domingo, 24 de fevereiro de 2013

Lincoln

Lincoln (Lincoln) - 2012. Dirigido por Steven Spielberg. Escrito por Tony Kushner, baseado no livro de Doris Kearns Goodwin. Direção de Fotografia de Janusz Kaminski. Música Original de John Williams. Produzido por Steven Spielberg e Kathleen Kennedy. DreamWorks SKG, Twentieth Century Fox Film Corporation e Reliance Entertainment / EUA.


Dramaticamente, Lincoln (2012) de Steven Spielberg representa uma grande evolução quando comparado com o seu antecessor, o irregular Cavalo de Guerra (2011), no entanto, mesmo eu tendo gostado bastante dele, não tenho como negar que ele tropeça em problemas que têm sido recorrentes em alguns dos últimos trabalhos do cineasta. Os mais graves deles são o excesso de melodrama e a superficialidade com que a história é contada. Lincoln transita por um caminho conhecido, mas ainda assim perigoso, onde um pequeno acidente pode causar um grande desastre, o dos dramas históricos/biográficos. O primeiro risco que este tipo de produção corre é o de se tornar atrativa apenas para o público que já conhece ou que está de alguma forma ligado aos fatos nelas contados, já o segundo diz respeito à romantização dos acontecimentos, que ocorre quando a precisão histórica é deixada de lado em favor da construção de mitos e heróis.

O longa de Spielberg esbarra nas duas situações listadas acima e isso o prejudicou muito, tanto junto à crítica, quando ao público médio, este geralmente menos exigente, diante do qual o diretor ainda possui um forte apelo. Pela forma com que a trama do filme é construída, já podemos descartar a possibilidade de que ele venha a ser uma unanimidade, o ritmo relativamente lento e a falta de ação tende a desagradar a parte do público que esperava dele uma secessão de clímax e apelos emocionais (tal como foi em Cavalo de Guerra), isso por outro lado poderia agradar um público restrito, aquele que valoriza a precisão da reconstrução de uma época e o detalhismo dos diálogos e relações, todavia, isso também não acontece. Apesar de ser um filme predominantemente de conversas, discussões e debates, o que se sobressai nele não é a fidelidade aos acontecimentos, mas a simplificação do contexto no qual o personagem central está inserido.


O longa busca recriar os últimos meses de vida do presidente americano Abraham Lincoln (Daniel Day-Lewis) e a batalha dele para conseguir aprovar a 13ª emenda constitucional, que abolia a escravidão no país. Ele, que estava entrando em seu segundo mandato, via no fim da escravatura uma forma de alcançar a igualdade entre os homens, na qual acreditava, e de dar um fim à guerra civil que já tinha feito centenas de milhares de mortos. Para conseguir a aprovação da emenda ele se rende a meios escusos, como a compra de votos e as chantagens políticas. Mas, mesmo estando envolto numa rede de ações, que podem facilmente ser classificadas como corrupção, Lincoln se mantém firme em seu propósito, crendo que o fim justifica os meios... O roteiro de Tony Kushner perde a ótima oportunidade de explorar melhor a dicotomia da controversa postura do presidente, por saber que isso poderia macular a imagem de herói atribuída a ele.


Mesmo tendo um bom número de personagens com relativa importância, a trama não é confusa, com pouco tempo de duração já fica fácil distinguir quem está de qual lado e quais são seus propósitos, a superficialidade dos personagens é um dos fatores que contribui com isso, mas reconheço que este é um aspecto que ao menos torna o filme mais fácil de digerido pelos mais desatentos (ainda que estes o acusem de ser sonolento, não podem o classificar como confuso). É interessante a forma com que o filme retrata alguns dos personagens que estão à volta de Lincoln, como o filho primogênito Robert (Joseph Gordon-Levitt), que sente o peso de ser filho de quem é; a esposa Mary Todd (Sally Field), que não consegue superar a perda de um outro filho e Thaddeus Stevens (Tommy Lee Jones), um congressista abolicionista que age movido pela paixão e que em dado momento se vê obrigado a negar alguns de seus ideais em nome do jogo político; todos estes personagens trazem consigo marcas de suas respectivas relações com o protagonista...


