sábado, 30 de junho de 2012

Pulp Fiction - Tempo de Violência

Pulp Fiction - Tempo de Violência (Pulp Fiction) - 1994. Dirigido por Quentin Tarantino. Escrito por Quentin Tarantino e Roger Avary. Direção de Fotografia de Andrzej Sekula. Produzido por Lawrence Bender. A Band Apart, Jersey Films e Miramax Films / USA.


Não sei se isso acontece com todos que escrevem sobre filmes, mas para mim, falar sobre aqueles que são os meus favoritos é sempre bem mais difícil, nunca sei se estou suficientemente preparado para tal e se farei jus à grandiosidade daquela obra. Surge outro problema quando o filme em questão já é agraciado tanto pelo público quanto pela crítica, pois neste caso corre-se o risco de apenas chover no molhado ao discorrer sobre ele, afinal pressupõe-se que todos já conheçam bem cada um de seus aspectos técnicos e artísticos. Me vejo diante destes problemas ao começar a escrever sobre Pulp Fiction - Tempos de Violência, o segundo longa-metragem dirigido por Quentin Tarantino, filme que considero um dos mais importantes e influentes do cinema contemporâneo.

Tirando dentre aqueles que o consideram violento demais, Pulp Fiction é quase uma unanimidade positiva e isto é realmente impressionante, uma vez que o nível de violência exposta não pode por si só ser considerado um problema. O filme chama atenção pela sua trama fragmentada, pelos excelentes diálogos, pela ótima trilha sonora e pela edição, que o mantém em um ritmo frenético durante toda sua longa duração. Cada um destes aspectos são repletos de citações e referências à sétima arte e à cultura pop, neste texto pretendo comentar, ainda que de forma rápida, cada um deles e a forma com que eles colaboraram para que o filme se tornasse, com relativamente pouco tempo, uma das produções mais cultuadas de sua época.


A primeira cena do filme mostra um casal conversando em uma lanchonete, ele é Ringo (Tim Roth), ela Yolanda (Amanda Plummer), eles discutem sobre algo que à princípio não sabemos o que é, aparentemente se trata de algo banal e não tão importante, pois não há exaltação ou raiva em seus tons de vozes. Uma garçonete vem até a mesa e serve café para Yolanda, que a agradece com uma cordialidade quase suspeita para em seguida dar continuidade ao diálogo com o rapaz, é então que percebemos sobre o que eles estão falando, é sobre assaltos. Durante a conversa eles decidem parar de atacar lojas de bebidas, por ser muito arriscado e Ringo então propõe trocar o alvo por lanchonetes como aquela onde estão, segundo ele este tipo estabelecimento estaria despreparado para reagir, pois eles nunca esperam ser assaltados. Yolanda se empolga com a ideia e diz que o assalto deve ser ali e naquela hora, eles se beijam, trocam juras de amor, se levantam e anunciam a ação aos berros... Entram os créditos de abertura.


Na sequência depois dos créditos, acompanhamos Vincent Vega (John Travolta) e Jules Winnfield (Samuel L. Jackson), que conversam à caminho do local onde realizarão um 'serviço', o diálogo que se dá entre eles percorre temas que vão da liberalidade das drogas na Holanda à massagens nos pés, passando pela diferença que há no nome de um mesmo sanduíche de McDonald`s nos Estados Unidos e na França. Eles são matadores profissionais e estão indo recuperar uma maleta, cujo o conteúdo não nos é revelado, que pertenceria ao mafioso Marsellus Wallace (Ving Rhames), o chefe deles. Tanto na primeira sequência, quanto nesta, ficam perceptíveis aquelas que são as características mais fortes do filme: Os diálogos que percorrem temas variados, com referências à cultura pop; os personagens sem tanta profundidade e a banalização da violência.


Em seu desenvolvimento, Pulp Fiction constrói pequenas tramas, que vão se conectando de alguma forma até o final do filme. Tem por exemplo a história de Butch Coolidge (Bruce Willis), um boxeador que combinara de vender uma luta importante e que se mete em um agrande encrenca por isso e a de outros personagens de menor relevância, que de alguma forma são envolvidos na trama. À primeira vista, o longa parece um emaranhado de eventos aparentemente desconexos, como os que acontecem na noite em que Vincent leva a junkie Mia Wallace (Uma Thurman), a esposa de Marsellus, para um passeio, todavia o roteiro amarra todos estes eventos, percorrendo estas diversas ações, sem aprofundar tanto em nenhuma delas e nem em nenhum dos personagens, neste percurso o que se constrói é uma teia de de mensagens e significações que não conseguem transpor a barreira que há além do superficial, mas não se enganem, isto não é um defeito, é na verdade a principal característica que determina a estética do filme.


O que Quentin Tarantino fez em Pulp Fiction é similar, ao meu modo de ver, ao que Andy Warhol fez nas artes plásticas, ambos se aproveitaram do mitos e símbolos forjados pela cultura pop para criarem suas próprias obras. O interessante é que as referência ou citação feitas por eles não reproduzem toda a potencialidade de significação da obra ou do conceito original e daí vem a superficialidade que pode ser notada no filme. As múltiplas colagens fazem da obra originada uma espécie de coxa de retalhos, que nos chama a atenção mais pela pluralidade estética de sua composição, do que pela sua própria trama. Ao contrário do que pode-se pensar num primeiro momento, o abuso da referências à outros filmes e à cultura pop não fazem de Tarantino um canastrão ou plagiador, isto porque ele, assim como Warhol o fez, realiza este processo deixando evidentes cada um dos artifícios que usou e ainda com uma grande propriedade, o que permite que suas obras sejam chamadas de autorais.


