quarta-feira, 16 de maio de 2012

Aqui é o Meu Lugar

Aqui é o Meu Lugar (This Must Be the Place) - 2011. Dirigido por Paolo Sorrentino. Escrito por Paolo Sorrentino e Umberto Contarello. Direção de Fotografia de Luca Bigazzi. Música Original de David Byrne e Will Oldham. Produzido por Francesca Cima, Nicola Giuliano, Andrea Occhipinti e Mario Spedaletti. Indigo Film, Lucky Red e Medusa Film / Itália | França | Irlanda.


O roteiro de Aqui é o Meu Lugar é no mínimo estranho, ele gira em torno de um personagem nada convencional, que vive situações um tanto inusitadas; Cheyenne (Sean Penn) é um ex-membro de uma banda de dark wave que vive preso pela culpa em reminiscências e amarguras de seu passado. Ele traz consigo visíveis sequelas dos abusos e excessos que ele praticou durante muito tempo, sua fala é arrastada e seus movimentos são lentos. Devido a algo que acontecera há mais de vinte anos ele parou de tocar e se refugiou em Dublin na Irlanda, levando a partir de então uma vida um tanto convencional ao lado da esposa, Jane (Frances McDormand), uma militar do corpo de bombeiros, com quem está casado a mais de 35 anos. Ele ocupa seu tempo acompanhando o mercado de ações, em outros momentos ele pratica um esporte bizarro dentro de uma piscina vazia, faz compras e pequenos afazeres domésticos ou sai na companhia de uma jovem amiga. Estranhamente ele ainda mantém o mesmo visual que adotara em sua juventude, nos tempos de atividade de sua antiga banda. 

A história é à princípio cheia de pequenos mistérios, que envolvem o próprio Cheyenne e os outros personagens que estão à sua volta, a trama vai se desenrolando lentamente e apenas depois de mais de meia hora de duração nos é apresentado aquele que será o mote do filme. Cheyenne recebe um telefonema dos Estados Unidos informando sobre o estado de saúde de seu pai, que ele não via há muitos anos, ele então decide deixar alguns assuntos inacabados na Irlanda e partir sozinho para o outro lado do Atlântico. Ao chegar em solo norte americano ele descobre que o pai acabara de falecer e que ele deixara uma questão pendente, uma fixação que o acompanhara até o fim de sua vida: encontrar o soldado nazista que teria o torturado em um campo de concentração. Acreditando que com isso irá conseguir fazer as pazes com a memória do pai, o ex-roqueiro dá continuidade às investigações para encontrar o torturador, que ao que tudo indicava, vivia tranquilamente em algum lugar dos Estados Unidos.


A busca de Cheyenne, que o leva a diversas cidades americanas, transformam o longa em um road movie e como é comum em filmes deste gênero o personagem irá viver experiências que o transformarão durante a viagem. Com uma sensibilidade tocante o filme fala de preconceito, de perdão e de perseverança, sem para isso precisar recorrer às já saturadas fórmulas melodramáticas. De uma forma muito interessante o roteiro encaixa o personagem central em meio à uma série de conflitos, no entanto, o foco permanece nele, o que faz com que alguns dos outros pequenos dilemas sejam deixados de lado á medida que a história avança; isto pode ser apontado como um defeito do roteiro, mas não é, afinal não necessariamente a trama precisa anunciar uma resolução para tudo e quem esperar por isto certamente irá deixar de aproveitar alguns dos melhores aspectos do filme.


Um ponto que merece destaque é uma pequena metáfora, que provavelmente passará despercebida para a maioria dos espectadores, criada em torno da mala de rodinhas que o personagem leva consigo em todos os lugares para onde ele vai, dentro dela ele leva as coisas que não quis deixar para trás; sem querer forçar muito uma interpretção, entendo que estas coisas seriam uma analogia ao passado dele e às situações que ele não conseguiu superar, mesmo depois de mais de 20 anos... As abordagens referentes ao preconceito estão presentes em todo o filme, seja através através das pessoas que se assustam com o visual do ex-músico nas ruas, da discriminação sofrida e praticada pelos judeus da família dele, da garota que não quer se relacionar com um rapaz por ele ser "normal" demais e até através da forma com que nós expectadores enxergamos a história, o entranhamento que sentimos diante de algumas sequências é um simples indicativo de que nós também não estamos tão alheios às ideias preconcebidas. 


