sábado, 10 de dezembro de 2011

Caché

Caché - 2005. Escrito e Dirigido por Michael Haneke. Direção de Fotografia de Christian Berger. Produzido por Veit Heiduschka. Les Films du Losange e Wega Film / França | Áustria | Alemanha | Itália | USA.


Ao escrever esta resenha, como em qualquer outra, eu consciente ou inconscientemente seleciono e escolho aspectos, nuances e temas sobre os quais pretendo discorrer. Do mesmo modo, quando discursamos ou fazemos uma apresentação, ou até mesmo quando, antes de dormir, recapitulamos e “organizamos” as memórias de nosso dia, mesmo não tendo ciência disso, nós preservamos aquilo que de alguma forma nos toca ou nos marca e deletamos todo o resto que acreditamos não ter para nós significativa relevância. Constantemente estamos fazendo uma espécie de edição daquilo que dizemos, pensamos e apreendemos. Caché (2005) fala implicitamente sobre isso, sobre esta seleção a qual por vezes recorremos para manter encobertos nossos traumas, ressentimentos e falhas. A problemática em tudo isso é que muitas vezes aquilo que escondemos possui uma relevância infinitamente maior do que aquilo que convenientemente decidimos preservar.

Ao olharmos para a família focada pela trama de Caché, enxergamos um casal aparentemente feliz e bem sucedido, eles têm uma boa situação financeira, bons relacionamentos e um filho saudável e talentoso nos esportes, mas esta primeira impressão não passa de mera aparência, tal como todos nós, estes personagens realizam constantemente a edição de suas próprias vidas e de suas realidades. Aquilo que vemos a priori é apenas uma espécie de simulacro, o produto final de tal processo de edição. Um segundo olhar, sob uma nova angulação mostra que aquela família enfrenta uma séria crise, que transcende aquilo que seria em princípio o mote do longa. O roteiro do filme levanta as seguintes questões: O que acontece quando somos tomados pelo medo de não estarmos mais seguros? Como reagir diante de uma situação tão inesperada, quando inexplicável, que de repente ameaça expor sem cortes toda a nossa intimidade, que com o maior esforço do mundo tentamos camuflar e dissimular?


Georges Laurent (Daniel Auteuil) e Anne (Juliette Binoche), o casal envolta do qual a história se desenvolve, leva uma vida aparentemente normal, ele é o apresentador de um bem sucedido programa sobre literatura e ela trabalha em uma editora (!), eles são cultos, transitam com desenvoltura pelos circuitos intelectuais e possuem amigos que os visitam com frequência. A aparente estabilidade do lar é quebrada, quando eles recebem um fita cassete com imagens amadoras que mostram a faxada da residência onde moram. O vídeo fora deixado em uma sacola na entrada da casa, sem nenhuma outra informação que pudesse esclarecer quem fizera aquilo ou por qual motivo o teria feito. Um segunda fita chega, desta vez acompanhada de um desenho, aparentemente feito por uma criança, que mostra um rosto vomitando sangue, desta vez o vídeos trás outras imagens que de alguma forma estão relacionadas aos personagens e na sequência outras pessoas ligadas à família recebem desenhos parecidos.


O casal é então tomado pelo pânico induzido pela sensação angustiante de estar sendo vigiado e pelo temor provocado pela insegurança. Grande parte do medo advém da ameaça de verem revelados aqueles segredos que tanto lutaram para esconder ou superar. Em determinado momento da história a suspeita recai sobre o soturno Majid (Maurice Bénichou), ele é um filho de imigrantes argelianos, seus pais, que eram funcionários da família Laurent, foram mortos durante uma manifestação árabe em Paris nos anos 60 e por pouco ele não fora adotado pelos pais de Georges. Majid é um personagem misterioso, o desenrolar da trama nos induz a crer que ele fora no passado o responsável por algo que deixou profundas marcas em Georges, este começa a ter visões e pesadelos com ele depois de receber as primeiras fitas. O filme tem um andamento bem lento, o que potencializa ainda mais a sensação que ao meu ver ele pretende despertar, porém o suspense que ele cria é fantástico, tal como os personagens nós espectadores somos tomados pela ansiedade de ver solucionado todo aquele mistério...