As referências presentes no filme denotam o vasto conhecimento que Quentin Tarantino tem da história do cinema, de seus personagens e de seu aparato técnico. Há em Pulp Fiction citações diretas ou indiretas à obras de Howard Hawks, Jean-Luc Godard, Alfred Hichcock, Elia Kazan, dentre a de outros... A já clássica cena do twist, por exemplo, na qual Vincent e Mia dançam em um bar temático dos anos 50, teria sido inspirada em uma sequência parecida de Bande à Part (1964) de Godard, filme que dá nome à produtora criada por Tarantino. Na mesma passagem John Travolta teria recriado os movimentos de uma dança feita por Adam West no seriado Batman produzido nos anos 60 e Uma Thurman por sua vez teria se inspirado em uma personagem do desenho Os Aristogatas, a gata Duquesa, para criar os movimentos sedutores de sua dança.


Outro detalhe curioso que pode ser observado em Pulp Fiction, são marcas e produtos criados por Tarantino, que aparecem neste e em outros de seus filmes. Dentre eles estão a marca de cigarros Red Apple, que voltaria a aparecer em Grande Hotel (1995), o hambúrguer Big Kahuna, que aparecera em Cães de Aluguel (1992) e seria mostrado novamente em Um Drink no Inferno (1996) e o estabelecimento Jack Rabbit Slim`s, cujo comercial pode ser ouvido no rádio tanto neste, quanto em Cães de Aluguel. Outra curiosidade é que em uma passagem do filme, enquanto se lava na casa de um amigo, para apagar de seu corpo vestígios de um 'acidente', o personagem Vincent Vega menciona o sabão Lava, uma marca que realmente existiu, para a qual o próprio Travolta fez um comercial na década de 70, no início de sua carreira.


Pulp Fiction também deixa evidente a habilidade de Tarantino de dirigir atores, cada um dos membros do elenco tem seus talentos aproveitados ao máximo - não é atoa que longa tenha revitalizado a carreira do John Travolta, que estava à beira do ostracismo. Praticamente todo o elenco (que inclui ainda nomes como Harvey Keitel, Maria de Medeiros, Ving Rhames, Rosanna Arquette, Eric Stoltz e Christopher Walkenestá muito bem, a naturalidade e a destreza de cada uma das atuações é impressionante, porém dentre todos Samuel L. Jackson é ao meu ver o que mais se destaca, ele está sem sombra de dúvidas em uma de suas melhores interpretações... A trilha sonora do filme é formidável, ela mistura num caldeirão pop diversos estilos musicais, como rock clássico, soul, country, funk e surf music (Tarantino chegou a afirmar que escolheu canções deste último gênero por elas soarem tanto como rock´n´roll, quanto como trilha sonora de faroestes italianos). E vale destacar também a fotografia e os movimentos de câmera inusitados, que comprovem a qualidade técnica do filme e ainda dão a ele um charme todo especial... Precisa dizer mais alguma coisa? Ah sim, ULTRA RECOMENDADO!!!

Pulp Fiction ganhou a Palma de Ouro, o prêmio máximo do Festival de Cannes. No Oscar, o filme venceu na categoria de Melhor Roteiro Original, tendo sido indicado também aos prêmios de Melhor Filme, Diretor, Ator (John Travolta), Ator Coadjuvante (Samuel L. Jackson), Atriz Coadjuvante (Uma Thurman), Fotografia e Edição. No Globo de Ouro, ele ganhou o prêmio de Melhor Roteiro, tendo recebido indicações nas categorias de Melhor Filme - Drama, Diretor, Melhor Ator - Drama (John Travolta), Melhor Ator Coadjuvante (Samuel L. Jackson) e Melhor Atriz - Drama (Uma Thurman).


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A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra.

sexta-feira, 29 de junho de 2012

As Bicicletas de Belleville

As Bicicletas de Belleville (Les triplettes de Belleville) - 2003. Escrito e Dirigido por Sylvain Chomet. Música Original de Benoît Charest. Produzido por Didier Brunner e Viviane Vanfleteren. Les Armateurs, Production Champion, Vivi Film, France 3 Cinéma e Rija Films / França | Bélgica | Canadá | UK | Letonia.


A belíssima animação As Bicicletas de Belleville (2003pode ser vista de duas formas diferentes, ou como uma dramédia simplória e repleta de gags visuais ou como filme denso, complexo e cheio de significados não tão aparentes; isto, obviamente, dependerá de cada espectador, da bagagem que este trouxer consigo e do nível de atenção dedicado às mensagens não verbais, tão bem exploradas pelo diretor e roteirista Sylvain Chomet. O primeiro aspecto do filme que nos enche os olhos é o seu visual, nele tanto os personagens, quanto os cenários e objetos adquirem formas desproporcionais e bizarras, no entanto cada quadro é composto com um equilíbrio de cores tão bonito, que a desproporção não chega a nos causar tanto estranhamento, ainda que ela torne esta animação tão diferente das convencionais.

O filme conta a história de Champion, um menino tristonho que mora com a avó, a Madame Souza, em uma cidade que está localizada em algum lugar do interior da França. Percebendo a melancolia do neto, a avó tenta lhe agradar, lhe dando um filhote de cachorro, mas o mimo pouco adianta, o moleque só se anima de verdade depois de ganhar um segundo presente, uma bicicleta. A partir daí ele não desgruda mais do veículo, pedalar lhe traz uma satisfação que aparentemente ele não sentia já há muito tempo. Percebendo a aptidão do menino para o ciclismo a avó passa a lhe incentivar à prática do esporte... O tempo passa, a avó envelhece, o cachorro cresce (e muito) e o menino se torna adulto, mas a sua paixão pelo ciclismo permanece, bem como a vigilância da  Madame, que dá asas ao sonho que ele tem, de um dia se tornar um atleta vencedor.