Como já era de se esperar, a atuação de Sean Penn é o grande destaque do filme, a composição de seu personagem nos remete de imediato a diversos nomes do rock, dentre eles Robert Smith (pelo visual) e Ozzy Osbourne (pela debilidade física) e sua atuação é tão cheia de sutilezas que consegue nos fazer simpatizar pelo seu personagem, mesmo ele sendo tão estranho. No elenco ainda tem grandes atores como Judd Hirsch, Harry Dean Stanton e a excelente Frances McDormand, todos com desempenhos notáveis. As curiosidades no entanto são a participação da atriz Eve Hewson, filha do Bono do U2, que interpreta uma amiga de  Cheyenne e a ponta feita por David Byrne, um dos fundadores do Talking Heads (banda que compôs a música que dá título ao filme) e co-compositor da trilha sonora do longa, ele interpreta a si mesmo em uma das sequências. 


Tecnicamente o filme possui alguns aspectos negativos, que foram destacados por boa parte da crítica especializada, como o abuso de alguns recursos de filmagem e a repetição desnecessária de alguns movimentos de câmera, no entanto são apenas detalhes, que não miniminizam a melhor qualidade do filme, que é a sensibilidade de sua história. Aqui é o Meu Lugar destoa bastante das grandes produções do cinema americano pelo seu não convencionalismo, ele nos mostra que, apesar de seu elenco basicamente hollywoodiano, ele é um filme europeu (uma co-produção entre Itália, França e Irlanda), que veio não tão somente para acumular cifras de bilheteria... Apesar de algumas irregularidades, ele é uma boa comédia dramática, que merece ser conferida, ainda que seja inicialmente só pela curiosidade que ele é capaz de despertar. Ao assisti-lo, baixe a guarda e simplesmente permita que ele lhe cative... Recomendo!


Aqui é o Meu Lugar ganhou o Prêmio do Júri Ecumênico no Festival de Cannes, honraria concedida a obras que simbolizam a dignidade. O Juri Ecumênico é composto por jornalistas, críticos e cineastas de diversas partes do mundo, sendo eles geralmente membros de igrejas e entidades cristãs.

Assistam ao trailer de Aqui é o Meu Lugar no You Tube, clique AQUI !

A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra,


41 comentários:

  1. Show! Adorei o filme, é do gênero e estilo que eu gosto. E tem o Sean Penn - adooro em dobro! Beijão ! Att , Sabrina Gomes - (( Blog Spiderwebs ? ))

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    1. Eu também gostei muito Sabrina, foi um dos filmes que mais me tocaram ultimamente e de forma muito positiva!

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  2. Oi Bruno,

    Gosto do cinema europeu e esse já está sendo anotado.

    O que me chamou atenção na sua crítica foi a questão da culpa (inclusive o livro "Precisamos Falar sobre o Kevin" me inspirou a crônica de hoje), a dificuldade de mudança, a relação complexa com o pai, o contexto dark wave e a inserção do holocausto são tema do filme. Vou assistir e depois colocarei aqui as minhas impressões.

    Como sempre, parabéns pela crítica!

    Lu

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    1. Obrigado Luciana, assista sim, estou certo de que você irá gostar!

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  3. Não tive interesse em ver esse filme, mas quem sabe em um dia desses...
    Valeu pela dica!
    Ótima crítica!

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    1. Quando você assistir, lembre-se de vir aqui e comentar Mateus!

      Abração!

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  4. Ola Bruno,
    Interessante a história do filme: um ex-roqueiro que vai atrás do seu pai que faleceu e começa uma caça ao nazista que torturou seu genitor... Nossa, é muita imaginação mesmo, mas geralmente estes filmes sempre trazem algo de interessante em si exatamente por fugir do convencional.

    Abraços, Flávio.
    --> Blog Telinha Crítica <--

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    1. Sem dúvidas Flávio, e este não convencionalismo é uma dos pontos mais fortes do filme, mas ele vale ser conferido não só por isso...

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  5. O Sean Penn ficou a cara do Marilyn Manson nesse filme...

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    1. Você achou?
      Ainda acho que o visual dele está mais para Robert Smith, do que para Marilyn Manson...

