quinta-feira, 15 de novembro de 2012

2001 - Uma Odisseia no Espaço

2001 - Uma Odisseia no Espaço (2001: A Space Odyssey) - 1968. Dirigido e Produzido por Stanley Kubrick. Escrito por Stanley Kubrick e Arthur C. Clarke, baseado no livro de Arthur C. Clarke.  Direção de Fotografia de Geoffrey Unsworth. Metro-Goldwyn-Mayer (MGM) e Stanley Kubrick Productions / USA | UK.


Um fenômeno interessante acontece com obras que não entregam uma interpretação de sua trama já pronta para os espectadores, alguns poucos valorizam o convite à reflexão e ao diálogo, enquanto outros (a maioria) passam a atacá-lo por não tê-lo compreendido. Tenho abordado este assunto em outras resenhas e em todas as ocasiões apontei como culpados a superficialização e o efemeridade que têm marcado a produção artística contemporânea. Por estarmos acostumados com obras que não nos incitam a reflexão, tendemos a repudiar aquelas que o fazem, como se estas fossem pretensiosas e estivessem tentado adotar para si um cunho intelectual que não têm. Todavia, penso que o único fator capaz de mensurar o nível intelectual de uma produção é o diálogo que cada um estabelece com ela, de tal diálogo podem surgir impressões e interpretações que vão além daquelas pretendidas pelos realizadores da obra em questão e é nesta ampliação de significados que se encontra a grandiosidade da apreciação artística. 

Quando um espectador ataca um filme por ele este complexo demais (geralmente o apontando como lento, chato, pretensioso ou pseudo-intelectual), o que na verdade ele quer é esconder sua própria incapacidade de dialogar com aquilo que viu. É realmente frustrante quando não conseguimos acompanhar o raciocínio de uma trama, ou quando não somos capazes de compreender a reflexão proposta ela (isso já aconteceu comigo várias vezes), mas a decepção que nos acomete não justifica qualquer tipo de ataque deferido contra a obra ou contra os seus realizadores. Chegamos então aonde eu queria; ao ponto em que começo a falar de minha experiência pessoal com 2001 - Uma Odisseia no Espaço (1968), clássico dirigido por Stanley Kubrick. Mas, antes de começar minhas considerações sobre ele, preciso deixar claro que, mesmo depois de assisti-lo três vezes, eu ainda não consegui compreendê-lo por completo, reconheço que a interpretação que ensaiei ainda é um tanto frágil e até inconsistente em alguns pontos, eu no entanto não vejo nenhum problema em reconhecer isso...


A narrativa de 2001 começa na pré-história e em sua primeira sequência vemos um grupo de ancestrais do ser humano dispersos em uma região, eles parecem tentar se comunicar, mas a agitação que eles demonstram com seus gestos indicam que esta ainda é uma tarefa difícil. Na segunda sequência, um animal selvagem ataca um dos hominídeos, e nenhum dos outros o ajudam. Uma terceira passagem mostra um embate físico entre dois grupos de primatas, nesta cena já fica claro que eles estão começando ter o domínio do uso de armas rústicas como ossos e pedras. Em um quarto momento, os hominídeos estão diante de um objeto (que será recorrente na trama) que lhes é totalmente estranho, estupefatos eles o contemplam e suas expressões são de dúvida e medo, neste momento eles se vêm compelidos a questionarem suas próprias realidades pela primeira vez e surge daí o primeiro lampejo de racionalidade. Após mostrar um outro conflito entre primatas (o que nos induz a crer que eles não se tornaram civilizados da noite para o dia) o filme faz um dos maiores saltos no tempo da história do cinema.


Após o corte somos levado ao ano de 2001 (visto sob a ótica de meados dos anos 60, ocasião que o filme foi escrito e filmado), período em que as viagens estelares e a exploração dos pontos mais longínquos do universo já tinham se tornado uma realidade. A partir deste ato o filme começa um processo narrativo que mostra o oposto daquilo que fora mostrado nas primeiras sequencias, o que vemos então é um lento processo de desumanização, que culmina com a sucumbência do homem frente à máquina. Se num primeiro momento a racionalidade era instigada nos primatas pela ameaça às quais estavam expostos e pelo contato com o desconhecido, no ano de 2001 a situação já é bem diferente, o homem não tem tantos perigos aos quais temer e a sua curiosidade já não é mais despertada tão facilmente. Interessante perceber que aquilo que é capaz de deixar a nós expectadores boquiabertos é encarado com naturalidade pelos personagens, que parecem agir como máquinas, como se estivessem programados para atuarem de tal modo. 


Da situação exposta acima surge uma das contradições mais interessantes da trama, nela o personagem mais humano é um robô, o HAL 9000, ele é egocêntrico, ambicioso e vingativo. Sua disposição em desobedecer e quebrar as regras para conseguir aquilo que ambiciona lhe confere uma profundidade dramática que não pode ser observada em nenhum dos outros personagens. Esta contradição é interessante porque é ela quem estabelece o principal parâmetro de comparação entre as duas épocas retratadas no longa. Se na alvorada da humanidade o homem ainda é um ser em formação, incompleto, que precisa descobrir o mundo para descobrir a si mesmo, já em sua alvorada ele, ainda incompleto, parece ter se auto imposto um limite. Através do advento da inteligência artificial ele confere a outrem o direito de pensar e tomar as decisões por ele, decretando assim o seu próprio fim como indivíduo... Neste processo para reencontrar a si mesma a humanidade precisará redescobrir a sua gênese e só então voltar a se perguntar sobre a estranheza do mundo à sua volta. 