Já adulto, Champion tem a grande oportunidade de realizar aquela que sempre foi a sua grande ambição, ser um esportista vitorioso, ele se inscreve para o Tour de France, uma das mais famosas competições de ciclismo do mundo, a sua avó lhe dá todo o apoio e durante a prova ela e o seu cachorro, a quem deram o nome de Bruno, o seguem de perto em um furgão ambulância. Apesar da dedicação e do treino árduo, Champion não consegue terminar o percurso, bandidos o sequestram junto com dois outros competidos e logo após o término da corrida eles são colocados em um navio e levados para uma grande metrópole que fica do outro lado do oceano. A  Madame Souza e o cachorro Bruno partem em uma jornada para resgatar o atleta e esta viagem os leva a Belleville, um lugar caótico e medonho, povoado por pessoas frias e de comportamentos reprováveis.


Em sua trama, As Bicicletas de Belleville tece uma contundente crítica à sociedade de consumo e aos valores que a sustentam. A metrópole mostrada no filme funciona como uma alegoria do mundo pós-moderno, nela e em seus habitantes é possível perceber representações de costumes e comportamentos típicos de nossa sociedade, dentre eles a ganância, o apego aos bens materiais e a falta do amor fraternal. A cidade de Belleville não possui o tom monocórdico de cinza que caracteriza os grandes centros urbanos, em seu lugar surge uma tonalidade amarelada, que nos remete à ferrugem, o visual composto por tal cromatização reforça a percepção do mecanicismo e da ausência de vida daquele lugar.


O filme chega a ser fatalista e um tanto pessimista ao abordar a questão do decorrer do tempo, numa de suas primeiras sequências, a que mostra a avançar dos anos da infância até a fase adulta de Champion, percebemos através da mudança num determinado cenário que o mundo caminha para uma situação cada vez pior, aquele cenário vai se tornando progressivamente mais descolorido e sombrio, até que um ambiente antes aconchegante se torna então opressivo e claustrofóbico. A ideia que o filme nos passa é a de que a sociedade está 'envelhecida', ou seja, o mundo já não funciona mais, aquilo que era natural fora substituído por uma estrutura artificial, que logo se desgastou.


No filme, a adoção de um estilo de vida não natural favorece a alta incidência de obesidade, que é uma característica comum a quase todos os personagens (inclusive o cachorro), não por acaso, Champion e outros ciclistas são alguns dentre os poucos personagens magros, pois ao contrário dos demais eles têm uma motivação que os tira do estado vegetativo, no entanto isto não os realiza e é aí que chegamos à uma das interpretações mais interessantes da obra: Champion também era obeso quando criança, a prática do ciclismo lhe dá já na vida adulta um outro porte físico, no entanto a alegria que ele experimentara ao ganhar a bicicleta desaparece à medida que o esporte deixa de ser uma diversão para se tornar apenas uma busca por títulos. O prazer primário, simples em sua essência, cede então lugar à competitividade, que desumaniza o personagem e suas atitudes - Esta é uma evidente crítica ao triunfalismo, que é apontado como um dos únicos caminhos que a sociedade oferece como alternativa para o estado vegetativo.


Há também na animação diversos elementos metalinguísticos, que são explorados através de referências à própria sétima arte, tais referências podem ser percebidas na sequência inicial, que remete à estética do cinema mudo, nas citações diretas a outros filmes (através por exemplo de cartazes que aparecem em determinados momentos e de rápidas sequências em live-action) e até mesmo através de anedotas visuais, como a que é percebida numa curta passagem que mostra um amontoado de prédios de Belleville, que formam uma imagem que lembra um castelo, com explosões acontecendo ao fundo; está sequência é uma referência quase óbvia à uma das vinhetas mais clássicas da Disney, que também mostra um castelo com fogos de artifício ao fundo... Já a aparência grotesca dos personagens e o forte viés fantástico da história, me lembram a estética felliniana, que também fora marcada pela reprodução de uma realidade grotesca com contornos oníricos.


No início desta resenha eu comentei que o filme poderia ser visto de duas formas diferentes, volto ao assunto para concluir que a percepção e consequente avaliação que tivermos e fizermos dele dependerão da forma com que cada um o assistir. Sendo assim, a minha dica é a de que se você prefere filmes leves e de fácil assimilação esqueça os significados e mensagens implícitas e aproveite o visual belo e o viés cômico da animação, pois ela funciona muito bem de tal forma. Mas, se você valoriza um roteiro crítico e inteligente, As Bicicletas de Belleville funcionará ainda melhor, pois a sátira social e a ironia (nem sempre politicamente corretas) são na minha opinião os seus grandes trunfos. Recomendo!

As Bicicletas de Belleville recebeu indicações ao Oscar nas categorias de Melhor Animação e Melhor Canção Original.

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A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra.

terça-feira, 26 de junho de 2012

Atração Perigosa

Atração Perigosa (The Town) - 2010. Dirigido por Ben Affleck. Escrito por Ben Affleck, Peter Craig e Aaron Stockard, baseado na livro O Príncipe dos Ladrões de Chuck Hogan. Direção de Fotografia de Robert Elswit. Música Original de David Buckley e Harry Gregson-Williams. Produzido por Basil Iwanyk e Graham King. Warner Bros. Pictures e GK Films / USA.


Para um cinéfilo, uma das melhores sensações é a de ser surpreendido positivamente por um filme, do qual pouco se esperava. Aconteceu comigo mais uma vez, comecei a ver Atração Perigosa (2010), segundo longa dirigido pelo ator Ben Affleck, com uma grande desconfiança, confesso que não esperava dele nada que fosse além do convencionalismo típico da maioria dos filmes de ação hollywoodianos. Contudo, ele começou a me surpreender já nos primeiros minutos, tanto pela boa qualidade técnica e pelas atuações, quanto pelo ritmo frenético que ele adquire já na sequência de abertura. Ben Affleck chega a demonstrar segurança como diretor e isto fica perceptível pela escalação do elenco, pelo bom resultado das tomadas externas e principalmente pelo fato de o filme não ser arruinado pela sua trama (que é repleta de clichês), aspecto este que seria ao meu o seu calcanhar de Aquiles.

