domingo, 24 de junho de 2012

O Quarto do Pânico

O Quarto do Pânico (Panic Room) - 2002. Dirigido por David Fincher. Escrito por David Koepp. Direção de Fotografia de Conrad W. Hall e Darius Khondji. Música Original de Howard Shore. Produzido por Judy Hofflund, David Koepp e Gavin Polone. Columbia Pictures Corporation, Hofflund/Polone e Indelible Pictures / USA.


Assisti O Quarto do Pânico (2002) pela primeira vez há alguns anos na TV aberta, dublado e repleto de cortes, apesar da péssima qualidade técnica forjada pelas circunstâncias, a impressão que eu tive dele foi bastante positiva, desde então eu sabia que precisaria revê-lo para assim formar uma opinião mais consistente sobre cada um de seus aspectos, afinal uma versão dublada e com cortes não serve como objeto de avaliação. A oportunidade de revê-lo surgiu há cerca de três meses quando um amigo me emprestou o DVD, pela falta de tempo e pela preferência dada a outros filmes que estavam na fila para serem assistidos, acabei deixando ele 'para depois' e só na semana que passou eu decidi assisti-lo  novamente. Cheguei mais uma vez à conclusão de que ele é um ótimo suspense e um típico filme de David Fincher, apesar de estar um tanto aquém das melhores obras do cineasta.

A história do longa começa de uma forma um tanto clichê; Meg Altman (Jodie Foster), que se separara recentemente do marido, muda com a filha pré-adolescente, Sarah (Kristen Stewart), para uma mansão localizada em Manhattan, uma das melhores regiões de Nova York. O casarão, típico de filmes do gênero, possui um bom número de aposentos, dentre eles um 'quarto do pânico', um cômodo blindado de onde pode-se monitorar, através de um circuíto fechado de TV, todo o restante da casa. À princípio este quarto parece ser apenas o fruto da excentricidade do antigo morador, um milionário, que foi quem o construiu, no entanto, logo na primeira noite após se mudarem, Meg e Sarah descobrirão o quão necessário aquele cômodo claustrofóbico pode ser.


Três ladrões invadem o casarão acreditando que ele ainda estava desocupado, são eles Burnham (Forest Whitaker), que aparenta ser o cabeça do grupo, Junior (Jared Leto), um jovem inconsequente e imediatista, e Raoul (Dwight Yoakam), um homem instável e violento (que fora levado por Junior sem o consentimento de Burnhan). Ao perceber a presença deles na casa, Meg se refugia junto com a filha no 'quarto do pânico', sem saber que é lá que supostamente está escondido aquilo que eles foram buscar. Através do circuíto fechado de TV, elas acompanham toda a movimentação deles pelos cômodos da casa, o que as deixa apreensivas pelo risco que estão correndo, mesmo trancadas no aposento blindado... Na mansão há um sistema de som que permite que um interlocutor possa se comunicar com o resto da casa através de um microfone que está instalado no 'quarto do pânico', Meg tenta usá-lo para afugentar os bandidos com ameaças e blefes, porém a tentativa acaba não funcionando. 


Nós espectadores ganhamos então uma perspectiva privilegiada do que está acontecendo na casa. Ao contrário dos personagens, nós sabemos de tudo que está acontecendo, tanto do lado de dentro quanto do lado de fora do 'quarto do pânico', podemos vê-los e ouvi-los e nada nos é escondido. Esta visão que nos é dada aproxima o suspense explorado pelo filme do modelo criado e aperfeiçoado por Alfred Hitchcock, no qual a tensão é proveniente não de algo que possa nos surpreender, mas daquilo que já está anunciado, que já sabemos de antemão que está para acontecer a qualquer momento. Fincher, que é um admirador confesso da obra de Hitchcock , soube usar muito bem esta fórmula em seu filme e para tal ele se valeu de um aparato tecnológico, que ajuda a nos passar a impressão de que podemos ver tudo e de que aquilo que vemos é potencialmente real.


O teórico Christian Metz, no livro A Significação no Cinema, defende que o movimento é o elemento capaz de conferir realidade à linguagem cinematográfica, para ele o movimento além de acarretar um índice de realidade suplementar ao filme, ainda dá corporalidade aos objetos mostrados no plano. Esta noção da importância do movimento é fundamental para que possamos compreender a significação de alguns planos-sequência usados por Fincher. Posso citar como exemplo um que está logo no início do filme, no qual a câmera passeia por praticamente todo o casarão, atravessando grades, paredes e pequenos orifícios. Nesta sequência de extrema importância narrativa, o filme nos situa no espaço no qual ele se desenvolverá e ainda reforça o impacto que ele provocará em nós, por mostrar que a casa e seus cômodos são objetos corpóreos e sendo assim potencialmente reais, o que consequentemente torna mais crível a trama que ali se desdobrará.


