domingo, 30 de outubro de 2011

O Show de Truman

O Show de Truman (The Truman Show) - 1998. Dirigido por Peter Weir. Escrito por Andrew Niccol. Direção de Fotografia de Peter Biziou. Música Original de Burkhard von Dallwitz. Produzido por Scott Rudin, Andrew Niccol e Adam Schroeder. Paramount Pictures / EUA.

 

“1,7 bilhão de pessoas viram seu nascimento. 220 países ligados em seu primeiro passo. O mundo parou por aquele beijo. E conforme crescia, crescia também a tecnologia. Toda uma vida humana gravada em uma rede de câmeras escondidas e transmitida ao vivo e sem cortes, 24 horas por dia, 7 dias por semana a telespectadores no mundo todo. E agora, da ilha Seahaven, fechado no maior estúdio jamais construído e tal como a grande Muralha da China, uma das estruturas feitas pelo homem visíveis do espaço, faz seu aniversário de 30 anos, é o O Show de Truman”.

Com um argumento no mínimo inusitado, O Show de Truman (1998) consegue ser ao mesmo tempo divertido, engraçado, inteligente e instigante. Não é atoa que ele é, até hoje, o meu favorito dentre os protagonizados por Jim Carrey. Entretanto, nem todos os amigos, para quem o indiquei nos últimos anos, compartilham esta minha opinião sobre a obra, alguns o classificaram como chato, outros disseram apenas que ele era "fraco". Para quem está acostumado às comédias mais simplistas estreladas pelo ator, a história deste filme, que provoca mais reflexão do que risos, poderá mesmo causar estranhamento e até mesmo apatia.

O longa conta a história de Truman Burbank (Carrey), o personagem principal de um progama de televisão, cuja sua vida é o espetáculo. O rapaz não tem nem ideia de que tudo à sua volta, incluindo sua família e amigos, são parte de uma realidade criada para comover telespectadores e vender produtos. Truman trabalha em uma companhia de seguros e leva uma vida monótona e rotineira ao lado de sua esposa Meryl (Laura Linney), ele nunca saiu da ilha onde moram, pois desde sua infância ele foi condicionado a temer o mar, viagens de avião e tudo o mais que lhe fosse desconhecido. Mesmo depois de 30 anos no ar, sem interrupções, o programa continuava um sucesso de público no mundo inteiro, porém esta hegemonia é ameaçada quando Truman começa a fazer questionamentos acerca da realidade a sua volta, suas dúvidas são motivadas por uma série de acontecimentos estranhos (erros da produção do programa) que ele começa a perceber em sua vida.

 

O estopim da crise existencial e de identidade que Truman experimenta é o reaparecimento de seu pai, que surge em trages de mendigo na ruas da cidade, este fato potencializa as indagações do rapaz, que presenciara a morte do pai quando ainda era criança. Em meio às reflexões sobre sua realidade, ele se lembra de algo que lhe fora dito por Lauren (Natascha McElhone), uma colega dos tempos de faculdade, ela lhe afirmara que tudo que existe na ilha teria sido feito exclusivamente para ele e nada ali seria de fato real. Truman decide então deixar a cidade e ir à procura da ex-colega, por quem ainda nutria uma ardente paixão. Todos estes acontecimentos são vistos por Christof (Ed Harris), o criador do programa, como uma ameaça ao sucesso e à continuidade do show. A verdade é que não só Truman, mas todos que o assistem e até mesmo os atores contratados e aqueles que trabalham nos bastidores de seu show, têm suas vidas condicionadas e dependentes de tudo aquilo que acontece na bucólica Seahaven.

 

Em uma análise mais ampla, concluo que o sucesso do programa no filme se deva ao simples fato de que as pessoas projetam em Truman aquilo que deveriam estar vivendo em suas próprias realidades. Quando assisti ao filme pela primeira vez, vi isso como uma falha do roteiro, eu questionava como um programa deste tipo permaneceria tanto tempo no ar sem a presença constante de conflitos a serem resolvidos. Só compreendi que não era um erro, quando entendi que esta era a crítica que o filme pretendia fazer. A relação entre a mídia e o telespectador é elevada a um absurdo extremo, situação em que a Teoria Hipodérmica (teoria da manipulação) seria de fato infalível e os receptores manifestariam sem desvios os efeitos esperados pelos emissores das mensagens. Nós, na condição de espectadores do filme, por muito não caímos nesta mesma armadilha, pois somos induzidos a rir e a chorar com as desventuras e peripécias do personagem.

