quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Mamma Roma

Mamma Roma - 1962. Escrito e dirigido por Pier Paolo Pasolini. Direção de Fotografia de Tonino Delli Colli. Produzido por Alfredo Bini. Arco Film / Itália.


Pier Paolo Pasoline certamente foi o mais polêmico e controverso dentre os cineastas que integravam o "Sexteto de Ouro do Cinema Italiano" (como ficou conhecido o grupo formado por ele, Vittorio de Sica, Roberto Rossellini, Luchino Visconti, Michelangelo Antonioni e Federico Fellini). Ele, que também era poeta e escritor, ingressou na indústria cinematográfica como roteirista, tendo colaborado com Fellini em clássicos como Noites de Cabíria (1957) e A Doce Vida (1960). Pasoli, homossexual assumido, causou frisson no cenário cultural italiano ao discorrer em suas obras, de forma aberta, sobre sexo, religiosidade e política. A tendência esquerdista e a crítica à burguesia e à moral constituída foram temáticas recorrentes em sua filmografia, que pode ser considerada de vanguarda, por ter sido produzida em uma sociedade ainda firmada sobre pressupostos arcaicos e obsoletos. 

Em Mamma Roma (1962) estão presentes todos os aspectos que permeiam a obra do diretor/autor, nele o profano se entrelaça ao sacro para compor um retrato desconstrutivista, realista e um tanto obscuro do período pelo qual a Itália estava passando. O filme é uma metáfora, quase óbvia, da situação política e econômica vivida pelo país. Naquele momento histórico a nação começava a superar os traumas da segunda guerra mundial e as dificuldades que marcaram os primeiros anos que sucederam o conflito. Após um sofrido e humilhante processo de reconstrução (física e de identidade) a população voltava a olhar para o futuro, a criar expectativas e a ensaiar novos posicionamentos frente às suas questões internas e ao cenário mundial, é justamente este posicionamento que se torna o alvo da contundente crítica que o cineasta faz através de metáforas e simbolismos.


Mamma Roma (Anna Magnani), a personagem central do filme, é uma espécie de personificação da consciência coletiva do país no princípio da década de 60; este potencial alegórico, que ela como personagem tem, não é novidade nem no cinema, nem na tradição cultural italiana, ela é a representação do estereótipo da mãe protetora que deposita no filho suas próprias expectativas, transferindo para ele seus sonhos e anseios (esté estereótipo também está ligado até ao mito de criação de Roma). Na trama, a personagem, que é uma ex-prostituta, batalha e faz de tudo para dar um futuro digno para o filho adolescente, Ettore (Ettore Garofolo), ele, no entanto, prefere vadiar na companhia de outros garotos e flertar com uma moça mais velha que ele, que tem um filho ainda bebê. Ao relacionar os personagens com o cenário que comentei acima, percebe-se que a mãe representa a confiança que o país depositava na possibilidade de um recomeço e o filho o futuro, ainda incerto, que guardava consigo a potencialidade de uma vida nova.


À princípio, a metáfora criada por Pier Paolo Pasoline até nos parece otimista, mas definitivamente ela não o é, apesar da confiança depositada no porvir, tanto o filho quanto a nação parecem condenados à repetir os mesmos erros já cometidos no passado (no caso do filme, pela mãe) e é neste fatalismo que se encontra a crítica feita pelo cineasta. Tal como os personagens no filme, os italianos continuavam acreditando na promessa de realização futura feita pelo capitalismo, sem perceber que este mesmo sistema propiciara sua ruína de outrora. Na história, Mamma Roma acredita que a felicidade chegou com a compra de um apartamento novo e mais adiante ela transmite a crença que tem no consumismo para o filho, ao lhe dar de presente uma motocicleta. Rondando o otimismo, que é apenas aparente, está a ameaça do passado, que no longa é representada pelo reaparecimento de Carmine (Franco Citti), ex- cafetão da Mamma, que volta para tentar convencê-la a retomar sua antiga vida.


Carmine não só personifica a culpa proporcionada pelos erros de outrora, como também a dificuldade de se fazer o que é certo, quanto se está cercado por um sistema que lhe compele ao erro. Na trama, uma outra personagem exerce uma função alegórica parecida com a dele, ela é Bruna (Silvana Corsini), a jovem que seduz Ettore. Ela representa a falsa inocência que traveste o erro e a sedução do caminho que conduz aos tropeços. Ela seria, portanto, uma personificação do ímpeto capitalista que ressurgia com toda força na Itália impulsionado pelo consumismo. Longe de ser moralizante, Pasoline não aponta respostas, nem culpados, ele apenas faz um alerta, baseado em suas convicções políticas e na leitura que ele fazia da sociedade de sua época. O final emblemático carimba a visão que ele tinha sobre os temas abordados, mas deixa algo em aberto, como uma pergunta feita à própria Itália sobre a perspectiva que ela, como nação, tinha de seu próprio futuro...