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  6. Moço,
    que blog magnifico!

    Adorei AMELIE!!!
    Curiosissima para ver este filme- adoro Sean Penn.
    Em minha opinião - melhor filme dele: I AM SAM.
    beijos
    ah! já linkei seu blog no meu.

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    1. Fico feliz que você tenha gostado Patricia, seja sempre bem vinda!

      Obrigado por ter linkado o Sublime, já linkei o teu também!

      Beijos!

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  7. Oi Bruno
    Valeu por mais essa dica, gosto muito do Sean Penn, e suas resenhas Bruno são sempre ótimas, esse filme já está na minha lista.
    Bjos. e um ótimo final de semana.
    http://ashistoriasdeumabipolar.blogspot.com.br/

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    1. Olá Luciana, assista ele sim, acho que você irá gostar bastante, principalmente das reflexões a que ele nos induz...

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  8. Gente...
    E eu que não conhecia o dito do filme.. Vixi!
    Mas, adorei a história, parece ser daquelas que ou encanta ou passa indiferente - de pessoa para pessoa...

    Ótima resenha!

    Já conhece meu novo blog?
    http://antesqueordinarias.blogspot.com.br/

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    1. Karla, tente assisti-lo, é um filme cheio de sutilezas que encanta de uma forma maravilhosa!

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  9. Bruninho,
    primeiro quero te agradecer pelos comentários lá no Humoremconto, de uma inteligência impar.
    Assim como suas resenhas, além de tudo,muito interessantes, esta não deixou por menos.
    O Sean Penn é ótimo! Um ator convincente.
    O roteiro me pareceu bastante interessante. E uma questão que colocaste que me chamou a atenção quanto a narrativa lenta no início, que mais de meia hora é que começa a ser apresentado o mot do filme. Havia um senhor que trabalhava num antigo cinema de rua aqui de Porto Alegre, (o cinema, claro, não existe mais; e o senhor está aposentado), que dizia que se em 20min um filme não "mostrava para que havia sido feito", era melhor sair da sala! Este senhor tinha muitos anos de experiência em sala de projeções, assistindo a todo tipo de filmes: comercial, alternativos, cult, clássicos, enfim. Aqui fica o registro.
    Abração!

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    1. Eu discordo veementemente dele Cissa, afinal tem filmes não conseguem nos conquistar em nenhum momento da primeira exibição, e já numa próxima eles nos cativam, mas este nem o caso de "Aqui é o meu Lugar", apesar de demorar um pouquinho para apresentar o mote de sua trama, ele já nos cativa nas primeiras cenas...

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  10. Oi Bruno,
    excelente resenha, parece ser um filme bem cativante!
    Um grande abraço e bom fim de semana!

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    1. Obrigado rui, fico feliz que você tenha gostado!

      Abraço forte para ti também!

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  11. Cara, o Deserto Vermelho procurei aqui na internet e não encontrei legendado, nem mesmo dublado. Foda. Os links que tem estão corrompido ou expirados.

    Agora, esse aí, vou querer ver certo. Fui no cinema esses tempos e tinha o poster desse filme, que ia ser lançado dentro de algumas semanas. Eu ainda comentei com a primeira dama: Porra, o Sean Pean de travesti, olha que engraçado. E agora tu me vem e diz que ele é rock and roll. Ou dark roll, que seja. hehhe.

    Bah, gostei muito da resenha, do lance da sensibilidade e da analogia da mala e tal. Vou prestar atenção nisso no filme. E por ser uma produção européia, mesmo com alguns atores americanos, me agrada. Acho que estamos numa crise hollywoodiana. É muito filme com MILHOES de efeitos, MUITA grana investida, fantasia demasiada e no final das contas falta a realidade. A sensibilidade da vida.

    Quando você diz que fugiu daqueles filmes que só pensam em $$$$ lucrar, foi outro ponto que me interessou.

    Até vou olhar pra ver se já estreou esse filme ou quando estreará.

    Abss!

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    1. Assista Jim, você vai gostar!

      Ele não é travesti, o visual dele funciona mais como uma identidade cultural do que sexual...

