quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

360

360 - 2011. Dirigido por Fernando Meirelles.  Escrito por Peter Morgan, baseado na peça "Reigen", de Arthur Schnitzler. Direção de Fotografia de Adriano Goldman. Produzido por Andrew Eaton,  Chris Hanley, Danny Krausz, David Linde e Emanuel Michael. BBC Films, UK Film Council, ORF Film/Fernseh-Abkommen, Unison Films, Gravity Entertainment e Hero Entertainment / UK | Áustria | França | Brasil.


A angulação com a qual se analisa uma determinada obra pode afetar diretamente a avaliação que é feita dela a posteriori, podendo beneficiá-la ou prejudica-la dependendo da direção do olhar. Quando a intenção dos seus realizadores não está tão aparente, abre-se um leque de possibilidades e interpretações, todavia, frequentemente a crítica embarca em uma espécie de efeito cascata e isso ocorre quando diversos autores se limitam, inconscientes ou não, a contemplar uma mesma obra partindo de uma mesma perspectiva e suas respectivas avaliações acabam influenciando outras que ainda serão produzidas. 360 (2011) de Fernando Meirelles foi vítima deste efeito cascata. Ao tentar desconstruí-lo, um bom número de críticos se prenderam apenas à uma análise reducionista da trama, se limitando assim à apontar a superficialidade e a suposta desorientação de cada uma das histórias que o compõe.

Ao repetirem este mesmo tipo de abordagem, alguns autores provavelmente se esqueceram de olhar para o longa por uma ótica alternativa. Curiosamente, a primeira pergunta que me fiz, ainda nos primeiros minutos de duração do filme, foi a seguinte: "Há a possibilidade de que de que toda esta superficialidade tenha sido intencional?" Ao procurar no filme elementos que pudessem dar embasamento a esta minha tese, me deparei com uma contundente e complexa análise sobre os relacionamentos no mundo contemporâneo, cheguei então à conclusão de que o foco narrativo do longa não está nas tramas individuais que o compõem, mas naquilo que elas representam como um todo.


Em dado momento do filme um personagem menciona as "pessoas que encontramos por acaso" e que "se tornam rostos conhecidos"; estas pessoas de quem ele fala são aquelas mesmas com quem conversamos por alguns minutos no ponto de ônibus, na fila de um banco, ou na sala de espera de um consultório, nós não as conhecemos de verdade, apenas nos familiarizamos com seus rostos, como ele diz, no mais a impressão que temos inicialmente nem sempre condiz com a realidade, com aquilo que cada uma destas pessoas realmente é. Não sabemos quais são as reais intenções daqueles com quem por acaso nos encontramos, não sabemos o que eles escondem, nem quais são suas dores e alegrias. Nestes encontros casuais frequentemente temos a impressão de que uma conexão foi estabelecida, quando na verdade o que conseguimos estabelecer é apenas um emaranhado de relações superficiais, na maioria das vezes baseadas em ideias e conceitos pré-concebidos. É basicamente sobre este tipo de relacionamento que 360 fala. 


Os expectadores mais atentos perceberão que as relações focadas pelo filme, em sua maior parte, se dão entre pessoas que eram até então desconhecidas. A visão privilegiada que nós expectadores temos nos permite saber mais sobre determinados personagem, do que aqueles que são seus interlocutores na história, isto mostra o quanto a ideia de conexão é frágil e o quanto as primeiras impressões podem ser enganosas e por isso tão perigosas. Nos raros momentos em que 360 mostra diálogos entre pessoas que já se conheciam, ficam evidentes as enormes barreiras que impedem que os relacionamento se desenvolvam em sua plenitude, é como se mesmo neste tipo de relacionamento a conexão fosse apenas uma utopia. Outra percepção interessante é a de que alguns personagens só se sentem seguros em expor sua verdadeira natureza para pessoas com quem não têm laços afetivos. Na trama um dos personagens recorre a uma psicóloga e a um líder religioso; outro encontra ajuda na supervisão de uma assistente social  e outros dois apenas se abrem de verdade com desconhecidos em um grupo do Alcoólicos Anônimos .