Cinematograficamente, Lincoln é um sem dúvidas um bom filme, seu ritmo, apesar de lento, não é cansativo e está condizente com o foco político dado à trama. Se conseguirmos deixar de lado todas as falhas de seu roteiro, perceberemos melhor aquilo que o torna uma grande obra. As atuações são de longe o seu melhor aspecto, o Daniel Day-Lewis está estupendo, não é a toa que eu o considero o melhor ator em atividade, sua construção meticulosa do personagem é deixar qualquer um boquiaberto, não só pela semelhança física, mas por cada um dos trejeitos, pelo tom de voz e pela expressão facial, elementos estes que denotam uma sutileza incrível, que só um ator com tamanha habilidade poderia explorar. Sally Field e Tommy Lee Jones também entregam excelentes desempenhos, que justificam suas indicações ao Oscar


A direção de arte, figurinos e fotografia evidenciam um enorme cuidado na reconstrução de época que faz, é impossível não se deslumbrar com a beleza estética de cada fotograma. Dentre os aspectos técnicos, a trilha sonora, composta pelo John Willians, é um dos únicos problemas que prejudicam o longa, ela busca despertar no espectador sentimentos que deveriam surgir naturalmente, sem apelos, isso a torna massante e excessivamente melodramática (tal como o foi em Cavalo de Guerra).



Acredito que Lincoln tenha funcionado com uma facilidade maior junto ao público médio dos Estados Unidos, que não é indiferente à história que ele conta e que provavelmente não percebeu as falhas de seu roteiro, isso explica a badalação em torno dele na maior parte das premiações que aconteceram por lá. Reafirmo que ele não é um filme ruim, no entanto, acho um tanto exageradas suas indicações aos Oscars de Melhor Filme e Direção, uma vez que ele não consegue ir muito além das limitações que seu próprio roteiro lhe impõe, e discordo completamente das indicações recebidas nas categorias de Roteiro Adaptado e Trilha Sonora Original, pois estes são de longe seus aspectos mais irregulares... Recomendo para todos (com as ressalvas comentadas no texto)! 


Lincoln está indicado ao Oscar nas categorias de Melhor Filme, Diretor, Ator (Daniel Day-Lewis), Atriz Coadjuvante (Sally Field), Ator Coadjuvante (Tommy Lee Jones), Roteiro Adaptado, Trilha Sonora Original, Fotografia, Figurino, Direção de Arte, Montagem e Mixagem de Som.

Assistam ao trailer de Lincoln no You Tube, clique AQUI !

A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra,

5 comentários:

  1. "Os mais graves deles são o excesso de melodrama e a superficialidade com que a história é contada. " disse tudo o que penso sobre o filme.

    Gostei, porém, fiquei meio...decepcionado.

    Agora a atuação de Daniel Day-Lewis, é piada, de tão genial.


    abs

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  2. Oi Bruno
    Pena que eu não consegui assistir ao filme antes do Oscar, já estava com vontade de assisti-lo, agora muito mais kkkk.
    O Daniel (ator) é tudo de bom mesmo kkkkk. O Daniel (meu fiho), sou suspeita, obrigada por prestigiá-lo no blog do Paulo Cheng.
    Bjos. Fique com Deus!

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  3. The Oscars goes to...

    Brilhante resenha meu amigo!
    Até fiquei chateada por Sally não ter levado nenhuma estatueta :(
    Nossa eterna Norma Rae foi injustiçada e Helen Hunt too(coisas de fã,rs)
    bjos

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  4. José Bruno, eu tenho uma história com este filme que não foi muito feliz. Não pelo filme... que a meu ver foi excelente. Contudo, assisti num sábado, em meu primeiro dia da Mostra de Cinema que aconteceu aqui em Gyn(vc lembra que comentei).

    A questão é que eu quis abraçar o mundo com as pernas e antes de assistir Lincoln, havia visto outros dois filmes super intensos (Um alguém apaixonado, do mestre Kiarostami e Después de Lucia, de Michel Franco... este último foi um verdadeiro soco no meio de meu estômago).

    Acompanhe minha saga, deste dia. Cheguei lá por volta das 16 h... vi dois filmes e às 22h fui assistir o último de minha saga cinéfila, Lincoln.

    Agora me diga se não foi loucura minha, vendo a magnitude deste último filme, com diálogos intensos e longos, com toda uma questão histórica por trás!? Resultado? Saí do cinema por volta da 1h da madrugada, morta de cansada e afirmo sem preocupação alguma que simplesmente não consegui aproveitar este último filme. O que aprendi com isso?

    1º - Ter paciência é fundamental
    2º - nunca assistir dois filmes fortes(como os que citei acima) antes de qualquer outro filme. Filmes intensos devem ser digeridos separadamente.

    Mas, tudo é válido... o tal ditado, vivendo e aprendendo!

    bjks

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  5. Olá, José Bruno.
    Apesar de eu gostar do estilo do Spielberg, não quis e nem quero assistir Cavalo de Guerra por achar o tema apelativo e excessivamente melodramático, mas Lincoln é um filme que ainda pretendo ver, mesmo sabendo da alteração dos fatos reais presente nele.
    Abraço.

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