Se em outros filmes de David Fincher, como Vidas em Jogo (1997) e Clube da Luta (1999), personagens eram tirados de suas vidas convencionais e imersos no submundo, neste acontece um fenômeno oposto, nele é o submundo que de repente invade a vida das personagens e desmonta o convencionalismo dela... Em sua trama O Quarto do Pânico aborda questões cada vez mais atuais como a sensação de insegurança crescente e a tendência de se transformar ambientes domiciliares em verdadeiras fortalezas. É esta questão da segurança violada que é capaz de nos deixar temerosos e apreensivos diante do filme. Ao vermos a ilusão que as personagens tinham de estar seguras ser desfeita, passamos a temer pela nossa própria segurança, afinal o filme já nos mostrou que a sua trama é potencialmente real e que nós estamos ainda mais desprotegidos que Meg e Sarah, por não termos à nossa disposição sistemas de segurança avançados, nem um quarto blindado onde nos refugiarmos quando o perigo bater à nossa porta.


Algo curioso, sobre o qual eu não pude deixar de refletir, é a possibilidade de analisarmos este filme como uma metáfora do temor vivenciado nos Estados Unidos pós 11 de setembro. Mesmo não tendo nenhuma referência ou relação direta com os atentados, que ocorreram 6 meses antes de seu lançamento, o longa retrata bem a sensação de vulnerabilidade que acometera uma boa parcela da população americana depois dos ataques. O que o filme faz, ainda que de forma não proposital, é trazer esta sensação de ameaça constante do ambiente macro para o micro e é então que percebemos que a há um forte paralelo entre a ameaça à segurança nacional, representada pelos terroristas e à ameaça à segurança de nosso próprio lar, representada no filme por bandidos quase amadores...


Jodie Foster, que ganhou o papel que seria da Nicole Kidman, dias antes do início das filmagens, está muito bem em um papel que é sim bastante complexo, ela consegue dar credibilidade à sua personagem e à situação aflitiva vivida por ela. A Kristen Stewart, que mais parece um menininho no filme, não faz feio, sua atuação chegou a ser bastante elogiada na época do lançamento do filme. Forest Whitaker também chama atenção pelo seu desempenho na pele do bandido que está em constante conflito com sua própria postura e com a atitude dos colegas... O roteiro de O Quarto do Pânico é muito bem escrito (apesar de simples), ele somado às mensagens que nos são passadas através da montagem, dos enquadramentos e das rimas visuais, compõe um verdadeiro quebra cabeça, que à medida que deciframos podemos antever diversos desdobramentos da história. Este é um filme que merece ser visto e revisto, com a devida atenção aos pequenos detalhes, que fazem toda a diferença para a trama. Recomendo!


Assistam ao trailer de O Quarto do Pânico no You Tube, clique AQUI !


A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra.

30 comentários:

  1. Bruninho, adoooooooro esse filme! Já assisti umas 3 vezes.

    Ela conseguiu me deixar mais do que aflita, com sua atuação. Senti como se estivesse dentro do quarto do pânico, com ela e a Kristen(que para mim tbem fez bem seu papel... acho que era para ela parecer um menininho mesmo. Tipo, uma menina sem grandes vaidades fúteis... bem alternativinha... rsrsrs)

    Ah, estou aqui comentando sem o perfil pq como vc sabe o blogger andou sacaneando comigo! não estou conseguindo acessar... mas, vou ficar torcendo para que logo volte ao normal!

    bjks JoicySorciere => CLIQUE => Blog Umas e outras...

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    1. Ela(jodie foster)... faltou para complementar a frase

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    2. Olá Joicy!!!
      Eu gostei bastante da atuação da Kristen, eu sou um dos que sempre a defendem, infelizmente ela ficou queimada por causa da famigerada saga da qual ela participou, no entanto ela é sim uma boa atriz, apesar de ser limitada em alguns aspectos...