O roteiro escrito por Stanley Kubrick e Arthur C. Clarke é um dos aspectos mais primorosos do filme e sua genialidade está em abrir margem para as mais distintas interpretações e para uma quantidade de reflexões sem precedentes na história do cinema. Clarke, que já tinha publicado uma vasta bibliografia de ficção, trouxe, tanto para o filme, quanto para o livro, que foi escrito quase que simultaneamente, todo o seu conhecimento adquirido em anos de pesquisa sobre a corrida espacial e a origem do universo. Kubrick por sua vez trouxe a ousadia de filmar esta que ficaria conhecida como uma das produções mais complexas, impactantes e belas já filmadas, seu perfeccionismo pode ser percebido em cada aspecto do filme, da fotografia à direção de arte (que são sublimes), passando pela trilha sonora (que faz um excelente uso da música Also Sprach Zarathustra de Richard Strauss) e pelos efeitos visuais. 


Como eu disse, a minha interpretação de 2001 - Uma Odisseia no Espaço ainda é relativamente pobre, ainda têm vários elementos na trama que me parecem ganhar significados diferentes a cada vez que eu o revejo, fui tomado por reflexões distintas em cada vez que eu assisti e isto é simplesmente maravilhoso, pois ainda que me falte uma plena compreensão de sua trama, o diálogo que tive com ela já a torna para mim uma obra de grande valor artístico e intelectual. Na verdade a frustração que experimentei diante da estranheza de seu desfecho não diz tão somente sobre minha limitada capacidade de decodificá-lo, mas também sobre a aquilo que apontei como sendo a sua principal temática: O contato com aquilo que ainda nos é estranho impulsionando a busca por algo que nos caracterize como humanos e racionais... Nas três vezes que assisti o filme me senti tal como os primatas quando estes se viram diante do objeto desconhecido e assim como aconteceu com eles, o estranhamento me levou racionalização, o que me fez lembrar de que eu ainda era humano...


2001 - Uma Odisseia no Espaço talvez seja a mais importante obra de ficção científica desde Viagem à Lua (1902de Georges Méliès, direta ou indiretamente ele influenciou quase tudo que foi produzido pela sétima arte depois de seu lançamento e tal influência se deu principalmente pela quebra de paradigmas que ele representou no tocante à narrativa, pela sua grandiosidade artística e estética e pela excelência de seu aparato técnico; aspectos estes que possibilitaram que aquilo que fora antes imaginado pelo cineasta e pelo escritor ganhasse forma através de imagens detentoras de uma formidável exuberância. 2001 é uma obra de arte, um filme obrigatório para qualquer um se interesse por cinema ou que esteja disposto a ensaiar uma série de reflexões sobre a condição humana e aquilo que a caracteriza como tal. 


2001 - Uma Odisseia no Espaço ganhou o Oscar de Melhores Efeitos Visuais/Especiais, tendo recebido indicações também para os prêmios de Melhor Diretor, Roteiro e Direção de Arte. 

Assista ao trailer de 2001 - Uma Odisseia no Espaço no You Tube, clique AQUI !

A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra.

Confiram também, aqui no Sublime Irrealidade, as resenhas de Lolita (1962) também dirigido pelo Kubrick e de Stanley Kubrick – Imagens de Uma Vida (2001), documentário sobre a vida e a obra do cineasta. 

12 comentários:

  1. Concordo que a falta de uma reflexão cotidiana e do hábito de ver filmes instigantes atrapalha e muito quando as pessoas se deparam com um filme desafiador. Quando fui apresentada ao filme, ainda na escola, o professor fez questão de dizer que os filmes de Kubrick não são feitos para se entender tudo. Hoje, tendo visto boa parte de sua filmografia, não concordo com a afirmação, mas ela com certeza serve para 2001.
    Abraços!

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  2. Querido Cinéfilo,

    Concordo com seu texto.
    Para se entender Kubrick é necessário certa dose de entrega. Mesmo assim, sou muito fã da sua genialidade contemporanea.
    Com certeza 2001 é nossa eterna Obra de Arte!

    besos

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  3. Belíssimo tecnicamente, para se fazer uma análise profunda é necessário assistir mais de uma vez, o que não é fácil não só pela complexidade filosófica da trama e das imagens, mas também pelo ritmo extremamente lento.

    Abraço

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  4. Realmente uma obra-prima, apesar de não ser o meu Kubrick preferido... Gosto mais de O iluminado.

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  5. Texto bem explicativo. Ainda assim não gostei do filme. Acho que como já vi outros que foram inspirados por ele não
    achei tão interessante. O máximo que posso fazer é respeitar a ousadia de Kubrick e o que esta obra representou ao cinema!

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  6. Oi Bruno
    Tudo bem meu amigo? Eu assisti o filme há muitos anos, e me lembro bem da cena dos macacos, mas realmente não entendi muita coisa na época kkkkk. Quem sabe agora. Me lembro bem da música. Pam,pam, pam,pam pammmmmmmmm kkkk. Ótima crítica, como sempre.
    Bjão. Fique com Deus!

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  7. Olá, José Bruno.
    Assisti a este singular filme quando era criança e só fui reassisti-lo pouco tempo atrás e minha sensação de estranheza e desorientação foi a mesma de antes.
    Creio que de todos os filmes do Kubrick este é o mais contemplativo e introspectivo, e foi feito com esse intuito realmente.
    Ah sim e eu também não entendi nada daquele final.
    Abraço.

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  8. Um clássico incontornável.

    http://onarradorsubjectivo.blogspot.pt/

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  9. A cena dos primatas no início do filme é uma das mais clássicas da História do Cinema.
    Já foi até tema de aulas de Antropologia em faculdades!

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  10. http://www.kubrick2001.com/

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  11. Pra mim um best seller!
    Sempre começo minhas disciplinas de TI com este filme. Adorei sua resenha sobre ele. Bjs

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