sábado, 3 de dezembro de 2011

Alphaville

Alphaville - 1965. Escrito e dirigido por Jean-Luc Godard, inspirado em um poema de Paul Éluard. Direção de Fotografia de Raoul Coutard. Música Original de Paul Misraki. Produzido por André Michelin. Athos Films, Chaumiane, e Filmstudio / França | Itália.


Dizem que a pretensão original de Alphavile era a de ser uma desconstrução dos gêneros ficção científica e noir, mas este filme, um dos clássicos dirigidos por Jean-Luc Godard, durante o auge da Nouvelle Vague, transcende sua própria premissa. Contrariando a visão comum que se tem dele, eu prefiro não o analisar como uma filme “futurista”, apesar de que mesmo depois de quase 50 anos ele ainda continue a nos convencer disso. Pretendo o analisar como uma alegoria da época na qual ele fora produzido, partindo do pressuposto de que a sua trama se desenvolve, não em algum lugar do futuro, mas em uma realidade alternativa atemporal, onde passado, presente e futuro convivem gerando a antítese que serve de conflito para a trama. No filme, o personagem principal parece ter saído de uma produção cinematográfica dos anos 40 e ter sido inserido em uma realidade, inspirada em especulações sobre o porvir, na qual ele não consegue se adaptar.

Alphaville materializa em seu roteiro o temor experimentado pela consciência coletiva nos anos 60. Direta ou indiretamente, ele explora o medo da ameaça de uma guerra nuclear e a tensão constante do mundo bipolarizado. Como artista que é, Godard aponta para a poética como o elemento salvador tanto do indivíduo quanto da sociedade. De acordo esta visão, capitalismo e socialismo seriam nada mais que dois lados de uma mesma moeda, uma vez que ambos representavam, mesmo que de forma distinta, o controle exercido pela sociedade sobre o indivíduo. Na realidade paralela criada no filme, a sociedade é controlada por um super computador, o Alpha 60, que usa o raciocínio lógico para reprimir qualquer manifestação de sentimento ou humanidade e punir aqueles que subvertem as normas por ele impostas. O controle social alegorizado no filme mescla a selvageria destruidora do capitalismo ao dogmatismo comunista.


Na trama, Lemmy Caution (Eddie Constantine) é um agente secreto vindo dos "países exteriores" que chega em Alphaville, disfarçado de jornalista, com a missão encontrar e se preciso exterminar o professor Leonard Nosferatu aka von Bran (Howard Vernon), que estava desaparecido. Logo após sua chegada na “cidade” (o filme não deixa claro se Alphaville é uma cidade, um planeta ou uma galáxia), Caution vai ao encontro de Henri Dickson (Akim Tamiroff), outro agente que já estava lá há algum tempo. Henri mora em um grande prédio ocupado por outros indivíduos tidos como “anormais”, eles são em sua maior parte pensadores e poetas, que frequentemente se sucumbem diante da repressão imposta pelo sistema, sendo alguns deles levados até ao suicídio. No filme os “países exteriores” representam uma espécie de oposição política e cultural à Alphaville. No desenrolar da trama, percebemos que há a constante ameaça de uma grande guerra entre os dois eixos, o que não é nada mais que outra metáfora acerca da época em que o roteiro fora escrito. 


Em seu encontro com Henri, Caution consegue uma poderosa arma que usará ao seu favor, um livro de poemas. Ele pretende combater a ditadura imposta pelo super computador entorpecendo-o com poesias, que seu senso lógico é incapaz de decodificar. No hotel onde se hospeda, Caution conhece e acaba estabelecendo contato com Natasha (Anna Karina), uma funcionária do lugar encarregada de lhe proporcionar “entretenimento”, por acaso ela é filha do professor Leonard Bran, a quem ele busca. Tal como os outros habitantes de Alphaville, Natasha desaprendeu a amar e o significado de palavras tidas como perigosas, como “consciência”. Ela teve parte de sua memória apagada e nem se recorda de que não é natural de Alphaville, seu pai a levara para lá, em condições adversas, quando ainda era criança. Durante todo o tempo, ela transita pelos dois lados e o roteiro explora a dúvida então criada, seria ela capaz de reaprender o amor e tantos outros sentimentos que há tempos tinha esquecido?


O supercomputador Alpha 60 é quase onipresente, ele supervisiona os diálogos e demais interações de todos os habitantes da cidade, não demora muito e ele descobre o comportamento subversivo de Caution, ele então o leva à sua presença para um interrogatório. Através de cálculos, processamento de dados e das interpretações das declarações dadas pelo agente secreto, Alpha 60 conclui que pode usá-lo como espião durante o conflito que se aproxima, ao invés de induzi-lo ao suicídio ou a uma recuperação forçada em um “hospital”. Mas Caution tenta se manter fiel ao propósito que o levou à Alphaville, ele luta com todas as forças para quebrar o julgo que está sobre os habitantes daquele lugar tão estranho e sombrio, que não deixa, nem por um minuto, de lhe causar espanto e estranheza. É então que o personagem usa a arma que ganhara, o resultado é um dos diálogos mais poéticos e antológicos do filme.


