segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

007 - Cassino Royale / Quantum of Solace / Operação Skyfall

007 - Cassino Royale (Casino Royale) - 2006. Dirigido por Martin Campbell. Escrito por Neal Purvis, Robert Wade e Paul Haggis, baseado na obra literária de Ian Fleming. Direção de Fotografia de Phil Meheux. Música Original de David Arnold. Produzido por Barbara Broccoli e Michael G. Wilson. Columbia Pictures, Eon Productions, Casino Royale Productions, Stillking Films, Babelsberg Film e Government of the Commonwealth of the Bahamas / UK | França.

007 - Quantum of Solace (Quantum of Solace) - 2008. Dirigido por Marc Forster . Escrito por Neal Purvis, Robert Wade e Paul Haggis. Direção de Fotografia de Roberto Schaefer. Música Original de David Arnold. Produzido por Barbara Broccoli e Michael G. Wilson. Metro-Goldwyn-Mayer (MGM), Columbia Pictures, Eon Productions e B22 / UK | USA.

007 - Operação Skyfall (Skyfall) - 2012. Dirigido por Sam Mendes. Escrito por Neal Purvis, Robert Wade e John Logan. Direção de Fotografia de Roger Deakins. Música Original de Thomas Newman. Produzido por Barbara Broccoli e Michael G. Wilson. Metro-Goldwyn-Mayer (MGM)  Eon Productions e Danjaq / UK | USA.



















007 - Um Novo Dia para Morrer (2002), o último filme da série com o ator Pierce Brosnan, foi um fracasso de público e crítica, ele marcou um momento decisivo para a franquia, que não vinha apresentado bons resultados desde o inicio dos anos 90. Aquele poderia ter sido o momento mais apropriado para encerrar a série, que tinha rendido até então 20 filmes, no entanto os produtores decidiram arriscar mais uma vez. Brosnan foi substituído e esta que parecia ser a decisão mais sábia acabou gerando uma grande polêmica. A escolha de Daniel Craig para o papel foi considerada uma heresia pelos fãs mais radicais, pois de acordo com os escritos de Ian Fleming, o 007 era alto, moreno, de olhar penetrante e sedutor, características inexistentes ou não tão marcantes no novo ator. Acontece que, para a surpresa de todos, 007 - Cassino Royale não só provou que Craig era o cara certo para papel, como também mostrou que a franquia ainda era capaz de render obras de notável qualidade.

O segredo do sucesso do filme talvez esteja na nova estratégia adotada pelo seus realizadores, que consistiu  em libertar o personagem de alguns de seus próprios clichês (o que explica em parte a escolha de um ator cujo o biotipo é diferente da descrição feita pelo criador do personagem). Este novo posicionamento está presente em toda a trama, que optou por não dar uma continuidade linear para o que fora contado até então, decidindo ao invés disso reiniciar a história do agente. No longa, alguns elementos considerados intocáveis por parte dos fãs foram abandonados e outros sutilmente subvertidos. A música tema do personagem, por exemplo, que antes tocava em cada clímax, só tocou durante os créditos finais e sua fala mais famosa ("meu nome é Bond, James Bond") foi dita em apenas um momento do filme. Em determinada passagem, Bond pede um martíni com vodca e o garçom lhe pergunta: "batido ou mexido?", ele então responde: "acha que ligo para isso?". Neste diálogo, que funciona quase como uma piada interna, está a evidência de que a cartilha fora de fato rasgada.

[Recomendo a leitura do artigo "Calando a Boca e com o Pé na Porta!" escrito pelo crítico Octavio Caruso, que descreve com muita propriedade a reação causada pela nomeação do ator e sua volta por cima.


O prólogo de 007 - Cassino Royale mostra o encontro de James Bond (Craig) com um agente duplo que se infiltrara no Serviço Secreto Britânico, a quem ele precisa eliminar. Bond cumpre com relativa facilidade  esta missão e a execução deste trabalho o habilita para se tornar o sétimo agente '00', aos quais é dada a licença para matar. Logo após sua promoção ele se vê envolvido em um caso de proporções e riscos bem maiores, ele precisará investigar e deter Le Chiffre (Mads Mikkelsen), um banqueiro que capta dinheiro do terrorismo e atua como especulador no mercado mobiliário, assumindo riscos com um dinheiro sujo que sequer lhe pertence. Chiffre faz uma aposta contra o mercado na esperança de que iria conseguir manipular os preços das ações de uma companhia aérea, no entanto Bond consegue impedir a concretização deste plano. Para sair do prejuízo o banqueiro decide apostar tudo em uma partida de pôquer no Cassino Royale, localizado em Montenegro. Com a ajuda de René Mathis (Giancarlo Giannini) e de Vesper Lynd (Eva Green), o agente britânico entra no jogo com o objetivo de derrotar o criminoso e assim desestabilizar sua organização...


