quarta-feira, 26 de junho de 2013

Um Beijo Roubado

Um Beijo Roubado (My Blueberry Nights) - 2007. Dirigido por Kar Wai Wong. Escrito por Kar Wai Wong e Lawrence Block. Direção de Fotografia de Darius Khondji e Pung-Leung Kwan. Música Original de Ry Cooder. Produzido por Kar Wai Wong e Jacky Pang Yee Wah. Block 2 Pictures, Jet Tone Production, Lou Yi Ltd. e StudioCanal / Hong Kong | China | França.


Uma crítica frequentemente direcionada a Um Beijo Roubado, primeiro filme do cineasta chinês Kar Wai Wong rodado nos Estados Unidos, é a de que seu roteiro não foi tão bem sucedido em sua reconstrução do american way of life. Há a acusação de que a moldura na qual ele coloca o outro étnico teria destacado traços dos personagens que seriam frutos de impressões erradas e preconcebidas acerca da cultura que ele tenta retratar. Eu, no entanto, não vejo desta forma, em primeiro lugar porque não é tão somente a cultura que dita as reações do indivíduo aos estímulos do meio, portanto, não se pode pressupor que americanos reagiriam de uma mesma forma em uma mesma situação pelo simples fato de serem americanos; em segundo lugar, porque o que fica evidente na construção dos personagens não é nenhum tipo de lugar comum, mas sim a confirmação de que independente da cultura, algumas reações, como a dor provocada por uma perda, são bem parecidas.

Se no ótimo Amor à Flor da Pele (2000) Wong retrata as agruras de uma intensa paixão não realizada, neste seu foco sai daquele que poderia ser o início de um relacionamento e vai para o final, o rompimento. Um Beijo Roubado fala de separação e superação, todos os personagens, inclusive os protagonistas, se vêm obrigados a lidar com a dor de ter perdido alguém que amava. A bela Elizabeth (Norah Jones) descobriu que o namorado estava a traindo e pôs fim ao relacionamento, mas, sem conseguir superar este término traumático ela continua alimentando a esperança de um dia reatar o que fora rompido. Jeremy (Jude Law), um inglês radicado em Nova Iorque, foi para os Estados Unidos na esperança de recomeçar uma vida nova,  seus planos de se manter em constante movimento foram abandonados com o passar do tempo. Ele abriu um pequeno bar, que acabou se tornando uma espécie de muleta para ele. Com a desculpa de que precisa cuidar do estabelecimento, ele acabou se acomodando. 


Elizabeth vai para o bar para tentar esquecer o ex-namorado, é lá que ela conhece Jeremy, rapidamente os dois se tornam amigos. Um mesmo ritual passa a se repetir todas as noites, enquanto trocam confidências, a moça degusta uma das especialidades da casa, a torta de blueberry (daí vem o título original do filme), iguaria desprezada pelo restante da clientela. O trauma provocado pelos seus relacionamentos anteriores impede os personagens de enxergarem o óbvio, eles se gostam e aquele poderia ser o início de uma nova paixão, porém, as feridas ainda estão abertas em ambos. Por conta de seu comodismo Jeremy não consegue sair de sua zona de conforto e o medo de voltar a se machucar impede Elizabeth de se entregar a um novo amor com a mesma intensidade de antes. Esperando fugir de seus próprios fantasmas, a garota decide colocar o pé na estrada e começa então uma viagem que lhe trará autoconhecimento e inúmeros aprendizados sobre a vida. 


Em cada cidade onde fixa residência por algum tempo, Elizabeth conhece pessoas que também lidam de alguma forma com o rompimento de um relacionamento, o primeiro a despertar sua atenção é Arnie (David Strathairn), um policial que foi abandonado pela esposa, Sue Lynne (Rachel Weisz), devido ao alcoolismo, doença que se agravou após a separação. Nele vemos materializada a primeira possibilidade de futuro que também ronda a protagonista, ela também corre o risco de ver sua vida definhar e para evitar isso ela precisa se desfazer daquilo que a prende ao antigo namorado e que a mantém emocionalmente dependente dele. A segunda personagem em quem Elizabeth encontra uma espécie de projeção de si mesma, é Leslie (Natalie Portman), uma socialite decadente, viciada em poker, que se atormenta com a possibilidade de reencontrar uma pessoa de quem esteve separada por um longo tempo.


Leslie representa uma segunda possibilidade de futuro, esta baseada na negação, a negação da dependência em relação ao amor perdido, que se sustenta na decisão radical de não confiar em mais ninguém e na crença na autossuficiência. O relacionamento entre Elizabeth e Leslie constituí um dos pontos mais interessantes da trama, é através dele que o roteiro aponta um terceiro caminho para a protagonista, este não tão doloroso quanto os outros dois... Durante todo o desenvolvimento da história, o que fica evidente é que a falta de comunicação talvez seja o grande entrave que os personagens se veem obrigados a enfrentar. Arnie não consegue expressar a intensidade de seu amor por sua ex-esposa, Leslie se nega a abrir um canal de comunicação com a pessoa de quem se separou e Jeremy, que só reconhece o que sentia por Elizabeth depois que ela vai embora, passa boa parte do filme tentando, sem sucesso, se comunicar com ela. 