      Eu tentei achar "O Deserto Vermelho" para download, para te passar o link, mas eu também não encontrei, no seu comentário no outro post eu falei sobre uma edição do filme que foi lançada recentemente pela Folha de São paulo em uma coleção sobre o cinema europeu, você ainda deve achar esta edição em livrarias e em bancas de revista...

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  12. Vejo tudo que Sean Penn faz, mas esse filme não me tocou, não que seja ruim, mas é estranho...

    O Falcão Maltês

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    1. Ele realmente é estranho, mas acho que isso só potencializou a forma com que ele me tocou!

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  13. É um filme muito bom, apesar de imperfeito, mas quem disse que os filmes precisam ser perfeitos para serem brilhantes?
    Adoro o seu estilo road-movie e a atuação de Penn. Sorrentino pode não acertar em tudo, mas é ousado em sua obra. O que é aquela cena em que ele encontra o algoz de seu pai ou a com Harry Dean Stanton (o que só comprova sua aproximação com o Wim Wenders da década de 80). Mais um otimo texto. Abração!

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    1. Obrigado Celo!
      As cenas que você citou transbordam sensibilidade, gosta também da sequência na qual ele toca com o garoto a música que dá nome ao filme...

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  14. Oi Bruno!
    Mano..eu quero muito assistir esse filme agora! Não sabia da existência dele mas tenho certeza que vou adorar! Quando vi Sean Penn nesse visual veio á mente Robert Smith sem sombra de dúvidas..e a foto dele sentado no que parece ser á espera no aeroporto me veio á mente Sonho, do quadrinho adulto de Neil Gaiman, Sandman.
    Esse filme certamente é algo que vou gostar rs.
    ahsahsh é normal...aparece tantas novidades hoje em dia com rapidez estrondosa que é praticamente impossível ficarmos sabendo de tudo que está acontecendo por aí. Eu particularmente não gosto de Voclaoid mas admirei bastante os cosplays, por isso decidi fazer a sessão.
    bjs!

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    1. Eu sou constantemente atropelado pelas novidades Tsu!

      Quanto ao filme, não deixe de assisti-lo, acho que você também será tocada por ele tal como eu fui!

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  15. Cara, o Sean Penn tá parecendo o Robert Smith do Cure nos anos 80, kkkkkkk. Fazia tempo que ele não atuava, e esse filme do ano passado não lembro, é tanto filme sendo lançado que muitos passam despercebidos, e esse acho que foi um deles, o roteiro é bem bacana, tem história, vale à pena conferir.

    Abração pra ti.

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    1. Tem outros filmes que estão lhe passando despercebidos Paulo, o Sean Penn está em plena atividade, 10 filmes nos últimos 10 anos e isso sem contar "Na Natureza Selvagem" que ele dirigiu!

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  16. Me parece mais u daqueles filmes europeus meio diferentes e estranhos que eu adoro. Vou procurar asisti-lo.

    J. Bruno, não deixe de conferir o novo post que eu fiz lá no blog sobre coisas implícitas e subentendidas nos filmes!

    http://monteolimpoblog.blogspot.com.br/

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    1. Eu também adoro os filmes que fogem do modelo convencional!

      Passei lá agora para conferir teu post Gabriel!

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  17. Essa resenha me deixou muito curiosa pra ver!E qq filme com Sean Penn vale a pena!
    http://mardeletras2010.blogspot.com.br/2012/05/vida-no-intervalo-das-musicas.html

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    1. Seja bem vinda Vanessa!

      Que bom que minha resenha aguçou sua curiosidade, sem dúvidas o filme vale a pena!

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  18. Boa tarde, José Bruno.
    Eu já tinha lido a resenha deste filme lá no Filmow e eme interessei bastante.
    O personagem me lembrou um pouco o Spicolli, de Picardias Estudantis, comédia adolescente oitentista.
    Gosto de personagens estranhos e deslocados como esse, que fazem aqueles ao seu redor reverem sua visão e mundo.
    Abraço, José Bruno.

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    1. Olá amigo Jacques!

      Eu ainda não assisti "Picardias Estudantis", ao menos não me recordo de ter assistido, mas sua descrição do personagem de "Aqui é o meu lugar" (estranho e deslocado) procede... É um filme sensível e capaz de nos tocar de uma forma muito legal, não deixe de assisti-lo!

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  19. Poderias comentar a cena final do filme???

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