.

    Abraços e parabéns pelo blog. Se quiser visitar o www.ofilmequeviontem.blogspot.com, será um prazer recebê-lo.
    Danielle

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  3. Amei seu blog,muito interesante e de uma leitura gostosa de se fazer(amei a sua retórica), e tambem bastante informativo. Retribuindo a visita que fizeste ao meu blog www.sitok-sitak.blogspot.com e a partir de agora seguidora do sublime irrealidade!

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  4. Querido J. Bruno, sempre com excelentes resenhas! Esse filme vai para o bloquinho, que só tem aumentado a cada dia... as férias serão bem aproveitadas! Ah, assisti encontros e desencontros e adorei... filme lindo!

    bjks JoicySorciere - Blog Umas e outras...

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  5. Ainda não assisti um lugar qualquer, mas gosto de tudo que envolva os Coppola.Obrigado pelo comentario pertinente,e por sua visita. Já te tenho como um bom crítico de cinema !

    Abraço !

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  6. Putz cara, o dia que encontrarem a tal genialidade da Sofia tu me avisa. Acho ela uma atriz tenebrosa e como diretora sobe apenas um ou dois níveis.

    Achei chato pra caralho encontro e desencontros e esse Um Lugar Qualquer essa descrição toda até dá um up pro cara querer ver o filme, mas dar mais uma chance pra Sofia é dureza. Hehehehe.

    Não sou expert de cinema, tô dando uma opinião de um leigo, que gosta de cinema, porém não desfia a obra tim-tim por tim-tim.

    Vou baixar e convidar a patroa pra ver esse filme, se eu me surpreender voltarei aqui e darei meu braço a torcer. Só espero não pegar no sono com o ritmo dos outros filmes dela.

    Abss brow!

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    “The Tramp Mind”
    Site Oficial: JimCarbonera.com
    Rascunhos: PalavraVadia.blogspot.com

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  7. Não gostei nada desse filme. Ainda prefiro AS VIRGENS SUICIDAS.
    J. Bruno, O Falcão Maltês entra de férias amanhã. Desejo um Feliz Natal e um ano de 2012 bastante proveitoso.

    Até Janeiro!

    O Falcão Maltês

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  8. Achei interessante o enredo do filme e a trilha sonora legal.Esse vale a pena assistir.

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  9. Já experimentei este vazio do qual o filme fala, acho que por isso eu me identifico tanto com a obra de Sofia. Acho tocante justamente estas cenas banais, como a da garota patinando ou a do café da manhã sendo preparado... Concordo que a carreira dela como atriz foi um desastre, mas tenho todo o respeito por ela como cineasta e roteirista... Ah, e considero "Um Lugar Qualquer" mais difícil de cair no "gosto geral" do que "Encontros e Desencontros", pois ele é bem mais lento e melancólico que este.

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  10. É a diretora/roteirista que mais sabe retratar o vazio existencial atualmente. Adoro Somewhere e acho que ele está para Encontros e Desencontros assim como Cassino está para Os Bons Companheiros. Adorei as suas reflexões do segundo parágrafo, enquanto eu me concentrei, admito, apenas nos personagens e não fui tão além. Uma pena que o público tenha se afastado, como disse, pela longas sequências. Alguns dizem ser vazias de significados, bem, aparentemente não entenderam o propósito narrativo das mesmas. É uma pena.

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