 

Em uma das sequências mais legais do filme, testemunhamos a construção de uma situação dramática através do uso de artifícios como posicionamentos de câmera, trilha sonora e fotografia. Nesta passagem, mesmo sabendo de antemão que se trata de uma situação forjada para emocionar, muitos não se conterão e se emocionarão junto com os espectadores do show. O filme é genial por brincar com estas ferramentas usadas tanto pela televisão quanto pelo cinema e a partir delas tecer sua crítica à influência midiática na vida das pessoas. Tal crítica é feita sutilmente, tanto que os mais desapercebidos não a compreenderão ou provavelmente sequer a notarão no roteiro. O Show de Truman é um filme que se vale de inúmeras alegorias para contar uma história simples e ao mesmo tempo complexa, o longa está cheio de referências à literatura, à filosofia e até à histórias bíblicas. Sou dos que compartilham a ideia de que se não fosse a presença de Jim Carrey no elenco, este seria hoje um filme cult restrito a um pequeno público intelectualizado.

 

Outros aspectos que merecem destaque são a trilha sonora, que é excelente, e a atuação de Jim Carrey, que na minha opinião mostra nas cenas de teor dramático toda a sua versatilidade e amadurecimento como ator, sem deixar de lado, claro, os trejeitos e caretas que já são marca registrada de seus personagens cômicos. O filme ainda tem a seu favor o fato de ter sido produzido antes da invasão dos reality shows, que se tornariam moda pouco tempo depois. Curiosamente a versão original do Big Brother estreou no ano seguinte ao da estreia do filme. O Show de Truman foi profético ao prenunciar não só o sucesso dos reality shows, mas também por prever um tempo em que a vida real seria assustadoramente substituída pela vida midiática, com as ressalvas de que o veículo dominante não seria mais a TV e as projeções de sentimentos e ambições não seriam mais feitas em personagens e sim em profiles de redes sociais... Sem dúvidas um ótimo filme. Recomendo!


O Show de Truman foi indicado ao Oscar nas categorias de Melhor Ator Coadjuvante (Ed Harris), Diretor e Roteiro Original. No Globo de Ouro o longa foi vencedor nas categorias de Melhor Ator de Drama (Jim Carrey), Melhor Ator Coadjuvante (Ed Harris) e Melhor Trilha Sonora Original, tendo sido indicado também ao prêmio de Melhor Filme de Drama, Diretor e Roteiro.

Assistam ao trailer de O Show de Truman
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7 comentários:

  1. Não gosto de Jim Carey, mas não nego que fez bons filmes. Esse é um deles.

    O Falcão Maltês

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  2. eu sou apaixonada por esse filme, não canso de rever. é incrível como é atual. beijos, pedrita

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  3. Esse filme é perfeito, independente de ser antigo, é muiito bom mesmo, filme emocionante, e o Jim CARREY é um dos melhores atores do mundo, se não o MELHOR!

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  4. O filme me fez refletir sobre muitas situações com as quais nos deparamos na vida, e me emocionou. Assisti na época em que foi lançado, e até hoje, quando vejo as pessoas envolvidas com reality shows, deslumbradas com celebridades, ou até mesmo quando percebo o quanto nossas vidas têm se tornado públicas com o advento das redes sociais, me lembro de Truman e sua sensação de ter vivido uma vida manipulada... e penso a que ponto essa ausência de privacidade pode chegar. Parabéns pelo blog, você tem um senso crítico apurado. Sucesso!

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  5. Brunão,
    Excelente resenha!
    Acho que colocaram o Jim Carrey, justamente para que o filme ficasse 'popular'.
    O roteiro inteligentemente sarcástico é incrível.
    Gostei da sua sensibilidade em perceber a crítica que fizeram sobre 'mentes manipuláveis'. Confesso, que ri muito no momento 'marketing-anúncios' retratado no filme.
    Por outro lado, esse cotidiano estilo Mulheres Perfeitas(Nicole Kidman) e Seahaven deixam uma vontade de experimentar...Mesmo que por segundos,rs.

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  6. Acho que poderia ter uma continuação. Ele em nossa realidade sendo seguido por paparazes diariamente, como se fosse uma continuação do programa (tipo Ed TV) e ele cansado dessa condição seria tentado a voltar ao programa, fazendo ai uma analogia ao mito da caverna. Poderia ficar legal.

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