O filme começa mostrando um assalto à uma agência bancária do subúrbio de Boston. Quatro homens encapuzados e mascarados descem de uma van e invadem o prédio, eles rendem os funcionários e clientes e obrigam a gerente a abrir o cofre. Neste meio tempo, um outro funcionário consegue disparar o alarme, mas os bandidos percebem e fogem antes da chegada da polícia, levando a gerente como refém; ela é solta logo em seguida próximo à uma praia... Doug MacRay (Ben Affleck) é o cabeça do grupo, ele é descendente de uma família que está envolvida há gerações com o crime organizado, que seria segundo ele a principal atividade de sua cidade. Ele e sua gangue são oriundos do bairro de Charlestown, que ficara famoso por ser um dos mais violentos da cidade e o celeiro de um grande número de ladrões de bancos.


Jem (Jeremy Renner) é amigo de infância e o braço direito de Doug, ao contrário deste, ele é impulsivo e extremamente agressivo, apesar disso eles aparentemente se respeitam, porém um atrito começa a surgir entre eles quando Jem descobre que a gerente que eles haviam sequestrado também mora em Charlestown,  o nome dela é Claire (Rebecca Hall) e ela atua como voluntária em um projeto social na vizinhança. Doug garante que irá segui-la para assegurar que ela não faça nenhuma besteira, mas Jem prefere resolver o problema de uma forma mais radical... O mote principal da trama, que justifica o nome tosco que o filme ganhou ao ser lançado no Brasil, surge quando o assaltante se aproxima mais do que deveria de Claire e a seduz, ela que ainda estava fragilizada e traumatizada passa a ver nele uma espécie de protetor e não demora muito e eles começam a namorar. Doug enxerga no relacionamento uma oportunidade de recomeçar, no entanto será difícil para ele abandonar a vida que lhe fora legada pela sua família...


O agente do FBI Adam Frawley (Jon Hamm), que já estava há algum tempo no encalço da gangue de Doug, avança na investigação com a ajuda de Claire. Ele vai chegando cada vez mais perto dos assaltantes e se torna uma questão de tempo até que as identidades deles sejam reveladas e a tensão aumenta à medida que a trama caminha para isso... Como eu já havia dito, a história tropeça em uma quantidade enorme de clichês (dentre eles o do bom bandido que se apaixona pela mocinha e se arrepende de seus crimes, o do gangster de temperamento instável que coloca a vida de todos á sua volta em risco e o do policial incansável e incorruptível que se arrisca para colocar os bandidos atrás das grades) e a trama repleta de fórmulas manjadas conduz o filme a um desfecho até satisfatório, porém bastante previsível... Todavia, a boa notícia no meio disso tudo é que o filme possui elementos que compensam, ao menos em parte, a má qualidade de seu roteiro.


As atuações são de longe o principal destaque do filme, Jeremy Renner está excelente, o que justifica sua indicação ao Oscar de Melhor ator Coadjuvante. A Rebecca Hall consegue, com uma notável destreza, salvar sua personagem da superficialidade sob a qual ela foi construída e Jon Hamm está muito bem na pele do policial obstinado e determinado a cumprir seu trabalho. Já Ben Affleck entrega mais uma atuação 'café-com-leite', que apesar de mediana não chega por si só a prejudicar o filme como um todo, isto por causa das boas interpretações do restante do elenco, com quem ele contracena. A fotografia do longa é outro aspecto que merece ser comentado, as locações do filme são capturadas em um tom na maioria das vezes descolorido ou de predominância de cores frias, o que percebo como uma clara referência à frieza dos personagens e do ambiente no qual eles vivem. 


Atração Perigosa me surpreendeu por ter sido melhor que o esperado, no entanto não posso dizer que ele seja um filme excelente e muito menos indispensável. É notável que Ben Affleck tenteou dar a ele uma profundidade dramática maior, no entanto ele não foi tão bem sucedido nisso. Atração Perigosa é um bom filme de ação, com cenas bem filmadas e boas atuações, que no fim das contas vale como um bom entretenimento. Recomendado para os apreciadores do gênero!

Atração Perigosa recebeu uma indicação ao Oscar na categoria de Melhor Ator Coadjuvante (Jeremy Renner)

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A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra.

domingo, 24 de junho de 2012

O Quarto do Pânico

O Quarto do Pânico (Panic Room) - 2002. Dirigido por David Fincher. Escrito por David Koepp. Direção de Fotografia de Conrad W. Hall e Darius Khondji. Música Original de Howard Shore. Produzido por Judy Hofflund, David Koepp e Gavin Polone. Columbia Pictures Corporation, Hofflund/Polone e Indelible Pictures / USA.


Assisti O Quarto do Pânico (2002) pela primeira vez há alguns anos na TV aberta, dublado e repleto de cortes, apesar da péssima qualidade técnica forjada pelas circunstâncias, a impressão que eu tive dele foi bastante positiva, desde então eu sabia que precisaria revê-lo para assim formar uma opinião mais consistente sobre cada um de seus aspectos, afinal uma versão dublada e com cortes não serve como objeto de avaliação. A oportunidade de revê-lo surgiu há cerca de três meses quando um amigo me emprestou o DVD, pela falta de tempo e pela preferência dada a outros filmes que estavam na fila para serem assistidos, acabei deixando ele 'para depois' e só na semana que passou eu decidi assisti-lo  novamente. Cheguei mais uma vez à conclusão de que ele é um ótimo suspense e um típico filme de David Fincher, apesar de estar um tanto aquém das melhores obras do cineasta.