360 nos apresenta a um grande número de personagens e às situações vividas por eles num curto espaço de tempo, dentre eles estão uma garota de programa (Gabriela Marcinkova) e sua irmã mais nova (Lucia Siposova); uma jovem brasileira residente em Londres (Maria Flor) que terminara um namoro após descobrir que estava sendo traída; um homem de negócios (Jude Law) que está em Viena a trabalho e decide contratar uma prostituta, mesmo sendo casado; um ex-alcoólatra (Anthony Hopkins) que está à procura da filha que desaparecera há alguns anos; um dentista muçulmano (Jamel Debbouze) que está apaixonado por sua assistente, que é casada; uma mulher que mantém um caso extra conjugal (Rachel Weisz); uma outra (Dinara Drukarova) que lida com o declínio de seu casamento; um motorista particular (Vladimir Vdovichenkov) que está cansado de ser subjugado pelo patrão e um maníaco sexual (Ben Foster) que acabou de ganhar liberdade condicional. A trama tece um fio que interliga a vida de todos estes personagens e que correlaciona as situações vividas por eles, como se estas estivessem sujeitas a efeitos de causa e consequência arquitetados pelo acaso. 


Dentre os aspectos artísticos de 360, destaco as atuações de Maria Flor, Ben Foster e Vladimir Vdovichenkov, ela é pura graciosidade e eles também estão ótimos. Foster consegue através de sua atuação dar consistência ao embate psicológico e moral que seu personagem trava ao enfrentar seus próprios impulsos. No tocante aos aspectos técnicos o filme não deixa absolutamente nada a desejar, destaco a trilha sonora e os sons diegéticos, que exercem funções primordiais na narrativa (cito como exemplo a cena em que um insistente toque de celular salienta os ruídos que existem no diálogo que então se dava). Destaco ainda a fotografia e a montagem, que ajudam a compor o tom sutil que o filme tem, tanto visualmente quanto em seu ritmo de desenvolvimento. Ao contrário do que eu esperava, devido às críticas negativas que eu já tinha lido, Fernando Meirelles entregou um trabalho consistente e muito bem acabado, que é ao meu ver bem superior à adaptação Ensaio Sobre a Cegueira (2008), seu trabalho anterior. 


360 passa bem longe de qualquer padrão de filme comercial e isso explica em parte a má recepção que ele teve e sua baixíssima bilheteria. Com exceção dos nomes envolvidos, ele não tem nenhum atributo que seja capaz de chamar a atenção ou satisfazer os anseios do grande público, que é ávido por velocidade e histórias redondas com início meio e fim bem determinados. Este é um filme para ser analisado com calma, pois corremos o risco de nos perdermos diante daquilo que ele tanto critica, o superficialismo das primeiras impressões, que, como ele mesmo prova, podem ser enganosas. Recomendo! 


Assistam ao trailer de 360 no You Tube, clique AQUI !

A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra.

6 comentários:

  1. Também gostei, principalmente porque algumas atitudes de um determinado personagem mudam o destino de outro, mesmo que o primeiro sequer imagine as consequências.

    É uma inteligente ciranda de histórias atuais e universais.

    Abraço

    ResponderExcluir
  2. Estou louco para ver esse filme. Desde a incursão de Meirelles no mercado cinematográfico através de "Cidade de Deus", ele ainda não me decepcionou. Todos seus trabalhos sempre tiveram seu valor de acordo com a proposta oferecida.

    ResponderExcluir
  3. Também quero muito ver esse filme!
    E parabéns pelo blog gostei muito daqui!

    ResponderExcluir
  4. Fernando Meirelles continua fazendo filmes instigantes para o pensamento em sua tão acertada carreira internacional. Pode não ter o sucesso de público, mas 360 é um filme fantástico no que propõe. Subestimado, infelizmente.

    Abs!

    ResponderExcluir
  5. Olá, José Bruno.
    Gosto dos filme s do Fernando Meireles e achei Ensaio Sobre a Cegueira muito bom, se dizes que este é ainda melhor, então vou querer ver.
    Abraço.

    ResponderExcluir
  6. Assim como a maioria dos filmes caleidoscópicos, o filme padecer por misturar histórias interessantes com outras nem tanto. A história da mulher apaixonada pelo patrão é péssima e Jude Law e Rachel Weisz não tem nada para fazer no filme, talvez por isso o filme seja tão subestimado - na verdade é um filme que é bom só pela metade. E Ensaio sobre a Cegueira é muito melhor...

    ResponderExcluir