segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge

Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge (The Dark Knight Rises) - 2012. Dirigido por Christopher Nolan. Escrito por Christopher Nolan, Jonathan Nolan e David S. Goyer,  inspirado na HQ escrita por Bob Kane.  Direção de Fotografia de Wally Pfister. Música Original de Hans Zimmer. Produzido por Christopher Nolan, Charles Roven e Emma Thomas. Warner Bros. Pictures, Legendary Pictures, DC Entertainment e Syncopy / UK | USA.


A cada novo filme do Christopher Nolan confirmo que o trocadilho "in Nolan we trust" é de fato aplicável, afinal ele vem construindo uma filmografia merecedora de respeito e dos mais sinceros elogios. Seu grande diferencial como realizador está no fato de que ele, mesmo atuando no cerne da indústria hollywoodiana, tem conseguido manter um nível de qualidade em seus trabalhos que está bem acima dos padrões do cinema comercial. Nolan tem provado que qualidade técnica, profundidade dramática e ousadia podem caminhar juntas com a expectativa de lucro das produtoras, ao contrário do que muitos outros realizadores parecem acreditar... Com o tempo criou-se o paradigma de que apenas obras de fácil digestão são rentáveis e capazes de cair no gosto do público médio, isto fez e continua fazendo com que o nível de qualidade fosse nivelado por baixo, o que explica a quantidade de lixo cinematográfico que é lançado todos os anos. Ainda que seus filmes dividam a opinião do público, Nolan tem mostrado que a premissa acima não precisa ser uma regra e que o cinema mainstrean pode sim ser o celeiro de obras que oferecem um entretenimento de qualidade, sem tantos clichês e maniqueísmos - Os dois primeiros filmes do Batman que ele tinha dirigido já eram claros exemplos disso.

Durante algum tempo Nolan foi relutante em dirigir mais um filme do herói, em entrevista ele chegou a afirmar que não o faria enquanto não estivesse emocionalmente envolvido com o projeto, contudo, ele acabou sendo motivado pela expectativa de dar uma conclusão satisfatória para a história, que começara a ser contada em Batman Begins (2005). Um terceiro filme certamente traria consigo o desafio de superar, ou ao menos se igualar ao seu antecessor, o excelente Batman: O Cavaleiro das Trevas (2008), o cineasta sabia disso e por isso encarou a missão de concluir a trilogia com tanto receio e cautela. Acredito que diversos outros cineastas teriam aceitado esta difícil empreitada sem tantas preocupações, afinal ainda que o novo filme não fosse bom, ele provavelmente seria ao menos rentável, devido às expectativas do público que se mantinham em alta. Nas mão de outro diretor o longa poderia ter se tornado apenas mais um caça níquel, daqueles que jamais deveriam ter sido realizados, como é o caso de tantos outros filmes de super-heróis, inclusive alguns do próprio vigilante de Gotham. 


A história de Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge (2012) se passa oito anos depois da morte do promotor Harvey Dent (vivido por Aaron Eckhart no filme anterior). Muita coisa mudou em Gotham desde então, graças a aprovação de uma lei que permitiu que criminosos de alta periculosidade fossem presos sem direito a liberdade condicional. Durante todo este tempo o  Batman (Christian Bale) foi tido como um assassino, ele assumiu para si a culpa pela morte de Dent, para preservar a boa imagem que este tinha e a mudança social que ele havia iniciado com o seu trabalho na promotoria. Neste período em que a cidade esteve em paz o Batman   não apareceu e a população passou a acreditar que não precisava mais dele. Alguns poucos ainda guardavam boas lembranças do período em que ele esteve em ação, dentre eles o Comissário Gordon (Gary Oldman) e o jovem policial John Blake (Joseph Gordon-Levitt). 


Bruce Wayne, que se tornou recluso e amargurado, ainda traz em seu corpo, agora debilitado, e principalmente em sua alma as marcas da batalha anterior, no entanto uma ameaça de grandes proporções faz com que ele volte à ativa, esta ameaça é representada pela chegada de Bane (Tom Hardy), um  mercenário, membro excomungado da Liga das Sombras, que trabalha junto com John Daggett (Ben Mendelsohn), um empresário que ambiciona assumir o controle da Wayne Enterprises. Selina Kyle (Anne Hathaway), uma ladra profissional, também se associa a Daggett em troca do "Ficha Limpa", um programa que poderia ajudá-la a apagar os registros que a polícia detém sobre o seu histórico de crimes. Outra personagem importante é Miranda Tate (Marion Cotillard), uma ativista de causas ambientais e sociais, ela é uma das investidoras do projeto atômico que estava sendo desenvolvido pela Wayne Enterprises, que fora cancelado pelos riscos de gerar uma arma de destruição em massa.