Enquanto a trama de 007 - Cassino Royale representa o renascimento do personagem, a do filme seguinte, 007 - Quantum of Solace (2008), aborda o seu amadurecimento. Nesta nova aventura James Bond volta um tanto diferente, nela ele se vê obrigado a lidar com mágoas e ressentimentos que foram causados por uma situação vivida por ele no último ato do filme anterior. Peças que ficaram soltas no final da última missão o conduzem a um novo caso, para o qual a inteligência inglesa não dá a devida importância. Dominic Greene (Mathieu Amalric), o novo vilão, é um empresário que se esconde atrás da boa imagem de filantropo para colocar em prática planos sórdidos e ambiciosos, ele pretende apoiar um golpe de estado na Bolívia em troca do controle sobre uma região desértico do país, onde suspeita-se que há petróleo. Ao investigar a Organização Quantum, chefiada por Greene, James descobre fatos que o colocam novamente em conflito com seu passado recente, o que acentua o desejo de vingança que passa a lhe motivar, esta situação é vista com desconfiança  por M (Judi Dench), chefe do MI6, ela entende que ele não deveria se deixar ser dominado por suas emoções, pois isso é um risco para ele e para a segurança nacional...


Quantum of Solace não foi tão elogiado quanto seu antecessor, mas ele foi considerado bom o suficiente para garantir a continuidade da série. Penso que não é exagero afirmar que o momento que antecedeu a criação de 007 - Operação Skyfall (2012) foi tão crucial para a franquia quanto o que descrevi no primeiro parágrafo deste texto e novamente o que parecia estar em jogo era o futuro do personagem... Mesmo depois de passado tanto tempo James Bond e suas histórias ainda traziam consigo uma espécie de ranço do período no qual eles foram criados, uma época marcada pela tensão crescente gerada pela bipolaridade política. Tal constatação levanta a pergunta que norteia toda a produção: Ainda há lugar para o 007 e para a espionagem clássica no mundo contemporâneo, ou eles são tão somente fantasmas da guerra fria? 

50 anos se passaram desde a estreia do primeiro filme 'oficial' do personagem, O Satânico Dr. No (1962),  e este marco ajudou a trazer novamente à tona o questionamentos supracitado. Todavia, desta vez as circunstâncias eram um pouco diferentes daquelas que comentei no início desta resenha. A franquia estava em um momento bem mais favorável (graças ao sucessos dos dois últimos filmes) e esta era a oportunidade perfeita para redefinir o 'lugar' do personagem e sua função no atual contexto histórico e também para comemorar a sua longevidade. Uma das grandes sacadas de 007 - Operação Skyfall foi ter levado estas problemáticas para a trama.


O reposicionamento do personagem no novo contexto é feito através de um diálogo que acontece em um tribunal. Ao se defender da acusação de que insistia em viver na época de ouro da espionagem, M expõe argumentos que são capazes de justificar a existência do MI6 e consequentemente a permanência do 007 no Serviço Secreto, ela diz: "hoje eu ouvi repetidamente que o meu departamento se tornou irrelevante... Bem, eu vejo um mundo diferente do que vocês veem e a verdade é que o que eu vejo me assusta. Estou assustada porque nossos inimigos não são mais conhecidos, eles não existem no mapa, eles não são as nações, são indivíduos. Olhem em volta, do que têm medo? Podem ver um rosto, um uniforme, uma bandeira? Não. Nosso mundo não é mais transparente agora, é mais opaco, está nas sombras e é lá que teremos nossa batalha. Antes de nos declarar irrelevantes, se perguntem... Se sentem seguros?". A defesa da personagem não é direcionada apenas para os presentes no tribunal, mas também para nós espectadores, principalmente para os que ainda tinham alguma dúvida acerca da importância do 007 nos dias de hoje.


Outro acerto foi a escolha do diretor. Sam Mendes, cineasta britânico que tem no currículo obras cultuadas como Beleza Americana (1999) e Foi Apenas um Sonho (2008), deu ao longa algo que seus antecessores não tiveram, uma alma. O novo filme não é composto apenas por cenas eletrizantes de perseguição e tiroteios, ele possui algo a mais, que faz toda a diferença: a reflexão proporcionada pelo atrito entre tradicionalismo e modernidade. Tudo aquilo que foi construído em Cassino Royale e em Quantum of Solace foi de fundamental importância para Operação Skyfall. Graças ao novo posicionamento estratégico adotado no primeiro e à maturidade alcançada no segundo, há agora a oportunidade de fazer autorreferências e de brincar com o passado sem que haja uma descaracterização ou margem para acusações de repetição. Grande parte do charme que o filme tem está na forma com que ele dialoga com o passado através de diálogos, objetos cênicos e até enquadramentos. Em alguns momentos este diálogo é sutil, quase imperceptível, em outros ele é bem claro, como na passagem em que James Bond tira da garagem um um DB5 prata, mesmo modelo dirigido pelo Sean Connery em 007 contra Goldfinger (1964)