A história do longa começa de uma forma um tanto clichê; Meg Altman (Jodie Foster), que se separara recentemente do marido, muda com a filha pré-adolescente, Sarah (Kristen Stewart), para uma mansão localizada em Manhattan, uma das melhores regiões de Nova York. O casarão, típico de filmes do gênero, possui um bom número de aposentos, dentre eles um 'quarto do pânico', um cômodo blindado de onde pode-se monitorar, através de um circuíto fechado de TV, todo o restante da casa. À princípio este quarto parece ser apenas o fruto da excentricidade do antigo morador, um milionário, que foi quem o construiu, no entanto, logo na primeira noite após se mudarem, Meg e Sarah descobrirão o quão necessário aquele cômodo claustrofóbico pode ser.


Três ladrões invadem o casarão acreditando que ele ainda estava desocupado, são eles Burnham (Forest Whitaker), que aparenta ser o cabeça do grupo, Junior (Jared Leto), um jovem inconsequente e imediatista, e Raoul (Dwight Yoakam), um homem instável e violento (que fora levado por Junior sem o consentimento de Burnhan). Ao perceber a presença deles na casa, Meg se refugia junto com a filha no 'quarto do pânico', sem saber que é lá que supostamente está escondido aquilo que eles foram buscar. Através do circuíto fechado de TV, elas acompanham toda a movimentação deles pelos cômodos da casa, o que as deixa apreensivas pelo risco que estão correndo, mesmo trancadas no aposento blindado... Na mansão há um sistema de som que permite que um interlocutor possa se comunicar com o resto da casa através de um microfone que está instalado no 'quarto do pânico', Meg tenta usá-lo para afugentar os bandidos com ameaças e blefes, porém a tentativa acaba não funcionando. 


Nós espectadores ganhamos então uma perspectiva privilegiada do que está acontecendo na casa. Ao contrário dos personagens, nós sabemos de tudo que está acontecendo, tanto do lado de dentro quanto do lado de fora do 'quarto do pânico', podemos vê-los e ouvi-los e nada nos é escondido. Esta visão que nos é dada aproxima o suspense explorado pelo filme do modelo criado e aperfeiçoado por Alfred Hitchcock, no qual a tensão é proveniente não de algo que possa nos surpreender, mas daquilo que já está anunciado, que já sabemos de antemão que está para acontecer a qualquer momento. Fincher, que é um admirador confesso da obra de Hitchcock , soube usar muito bem esta fórmula em seu filme e para tal ele se valeu de um aparato tecnológico, que ajuda a nos passar a impressão de que podemos ver tudo e de que aquilo que vemos é potencialmente real.


O teórico Christian Metz, no livro A Significação no Cinema, defende que o movimento é o elemento capaz de conferir realidade à linguagem cinematográfica, para ele o movimento além de acarretar um índice de realidade suplementar ao filme, ainda dá corporalidade aos objetos mostrados no plano. Esta noção da importância do movimento é fundamental para que possamos compreender a significação de alguns planos-sequência usados por Fincher. Posso citar como exemplo um que está logo no início do filme, no qual a câmera passeia por praticamente todo o casarão, atravessando grades, paredes e pequenos orifícios. Nesta sequência de extrema importância narrativa, o filme nos situa no espaço no qual ele se desenvolverá e ainda reforça o impacto que ele provocará em nós, por mostrar que a casa e seus cômodos são objetos corpóreos e sendo assim potencialmente reais, o que consequentemente torna mais crível a trama que ali se desdobrará.


Se em outros filmes de David Fincher, como Vidas em Jogo (1997) e Clube da Luta (1999), personagens eram tirados de suas vidas convencionais e imersos no submundo, neste acontece um fenômeno oposto, nele é o submundo que de repente invade a vida das personagens e desmonta o convencionalismo dela... Em sua trama O Quarto do Pânico aborda questões cada vez mais atuais como a sensação de insegurança crescente e a tendência de se transformar ambientes domiciliares em verdadeiras fortalezas. É esta questão da segurança violada que é capaz de nos deixar temerosos e apreensivos diante do filme. Ao vermos a ilusão que as personagens tinham de estar seguras ser desfeita, passamos a temer pela nossa própria segurança, afinal o filme já nos mostrou que a sua trama é potencialmente real e que nós estamos ainda mais desprotegidos que Meg e Sarah, por não termos à nossa disposição sistemas de segurança avançados, nem um quarto blindado onde nos refugiarmos quando o perigo bater à nossa porta.


Algo curioso, sobre o qual eu não pude deixar de refletir, é a possibilidade de analisarmos este filme como uma metáfora do temor vivenciado nos Estados Unidos pós 11 de setembro. Mesmo não tendo nenhuma referência ou relação direta com os atentados, que ocorreram 6 meses antes de seu lançamento, o longa retrata bem a sensação de vulnerabilidade que acometera uma boa parcela da população americana depois dos ataques. O que o filme faz, ainda que de forma não proposital, é trazer esta sensação de ameaça constante do ambiente macro para o micro e é então que percebemos que a há um forte paralelo entre a ameaça à segurança nacional, representada pelos terroristas e à ameaça à segurança de nosso próprio lar, representada no filme por bandidos quase amadores...


Jodie Foster, que ganhou o papel que seria da Nicole Kidman, dias antes do início das filmagens, está muito bem em um papel que é sim bastante complexo, ela consegue dar credibilidade à sua personagem e à situação aflitiva vivida por ela. A Kristen Stewart, que mais parece um menininho no filme, não faz feio, sua atuação chegou a ser bastante elogiada na época do lançamento do filme. Forest Whitaker também chama atenção pelo seu desempenho na pele do bandido que está em constante conflito com sua própria postura e com a atitude dos colegas... O roteiro de O Quarto do Pânico é muito bem escrito (apesar de simples), ele somado às mensagens que nos são passadas através da montagem, dos enquadramentos e das rimas visuais, compõe um verdadeiro quebra cabeça, que à medida que deciframos podemos antever diversos desdobramentos da história. Este é um filme que merece ser visto e revisto, com a devida atenção aos pequenos detalhes, que fazem toda a diferença para a trama. Recomendo!