Ao final da exibição cheguei à conclusão de que o que importa não é o mistério, ou os vídeos enviados para o casal, o que é de fato importante são as relações que eles desenvolvem e suas reações diante da situação que lhes angustia. Uma das sequências do filme, na qual um dos personagens conta uma história sobre um cachorro que morrera no dia de seus nascimento, é emblemática, pois esboça o tipo de pretensão que o filme aparenta ter. Na minha opinião ele pode ser analisado como uma espécie de tratado sobre os diversos tipos de reação que indivíduos diferentes têm quando estão diante da “realidade” que experimenta, tal realidade pode ser suas própria vidas, um vídeo amador, ou até mesmo um filme... Somos então reféns não só da edição que consciente ou inconscientemente fazemos, mas também daquela que os outros fazem por nós, sendo assim se torna ainda mais complicado distinguir o que de fato é importante e o que não é, o que é mentira e o que é verdade...


Toda a montagem de Caché é feita de forma que nós espectadores possamos entrar em conflito durante a exibição, em diversas sequências não fica claro se o que vemos é o filme, ou então o filme dentro do filme, já outras passagens nos é mostrada partindo de pontos de vistas distintos, o que comprova o quanto uma determinada angulação pode influenciar na forma com que decodificamos tudo aquilo que vemos. Michael Haneke acertou em deixar para o expectador a responsabilidade de encontrar a resposta (ou seriam respostas?) acerca da trama... Mas se partirmos daquilo proposto pelo próprio filme, entenderemos que a resposta que realmente interessa está lá desde a primeira sequência, de forma totalmente explícita. Caché não precisa de uma trilha sonora, nem de uma fotografia estupenda ou locações exuberantes para atingir aquilo a que se propõe, basta a desconstrução da linguagem para que a obra se torne de fato imperdível para todos aqueles que amam e pensam o cinema como obra de arte. Ultra recomendado!


Caché foi o vencedor no Festival de Cannes nas categorias de
Melhor Direção, Prêmio do Júri e Prêmio da Crítica Internacional.

Assista ao trailer de Caché no You Tube, clique AQUI !


4 comentários:

  1. Estou aqui para falar da seu último comentário em minha postagem "INEGÁVEIS AQUISIÇÕES", aí me deparei com essa sua resenha(que por sinal, de um filme que ainda não vi, mas está na lista dos que serão vistos quando minha correria diminuir), onde há minha querida Juliette, que é a atriz que faz a Tereza, do filme a insustentável leveza do ser(assunto do seu comentário... apesar que estamos falando mais do livro que do filme, né?)...

    Então, confesso que a Tereza é a personagem pela qual sempre mais me identifiquei! Muitos falam muito da Sabina, pela força e independência que ela possui...

    Já a Tereza tem um misto de sentimentos que me emociona e cativa muito! Acho que vou rever o filme logo que terminar de reler o livro. Vamos sim pensar nessa possibilidade de fazer uma postagem coletiva... seria tudo de bom... tô dentro! Estou terminando de ler o livro, novamente(infelizmente precisei dar uma pausa, por conta da correria na escola)... A última vez que o li foi há lonnnnng lonnnnnng time ago! :)

    bjks JoicySorciere - Blog Umas e outras...

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  2. Cara, só assisti esse filme uma vez e lembro q não gostei muito, mas com certeza é uma obra q merece muito ser respeitada. Pela ousadia de seu diretor e criatividade. De Haneke gosto muito de Funny Games e Fita Branca. Cache pretendo rever qq dia desses. Grande Abraço!

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  3. Fiquei tão empolgado com a temática do filme que esqueci de comentar as atuações, Auteuil e Binoche estão realmente fantásticos... Bénichou também está excelente, há muito tempo, desde que o vi em "O Fabuloso Destino de Amélie Poulain" que eu tinha curiosidade de ver outra obra, da qual ele tivesse participado, em Caché ele rouba a cena em cada um dos momentos que aparece, o primeiro diálogo entre seu personagem e o de Auteuil é uma das sequências mais memoráveis do filme...

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