Na trama de Operação Skyfall M está sendo forçada a se aposentar e o motivo é justamente a suposta falta de relevância dos serviços prestados pela agência que ela coordena, o que diz respeito diretamente à atuação de James Bond em campo. Para complicar ainda mais a situação, o 007 falha em uma de suas missões e dados sigilosos vão parar nas mãos do excêntrico Raoul Silva (Javier Bardem), um ex-agente do MI6 que nunca perdoou M, a quem ele responsabiliza por ter sido capturado e torturado pelos chineses no passado. Silva se tornou um terrorista cibernético cuja a única motivação é a vingança (qualquer semelhança com o próprio Bond do filme anterior não é mera coincidência). Ao descobrir que não é pálio para seu inimigo jogando o jogo que ele joga, James Bond decide atuar o mais distante possível de todo o aparato tecnológico (que esteve tão presente nos últimos filmes). Esta decisão representa uma volta da franquia aos primórdios do personagem e ao modelo clássico, o que constitui por si só uma homenagem e tanto aos primeiros filmes do agente.


Estou convencido de que não é exagero dizer que o longa de Sam Mendes é um épico, sua grandiosidade fica evidente já no prólogo, que é de tirar o fôlego. As atuações também merecem destaque, Craig se consolida como um dos melhores atores que deram vida ao 007 nestes cinquenta anos; Javier Bardem por sua vez compõe um dos mais interessantes vilões da franquia, mesmo seu personagem sendo caricado ele consegue deixar evidente o cuidado que teve com sua composição, o que pode ser notado pelos seus gestos, expressões faciais e maneirismos. A Judi Dench ganha mais espaço neste filme do que nos anteriores, nos quais ela aparecia mais como uma coadjuvante de luxo e o simples fato dela protagonizar algumas das cenas mais importantes do longa já é por si só uma garantia de que testemunharemos um desempenho acima da média.


Termino esta resenha com um diálogos mais emblemáticos de 007 - Operação Skyfall, no qual o Presidente do Comitê de Segurança e Inteligência aconselha M: "Sua gestão foi ótima, você deveria sair com dignidade", ela então lhe responde: "Pro inferno com a dignidade, eu vou sair quando o serviço estiver terminado!"... Como o serviço não acabou, podemos estar cientes de que o 007 voltará. Resta esperar para saber quem será a nova Bond Girl e quem interpretará a nova canção-título, afinal de contas, algumas coisas devem de fato permanecer intocadas, ao menos enquanto forem necessárias... 


Assistam aos trailers de 007 - Cassino Royale, 007 - Quantum of Solace e 007 - Operação Skyfall no You Tube, clique nos links!

007 - Cassino Royale

007 - Quantum of Solace

007 - Operação Skyfall


5 comentários:

  1. O que irei dizer poderá soar como um absurdo, mas vou escrever assim mesmo. Já tentei assistir aos filmes 007, mas a verdade é que nunca consegui chegar ao final de nenhum dos pooucos que tentei ver. O.o

    Grande beijo, querido amigo!

    JoicySorciere => CLIQUE => Blog Umas e outras...

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  2. Cassino Royale é o meu favorito de todos, mas quero muito ver os outros,adoro 007.

    Beijão, Sabrina. (www.spiderwebs.com.br) ♥

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  3. Não sei qual filme gostei mais: "Cassino Royale" ou "Skyfall". Poucas franquias me assombraram com uma dúvida assim. Geralmente é facil decidir por um favorito, mas nesse caso sempre estarei indeciso, pelo menos ainda, enquanto não é lançado o próximo filme da série.
    Mas mesmo assim, ainda que não tenha feito uma escolha única, estou certo de duas coisas em relação a essa reformulação que o personagem de James Bond teve nesses três ultimos episódios: primeiro que Daniel Craig tem se superado no papel de espião, e em segundo, que o "Quantum of Solace" não chega nem perto do que poderia ter sido na verdade.

    abraço

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  4. Gosto mais de Cassino Royale do que de Quantum of Solace. Operação Syfall ainda não vi, mas parece ser mesmo o melhor da série em muito tempo. Feliz ano novo.

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  5. Olá, José Bruno.
    Ainda não vi Operação Skyfall, que quero conferir para ver a atuação de Javier Bardem como vilão (relativamente) caricato.
    Eu gosto do Daniel Craig como Bond porque ele quebra o estereótipo de super espião invulnerável que foi criado através dos filmes anteriores, o que é realmente algo digno.
    Abraço.

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