sábado, 9 de fevereiro de 2013

O Voo

O Voo (Flight) - 2012. Dirigido por Robert Zemeckis. Escrito por John Gatins. Trilha sonora original composta por Alan Silvestri. Direção de Fotografia de Don Burgess. Produzido por Robert Zemeckis,  Laurie MacDonald, Walter F. Parkes, Jack Rapke e Steve Starkey. ImageMovers, Paramount Pictures e Parkes/MacDonald Productions / USA.


Whip Whitaker (Deznel Washington) se tornou um herói depois de conseguir pousar um avião em condições totalmente adversas, haviam 102 pessoas a bordo (97 passageiros e 5 tripulantes), seis morreram, um número relativamente baixo, pois se não fosse pela manobra arriscada feita por ele, provavelmente ninguém teria sobrevivido. O que se disse após o acidente é que nenhum outro piloto teria conseguido fazer o que ele fez, no entanto, a aclamação durou pouco tempo, pois o exame toxicológico realizado com todos os membros da tripulação apontou que Whip tinha uma alta concentração de álcool em sua corrente sanguínea. Ele, que tinha passado a noite com Nicole (Kelly Reilly), uma das comissárias de bordo, tinha bebido muito e dormido pouco. Pela manhã, ao acordar, ele ainda usou cocaína para esconder os efeitos da forte ressaca, que quase o impediu de levantar da cama. Da noite para o dia ele deixa de ser o 'herói americano' para se tornar um suspeito de assassinato, que corre o risco de ser condenado à prisão perpétua. 

Charlie Anderson (Bruce Greenwood), representante do Sindicato dos Pilotos, oferece apoio e assessoria jurídica para Whip, cuja imagem de herói é desfeita à medida que revelações acerca do seu estado psicológico durante o voo vêm à tona, alimentando assim o sensacionalismo midiático. Hugh Lang (Don Cheadle), o advogado contratado para trabalhar no caso, teme que o próprio piloto estrague tudo com seu comportamento autodestrutivo. Whip tenta se esquivar das acusações, porém, à medida que a trama se desenrola sua situação vai se complicando ainda mais, deixando evidente aquele que é o seu maior problema, o alcoolismo. Ele, que é completamente dependente da bebida, não consegue se manter longe dela e isso deixa sua imagem ainda mais fragilizada, colocando em risco não só sua integridade profissional, mas todos os seus relacionamentos...


O Voo (2012) marca a volta de Robert Zemeckis ao formato live action depois de mais de uma década trabalhando com a captura de movimento (motion capture), este definitivamente não é um de seus melhores trabalhos, mas também não é um filme ruim, longe disso, o ritmo de desenvolvimento da sua trama é bom, as cenas que retratam o acidente aéreo são excelentes e  o trabalho de composição da mise-en-scène é ótimo, através dele o filme busca dar o devido destaque para objetos cênicos, que ajudam a construir a percepção sobre os eventos retratados, preste atenção na forma com que os enquadramentos valorizam cada ambiente, reforçando assim a ideia de que eles são extensões do estado psicológico do protagonista. A presença de garrafas e latas de bebidas, por exemplo, reforçam a ideia de que a dependência não é uma coisa nova na vida no piloto e pequenos detalhes nos remetem àquilo que ele busca como forma de redenção: seu próprio passado e a figura do pai, que também fora aviador.


As atuações constituem um outro ponto alto do filme,  Denzel Washington está realmente muito bem, sua indicação ao Oscar foi justa, a forma com que ele constrói seu personagem está de acordo com a proposta do roteiro de humanizá-lo, não retratando-o como vilão ou herói. Mesmo nos momentos em que questionamos sua suposta inocência, não conseguimos lançar sobre ele um veredito condenatório, tamanha sua dubiedade. A força da atuação de Washington fica ainda mais evidente nos momentos de fraqueza de seu personagem, ele expressa muito bem a angústia que o piloto experimenta ao se ver pressionado e a decadência moral provocada pelo vício que ele não consegue controlar... Destaco ainda as interpretações de John Goodman, que faz um traficante de drogas, de Kelly Reilly, que vive uma junkie e a de Don Cheadle, como o já citado advogado do caso. Ao meu ver, o desempenho de cada um deles contou muito para o resultado final do filme, amenizando o efeito de alguns problemas que despontam em seu último ato. 


O roteiro peca ao tentar dar à história um desfecho moralista calcado na redenção do personagem, recorrendo para tanto a clichês que chegam a comprometer o impacto provocado até então pelo realismo angustiante de sua decadência. A trama também peca por não dar o devido destaque para alguns dos personagens secundários, deixando dúvidas acerca da importância deles para a narrativa, dentre estes não tão bem explorados está a jovem vivida pela Kelly Reilly, que desaparece da trama antes de ter mostrado a que veio. Outro problema surge com a percepção de que Whip é o único personagem detentor de alguma profundidade, sendo os demais apenas coadjuvantes, cujas personalidades frágeis são delineadas apenas pela suas respectivas interações com o protagonista, em alguns momentos suas atitudes pareçam ser contraditórias, denotando uma má construção ou furos na narrativa...


O Voo é um bom filme, não tenho dúvidas disso, contudo, seus pequenos tropeços o impedem de se tornar memorável, infelizmente seu último ato coloca muita coisa a perder, inclusive as reflexões que poderiam surgir da abordagem do alcoolismo e do drama relacionado a ele. Se Robert Zemeckis e John Gatins tivessem conseguido tocar neste tema, que continua sendo difícil de ser retratado e assimilado, sem a influência pedante dos moralismos o filme tinha tudo para estar em minha lista pessoal dos melhores do ano, uma pena que não tenha sido desta forma. Contudo, recomendo! 


O Voo está indicado ao Oscar nas categorias de Melhor Ator (Deznel Washington) e Roteiro Original. 

Assistam ao trailer de O Voo no You Tube, clique AQUI !

A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra.

4 comentários:

  1. Todos lugares que leio dizem o mesmo.....poderia ser nota 10 mas algo falhou na direção e na conclusão.....

    Vale a visita pelo ótimo Denzel....como sempre.

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  2. Amigo revi hoje O LAdo Bom da Vida......e tive um pouco da sensação que você teve em relação aos clichês do roteiro e o elenco.

    Ainda gosto do filme......muito. Porém, acho que capitei um pouco da sensação que você teve. A segunda vez não foi tão "perfeito".

    abs

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  3. Acredito que o filme não seja moralista na sua essência. Vejo os conselhos dados por todos como um meio de entendermos o lado d Whip: a nós e a Whip, esse moralismo parece falso e enganador, porque esconde o livre-arbítrio (como na cena em que discute com a ex-viciada. Whip, como nós, está cansado do clichê. Acredito que o final é um anti-clímax porque ele se torna um clichê. Um discurso que poderia ser sobre redenção, escolhas,etc, se tornou "a moral da historia".
    Quanto aos personagens, achei que foram desperdiçados. A única coisa que me fez assistir até o final foi a atuação de Denzel. A conclusão decepcionante fez dele um filme facilmente esquecível para mim.

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  4. Olá, José Bruno.
    Robert Zemeckis é um de meus diretores hollywoodianos preferidos, e é ótimo vê-lo novamente dirigindo filmes me live action, por isso, mesmo que o resultado final deste longa tenha ficado abaixo das expectativas, creio que ele mereça ser visto.
    Abraço.

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