Anna Magnani está sublime no filme, ela expressa de uma forma extraordinária tanto a esperança e o otimismo de sua personagem, quanto o desespero dela diante de suas frustrações, que já são anunciadas desde o primeiro ato do filme. Ouso dizer que ela entrega neste longa uma atuação ainda mais intensa que a de  Roma Cidade Aberta (1945), que é tida por muitos críticos e cinéfilos como o seu melhor desempenho. Ettore Garofolo também está ótimo, as sequências nas quais ele contracena com Magnani são, na minha opinião, as melhores do filme, pois elas representam o choque que há entre as duas visões que norteiam a alegoria proposta pelo cineasta, tal choque é potencializado pelo desempenho de ambos os atores que emprestam aos seus respectivos personagens uma notável consistência dramática. O restante do elenco, formado basicamente por atores não profissionais, também entrega interpretações convincentes e destituídas de qualquer exagero, o que reforça ainda mais o tom realista do filme.


A grandiosidade de Mamma Roma não está presente apenas em seu roteiro, mas também em todo o seu aparato técnico. A fotografia naturalista e a predominância de cenas filmadas em locações abertas, nítidas influências da estética neorrealista, estão condizentes com a proposta do filme de se apresentar como um recorte realista da sociedade italiana daquela época, este viés realista, ainda que dotado de simbolismos e metáforas, acentua o impacto que o filme provoca em nós espectadores e explica o tipo de recepção que ele teve quando foi lançado em seu país de origem. A trilha sonora é outro aspecto que merece destaque, ela ajuda a criar, durante toda a duração do filme, um clima um tanto melancólico, que contrasta em alguns momentos com a alegria e a espontaneidade da Mamma Roma, este contraste serve para mostrar o quanto o otimismo da personagem soa estranho devido ao contexto no qual ela está inserida. 


Foquei nesta resenha o viés político do filme, pois ele foi o que mais me chamou a atenção, no entanto reconheço que Mamma Roma é o tipo de produção que possui múltiplas abordagens e que, sendo assim, ele permite análises com diversas angulações, todas elas potencialmente consistentes. Este pode não ser o melhor filme de Pasolini, mas é uma das obras mais importantes da fase áurea do cinema italiano, simplesmente indispensável!


Assistam Mamma Roma completo no You Tube,  clique AQUI !

A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra.

9 comentários:

  1. Comprei esse filme da coleção da folha e ainda não achei tempo para assistir.

    Adorei sua referência ao clássico que amo: Noites de Cabíria.

    Abraços

    ResponderExcluir
  2. Bruno, também escrevi sobre ele recentemente. Depois confere. No mais, ótimo texto que seguiu um víeis diferente do que empreguei.

    ResponderExcluir
  3. Oii Bruno acho que vou gostar de ver as locações, arrasou na "descortinação" do filme, rsr parabéns! Abraçosss

    ResponderExcluir
  4. Parabéns pelo texto. Realmente está muito bom. Ainda não vi esse filme do Pasolini, mas tenho muita curiosidade, o negocio é parar um dia com a cabeça boa.

    Abração.

    ResponderExcluir
  5. Respostas
    1. Ele foi relançado em DVD recentemente pela coleção Cine Europeu da Folha de São Paulo, ainda é possível encontrá-lo em algumas bancas de revista ou pela internet.

      Excluir
  6. Olá, José Bruno.
    Ainda não assisti nenhum filme de Pier Paolo Pasolini, valeu pela dica e pela ótima análise.
    Abraço.

    ResponderExcluir
  7. Sublime. Tenho ânsia de ver o filme. Ressalta a beleza do filme a vida deste povo. O comprometimento com o futuro. Muito mais....

    ResponderExcluir
  8. Eu tinha recomendado este filme, sem saber que dentro de sua trama estava presente a prostituição como um tema central. Uma série atual, onde encontramos este é apenas em serie o negocio, que, aliás, em abril de 2016 estréia sua terceira temporada. Ambos são propostas interessantes vale a pena revisitar.

    ResponderExcluir