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  2. Eu acho esse filme extremamente bem dirigido e com um excelente apuro técnico proposto por Fincher. Seu texto percorre bem as principais sensações do filme, só que, diferente de ti, eu acho que o filme é muito bom mesmo - é claro que, óbvio, não chega perto dos seus grandes trabalhos. Mas, ainda assim, é um filme instigante e com um suspense perfeito. Foster aqui num grande momento, ainda bem que foi ela a escolhida, não sei se Kidman se enquadraria aqui. E é bom ver Stewart numa atuação boa, bem antes do seu sucesso.

    Abração!

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    1. Olá Cris!!!
      Eu também não consigo imaginar a Nicole no papel, acho que a Foster estava tão bem que parece que a personagem foi escrita para ela vivê-la. Como eu disse no texto, eu não o considero um dos melhores do Fincher, mas ele é sem dúvidas um ótimo suspense, um dos melhores dos últimos anos!

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  3. Gostei muito da sua crítica, e principalmente quando reparou o movimento quase que instável das câmeras do Fincher. E é tenso! ótimo filme! abraço. até mais...

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    1. Que bom que gostou Matheus, o domínio da técnica que o Fincher tem contou para a construção da tensão que leva ao suspense, realmente é um grande filme!

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  4. Bruninho, tudo bem?
    Excelente resenha, pois tenho que te confessar que não me atrai tanto pelo filme na época, relendo tua resenha me veio a cabeça algumas coisas que completaram a minha interpretação.
    Não sei se você sabe que é verídico que várias casas no EUA e, principalmente, na Itália são vendidas com o 'panic room' aqui falo de mansões, claro. Mas é real a existência nas construções atuais de luxo o quarto do pânico.
    Penso que você acertou definitivamente quando disse tratar-se de um roteiro simples, e concordo que os movimentos de cena, bem como as interpretações abrilhantaram o filme.
    Beijos e ótima semana!

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    1. No ano passado passou uma reportagem sobre o aumento dos 'panic roons' no Fantástico, na matéria chegaram a citar o filme e disseram que na época que ele foi lançado aquele ainda era um fenômeno raro e hoje ele se espalha... Ponto negativo para a sociedade, positivo para o roteiro!

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  5. Boa tarde, José Bruno.
    Também vi esse ótimo filme anos atrás dublado na tv aberta, o que de fato o desmereceu um pouco.
    Fincher é especialista em situações de suspense envolvendo conflitos pessoais e ambientes escuros, e acho que é isso que mais gosto em seus trabalhos (vi poucos dias atrás Millennium - Os Homens que não Amavam as Mulheres e achei excelente, fiquei com vontade ver a trilogia original).
    Detesto realmente a Krysten Stewart, mas aqui ela está bem, nesta fase pré Crepúsculo.
    Abraço, José Bruno.

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    1. Eu me simpatizo com ela como atriz, talvez porquê eu tenha me mantida afastado da franquia de Crepúsculo desde que assisti o primeiro, ela não é uma atriz extraordinária, mas tem boas atuações no currículo...

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  6. Oi Bruno
    Finalmente um filme que eu assisti (kkkkkkk), eu adoro a Jodie Foster, e esse filme é de arrepiar, muito bom! Ótima resenha Brunão.
    Bjão e uma ótima semana.

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    1. Olá Luciana!!!
      A Judie é ótima, eu também gosto muito dela. Lhe recomendo os outros filmes do David Fincher, Luciana, acho que você irá gostar!

      Beijão!

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  7. Oi Bruno,

    Tudo bem? Adoro esse filme, pois sempre percebo o quarto como a nossa própria escuridão. Já falei a você que os filmes de terror foram as minhas primeiras paixões, pois cresci lendo S. King. Hoje não encontramos boas produções como esta e Mateus sempre diz que é devido ao baixo orçamento. Sinto falta de grandes produções que se distanciam dos terríveis Premonição.

    Parabéns pelos detalhes!

    Beijos.

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    1. Uma coisa que percebo é que nossos medos mudaram, já não nos assustamos mais com questões metafísicas, monstros e coisas do tipo e é por isso que filmes como "O Quarto do Pânico" criam um suspense tão consistente, é por falarem de medos reais, que não nos são estranhos e infelizmente a grande parte das produções atuais do gênero valorizam o sobrenatural em detrimento do que é real e de fato assustador...