Percebo em Alphaville uma alegoria não só da situação política vivida nos anos 60, mas também da própria produção cinematográfica do período. O filme pode ser analisado como uma contundente crítica ao tecnicismo e ao racionalismo que dominavam a cena de cinema francesa naqueles anos. A defesa engajada de Godard dos sentimentos e sensações, que deveriam se sobrepor à lógica, é uma das maiores marcas da fase mais áurea de sua filmografia. Prova disso são os cenários e locações do filme, que não têm em si nada de futuristas, eles são em sua maior parte aposentos de prédios públicos e saguões de hotéis... O que nos convence de que estamos em uma outra realidade, atemporal como já defendi, são as sensações que o filme nos provoca, a estranheza e o medo das ameaças que eram mais reais do que podemos hoje imaginar. Em alguns pontos o filme foi até profético, ele prenunciou a exaltação do conhecimento técnico em detrimento da reflexão e dos sentimentos e a angústia existência do indivíduo diante de um mundo que não consegue compreender, fatos sociais que viriam a se tornar tão comuns e banais nos dias de hoje.


Eddie Constantine interpreta com competência e maestria um personagem que foi claramente inspirado no tipo mais comum vivido por Humphrey Bogart, o homem rude, em certos pontos machista, mas detentor de um aguçado senso de ética e de justiça. Apesar da aparente dureza, Caution é o mais humano e sensível de todos os personagens (isto por si só já é uma desconstrução de um dos maiores mitos do cinema)... Anna Karina é na minha opinião um dos maiores atrativos do filme, falar dela é no entanto o mais complicado, corro o risco de ser imparcial, mas só posso afirmar que ela está sublime, toda a sua atuação está concentrada apenas no olhar (são nos seus olhos que Caution enxerga a esperança para Alphaville), a maquiagem que ela usa no filme parece potencializar o efeito de sua expressão facial, que carrega consigo tanta poesia quanto as palavras proferidas contra Alpha 60... É inquestionável a contribuição de Godard, não só para o dito cinema de autor, mas para toda a história da sétima arte, apesar de alguns críticos taxarem seus filmes de “difíceis”, eles não o são. Seus longas apenas exigem uma boa dose de sensibilidade, coisa que, convenhamos, são poucos que têm... para estes poucos este clássico é ultra recomendado!


Alphaville ganhou o Urso de Ouro (Melhor Filme) no Festival de Berlim.

Assista ao trailer de Alphaville no You Tube, clique AQUI !

Confiram também aqui no Sublime Irrealidade a resenha crítica 
de outros clássico de Godard: Bande à Part e Tempo de Guerra !


9 comentários:

  1. Ainda não assisti esse filme! Eu sei, absurdo mesmo eu ainda não ter visto! :/ Tenho uma amiga que já me falou zilhões de vezes a respeito dele. Depoiis de ler essa resenha, só posso dizer que fiquei ainda mais interessada!

    bjks JoicySorciere - Blog Umas e outras...

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  2. Tenho esse filme aqui a um tempão, mas tenho q confessar não ser muito fã do Godard, acho ACOSSADO meio chato, mas reconhelo seu valor. Esse ALPHAVILLE quero ver, teu otimo texto me deu vontade de conferir. Grande Abraço.

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  3. Tenho o DVD dele e irei assistir. Me interessei muito por, além de ser do mestre Godard - e ter Anna Karina, a mais bela e talentosa atriz francesa, pra mim -, pela premissa me lembrar o 1984. Não li o livro do mesmo, mas vi o filme e acho arrasador. Aliás, pelo que você trabalhou na crítica me lembra ainda mais essa inteligente obra literária e cinematográfica. Não sabia a saca do livros de poesias, só o Godard mesmo... Gênio, mesmo com filmes insuportáveis, gênio. www.lumi7.com.br

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  4. Grande filme. Ótima resenha tbm Brunao! Sucesso!

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  5. Ainda me lembro de quando assisti meu primeiro Godard, foi "Acossado" na época eu tinha só 16 anos e tava ainda meio alienado, distante das linguagens inteligiveis da filmografia de Jean Luc. Conheci por causa da musica do legião "Eduardo e Monica" e depois fui me aprofundando. Quando fiz 21 ganhei d um amigo que fazia cinema "Duas ou tres coisas que sei dela" e depois disso fiquei fascinado. Assisti alphaville e ainda lembro do protagonista ouvindo a voz do robo. Fantastico.Parabens pelo tema !

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  6. Recomendo, e muito, para vocês que ainda não o viram, sem dúvidas é um dos mais importantes trabalhos de Godard... Eu sempre me interessei muito por tudo ligado aos anos 60, da cultura à política, aos movimentos de contestação e acredito que Godard é um dos cineastas que melhor consegue capturar o "air" desta época...

    O mais legal de ver seus filmes é perceber como ele parece apenas brincar com cada aspecto de um filme, montagem, roteiro, sonoplastia, figurinos, cenários parecem apenas peças de um grande todo, que monta e desmonta conforme lhe convém...

    Eu também conheci Godard através de "Acossado" e me apaixonei pela sua obra desde então... Para mim a maior ironia atrelada a ele, é o fato de ele ser tido como um cineasta intelectualizado, quando na verdade seu cinema é muito mais sensorial que intelectual, acredito que tal confusão se deia pelo constante diálogo de Godard com temas como a própria revolução cultural e a política, mas para compreender isso não precisa ser gênio, basta um pouco de sensibilidade e um mínimo de noção de história...

    P.S. Apesar de eu considerar "Acossado" um clássico, tenho que reconhecer que a trama do filme por si só realmente é chata, mas ele merece ser reassistido com outros olhos, deixe a trama um pouco de lado e preste atenção no "subtexto", naquilo que o filme realmente está tentando dizer sobre o próprio cinema...

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  7. oi, estou montando um blog em que faço reflexões de cenas de filmes, posso usar a segunda foto para ilustrar? Eu prometo dar o link da foto e tb posso incluir seu blog no meu. Me manda um e-maiul com resposta: jamalpato@bol.com.br

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