A grande genialidade do roteiro de Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge está na forma com que ele desenvolve cada um dos personagens. Boa parte deles, incluindo alguns secundários, possuem motivações próprias, que guiam seus atos e dão a eles uma nível de complexidade que não é comum em filmes do gênero. Selina Kyle, por exemplo, transita entre os dois lados, ela comete crimes, porém sua motivação vem de uma ética pessoal diante da qual o que ela faz não é de todo reprovável. O mordomo Alfred (Michael Caine) vive um conflito com seus próprios sentimentos, ele teme que Bruce (com quem tem uma relação quase paternal) morra em combate e este medo o leva a tomar uma decisão que coloca a perder tudo aquilo que ele construiu ao lado dos Wayne. O Comissário Gordon, por sua vez, vive um dos maiores dilemas, ele se culpa pela mentira que foi contada à cidade sobre as circunstâncias da morte do promotor Harvey Dent, em pelo  menos  dois momentos da narrativa ele se vê tomado pela dúvida entre contar ou não a verdade. 


O Bruce Wayne vive dilemas semelhantes, em várias passagens ele vê sua importância para a cidade ser questionada e ele próprio se atormenta com a culpa por algo que acontecera no passado e com reflexões sobre a eficácia de suas ações (outro fenômeno incomum em um filme de super-herói). Na história ele se vê obrigado a trilhar um longo caminho até conseguir reencontrar algumas coisas que tinham sido perdidas há oito anos... O estado no qual Bruce se encontra tem relação direta com a escolha de Bane para ser o vilão do filme, escolha esta que tinha me parecido um tanto estranha a princípio. Todavia, a presença do mercenário na trama foi, ao meu ver, completamente justificada, acredito que nenhum dos outros inimigos do Batman seriam capazes de representar o mesmo tipo de ameaça que ele representa, que tem muito a ver com a condição física e psicológica do herói. A impressão que temos durante boa parte do filme é a de que o Batman não é páreo para Bane e sua extraordinária resistência.


O perfeccionismo de Nolan também fica evidente em cada um dos aspectos técnicos do filme, as cenas de ação são excelentes e os efeitos especiais não deixam nada a desejar. A fotografia novamente deixa de lado as sombras características de alguns filmes mais antigos do herói e mostra a cidade de Gotham com um realismo incrível (destaco a sequência que foi gravada em Wall Street, em Nova Iorque). A trilha composta por Hans Zimmer, colaborador do Nolan nos outros dois filmes da franquia e em A Origem (2010), confere ao filme um tom de urgência e de apreensão, ela é muito bem usada durante todo o desenvolvimento do longa e reforça de uma forma extraordinária a aura épica que o filme tem. Merecem destaque também a direção de arte e a idealização de cada um dos "brinquedos" que o Batman usa no filme... 


Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge possui diversas reviravoltas em sua trama, como é comum nos filmes de Nolan, ele consegue nos prender e nos deixar apreensivos durante cada um de seus 265 minutos. Se ele é melhor ou pior que seus antecessores, isso não importa, pois ele já conseguiu o essencial, entrou para a lista dos melhores e mais bem realizados filmes de super-heróis de todos os tempos... Ultra recomendado!


Assistam ao trailer de Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge no You Tube, clique AQUI !

A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra.

12 comentários:

  1. Demorei séculos para assistir este filme! A verdade é que poucos filmes de super herois me interessam(adoro X-Men... principalmente o Wolverine). Gostei do que vi... eu tbem recomendo!

    Ah, aproveitando que estou aqui no último dia do ano pra lhe desejar um 2013 do jeito que vc planeja, querido. Obrigada pela cia(mesmo que virtual) durante 2012. :) Vc já é do coração!!!!

    bjks

    JoicySorciere => CLIQUE => Blog Umas e outras...

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    1. Tua companhia também foi maravilhosa Joicy, aprendi muito com você e os momentos que compartilhamos aqui no mundo virtual foram fantásticos! Desejo que 2013 seja um ano repleto de realizações para ti! Beijos

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  2. Valeu J. Bruno e desejo o mesmo para você. E parabens pela avaliação do Batman, muito boa. Estou querendo ver o seu TOP 10 também.

    Abraço! Feliz ano novo!

    Matheus C. Vilela

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    1. Ainda não me sinto totalmente preparado para fazer a lista, ainda preciso assistir outros lançamentos, talvez eu a faça perto da entrega do Oscar...

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  3. Gostei de sua análise Bruno, embora não concorde quando diz que é incomum em filme de super-herói o mesmo não ter traumas, culpas e reflexões sobre suas ações. Até mesmo Raimi com o segundo Homem-Aranha fez isso quando ele decide desistir. Enfim, mas é claro que Nolan é mais realista e compõe um melodrama mais apurado no gênero dos heróis das HQ´s e acredito que esta fórmula irá trilhar seriamente começando com sua nova produção "O Homem De Aço".

    Não é um filme perfeito como "O Cavaleiro Das Trevas" e certamente não se iguala com o excelente "A Origem", mas Nolan soube segurar as pontas nesta conclusão de proporções épicas. Um filme eficiente, ótimo e que encerrou um marco na indústria cinematográfica. Realmente, Nolan imprimiu qualidade e muita ousadia nesses blockbusters. Concordo plenamente.