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A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra.

terça-feira, 19 de junho de 2012

Ladrões de Bicicleta

Ladrões de Bicicleta (Ladri di Biciclette) - 1948. Dirigido por Vittorio De Sica. Escrito por Vittorio De Sica, Cesare Zavattini, Suso Cecchi D'Amico, Oreste Biancoli, Adolfo Franci e Gerardo Guerrieri. Direção de Fotografia de Carlo Montuori. Música Original de Alessandro Cicognini. Produzido por Giuseppe Amato e Vittorio De Sica. Produzioni De Sica / Itália.


Certa vez o cineasta Roberto Rosselline afirmou que "o assunto do filme neorrealista é o mundo, não a história ou a narrativa", segundo ele "não há teses preconcebidas, porque as ideias nascem do assunto do filme", e "não há afinidade com o supérfluo e o meramente espetacular, mas a atração para o concreto". Tais afirmações definem perfeitamente aquela que é na minha opinião a melhor e mais importante obra do neorrealismo italiano, Ladrões de Bicicleta (1948) de Vittorio de Sica. Este filme, realizado com orçamento reduzido e muitas dificuldades, se tornaria uma das obras mais importantes da história da sétima arte e ajudaria a dar inicio à uma verdadeira revolução formal e estética, que ganharia ainda mais força nas décadas seguintes.

Antes de comentar o contexto social e político no qual o filme foi produzido e alguns de seus aspetos técnicas e artísticos, preciso falar sobre a intensidade com que ele me impacta, pois ela influenciará praticamente todo o restante deste texto. Provavelmente eu já comentei em outras resenhas que filmes que de alguma forma abordam a infância me tocam de uma forma diferente e foi o que aconteceu desde a primeira vez que assisti Ladrões de Bicicleta, que tem um garotinho como um dos personagens centrais. A relação do menino com o pai dele no filme me remete à minha relação com o meu avô, que foi a figura paterna que eu conheci, e isso me transporta para algumas memórias de minha infância, que eu prefiro não relembrar com tanta frequência, de uma forma muito bonita eu vejo no personagem do pai, a mesma angústia e a mesma determinação de lutar contra as circunstâncias que eu via em meu avô.


A minha comoção não me impede no entanto de observar os diversos aspectos que justificam a alcunha de clássico que atribuem ao filme, pelo contrário, a sensibilidade aguçada me ajuda a perceber pequenos detalhes que talvez de outra forma passariam despercebidos. Na crítica que escrevi de Roma, Cidade Aberta (1945) de Roberto Rossellini eu fiz um breve (muito breve) resumo do que foi o o neorrealismo italiano e de sua importância para outras escolas cinematográficas, para aqueles que ainda não estão familiarizados com o 'movimento' e suas características eu recomendo a leitura dos dois primeiros parágrafos da resenha (clique o nome do filme em destaque para acessá-la), pois  entender a situação pela qual a Itália passava na época em que o filme foi rodado é crucial para que se possa assimilar cada um de seus elementos narrativos. 

A trama do filme é relativamente simples, ela gira em torno de Antonio Ricci (Lamberto Maggiorani), um homem que está em busca de emprego, e de sua família paupérrima. Já no início da história ele consegue um trabalho de colador de cartazes de cinema, mas para que possa assumir a vaga ele precisa de uma bicicleta. Maria (Lianella Carell), sua esposa, decide empenhar as poucas roupas de cama que eles tinham para assim conseguir reaver a bicicleta que fora empenhada anteriormente. Porém, no primeiro dia de trabalho de Ricci, alguém rouba o veículo enquanto ele estava distraído colando um cartaz, ao perceber a ação do ladrão ele tenta persegui-lo para tomar sua bicicleta de volta, porém o delinquente consegue fugir, desaparecendo em meio à multidão. Sem o apoio da polícia, Antonio decide procurar a bicicleta por conta própria, é então que começa sua jornada pelas ruas de Roma. Bruno (Enzo Staiola), seu filho de sete anos, o acompanha na busca.


Ao mostrar a jornada dos dois personagens em busca da bicicleta roubada, o filme mostra também, de uma forma quase documental, a realidade que a Itália enfrentava naquele período de reconstrução. Na maioria das cenas podemos perceber o grande número de pessoas que estão indo e vindo nas ruas, são em sua maioria homens de meia idade desempregados, ou ocupando sub-empregos; em meio á multidão vemos poucos jovens, uma óbvia consequência da guerra que terminara poucos anos antes, não por acaso o único personagem jovem que ganha destaque em uma das passagens do filme é um rapaz epilético (que provavelmente fora dispensado do compromisso militar por causa de sua doença). É possível perceber também um grande número de crianças vadiando pelas ruas, na maior parte das vezes pedindo esmolas. A degradação física da cidade é outro aspecto que chama a atenção.


Ladrões de Bicicleta não deixa de mostrar também o abismo existente entre as classes sociais, enquanto há uma quantidade enorme de desempregados e de homens e mulheres que se submetem a empregos inferiores às suas formações profissionais, há também aqueles que se fartam de comida e que gastam horrores nos melhores ambientes da cidade. A burocracia e a incapacidade do estado de garantir os direitos básicos da população agravam ainda mais a situação daqueles que não possuem recursos para se virarem sozinhos. Numa das cenas mais belas e emocionantes do filme, Ricci esboça uma satisfação contradizente com o desespero que o caracteriza ao levar o filho à uma pizzaria, ele compra algo para o menino comer com o dinheiro que sobrara do empenho das roupas, em uma outra mesa no mesmo local estão um grupo de pessoas aparentemente abastadas que esbanjam dinheiro com coisas que Ricci jamais poderia comprar.


