sábado, 13 de abril de 2013

Dentro da Casa

Dentro da Casa (Dans la Maison) - 2012. Escrito e Dirigido por  François Ozon, baseado na peça de Juan Mayorga. Direção de Fotografia de Jérôme Alméras. Música Original de Philippe Rombi. Produzido por Eric Altmeyer, Nicolas Altmeyer  e Claudie Ossard. Mandarin Films / França.


A boa literatura é aquela capaz de nos transportar para dentro da narrativa, de nos fazer interagir com a história e refletir junto com seus personagens; o bom autor é aquele que instiga o leitor de forma que este não permaneça totalmente passivo diante do que está lendo. Acredito que tal princípio valha não só para romances e outros formatos ficcionais, mas também para o texto jornalístico, para a crítica e para os mais diversos formatos, inclusive para o cinema e outros meios de expressão artística que podem ser considerados derivações do texto literário. A interação e o consequente diálogo entre autor e leitor/espectador é, ao meu ver, o ponto em que a obra de arte se realiza como tal, os mais diversos efeitos podem surgir de tal interação, inclusive aspectos não concebidos pelo autor, que ganham expressão através do olhar analítico do indivíduo que interage com a obra.

Dentro da Casa (2012), filme dirigido por François Ozon, cria uma situação em que o diálogo citado acima  não acontece de forma unilateral, nele a obra é composta à medida em que o leitor interage com ela e suas reações ao texto acabam determinado os rumos que ele toma em seu desenvolvimento. A premissa sobre a qual o roteiro do filme está alicerçado é um tanto complexa, por envolver, ainda que de forma não tão aparente, a metalinguagem e níveis de realidade que parecem em alguns momentos se desencontrarem, apesar disso, não é um filme de difícil compreensão, sua história pode ser assimilada com relativa facilidade, todavia, um pouco de reflexão acerca de sua abordagem é capaz de torná-lo ainda mais impactante e grandioso em sua proposta. 


A trama de Dentro da Casa, que é baseada em uma peça do dramaturgo espanhol Juan Mayorga, começa a se desenrolar quando Germain (Fabrice Luchini), um professor de literatura francesa, confessa para Jeanne (Kristin Scott-Thomas), sua esposa, a sua desmotivação em relação à turma para a qual está lecionando, ele se irrita com a preguiça criativa e o baixo nível intelectual de seus alunos, o que se nota na mediocridade dos trabalhos produzidos por eles. Enquanto lê algumas das redações para a mulher, Germain se depara com uma que ainda não tinha avaliado, a de Claude (Ernst Umhauer), um aluno tímido e retraído, que até então não tinha sequer despertado sua a atenção. Seguindo as instruções que foram dadas em sala, o garoto relata em um texto de notável qualidade o que tinha feito em seu último final de semana. Na redação ele deixa transparecer uma espécie de fascínio pela família de Rapha Artole (Bastien Ughetto), um de seus colegas de classe.


O texto, no entanto, não se destaca só pela qualidade de sua narrativa, mas também pela forma com que ele descreve a família do amigo e seu estilo de vida. À princípio, parece uma visão demasiadamente idealizada, tudo na casa de Rapha parece perfeito demais, no entanto, em alguns pontos da redação Claude começa a das pistas do que de fato lhe atrai naquela casa e isso deixa Jeanne incomodada, ao contrário dela, Germain se entusiasma com a perspicácia do olhar ferino do garoto, mas mesmo assim decide repreendê-lo por expôr de tal maneira a intimidade do outro aluno e de sua família. A represália não gera efeito, após uma breve conversa, o garoto entrega um novo texto, um trabalho que deveria ser entregue só na semana seguinte, este novo escrito dá sentido para a expressão 'continua', usada no final do anterior... Sim, ele estava dando prosseguimento ao relato sobre suas experiências na casa do amigo e este, que acabara de ser entregue, era apenas o segundo capítulo...