    Abraço!

    * Também escrevi uma crítica deste filme na época do lançamento:

    http://cinemarodrigo.blogspot.com.br/2012/08/christopher-nolan-batman-o-cavaleiro.html#more



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    1. Concordo que que o segundo "Homem Aranha" tenha explorado bem estes mesmos aspectos que citei. Quando eu disse que este tipo de abordagem não comum eu não quis dizer que ela nunca tinha sido experimentada em outros filmes, a verdade é que filmes do gênero com este tipo de angulação continuam sendo exceções.

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  4. Bruno,

    Tudo bem?
    A Patt da Cinéfilos me indicou seu blog.
    O qual já estou seguindo e adorando.
    Sobre Nolan...Hum, o que pensar?
    Acho que também acredito/confio nele.
    Se bem que quando se trata de Batman´s temos uma tríade bem complexa não é?
    Burton e seu mundo sarcástico;
    Joel e seu colorido pseudo futurista com personagens ainda no estilo Burton;
    E o mais realista e ainda sim mais rebuscado Nolan.

    Confesso, que sou adepta ao estilo Nolan de ser ;)

    Um beijo,

    Ju

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    1. Olá Juliana, seja bem vinda!
      Que bom que gostou do Sublime, fico muito feliz por isso!

      Eu gosto bastante dos filmes dirigidos pelo Burton, mas os do Joel eu já acho bastante indigestos. Eu gosto dos filmes do Nolan, principalmente pelo realismo e pela forma com que ele explorou cada um dos personagens, nas mão de outro diretor esta trilogia poderia ter sido uma mera refilmagem de histórias já contadas...

      Beijo

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  5. Não posso acrescentar mais nada na sua resenha completa sobre a melhor trilogia do Batman e uma das melhores trilogias do cinema! Nolan é um diretor completo e fez uma obra prima com este trabalho, a conclusão mais que perfeita, com um vilão a altura de Batman, inseriu a Selina Kyle na história e o Robin de uma forma que não estragou tudo! Hans Zimmer na trilha então...

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    1. Na época da pré-produção quando começaram a surgir os boatos sobre quem seriam os vilões e sobre um possível aparecimento do Robin eu fiquei um tanto preocupado, no entanto, o roteiro trabalhou muito bem cada um dos personagens, dando o devido destaque a quem precisava ser destacado. A minha atuação apreensão se deve à suposta continuidade da história, que se dará ao que tudo indica através do filme da "Liga da Justiça"...

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  6. Olá, José Bruno.
    Sua análise do filme ficou excelente, mas é uma pena que eu tenha realmente detestado esse filme, pelo mesmo motivo que eu não gostei de Prometheus, que é ver personagens inteligentes agindo de maneira burra (como acontece com Batman, que simplesmente esquece como lutar ao enfrentar Bane (um taser ou um dardo tranquilizante teriam acabado com ele) e com Bane (que, inexplicavelmente, poupa a vida de Batman e o coloca em uma prisão de onde dá para fugir facilmente, além de postergar a destruição da cidade sem motivo algum) sem mais nem menos.
    Além disso, com Batman abandonando a cidade no final, tudo pelo qual ele passou nos três filmes vai por água abaixo, já que ela continua do mesmo jeito que sempre foi (e não dá para acreditar que John Blake, apenas com seu treinamento de policial, viria a se tornar o novo Batman) e se um novo Coringa ou uma nova organização terrorista quiserem ameaçar Gotham, esta se verá em maus lençóis.
    Batman sempre venceu seus inimigos por ser mais inteligente do que eles, mas o que ocorre aqui é justamente o oposto, ele não é nada inteligente e só consegue "ressurgir" porque o vilão faz a gentileza de poupar sua vida, o que é simplesmente absurdo dentro da proposta de Nolan para esta trilogia (ser o mais realista possível).
    Acho Nolan um excelente diretor e roteirista, mas esse filme eu realmente não consegui gostar de quase nada.
    Acredito que o novo Superman ficará bem interessante (caso Snider finalmente perca sua irritante mania de colocar slow motion em tudo) na ótica diferenciada de Nolan.
    Te desejo tudo de bom neste novo ano, José Bruno, e espero que continue a nos indicar excelentes filmes, como sempre fazes.
    Abraço.

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    1. São questionamentos bem pertinentes Jacques, dentre eles só me feito o que você se fez acerca do John Blake, eu não consigo imaginá-lo defendendo a cidade e desde o final de TDKR eu comecei a ter medo do que se tornará filme da "Liga da Justiça".

      A atitude do Bane de deixar o Batman na prisão é compreensível, ele não queria que ele morresse, que que ele sofresse e ele deixa isso claro. Fugir da prisão onde o Bruce é deixado não é fácil, por mais que pareça, o próprio Bane não conseguiu sair de lá sozinho (neste ponto acho que não há tanto o que questionar). Concordo com você em relação ao desfecho. Todavia, ainda acho que o exagero e falhas deste tipo até são perdoáveis em filmes do gênero...

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