segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

O Garoto de Bicicleta

O Garoto de Bicicleta (Le gamin au vélo) - 2011. Escrito e Dirigido por Jean-Pierre Dardenne e Luc Dardenne. Direção de Fotografia de Alain Marcoen. Produzido por Jean-Pierre Dardenne, Luc Dardenne e Denis Freyd. Les Films du Fleuve / Bélgica | França | Itália.


O Garoto de Bicicleta (2011) tem sido um dos filmes mais elogiados pela crítica nesta temporada. Desde que ganhou em Cannes o Grande Prêmio do júri, o longa dirigido pelos irmãos belgas Jean-Pierre e Luc Dardnne passou a ser apontado como um dos melhores filmes do ano. Ao contrário de tantas outras produções que lidam direta ou indiretamente com a infância, esta adota um realismo seco e duro em detrimento de uma amenização ou romantização da realidade recriada. A história não é em si um drama tão pesado, tão indigesto, mas é contundente justamente por lidar com as dores e os traumas de uma criança. Com uma direção concisa que apara bem cada uma das arestas do filme, os cineastas conseguiram produzir uma obra sensível e humanista que evoca em nós espectadores sentimentos e reações bem singulares. Em alguns momentos durante a exibição cheguei a sentir uma espécie de raiva do personagem central, o garoto Cyril (Thomas Doret), mas à medida que a trama nos apresenta o contexto no qual ele cresceu, fui compreendendo, ao menos em parte, o porque de seu comportamento arredio e rebelde.

Cyril foi deixado pelo pai em um orfanato, este lhe prometeu que voltaria para buscá-lo tão logo tivesse acertado sua vida pessoal, que se complicara após a morte da avó do garoto. No entanto o tempo passa e o pai nem aparece, nem tenta estabelecer qualquer tipo de contato, ele sumira sem deixar qualquer informação sobre seu paradeiro. Ao contrário do que imaginei no início do filme, o orfanato onde Cyril está vivendo não é um lugar de todo ruim, ele é bem cuidado lá e todos demonstram uma enorme paciência, mesmo diante de seu comportamento irascível. O garoto não aceita a possibilidade de que seu pai possa nunca mais voltar, ele então decide fugir da instituição para ir até o apartamento onde morava com ele até bem pouco tempo atrás, chegando lá ele encontra o apartamento vazio e nenhum sinal do pai. Quase que por acaso, durante esta fuga não tão bem sucedida ele acaba se encontrando com Samantha (Cécile De France), ela é uma cabeleireira solteira e sem filhos que acaba sensibilizada pela sua história.


É então que é criada a metáfora que caracteriza o garoto no título do filme, a bicicleta fora um presente do pai, e sendo assim era uma prova de seu amor, de que ele se importava e se preocupava com o filho, mas a bicicleta desaparecera também do apartamento, junto com os outros pertences, tal perda deixa o garoto ainda mais machucado, mas para sua surpresa, Samantha, que ele conhecera em uma situação bem adversa, aparece no orfanato lhe trazendo de volta a bicicleta, segundo ela, seu pai a vendera para alguém da vizinhança e ela comprara de volta. Cyril se recusa a acreditar que a bicicleta, a prova do amor de seu pai, tenha sido vendida por ele, não demora e ele descobre que, por mais que não a queira aceitar, esta é a verdade. A trama não pouca o garoto de ter seus sonhos desfeitos em um reencontro com o pai. Este, pressionado por Samantha, põe fim às ilusões nas quais permitira que o filho acreditasse, aquele era de fato o fim, ele não pretendia mesmo voltar para buscá-lo.


A partir de então Cécile passa a levar Cyril para passar os fins de semana consigo, mas não demora até que o comportamento dele começa a trazer sérios problemas para ela. O garoto fora embrutecido pela realidade na qual cresceu, ele não conhece o amor e por isso vê toda tentativa de aproximação de sua ajudadora como afronta. A situação piora quando ela descobre que ele está sendo aliciado pelo traficante local, ela tenta alertá-lo e protegê-lo mas ele não aceita a repreensão. Ao se colocar na condição de uma espécie de irmão mais velho, o delinquente substitui para Cyril a figura paterna e este laço se torna difícil de ser desfeito. Mesmo no limiar de suas forças, mesmo sofrendo até fisicamente, Samantha permanece amando e lutando pelo garoto... O amor incondicional demostrado pela personagem tem sido o alvo de comentários negativos de uma pequena parcela da crítica, que a apontam como maniqueísta por ser boa demais, eu no entanto vejo isso apenas como uma questão de angulação da história, o foco não está sobre a vida dela e este distanciamento pode explicar sua aparente perfeição, que é facilmente quebrada com uma análise mais apurada da personagem.