Perto do final do final do filme, há uma sequência (que eu não pretendo comentar para não servir de spoiler) que mostra perfeitamente que nele não heróis ou vilões, são todos vítimas de uma realidade opressora que se sobrepõe a questionamentos morais e éticos, esta passagem, junto com o desfecho, comprovam que o importante no filme não é a trama em si, mas a forma com que serve de recorte de uma sociedade que se encontra em ruínas... Não sei se proposital ou não, mas há em Ladrões de Bicicleta uma referência irônica ao cinema escapista, que se contrapõe ao neorrealista; Antonio, como eu já disse, consegue o emprego de colador de cartazes de cinema, mas os filmes em si fazem pouco ou nenhum sentido para ele, o cartaz que ele colava no momento que sua bicicleta fora roubada era do filme Gilda (1946)o rosto da belíssima atriz Rita Hayworth, estampado nele, aparentemente não lhe despertava atração ou qualquer tipo de sentimento; sutilmente isso mostra o quanto o cinema que estava sendo reproduzido na Itália da época estava distante da realidade social do país.


Pode-se perceber também na narrativa de Ladrões de Bicicleta diversos elementos melodramáticos, a presença deles na verdade era uma das marcas do movimento neorrealista, no filme há por exemplo uma sequência na qual Antonio impede sua esposa de dar dinheiro à uma vidente que previra que ele conseguiria o trabalho, esta passagem nos induz a crer que as peripécias que lhe acometem a partir de então são decorrentes desta atitude (o que pressupostamente invalidaria a crítica social que o longa faz). Contudo o uso de tais elementos se dá de forma sóbria, deixando que o foco permaneça no realismo e não em tais elementos dramáticos, como acontece em diversas passagens do já citado Roma, Cidade Aberta (1945) de Roberto Rossellini.


Um dos aspectos artísticos que mais chamam a atenção no filme são as atuações, principalmente porque todo o elenco era composto de atores amadores, a verdade que percebemos em suas atuações vem de suas próprias vivências, eles estavam encenando algo que lhes era familiar e talvez por isso ele estejam tão bem e tão convincentes em seus respectivos personagens. Lamberto Maggiorani e Enzo Staiola estão extraordinários, eu ousaria dizer que boa parte do sucesso que o filme goza até hoje dentre diversos públicos vem da força de tais atuações, não tem como não se comover com o olhar tristonho e indagante do menino e com a expressão de desespero e desesperança esboçada pelo pai... Carlo Montuori, o diretor de fotografia, se valeu da iluminação natural para capturar as imagens externas e o resultado de seu trabalho foi soberbo, seus enquadramentos valorizam não só os personagens, mas também as locações, que emitem mensagens tanto quanto os diálogos. 

Ladrões de Bicicleta é um clássico absoluto, um filme que beira a perfeição e que não envelheceu mesmo depois de mais de 60 anos... É portanto ultra recomendado para todos! 


O filme ganhou o Oscar Honorário de Melhor Filme Estrangeiro, tendi sido indicado ao prêmio também na categoria de Melhor Roteiro.

Assistam ao trailer de Ladrões de Bicicleta no You Tube, clique AQUI !

A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra,

Post dedicado ao amigo André Mansim, editor do blog Verdades e Bobagens, que foi quem me sugeriu que eu revesse este filme e publicasse a crítica dele aqui no Sublime Irrealidade.

domingo, 17 de junho de 2012

Tiranossauro

Tiranossauro (Tyrannosaur) - 2011. Dirigido e Escrito por Paddy Considine. Direção de Fotografia de Erik Wilson. Música Original de Dan Baker e Chris Baldwin. Produzido por Diarmid Scrimshaw. Inflammable Films e Warp X / UK.


Tiranossauro (2011) marca a estreia do ator Paddy Considine como diretor e roteirista em um longa-metragem, este filme nasceu de sua primeira incursão do outro lado das câmeras, que resultara no curta Dog Altogether (2008), que já trazia em sua trama alguns dos personagens que seriam revisitados neste primeiro longa. Considine nos surpreende da melhor forma possível, tanto pelo seu roteiro quanto pelo seu trabalho de direção e o resultado disso é um filme consistente, maduro e sem arestas a serem aparadas. Sua história foge de fórmulas fáceis e de qualquer tentativa de se tornar superficial, nela não há amenizantes e nem nada que fossa servir como alívio para o drama doloroso e denso que ele explora.

O filme fala sobre desestruturação familiar, violência urbana e busca por redenção e ao abordar tais temáticas ele acaba se tornando um retrato sombrio da degradação do gênero humano. Um de seus maiores trunfos é que seus personagens não são unilaterais, apesar de eles lidarem com duros problemas e apresentarem uma conduta muita vezes repreensível eles são dotados de virtudes, porém o meio no qual eles vivem parece esgotar qualquer possibilidade de recomeço... Desde os primeiros minutos de duração, o roteiro deixa pairar no ar as questões centrais que irão nortear toda a trama: Até quando o sofrimento pode ser suportado? Há um limite para a perseverança?


Na história, Joseph (Peter Mullan) é um homem amargurado e embrutecido, seu comportamento, marcado por constantes explosões de violência, evidência um histórico de batalhas não ganhas, no qual o sofrimento se tornara uma constante. Percebemos desde o início do filme que o personagem não é tão somente uma vítima das circunstâncias, isto fica evidente pela culpa que ele carrega consigo, com a qual ele não consegue lidar. Ele reconhece que errou muito em seu passado, no entanto ele se vê como alguém incapaz de recomeçar, ele não acredita que seus atos possam ser perdoados, nem que seja possível algum tipo de redenção. Na primeira sequência do filme ele mata seu cachorro, naquele que seria apenas mais um de seus rompantes de violência, e a partir de então ele passa a se culpar também por isso...

