sábado, 16 de abril de 2011

A Fraternidade é Vermelha

A Fraternidade é Vermelha (Trois Couleurs: Rouge) - 1994. Dirigido por Krzysztof Kieslowski. Roteiro de Krzysztof Kieslowski & Krzysztof Piesiewicz. Música de Bertrand Lenclos & Zbigniew Preisner. Direção de Fotografia de Piotr Sobocinski. Produzido por Marin Karmitz. CAB; France 3; Canal+; MK2; Tor & TSR / França-Polônia-Suiça.

 

Tive algumas restrições quanto ao A Igualdade é Branca (1994), o primeiro filme que assisti da Trilogia das Cores. Como deixei claro na resenha que postei aqui no Sublime Irrealidade, algumas coisas na trama me pareceram estar desconexas, cheguei até a questionar a qualidade da obra em alguns momentos. Porém descobri que o problema não era o filme e sim a minha falta de entendimento. O segundo, pela ordem que escolhi assistir, realmente mudou meus conceitos sobre o primeiro e através dele eu finalmente compreendi onde estava a genialidade do diretor. A Fraternidade é Vermelha (1994), cronologicamente o último filme da Trilogia de Krzysztof Kieślowski, é simplesmente soberbo! Acho que não é exagero nehum dizer que o filme beira a perfeição. A trilha sonora é linda e a fotografia é exuberante, principalmente nas sequências em que a imagem é tomada pelo vermelho, que explode sobre o cenário para representar paixões, dores e outras emoções dos personagens. A câmera em travelling, que passeia graciosamente pelas cenas, sem deixar de registrar as circunstâncias mais banais, que ajudam a compor a gama de signos que o filme nos oferece, é mais uma vez um aspecto que precisa ser destacado.

As atuações de Irène Jacob e Jean-Louis Trintignant também são ótimas, ambos os atores, se entregam aos seus respectivos personagens de uma forma quase sobrenatural. As interpretações não parecem em nenhum momento superficiais e conseguem transmitir toda a densa carga emocional que os personagens trazem consigo. Preste atenção nas expressões facias, nos olhares e nos simples movimentos de cada uma deles, é todo sublime. Com uma excelente produção técnica e ótimas atuações só faltaria um bom roteiro e uma mente brilhante por trás das câmeras, para não por tudo a perder e assim tornar o filme um verdadeiro clássico moderno. É este o ponto em que eu queria chegar, pois é justamente o roteiro e a direção que merecem os maiores destaques, tais aspectos acentuam o poder desta obra e a transforma num dos filmes mais belos e mais importantes da década de 90.

 

Na história, a modelo Valentine Dussaut (Irère Jacob) estava voltando para casa quando acidentalmente atropelou uma pastora alemã, ela recolheu a cachorra que está ferida em seu carro e a levou ao endereço indicado na coleira. A cadela pertencia a um juiz aposentado (Jean-Louis Trintignant), que tomado pela angústia existencial, passava a vida espionando as ligações telefônicas de seus vizinhos, através de um aparelho que captava ondas de rádio. O contato de Valentine com o juiz irá mudar as vidas de ambos, mas não sem antes acontecer um verdadeiro choque entre a ética pessoal de cada um e a forma com que eles encaram a vida. A vida pessoal de Valentine não está legal, o namorado que está em Londres não a dá a atenção e a importância que ela merece, o irmão mais novo está envolvido com o crime e com com drogas, mas apesar de tudo, ela mantém uma visão positiva do mundo, ao contrário do juiz que não consegue mais acreditar nas pessoas e não tem mais esperanças em relação à próprio vida.

 

É curiosa a forma com que a questão da fraternidade é trabalhada no roteiro, cada um dos personagens parece explorar cada um dos aspectos que a história pretende mostrar. Valentine é idealista, ela acredita na fraternidade e nas boas ações que faz, como levar a cadela ferida para casa de seu dono. O juiz é a oposição a este idealismo, ele considera todo a boa ação egoísta, pois no mínimo quem a pratica deseja se sentir melhor consigo. Nesta visão a atitude de Valentine de socorrer a cadela teria sido motivada apenas pelo seu medo de conviver com a culpa de tê-la ferido. Ainda na visão do juiz, a fraternidade não seria em si algo completamente positivo, em algumas circunstancias ela poderia causar mais danos do que bons resultados. Numa das sequências Valentine ameaça contar para esposa de um dos vizinhos do juiz, que o marido dela tem um caso com outro homem, o que teria ficado bem claro numa ligação entre os amantes. O juiz a dissuade de fazer isso, uma vez que a notícia poderia desestruturar toda aquela família, a ação fraternal da moça é então desestimulada pelo dano que poderia causar. Na mesma situação o juiz acaba sendo fraterno ao impedí-la, mas sua atitude também é egoísta, uma vez que se deve à sua preocupação em não ser descoberto como espião de ligações.

 

Tal como em A Igualdade é Branca, nesta história fica clara a falta de referências da sociedade atual e a fragilidade das ideologias em que tantos acreditam. De alguma forma, Kieślowski parece mesclar a visão dos dois protagonistas numa reflexão filosófica que não traz respostas, apenas indagações sobre a eficácia daquilo em que acreditamos, a controvérsia de nossa ética pessoal e as dores que tentamos aplacar com conceitos abstratos. A Fraternidade é Vermelha precisa ser visto e com um olhar que transcenda a simplicidade a história contada. Preste atenção nas sutilezas e se precisar assista mais uma vez, garanto que vale a pena. Tenho ainda algumas observações a fazer, sobre algumas curiosidades, deste em relação a primeiro que assisti da trilogia, como uma cena que se repete em ambos e a inserção de personagens de um no outro, mas acho que é melhor deixar isso para a última resenha, a de A Liberdade é Azul (1993). Este foi o último filme de Krzysztof Kieślowski, que faleceu em 1996 aos 54 anos. Seu desfecho pode ser visto como uma espécie de conclusão das outras duas histórias e também como um pingo de esperança que o diretor lança sobre a frágil condição humana, que abordou tão bem nesta trilogia.

A Fraternidade é Vermelha foi indicado aos Oscars de Melhor Diretor, Roteiro e Fotografia e ganhou a Palma de Ouro (Krzysztof Kieślowski) no Festival de Cannes.


Confiram a resenha crítica dos outros dois filmes da Trilogia das Cores aqui no Sublime Irrealidade:.
A Igualdade é Branca (1993)

Assista ao trailer de A Fraternidade é Vermelha no You Tube ! (clique no link)

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Um comentário:

  1. Uma pequena correção: 'A Fraternidade é Vermelha' foi o terceiro e último filme da trilogia.

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