Germain não consegue esconder seu fascínio por tudo o que o aluno escreve, ele, que é um escritor frustrado, passa a se ver em Claude e acaba transferindo para o adolescente as suas próprias aspirações, se tornando para ele uma espécie de mentor, que lhe instrui e admoesta dando-lhe conselhos sobre os rumos da narrativa e sobre os artifícios literários usados no texto. O diálogo entre eles afeta não só o andamento da história, mas também a forma com que o garoto se relaciona com a família que o acolhe cada vez mais. O interessante é que o professor e sua esposa também são afetados (em diversos momentos o roteiro nos dá a entender que os textos estão sendo escritos exclusivamente para os dois, como se intentasse extrair deles algum tipo de reação), eles leem justos os escritos e estes os fazem refletir sobre suas próprias vidas. Tal como o garoto, eles se tornam obcecados pela família de Rapha, alimentando assim um voyeurismo, que os coloca diante de sérios dilemas morais e éticos.


O excelente roteiro de Dentro da Casa é bem sucedido ao não entregar respostas prontas, deixando margem para várias interpretações sobre a história. Os espectadores mais atentos perceberão nele de que forma se dá o diálogo entre o autor e aquele que se expõe à sua obra, pois sutilmente é mostrado como cada um dos lados influência o outro, o que também funciona como uma alegoria do mercado de arte ou talvez uma constatação da subjetividade da apreciação artística, que permite que cada um veja em uma obra aquilo que já espera ou está condicionado para ver e não apenas aquilo o autor intenta mostrar. Há ainda uma sutil crítica à invasão da privacidade e à curiosidade que a motiva, no filme tal conduta não é observada apenas no garoto que discute a intimidade da família do colega em seu texto, mas também em Jeanne, que lê as redações dos alunos do marido e no próprio professor, que acaba incentivando em ambos tal tipo de comportamento. 


Longe de ser uma produção pretensiosa, como alguns críticos apontaram, Dentro da Casa é o tipo de filme que convida seu espectador para interagir com sua trama, ao invés de conceder a ele aquilo que de antemão ele já esperava receber. Quem for assisti-lo esperando uma complexo drama familiar, ou uma história sobre uma provável relação homo-afetiva entre aluno e professor certamente se decepcionará, pois estes definitivamente não não são os seus focos. O filme é engrandecido pelas boas atuações de todo o elenco, que consegue sustentar seus personagens e torná-los críveis mesmo com as constantes alternâncias de orientação que a trama sofre em uma de suas realidades. A parte técnica do filme denota sutileza e cuidado, o que pode ser percebido na fotografia, nos movimentos de câmera, na direção de arte e na ótima trilha sonora; elementos estes que compõem de forma sóbria um todo que é quase irrepreensível... 



Dentro da Casa é uma pequena obra-prima, um filme repleto de sutilezas capazes de nos levar á uma profunda reflexão acerca de nossa própria interação com os artistas através de suas obras. Eu certamente indicaria este filme para aqueles que valorizam aquilo que a boa literatura e o bom cinema são capazes de nos proporcionar. Ultra recomendado! 


Assista ao trailer de Dentro da Casa no You Tube, clique AQUI !

A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra.

5 comentários:

  1. Concordo com seu texto. Dentro de Casa é um trabalho brilhante, talvez o supra-sumo de Ozon, um diretor que muito me agrada.

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  2. Ozon é especial.....Me conquistou com Sitcom - Nossa Linda Família, filmaço que não explodiu no cinema, injustamente.

    Vou baixar e assistir esse. Valeu a dica.

    Abraços


    www.renatocinema.blogspot.com

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  3. Oi Bruno
    Como sempre, uma ótima crítica, me deixou com vontade de assisti-lo.
    Bjos.

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  4. De Ozon assisti apenas "Oito Mulheres".

    Gostei do texto, fiquei curioso.

    Abraço

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  5. Adoro os filmes de Ozon. Assisti Gotas d'água em pedras escaldantes e O tempo que resta, mas não o mais famoso dele, Oito mulheres. Quero vê-lo, bem como este comentado por você. Abraços.

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