Ao contrário do que parte da crítica especializada disse, Kar Wai Wong foi muito bem sucedido ao retratar a complexidade dos laços afetivos, principalmente ao mostrar que relacionamentos exigem, antes de tudo, entrega e confiança - ainda que tal confiança não tenha à princípio no que se amparar. Como eu disse no início desta resenha, este é um tema universal, afinal de contas separações sempre serão angustiantes e dolorosas independente da cultura na qual aqueles que as vivenciam estão inseridos. A dor e a angústia são tão universais quanto o medo de estar sozinho ou de ter antigas feridas reabertas, temores estes que o filme retrata muito bem e que podem ser percebidos em todos os personagens.


Todo o elenco entrega atuações condizentes com a proposta do filme, o que pode ser percebido nas sutilezas e na forma com que cada um deles exterioriza, através de suas expressões faciais, da empostação vocálica, ou do olhar os sentimentos que seus personagens reprimem (sentimento reprimidos é um tema recorrente na filmografia do cineasta chinês). A grande surpresa é o desempenho da cantora Norah Jones, estreante como atriz, que não faz feio mesmo quando contracenando com atores e atrizes já renomados como Jude Law, David Strathairn, Rachel Weisz e Natalie Portman.  Sua interpretação justificou a escolha de Kar Wai Wong, que a convidou mesmo sabendo que ela nunca tinha atuado em um filme, ele conseguiu extrair dela o que de melhor ela podia ter oferecido.  Prestem atenção ainda na ponta feita pela também cantora Cat Power.


Um Beijo Roubado é um filme melancólico e um tanto sombrio em algumas passagens, justamente por lidar com questões tão complexas e dolorosas; isso, somado ao fato de ele ter um desenvolvimento lento, que opta pelas sutilezas em detrimento das obviedades, o torna um tanto indigesto e difícil de cair no gosto do público médio, que geralmente repudia obras que não apontam soluções mágicas para os conflitos e não lhe acaricia com a noção absurda de que tudo dá certo e se resolve no final da história. Ainda que ele recorra à algumas fórmulas dramáticas já conhecidas, como o aprendizado oferecido pela estrada (algo típico dos road movies), sua originalidade não pode ser contestada, a marca autoral de Kar Wai Wong está presente em cada aspecto, principalmente nos enquadramentos, na fotografia (que é muito bem trabalhada) e no uso de recursos como a câmera lenta e a saturação das cores, que tornam cada fotograma semelhantes a uma pintura.


Assistam ao trailer de Um Beijo Roubado no You Tube, clique AQUI !


A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra.


Confiram também aqui no Sublime Irrealidade a crítica de
 Amor à Flor da Pele (2000)também dirigido pelo Kar Wai Wong.

7 comentários:

  1. É um filme muito reflexivo e vai fundo na condição humana. As perdas e o modo como cada um reage a elas formam um retrato bem pintado pelo roteiro. Como disse na crítica, Norah Jones foi ótima, mesmo sendo seu primeiro papel, e bela como sempre. Ainda teve algumas canções dela na trilha!

    Abraço Bruno e bela crítica!

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  2. O Wong Kar Wai é um dos melhores cineastas da atualidade. Ele sabe como trabalhar com a temporalidade de um filme, o que consegue fazer com que nós, seus espectadores, fiquemos fascinados pelas suas obras.
    Foi um belo texto que fez jus ao filme.

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  3. Que Ótimo, J. Bruno! Finalmente uma resenha de "My Blueberry Nights", que eu concordo integralmente. É um dos meu preferidos, mas quase sempre leio críticas pouco elogiosas a ele. Deu até vontade de revê-lo. Valeu pelo texto! Beijão

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  4. Oioioi... ó eu aqui traveis!!! Acho que tô voltando...

    Nossa, eu aaaaaamoooo este filme, José Bruninho. Adoro tudo nele. É o tipo de filme que a gente vê e fica refletindo por dias e dias seguidos! Gostei tanto que comprei para minha humilde DVDteca!!!

    bjks

    JoicySorciere => CLIQUE => Blog Umas e outras...

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  5. Bruno, querido amigo:
    Já vi esse filme, faz um tempinho.., é tão lindo e tão triste, tão real e existencial. É uma mistura de razão e emoção.., como disse uma sua amiga acima, a gente fica dias e dias pensando em algumas cenas, lembrando alguns diálogos e ou pensamentos..
    Que primor essa sua resenha. A acuidade das palavras, sem ferir a história por si mesma.., adorei!
    Obrigada por mais essa crítica fantástica de uma sensibilidade extrema, típica de você. Adoro seus textos!
    Beijão!

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  6. Sempre me interessei por aqueles filmes que passassem algo mais real, ao invés do ilusório, em relação ao amor. Pela sua descrição, acho que vou gostar. Procurarei assistir.

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  7. Bruuuuuuu,

    Ah! Como amo este filme...Não sei se é pelo modo arrastado, elenco, direção, trama...é tão EU,rs.

    ótimo texto!!!!!!!!!!!!!!!!

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