Mesmo sendo tão altruísta, Samantha tem uma visível dificuldade de expressar por completo todo seu amor, é então que surge a pergunta: Teria ela algum ressentimento similar ao do garoto, que justificasse sua decisão de ampará-lo? A sua total entrega, que a leva a abdicar de coisas importantes para si por causa dele, a torna de fato quase surreal e é triste constatar tal tipo de coisa, é como se negássemos por completo que qualquer expressão de bondade pudesse vir de um ser humano "real". Contudo apesar desta falsa impressão causada pelo nosso próprio coração endurecido, a personagem é sim dotada de todo um realismo, o mesmo realismo que permeia toda a história, a prova disso é o sofrimento que ela aceita viver com a intenção de proteger o menino órfão. Em uma atuação quase impecável Cécile consegue transmitir pelo olhar, pela expressão facial, e pelo tom de voz, tudo aquilo que sua personagem está sentindo, desde o amor incondicional, à dor e a frustração de se ver por vezes incapaz de transformar o destino do menino.


Não sei se posso considerar O Garoto de Bicicleta uma obra prima, mas sem dúvidas ele é um tipo de filme raro, que com certeza merece ser assistido, ele, apesar de minimalista em alguns aspectos, se torna grandioso pela trama, pelas excelentes atuações (Thomas e Cécile estão ótimos), pelos belos enquadramentos e principalmente pelas reflexões que ele evoca sobre a infância, o abandono, o altruísmo e a paternidade. Jean-Pierre e Luc Dardnne acertaram em não permitir que o filme se tornasse um melodrama, a experiência deles com documentários, tem sido evocada em algumas críticas para justificar tal posicionamento sem passionalidade diante da história relatada. É justamente esta angulação não passional, quase documental que torna o filme tão impactante, o desfecho, o qual não pretendo revelar, é fantástico, um dos mais marcantes do ano para mim... Se tiver uma oportunidade de assisti-lo não a perca. Recomendo!


O Garoto de Bicicleta ganhou no Festival de Cannes o Grande Prêmio de Juri 
e está indicado ao Globo de Ouro na categoria de Melhor Filme Estrangeiro.

Assistam ao trailer de O Garoto de Bicicleta no You Tube, clique AQUI !


6 comentários:

  1. Bruno, obrigado pelo seu comentário pertinente lá no meu blog. Realmente a fragilidade das relações é um aspecto a ser observado nestas redes, bem com a facilidade com que as pessoas "bloqueiam" e "excluem" contatos, como se fosse algo absolutamente natural dizer "vou deletar fulano". Estranho mesmo.

    Eu não sou muito fã de cinema não...rsrs Talvez nas férias eu até dê uma chance para um ou outro filme, mas não sou muito entusiasta de cinema rs Mas se der vontade e alguma disposição, já sei onde encontrar indicações de filmes rs

    Abraço!

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  2. Acho que todo o alarde feito em torno do filme é irreal demais, não achei extraordinário. Mas adorei, sim (dei 4 estrelas, inclusive). O realismo dói e a relação dos dois é realmente permeada por isso, já que ela não poupa o garoto da triste realidade. Ah, e que final, né...?!

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  3. Olá, meu queridinho vegetariano do coração,

    Olha só, Jaiminho aqui tbem! Adoro essa blogosfera!!!!!

    Olha só, li a resenha desse filme, lá no blogue do Celo e fiquei muito interessada... aí, não resisti esperar até as férias para assistir. Ele é tudo isso que vc escreveu mesmo... adorei a forma como vc abordou e comentou sobre essa obra. Concordo em genero, número e grau com sua resenha!

    bjks JoicySorciere - Blog Umas e outras...

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  4. Ótimo texto, despertou meu interesse em ver o filme. Parabéns pelo blog, beijoss

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  5. É um filme bem interessante mesmo, minimalista, mas sincero com os sentimentos apresentados. Otima resenha!

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  6. Adorei o filme, é lindo. Não acho a cabeleireira boa demais, acho que ela foi descobrindo a maternidade.
    O menino ao mesmo tempo que perdia o pai ganhava uma mãe que lutou por ele o tempo todo, demorou para ele descobrir isso.
    Uma vez li um relato de Tizuka Yamasaki contando sua bonita relação com seu filho adotivo e sua luta por ele, era semelhante ao filme.
    Nos dias de hoje não queremos acreditar em nenhum amor autruísta mas ele teima em existir.

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