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  8. Olá!Boa noite!
    Tudo bem?
    ...parceiro...eu também tinha assistido na TV, mas nem me "lembrava" que era do Fincher ( se não me engano,foi após o " Seven", não?).Você "apurou" nos detalhes , como bom cinéfilo que é! Tal como aqui lá!A Polícia chega e invade DEPOIS de toda a TRAGÉDIA.O roteiro é bem simples, mas, nos consegue manter grudado na tela durante todo o filme.O clima claustrofóbico, tensão e medo,é "passado" para o telespectador. As atuações de Jodie e Forest, salvam o filme, por causa de algumas cenas desnecessárias...
    Bela resenha...gostei do que li!
    Obrigado pela visita!
    Boa semana!
    Abraços

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    1. Olá Felisberto!!!
      Terei que discordar de ti, eu gosto muito do roteiro e nenhuma cena no filme é dispensável e isso tem a ver com o cuidado do Fincher com os pequenos detalhes, como eu disse no texto, há um quebra-cabeça sendo montado desde a primeira sequência e estas cenas que parecem descartáveis são peças importantes deste quebra-cabeças...

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  9. Esse filme é ótimo , um suspense incrivelmente agonizante! Mais é ótimo! Adorei a resenha, muito bem feita. Beijão, www.spiderwebs.com.br

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    1. Obrigado Sabrina!
      O filme é ótimo mesmo!

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  10. Olá Bruno,

    Como disse o parceiro acima, Felisberto, o roteiro é bem simples, no entanto consegue aquilo que se propôs, ou seja, prender nossa atenção do início ao fim, com fórmulas já muito conhecidas de qualquer apreciador do gênero.


    Abraços Flávio.
    --> Blog Telinha Crítica <--

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    1. Pois é, a fórmula é a mesma criada por Hitchcock e este é o tipo de suspense que eu gosto, pena que os contemporâneos estejam investindo em outros tipos de abordagem...

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  11. Interessante os dados curiosos levantados por você Bruno. Mencionar Hitchcock, por exemplo, que sem dúvida é bem evidente nesta subestimada obra de David Fincher. É um filme tenso e que não foi muito bem avaliado na época. Eu vi pela primeira vez no cinema e simplesmente achei interessante a forma técnica utilizada por Fincher para conceber tomadas e sequências de fazer roer as unhas.

    Um dos poucos, provavelmente o único filme com a Kristen Stewart que eu gosto. Ela está ótima como a menina diabética e Jodie Foster? Bom, dispensa comentários! Também fico imaginando a Nicole Kidman no papel, creio que seria tão interessante quanto o trabalho de Foster, que se tornou típica neste papel de heroína física desde "O Silêncio Dos Inocentes".

    Abraço.

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    1. A atuação da Jodie Foster é um dos melhores aspectos do filme, sem dúvidas, como eu disse num dos comentários acima, eu também não consigo imaginar a Nicole no papel. Com a Kristen Stewart, eu lhe recomendo "O Segredo de Melinda", que é um filme muito bom e conta com uma das melhores atuações dela...

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  12. Adoro este filme e vc falou tudo, outro filme que eu adoro e acho que vc ainda não falou dele aqui é Valente com a Jodie Foster tbm... muito bom o filme e recomendo!! Bjs

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    1. "Valente" é muito bom mesmo, eu gosto muito da atuação dela no filme, eu vi na época que ele foi lançado em DVD e depois não vi de novo, vou colocá-lo na lista para revê-lo em breve!

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  13. Acho que o filme começa e se desenvolve bem, mas o seu desenlace é meio pobre. Parece que as coisas se simplificam demais, o que é chato. Mas acho bacana o filme...

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    1. Percebo esta como uma característica presente em diversos filmes que exploram o mesmo tipo de suspense, neles o atrativo está é no desenvolvimento e não no desfecho, isto pode ser percebido até e alguns filmes do Hitchcock...

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  14. Olá amigo, eu gostei muito desse filme, realmente é muito bem escrito e a Jodie Foster dá um show, adoro ela, pena que anda sumida eu acho! Abraçooosss

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    1. Kellen, lhe recomendo "Deus da Carnificina", filme que estreou se não me engano o mês passado nos cinemas nacionais, ele traz uma excelente atuação da Judie Foster... Publiquei a resenha dele aqui no blog, confira depois!

      Forte abraço!

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  15. O que mais deixa tenso no filme é como ele soa próximo... Qualquer um pode sofrer com uma ação destas, um ladrão, um sequestrador, um bandido... Falta segurança e sabemos disto. Taí o "charme" do filme. Gosto dele, já revi e continuei gostando - assim como vc.

    ;D

    P.S: Sempre esqueço que a menina é a Kristen! ehhehehe

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