O ataque covarde desferido contra o animal exemplifica o comportamento dúbio de Joseph e como o seu de lidar com a consequências de seus atos não pensados acaba influenciando todas as áreas de sua vida. Esta primeira sequência não está no roteiro por acaso, além de dar um gancho para algo que acontecerá perto do final do filme, ela ainda nos fornece o que seria a base do perfil psicológico do personagem. Através da forma com que ele lida com a perda do amigo canino e com a culpa advinda dela, compreendemos também a sua forma de lidar com as outras coisas que ele perdeu durante sua vida, incluindo a esposa e a esperança... Após mais um arroubo de agressividade, Joseph invade uma pequena loja da vizinhança e Hannah (Olivia Colman), a dona do estabelecimento, ao invés de tentar expulsá-lo o acolhe e ora por ele, este pequeno ato dela surge na história como lampejo de esperança para o viúvo solitário...


Hannah é altruísta e compassiva, ela compreende o sofrimento de Joseph e tenta o confortar, contudo ele novamente reage de forma agressiva, atacando a crença religiosa na qual ela se ampara e ironizando a sua presumida condição burguesa. Com suas palavras duras, ele acaba a machucando, ao tocar em uma ferida não cicatrizada que ela aparentemente tentava esconder. O que ele até então não sabia é que eles tinham muito mais em comum do que ele podia imaginar... Com o passar dos dias, eles vão conseguindo pouco a pouco superar as diferenças que vieram à tona na primeira vez que se encontraram e uma forte cumplicidade surge entre eles. Um acaba impactando na vida do outro reciprocamente e isso transforma a maneira com que ambos enxergam suas próprias realidades. A amizade que nasce entre eles não elimina o sofrimento de suas vidas, mas lhes dão, a ambos, uma nova oportunidade de recomeçar.


Tiranossauro é praticamente o avesso de um feel good movie, ele é pesado e incômodo e definitivamente não podemos esperar dele qualquer tipo de exaltação humanista ou catarse. Sua trama é assustadora por ser potencialmente real e seus personagens não passam de pessoas comuns, cujos comportamentos são na maioria das vezes uma resposta ao meio e não tão somente o resultado de uma natureza individual e intrínseca. Eu pessoalmente não creio na premissa defendida pelo filósofo iluminista Jean-Jacques Rousseau, que dizia que o homem em seu estado natural é bom, mas concordo com ele no tocante ao poder que a sociedade tem de corromper o indivíduo que está inserido nela e é este fenômeno que o filme ilustra brilhantemente.


O processo de degradação do indivíduo  é abordado de uma forma impressionante no longa; há uma cena na qual Joseph é ameaçado por um vizinho violento, que promete dar ordens ao seu cachorro para atacá-lo caso ele não pare de fazer barulho, esta é a primeira passagem do filme na qual vemos o viúvo tentando se conter, após desistir de peitar a briga ele diz para um cachorro: "Não é sua culpa companheiro, não é sua culpa...". Ele compreende que, tal como ele, o cão age em resposta a um estímulo externo e não de acordo com sua própria vontade. Percebemos então que não há tanta diferença entre o comportamento humano e o do animal, ambos podem ser violentos e o fato de não serem eles próprios a origem do estímulo que o tornam assim não os isenta da responsabilidade pelos danos que podem provocar e ambos, tanto Joseph quanto o cachorro estarão sujeitos a pagaram pelo o que estão fazendo, sem compaixão ou misericórdia....


Peter Mullan está ótimo no filme, ele consegue ser convincente mesmo quando o comportamento de seu personagem varia de um oposto ao outro, percebemos em cada passagem o resultado de sua total entrega à interpretação, todavia a melhor atuação do filme é indiscutivelmente a de Olivia Colman, ela está fantástica em um papel que é bastante complicado, na maior parte da história o sofrimento de sua personagem não está aparente, ele está camuflado sob uma máscara social, no entanto a atriz consegue expressar até esta dor que está internalizada, percebemos isso no olhar dela, nos gestos inseguros e na fragilidade que sua figura evoca. Todos os sentimentos da personagem são tão bem interpretados, que é possível perceber numa breve passagem o início da transformação que ela vivenciará durante o filme e que a levará a um ato supostamente inesperado.


A fotografia que explora cores frias, que remetem à condição dos personagens, e a trilha sonora, composta por canções lentas e melancólicas, são outros aspectos que merecem destaque e que ajudam a tornar este um dos melhores filmes de estreia de um realizador que assisti nos últimos anos. Paddy Considine provou que não é apenas um profissional querendo se aventurar em um território que lhe é desconhecido, ele sabia o que estava fazendo e mais, ele o fez da melhor forma possível. Estou certo de que boa parte do público apontará o incômodo que Tiranossauro é capaz de provocar como um defeito, quando este é na verdade um dos seus melhores aspectos, todavia não tenho dúvidas de que este é um filme que merece ser visto e refletido por todos... Recomendo!

P.S. Ao assistir o longa, preste atenção na inusitada referência a Jurassic Park de Steven Spielberg, que explica o porquê do título 'Tiranossauro'.

Tiranossauro ganhou o BAFTA de Melhor Filme Britânico de Estreia de um Roteirista, Diretor ou Produtor. No Festival de Sundance ele ganhou o Prémio Especial do Júri (Ficção Drama) e o de Melhor Realizador (Cinema Mundial - Ficção/ Drama), tendo sido indicado também ao Grande Prêmio de Juri (Cinema Mundial - Ficção/ Drama).

Assistam ao trailer de Tiranossauro no You Tube, clique AQUI !

A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra,