domingo, 31 de março de 2013

Sr. Ninguém

Sr. Ninguém (Mr. Nobody) - 2009. Escrito e dirigido por  Jaco Van Dormael. Direção de Fotografia de Christophe Beaucarne. Música Original de Pierre van Dormael. Produzido por Philippe Godeau. Pan Européenne Production / França | Alemanha | Canadá | Bélgica.


É no mínimo um absurdo classificar Sr. Ninguém (2009) , filme escrito e dirigido por Jaco Van Dormael, como uma ficção científica sobre viagens no tempo, geralmente aqueles que o fazem são os mesmos que acusam o longa de ser confuso e sem sentido. Um outro equívoco recorrente é a classificação da trama como sendo complexa, o que definitivamente ela não é. Caso a proposta do filme seja compreendida ainda no início de seu desenvolvimento, tudo nele se torna mais claro, o que faz com que ele chegue a parecer até simplório em algumas partes. Como nós espectadores temos o mau costume de criticar aquilo que não entendemos, corremos o risco de apontar nele defeitos que ele não tem e com isso acabar negligenciando outros problemas menores, estes reais e perceptíveis em seu desenvolvimento. 

Sr. Ninguém é sobre as escolhas que fazemos durante nossa vida e como elas determinam quem na verdade somos, na história contada pelo filme, Nemo (Jared Leto), o personagem central, se encontra em algum lugar no futuro, um tempo em que as pessoas se tornaram imortais e ele é o último ser humano mortal ainda vivo. Através de uma espécie de reality show, as pessoas desta época tentam descobrir quem ele foi quando jovem e o que ele tem para contar sobre uma época em que a vida era tão diferente. Ele, no entanto, não enxerga na própria vida o sentido que os outros buscam nela, ele, apesar de guardar memórias do passado, não sabe dizer quem na verdade é, ele esteve constantemente preso á ideia de a vida era determinada pelas suas próprias ações, o que é uma ideia controversa, uma vez que cada indivíduo está inserido em uma rede complexa e não simples de causas e consequências.


Quando criança, Nemo dizia ter o dom de enxergar o futuro e de esquecer o passado, tal declaração, que ele faz ainda no início do filme, coloca pulgas atrás das orelhas de muita gente, todavia, nela não há nada de sobrenatural, na verdade ela seria, ao meu ver, apenas um fruto de uma fantasia do menino, no entanto, ela é capaz de explicar o modo de vida que ele adotaria da infância ao ocaso de sua existência. Nemo condicionou suas escolhas à crença de que elas eram capazes de impedir coisas que ele imaginava que poderiam vir a acontecer. Por conta disso, só lhe sobrava um único caminho a seguir e isso sequer podia ser chamado de escolha, pois na maior parte das situações ele sequer fazia uma opção, por acreditar que "enquanto não se escolhe tudo permanece possível". Já na velhice, ele não consegue descobrir quem na verdade é, simplesmente porque durante toda a sua vida ele não foi corajoso o suficiente para tomar decisões que o ajudassem a descobrir sua verdadeira identidade. 


Toda a narrativa do filme se baseia naquilo que o personagem poderia ter vivenciado caso tivesse feito pequenas e grandes escolhas, por isso vemos situações que parecem se repetir durante o desenvolvimento do longa, porém de uma forma diferente. Aquilo que muita gente confundiu com idas e vindas no tempo são na verdade abstrações da mente do personagem, que tenta imaginar as consequências das escolhas que poderia ter feito e como cada uma delas poderia ter lhe marcado e ajudado a compor aquilo que o diferenciaria como indivíduo. Em cada uma das reconstruções de sua própria vida, Nemo escolhe ficar com um dos pais e não com o outro, casa com uma mulher diferente, tem um emprego diferente e morre de uma forma diferente, porém, em nenhuma delas ele consegue chegar aos 117 anos, idade na qual se encontra  ao ensaiar suas reminiscências, mas em todas elas ele é feliz, simplesmente por ter vivido de verdade.


É possível perceber durante todo o filme um toque onírico, que torna cada passagem parecida com algo que poderia ter saído de um sonho, pode-se reparar também que há no longa uma predominância de padrões estéticos que não condizem com a percepção da realidade, tudo é colorido demais, cada coisa está em seu devido lugar e isso reforça a ideia de que o que vemos não são lembranças, não é real, mas tão somente uma construção um tanto romantizada da mente do personagem central. A fotografia confere ao filme um visual belíssimo,  que faz jus à intensidade de cada uma de suas temáticas e dos sentimentos experimentados pelo protagonista. A trilha sonora, que conta com nomes como Pixies, Buddy Holly, Ella Fitzgerald, e Eurythmics, é simplesmente maravilhosa, cada uma das canções utilizadas se encaixa perfeitamente com a passagem em que toca, gerando assim alguns momentos sublimes.


Todo o elenco do filme está muito bem, principalmente o Jared Leto, que chama a atenção não só pelas diversas caracterizações de seu personagem, mas também pelas sutis variações na construção do mesmo, que podem ser percebidas em cada uma das memórias/imaginações que compõem a trama. O filme peca pela sua longa duração, que acho desnecessária, uma vez que o essencial da trama caberia em um tempo bem menor, e também pelas variações de ritmo, que ele sofre em algumas passagens, o que chega a prejudicar o impacto provocado por ele, principalmente em seu desfecho. Mas nada disso tira do filme o brilhantismo que ele tem, ele não é uma obra perfeita, mas é sem dúvidas um filme que merece ser visto e acima de tudo refletido.


Sr. Ninguém é no fim das contas uma exaltação humanista à vida e à cada uma das experiências que ela nos oferece, sejam elas boas ou ruins. Ele me fez lembrar de que é melhor assumir as consequências de uma escolha do que permanecer passivo diante dela, afinal, tudo pode até permanecer possível enquanto uma escolha não é feita, mas isso não é uma garantia de que ao menos uma das possibilidades venham a se concretizar de fato e de nada vale uma longa vida não vivida... Assista ao filme! Nunca se esqueça de viver! 


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A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra.

sábado, 30 de março de 2013

Repulsa ao Sexo

Repulsa ao Sexo (Repulsion) - 1965. Dirigido por Roman Polanski. Escrito por Roman Polanski, Gérard Brach e David Stone. Direção de Fotografia de Gilbert Taylor. Música Original de Chico Hamilton. Produzido por Gene Gutowski. Compton Films e Tekli British Productions / UK.


Um pequeno apartamento que vai se tornando cada vez mais escuro, opressivo e claustrofóbico; um coelho temperado que apodrece esquecido fora da geladeira; batatas que também apodrecem lentamente sobre uma mesa... estes são reflexos metafóricos da mente perturbada de Carol Ledoux (Catherine Deneuve, belíssima), a personagem central de Repulsa ao Sexo (1965), uma das obras mais importantes da filmografia de Roman Polanski. Carol trabalha como manicure em um salão de luxo e mora com Hélène, (Yvonne Furneaux), sua imã mais velha, ela à princípio nos parece ser apenas uma moça tímida e retraída, todavia, á medida em que a trama se desenrola, percebemos que seu problema é muito mais grave. Ela teme qualquer tipo de contato com os homens, uma simples conversa na rua, ou a presença da escova de dentes do namorado da irmã na pia do banheiro, são situações capazes de deixá-la completamente aturdida.

Carol aparenta querer reprimir seu desejo sexual a qualquer custo, chegando ao limite da sanidade ao tentar fazê-lo. Em seu comportamento podemos perceber diversos indícios do que poderia ter sido a causa de sua fobia, mas nada é tão claro. O roteiro não se propõe a explicar a gênese do estranho medo que ela tem dos homens, o foco da narrativa está quase todo no processo de degradação psicológica que ela vivencia. A genialidade do filme de Polanski está na forma com ele desnuda a personagem central e a expõe para nós espectadores através das metáforas citadas no início desta resenha e de pequenos detalhes da trama que podem passar despercebidos para muitos, como visão quase maternal que Carol tem da irmã, seu comportamento infantilizado, que a direção de arte ajuda a reforçar através de objetos cênicos presentes no quarto dela (reparem que ela dorme apegada a um bichinho de pelúcia) e que pode ser percebido também nas reações imaturas que ela esboça em diversos momentos da trama.


Fotografia, direção de arte, trilha sonora e os demais elementos técnicos do filme estão em uma perfeita sintonia com aquilo a que a trama se propões, sendo de tal forma essenciais para a condução da narrativa. Estes elementos, muito mais do que os poucos diálogos do filme, ajudam a delinear a realidade na qual a protagonista está de fato inserida e aquela para a qual ela é conduzida por sua mente doentia. O atrito entre estas duas 'realidades' é um dos aspectos que tornam o filme tão memorável, Repulsa ao Sexo adentra nos espaços mais sombrios da mente da personagem e traz à tona aquilo de mais assustador que há lá. O suspense psicológico proveniente de tal tipo de construção é tão angustiante quanto a condição de Carol, e Polanski o explora de uma forma impressionante, através do jogo de luzes e sombras, dos cortes rápidos, dos enquadramentos diferenciados e da composição da mise-en-scene, que se encarrega de deixar sempre à vista nos momentos certos os elementos metafóricos já citados. 


A Catherine Deneuve está ótima na pele da personagem central, sua interpretação destaca e consegue tornar crível tanto a sensualidade quanto a imaturidade emocional, que são os traços mais característicos de Carol. Através de um olhar constantemente perdido, de um tom de voz contido e de movimentos receosos, ela constrói uma manifestação de loucura totalmente plausível, que chega a ser assustadora pelas consequências que produz. O restante do elenco dá o suporte necessário para que a Deneuve brilhe, afinal de contas, no tocante às atuações, o filme é indiscutivelmente dela.


Repulsa ao Sexo, que é considerado o primeiro filme da 'trilogia do apartamento' de Polanski, composta também por O Bebê de Rosemary (1968)O Inquilino (1976), ajudou a consolidar o respeito que o  cineasta polonês conquistara com seu primeiro longa metragem, A Faca na Água (1962), que chegou a ser indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Por ironia do destino, anos depois o diretor foi condenado nos Estados Unidos por ter mantido relação sexual com uma menor de idade, que o acusou de tê-la drogado, o que é no mínimo curioso, uma vez que a trama de Repulsa ao Sexo dá pistas de que o caos mental vivido pela personagem é resultado de possíveis abusos que ela teria sofrido quando ainda era criança. 


Sendo ou não culpado das acusações (e tudo indica que ele é, caso contrário ele não teria fugido dos Estados Unidos), o que não se pode negar é que Roman Polanski é um grande cineasta, dono de uma das melhores, mais diversificadas e influentes filmografias do cinema contemporâneo. Repulsa ao Sexo é um clássico tão incômodo quanto impactante, um óbvio reflexo da mente já atormenta de seu autor, que se tornaria ainda mais perturbada após o assassinato de sua esposa, que estava grávida, em 1969 pelo grupo liderado por Charles Manson. Apesar de toda a controvérsia, é impossível desassociar a figura do cineasta de suas obras, bem como, é impossível negar que realizou algumas das produções mais importantes das últimas 5 décadas e o filme objeto desta resenha certamente é uma delas. Ultra Recomendado!  


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Confiram também aqui no Sublime Irrealidade as críticas de O Escritor Fantasma (2010)Deus da Carnificina (2011), também dirigidos pelo Roman Polanski.

A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra.

terça-feira, 19 de março de 2013

Os Sapatinhos Vermelhos

Os Sapatinhos Vermelhos (The Red Shoes) - 1948. Dirigido e produzido por Michael Powell e Emeric Pressburger. Escrito por Michael Powell, Emeric Pressburger e Keith Winter, inspirado no conto de Hans Christian Andersen. Direção de Fotografia de Jack Cardiff. Música Original de Brian Easdale. The Archers e Independent Producers / UK.


A efemeridade do sucesso, a busca pela perfeição, as armadilhas do estrelato... Estes temas já renderam excelentes obras no cinema, clássicos como A Malvada (1950) de Joseph L. Mankiewicz e ainda produções recentes como Cisne Negro (2010) de Darren Aronofsky, estes filmes têm comum o fato de que suas tramas funcionam como um retrato sombrio do show business, por mostrar a forma com que ele pode destruir com relativa facilidade a vida daqueles que aceitam participar de seus jogos. Em Os Sapatinhos Vermelhos (1948), obra-prima dirigida por Michael Powell e Emeric Pressburger, tais temáticas também estão estão presentes, seu excelente roteiro aborda a ascensão de duas estrelas, a bailarina Victoria Page (Moira Shearer) e o músico Julian Craster (Marius Goring), ambos são jovens ambiciosos que personificam o prazer do ato criativo e a ânsia de alcançar a perfeição. Boris Lermontov (Anton Walbrook), o diretor do teatro que os contrata, por sua vez, pode ser considerado uma personificação do próprio show biz, ele é um homem elegante, de gosto refinado, porém, detentor de uma aura sombria e de um temperamento rude e cruel.

Na trama, Lermontov descobre Victoria através de uma tia dela, que planejou uma festa em sua casa para ter a oportunidade de expor o talento da sobrinha. Já Julian, se fez ser notado, ele foi até Boris para cobrar pelo uso não autorizado de uma suas composições em um balé produzido por ele. Mesmo não dando o braço a torcer num primeiro momento, Lermontov se rende ao talento dos dois e ambos acabam sendo contratados e, após uma série de eventos, se tornam as estrelas do novo espetáculo da companhia, uma adaptação de Os Sapatinhos Vermelhos, conto trágico escrito por Hans Christian Andersen, autor de clássicos da literatura infantil, como O Patinho Feio, A Pequena Sereia e O Soldadinho de Chumbo. Na estória a ser recontada no palco, a personagem principal é uma bailarina que ganha um par de calçados mágicos e não consegue mais parar de dançar após calçá-los. Sem conseguir tirá-los de seus pés ela dança até não ter mais forças, no final ela cai morta, vencida pela arte que tanto amou.


A trama do filme caminha para um desfecho trágico e a peça encenada é uma espécie de prenúncio do que está para acontecer. Em seu primeiro encontro com Boris, Victoria diz a ele que dançar tinha para ela a mesma importância que viver para ele; não é absurdo acreditar que esta declaração tornou possível a escolha dela para ser a protagonista da nova montagem, naquele momento, ainda que sem saber, ela estava se comprometendo a valorizar mais o balé do que sua própria vida e isso certamente lhe seria cobrado. Ela se apaixona por Julian e o relacionamento iniciado por eles é visto com maus olhos por Lermontov, que não acredita que a moça consiga se entregar com a mesma intensidade aos dois amores, para ele ela deve viver para a dança, tal como havia prometido no primeiro encontro entre eles. A postura do diretor, que à princípio se confunde com mero ciúme, é na verdade muito mais que isso, percebe-se que uma provável atração sexual definitivamente não é o que lhe motiva. 


Boris Lermontov é ao meu ver o personagem mais complexo e intrigante do filme, diferente de Victoria e Julian, que não transcendem a condição de um par romântico, ele não deixa perceptíveis quais são suas reais motivações. Comentei anteriormente que ele personifica o próprio show business e isso pode ser notado na relação dele ele com cada um daqueles com quem ele trabalha; pode-se dizer que ele exerce algum tipo de poder sobre a vida de cada um, afinal todos sabem que estarão condenados ao ostracismo caso se distanciem dele e de sua companhia, ele diz quem deve e quem não deve continuar sob os holofotes e sua visão sobre o futuro de algum candidato ao estrelato tem quase o peso de uma sentença. No entanto, é interessante perceber que ele traz consigo sua própria antítese, ele é visivelmente um homem amargurado e constantemente insatisfeito, como se o poder que detém não lhe fosse o suficiente.


Pela sua insaciedade,  Lermontov pode ser comparado ao titã Prometeu, personagem da mitologia grega que, após tentar roubar o fogo de Zeus para dar aos homens, foi preso a uma rocha e condenado a ter seu fígado devorado por uma águia, esta o dilacerava e voltava tão logo o órgão se restituía, o que acontecia em menos de um dia. Tal como o Titã, Boris tenta dar aos simples mortais algo de sagrado, todavia, ao invés de fogo, ele oferece a aqueles que se subordinam a ele o prazer da busca pela a perfeição artística. A efemeridade do sucesso é águia que o atormenta constantemente. Enquanto uma estrela tem sua carreira devorada pelo simples passar do tempo, ele precisa buscar uma nova, que possa a substituir a atual à altura ou de melhor forma, culminando num ciclo tão opressivo e interminável quanto aquele no qual Prometeu se viu preso. Lermontov vive sua própria tragédia, ele se atormenta com sua obrigação de erguer novas celebridades, uma busca tão angustiante que o faz ansiar por uma estrela que não se apague tão rapidamente, uma que valorize o espetáculo mais do que sua própria vida...


Os Sapatinhos Vermelhos não é uma obra genial e à frente de seu tempo somente por causa da brilhante metáfora que cria do show business; trata-se de uma obra impecável também pelos aspectos técnicos, sua direção de arte é impressionante, associada à fotografia, ela ajuda a compor cada um dos ambientes, tornando-os ao mesmo tempo belos e opressivos, o que é reforçado pela constante presença de sombras e cores desbotadas e de objetos cênicos que evocam alguma espécie de negativismo, como flores murchas e peças de decoração soturnas (o que contrasta com o positivismo que emana do comportamento da personagem principal). A melancolia, implícita na maior parte do filme, se torna evidente na passagem de mais de 15 minutos em que a peça baseada na obra de Andersen é encenada, nesta sequência, que é pura perfeição, a morbidez dos ambientes contrasta com o colorido dos sapatinhos usados pela bailarina, cujo vermelho escarlate é destacado pela direção de fotografia, representando bem tanto a intensidade, quanto a fugacidade do sucesso.


A excelente montagem confere ao filme um ritmo crescente, que ajuda a atenuar a ansiedade despertada em nós expectadores acerca do desfecho da trama, ela ainda torna possível a sensação de continuidade e aceleração, tão importante na já citada sequência que retrata a apresentação de Os Sapatinhos Vermelhos. Os movimentos de câmera e enquadramentos têm uma precisão incrível (prestem atenção na forma com que a câmera acompanha a bailarina em alguns momentos da encenação, parecendo dançar junto ela), o que colabora com a narrativa através da criação de rimas visuais e autorreferências (reparem como a sequência final remete à passagem que mostra a apresentação do balé)... Moira Shearer, que realmente filmou cada uma das cenas de dança, está excelente, este é de fato um momento sublime de sua carreira; Anton Walbrook não está menos formidável que ela, ele compõe seu personagem basicamente com sutilezas, que incluem seus olhares, sorrisos sarcásticos e as suas memoráveis feições de  desdém e deboche.


Os Sapatinhos Vermelhos é de fato uma obra que não envelheceu, depois de mais de seis décadas sua trama e todo seu aparato técnico continuam tão impactantes quanto imagino que tenha sido na ocasião de seu lançamento, a diferença talvez esteja no fato de que hoje o deslumbramento que ele é capaz de nos provocar seja causado mais pela sua potencialidade reflexiva do que pelos seus méritos estéticos. Sua temática central (a fugacidade do sucesso associada a busca ensandecida pelo momento de glória sob os holofotes) é ainda mais atual e pertinente hoje do que era na época em que o filme estreou nos cinemas, com a diferença de que atualmente a elevação de artista ao estrelato pressupõe seu esvaziamento artístico, o que de fato é contraditório. Ta situação, que o filme sutilmente critica, nos priva de ver nos palcos de hoje em dia um momento de glória tão sublime quanto o vivido pela personagem durante sua interpretação... Sobre esta sequência, Darren Aronofsky, que bebeu bastante da fonte de Sapatinhos Vermelhos para fazer Cisne Negro, provavelmente diria: "Eles foram perfeitos!" - Ultra Recomendado! 


Curiosidade: Os Sapatinhos Vermelhos é um dos filmes favoritos do mestre Martin Scorsese, que foi quem investiu no seu processo de restauração, através de sua fundação, a A World Cinema Foundation. Graças ao trabalho do Scorsese temos acesso hoje à uma obra com tamanha qualidade de som e imagem.

Os Sapatinhos Vermelhos ganhou o Oscar nas categorias de Melhor Direção de Arte e Trilha Sonora, tendo sido indicado também nas de Melhor Filme, Roteiro e Montagem.

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A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra.

sábado, 16 de março de 2013

Três Homens em Conflito

Três Homens em Conflito (Il buono, il brutto, il cattivo) - 1966. Dirigido por Sergio Leone. Escrito por Sergio Leone, Luciano Vincenzoni, Furio Scarpelli e Agenore Incrocci. Direção de Fotografia de Tonino Delli Colli. Trilha Sonora Original de Ennio Morricone. Produzido por Alberto Grimaldi. Produzioni Europee Associati (PEA) / Itália | Espanha | Alemanha.


Três Homens em Conflito (1966), obra-prima de Sergio Leone, é um filme irretocável que beira à perfeição. Dizer que ele é um dos melhores westerns já realizados não chega nem perto de fazer jus à importância que ele teve para a sétima arte. Ele transcendeu o gênero que o criou para se tornar algo muito maior, eu ousaria incluí-lo no seleto grupo formado pelas melhores, mais importantes e influentes obras de todos os tempos. Um resultado do perfeccionismo de Leone, que aparenta se preocupar com a composição de cada fotograma, tudo nele parece milimetricamente colocado em seu devido lugar: o jogo de iluminação, a composição da mise-en-scène, a direção de arte, a escolha dos enquadramentos... Cada elemento da linguagem cinematográfica é usado com a sutileza de uma pincelada em um quadro que se pinta e com a precisão de um instrumento musical em uma orquestra.

Este clássico absoluto do western é a última parte da Trilogia dos Dólares (ou Trilogia do Homem sem Nome, como prefirirem), que rendera também Por Um Punhado de Dólares (1964) e Por Uns Dólares a Mais (1965). Esta trinca de películas deu vida nova ao gênero, que parecia estar caindo no ostracismo nos Estados Unidos, deu notoriedade e reconhecimento para o Sergio Leone e ainda revelou um jovem, até então desconhecido, chamado Clint Eastwood, cujo personagem, o lendário homem sem nome, se tornaria um ícone, um símbolo de todo um gênero e de uma época de desconstrução das identidades, como foram os anos 60. O surgimento do mito, no entanto, não se deu por acaso, Leone tinha plena ciência do que estava fazendo, ele estava disposto a criar uma lenda e de fato o conseguiu.


Tudo no filme aponta para a figura icônica do pistoleiro interpretado pelo Eastwood, chamado no filme apenas de 'Blondie' (Loirinho na tradução), ele aparenta não ter uma história antecedente aos fatos narrados, não sabemos qual é sua motivação e tão pouco se ele é um bandido ou um herói, a alcunha de 'bom' que o título do filme associa a ele é ambígua, uma vez que é difícil identificar bondade ou qualquer outro sentimento em sua conduta. Solitário convícto, ele não tenta criar relacionamentos nem estabelecer vínculos... Eli Wallach, que está excelente no filme, dá vida ao controverso Tuco, o 'feio', personagem que funciona como um contraponto dramático em relação ao protagonista, diferente deste, Tuco é inconstante, precipitado e seus trejeitos dão a ele uma imagem de ingênuo e atrapalhado, o que o torna um personagem de certa forma cativante, mas não representativo o suficiente para se tornar um simbolo. 


O personagem de Eastwood, por sua vez, é construído para tal, ele é uma personificação da virilidade, da constância e de um instinto frio e calculista. A relativa falta de profundidade que pode ser notada em sua composição é intencional, na verdade eu atribuo a ela a facilidade com que assimilamos aquilo que o ele representa na trama. Acredito que ele possuísse um nível maior de complexidade em sua criação, isso poderia torná-lo controverso, dúbio e sendo assim mais difícil de ser assimilado. Ele, apesar de ser misterioso, não deixa dúvidas quanto ao que de fato é a sua natureza. Ele é tão somente aquilo que faz, ou melhor, aquilo que nós expectadores vemos ele fazer, toda sua composição se resume a isso e por ser de tal forma, podemos entender cada passagem na qual ele aparece como uma parte de um processo de afirmação dos signos, dos quais ele é composto.


Lee Van Cleef dá vida ao terceiro pistoleiro, ao qual o título se refere como o 'mal' (ou 'o bruto', no original), ele é o típico vilão, cuja função é estabelecer o conflito dramático e uma oposição à altura para o protagonista, sua construção é similar à do herói, tal como este, ele é tão somente aquilo que vemos na tela, ele também não tem história e sua motivações também não são claras; sabemos que ele é ganancioso e covarde o suficiente para fazer qualquer coisa para atingir seu objetivo e isso é o que basta. Porém, diferente do que acontece com o 'bom', sua figura não é exaltada pelos enquadramentos e demais elementos cinematográficos, o que se sobressai de sua imagem é apenas a ameaça que ele representa para os outros dois personagens. Ele seria apenas mais um suporte para a construção da identidade icônica do herói.


Na trama, que se passa durante a guerra civil americana, os personagens descobrem a existência de uma quantia de duzentos mil dólares que foram enterrados em um cemitério após um roubo, Tuco sabe em qual cemitério o dinheiro fora escondido, mas apenas o 'Loirinho', seu antigo comparsa, sabe sob qual túmulo a quantia fora enterrada. Lee Van Cleef, o primeiro dos três a descobrir a existência deste dinheiro, arranca as informações que Tuco guardava consigo e parte também rumo ao cemitério. Ao acompanhar a trajetória dos três pistoleiros, o filme retrata a guerra civil americana e seus horrores como pano de fundo. Apesar de se associarem a um lado ou a outro em dados momentos, os personagens não se envolvem na guerra por questões ideológicas, eles apenas tentam tirar proveito dela visando seus interesses pessoais.


Quem ensaiar interpretações mais profundas, perceberá que os três personagens são arquétipos de nossa própria sociedade, pode parecer uma análise um tanto exagerada, mas vejo no antagonismo entre o 'bom'  (que nem sempre é bom) e o 'mal' (que não é tão mal, se comparado aos outros dois), uma metáfora para o embate ideológico entre socialismo e capitalismo, tão em voga na época em que o filme foi produzido. Seguindo esta linha de pensamento, o 'feio' seria a personificação do povo, que flerta ora com um, ora com outro, em busca de objetivos, que aparentemente nunca serão alcançados. Não por acaso, apesar de não ser o herói da história, o personagem de Eli Wallach é aquele com o qual mais facilmente podemos nos identificar, afinal de contas ele é o único cuja composição vai além de meras representações, ele tem família, um passado e sua motivação principal é transcender sua própria condição (o que ele acredita que acontecerá quando finalmente for rico)...


Ousadas ou não, Três Homens em Conflito permite inúmeras outras interpretações acerca de sua trama e isso depende exclusivamente da forma com que cada espectador decodifica cada um de seus elementos. Mas, ainda que ele seja visto como mera diversão, ele continuará sendo a obra-prima que é, pois ele também funciona como um ótimo entretenimento. Sergio Leone com a ajuda do lendário maestro Ennio Morricone (um outro monstro sagrado) consegue emprestar para cada sequência uma aura, que a torna sublime e capaz de despertar em cada cinéfilo as mais diversas sensações, que vão da apreensão diante de um duelo de pistoleiros à contemplação das lacações capturadas através de belíssimas tomadas abertas. A trilha sonora do filme é uma preciosidade à parte (o tema principal, que leva o seu nome, é por si só um clássico), ela é usada a favor da construção do mito já citado e ainda para pontuar emoções e sensações experimentadas pelos personagens, como na passagem memorável em que o Tuco corre deslumbrado pelo cemitério onde o dinheiro estaria escondido.


Para quem já é fã de westerns Três Homens em Conflito é um deleite sem igual, nele estão praticamente todos os elementos que se espera encontrar em um filme do gênero. Já para aqueles que não curtem o estilo, o longa de Leone continua sendo obrigatório, pois o que ele nos oferece é, no mínimo, uma verdadeira aula de cinema. Ultra-recomendado!


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A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra.

sexta-feira, 15 de março de 2013

Nausicaa - A Princesa do Vale dos Ventos

Nausicaa - A Princesa do Vale dos Ventos (Kaze no tani no Naushika) - 1984. Escrito e dirigido por Hayao Miyazaki. Trilha Sonora Original de Joe Hisaishi. Produzido por Rick Dempsey e Isao Takahata. Hakuhodo, Nibariki, Tokuma Shoten e Topcraft (PEA) / Japão.


Assistir a um filme do Hayao Miyazaki é algo mágico, sublime e incomparável. A obra deste mestre da animação é de uma riqueza tamanha, capaz de provocar fascínio, reflexão e de nos transportar para um mundo fantástico, repleto de significações e metáforas. Suas produções são verdadeiras obras de arte,  capazes de trazer à tona algo de um valor imensurável: as lembranças e os sonhos de nossa meninice perdida. Miyazaki não está interessado em dialogar com nosso intelectual, mas com a criança que fomos um dia - o que de fato ele consegue. Suas histórias conseguem despertar em nós valores e sentimentos, típicos da infância, que há muito já havíamos perdido. Ao sermos transportados para um mundo de fantasias, temos a oportunidade de ver uma espécie de espelho do que seria a nossa própria realidade, que é remontada através de alegorias tão bem construídas, que é necessário um olhar sensível e curioso, tal como de uma criança, para desconstruí-las. 

Nausicaa - A Princesa do Vale dos Ventos (1984), o segundo longa-metragem de Miyazaki, pode ser considerado seu primeiro trabalho completamente autoral, visto que nele, pela primeira vez o cineasta assumiu o controle sobre todo o processo criativo, do roteiro (que é baseado em um mangá de sua própria autoria) à edição final. O sucesso comercial do filme em seu país de origem foi surpreendente, seu expressivo resultado de bilheteria levou à criação do lendário Studio Ghibli, produtora através da qual o cineasta lançaria suas obras a partir de então. O sucesso alcançado não foi um mero fruto do acaso, afinal o filme é uma preciosidade, um poema em audiovisual da primeira à última sequência, todo o reconhecimento conquistado por ele foi, portanto, merecido. Nele já podiam ser observados alguns elementos que se tornariam recorrentes na filmografia do diretor, como as questões ambientais, os ritos de passagem e a incursão de personagens em mundos que lhe são estranhos.


A trama de Nausicaa - A Princesa do Vale dos Ventos acontece em um futuro pós-apocalíptico, 'mil anos após o colapso de uma civilização industrial'. Uma floresta de fungos que liberava vapores tóxicos, chamada Fukai, tomou conta de boa parte da superfície da terra, ameaçando a existência da humanidade, que agora vive dividida em pequenos reinos. Insetos gigantes, que vivem na Fukai, também representam uma grande ameaça e o ataque de suas manadas é temido por todos. O Vale dos Ventos é o único reino que não se envolveu com as constantes guerras que têm dizimado os outros povos, todavia, é chegada a hora em que sua população se verá obrigada a entrar no conflito. Nausicaa, a herdeira do trono do Vale dos Ventos, é uma garota dócil, que tem um incrível poder de tocar e transformar os corações alheios com seu amor (este poder, no entanto, aparenta não funcionar com humanos), temendo pelo futuro de seu povo, ela embarca em uma missão para impedir que a 'paz armada', que alguns defendem, se torne o início do fim. 


Nausicaa - A Princesa do Vale dos Ventos traz em sua trama uma forte influência da época na qual ele foi realizado, podendo ser considerado um produto direto da guerra fria, período no qual a corrida armamentista acirrava as tensões do mundo bipolarizado, com a crescente ameaça de que a qualquer momento um dos blocos puderia recorreu ao seu arsenal, composto por armas de destruição em massa. O reflexo de tal contexto no filme chega a ser óbvio, a paz armada, que alguns dos reinos buscam na trama é uma alegoria da corrida armamentista e o Deus Soldado, um monstro detentor de grande poder de destruição, que um dos reinos tem supostamente ao seu lado, é uma personificação da ameaça de uma guerra nuclear e do risco que ela oferece para todo o planeta. O filme ilustra bem, através de suas metáforas, o temor, que era uma forte expressão da consciência coletiva na época em que ele foi produzido.


É genial a forma com que Hayao Miyazaki nos chama a atenção para a questão ambiental (isso, décadas antes do tema se tornar uma tendência). Ele planta na trama as sementes de uma importante lição, a de que a nossa sobrevivência depende muito mais da forma com que nos relacionamos com a natureza e com os recursos que ela nos oferece, do que das questões políticas e étnicas que nos dividem. Outro ponto que também merece ser analisado em Nausicaa - A Princesa do Vale dos Ventos é o processo de amadurecimento da personagem central (tema recorrente na filmografia de Miyazaki), a trajetória que ela percorre na trama (da inocência ao profundo conhecimento sobre a natureza) é similar ao caminho que nós, como humanidade, também percorremos. Nas lições aprendidas por Nausicaa na história estão importantes mensagens que o cineasta direciona para cada de nós espectadores, que possuímos, tal como a personagem, a capacidade de intervirmos no meio em que vivemos, transformando-o para melhor. 


Apesar da profundidade dos temas abordados, a trama do filme se mantém leve e de fácil compreensão; o ritmo variante (ora ágil, ora contemplativo), que Miyazaki utiliza com tanta destreza, não permite que a história se torne demasiadamente lenta ou cansativa e ainda deixa espaço para a devida apreensão e reflexão acerca dos temas abordados. Nausicaa - A Princesa do Vale dos Ventosapesar de ser um filme com bastante ação, é uma das obras mais sensíveis e tocantes do cineasta, sua sequência final, por exemplo, é sublime, uma das coisas mais belas que já assisti, uma passagem que traz consigo uma belíssima mensagem sobre a proteção da vida selvagem. Diversas outras cenas também são capazes de encher nossos olhos de lágrima, sem que ao menos percebamos isso...




A beleza visual de Nausicaa - A Princesa do Vale dos Ventos é estonteante, o que não é novidade em se tratando de um filme do Hayao Miyazaki. A qualidade da animação, que pode ser notada no detalhismo de cada quadro e nos movimentos dos personagens mostra que o diretor é de fato um artista e não apenas um artesão, como muitos profissionais do ramo, seu brilhantismo torna questionável a atual exaltação da animação computadorizada, em detrimento da feita com pinceis e tintas, o que constitui ao meu ver um avanço tecnológico, mas ao mesmo tempo um lamentável retrocesso artístico... A trilha sonora também merece o devido destaque, ela é composta por belíssimas canções, que flertam tanto com pop quanto com à música folclórica/tradicional japonesa. 


Hayao Miyazaki, em mais de trinta anos de atividade, permanece alheio às tendências que transformaram a animação como gênero e se mantém fiel à estética única e praticamente intransferível que ele ajudou a criar. Como eu já havia dito na resenha de A Viagem de Chihiro (2001), não é exagero nenhum afirmar que ele  está no mesmo patamar dos grandes mestres da sétima arte... Nausicaa - A Princesa do Vale dos Ventos nos oferece uma prova incontestável de sua genialidade, trazendo doses cavalares da poesia e do encantamento que caracterizam sua marca autoral... Este é um filme mais que obrigatório, eu diria até necessário, dada a importância de sua mensagem. Ultra Recomendado!

Obs.: Apesar do filme não ter ganho uma edição nacional, ele acabou ficando conhecido no Brasil com dois títulos distintos, o que usei nesta postagem e Nausicaä do Vale do Vento.


Assista ao trailer de Nausicaa - A Princesa do Vale dos Ventos no You Tube, clique AQUI !

A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra.

domingo, 10 de março de 2013

Entre os Muros da Escola

Entre os Muros da Escola (Entre les Murs) - 2008. Dirigido por Laurent Cantet. Escrito por Laurent Cantet, Robin Campillo e François Bégaudeau, baseado no livro de François Bégaudeau. Direção de Fotografia de Pierre Milon. Produzido por Simon Arnal, Caroline Benjo, Barbara Letellier e Carole Scotta. Haut et Court / França.


Entre os Muros da Escola (2008) nos mostra que os desafios enfrentados por profissionais da educação são semelhantes mesmo em um país desenvolvido. Ambientada em uma escola pública de Paris, sua trama acompanha o cotidiano de uma turma da oitava série em um período letivo, focando a relação dos alunos com o professor e os métodos utilizados por este para tentar contornar os inúmeros conflitos que surgem a cada instante. O roteiro adquire um tom quase documental ao retratar a sala de aula sem qualquer tipo de maniqueísmo, em seu desenvolvimento ficam evidentes erros cometidos tanto pela escola, quanto pelo professor e pelos estudantes. Todavia, a intenção do filme não é a de se posicionar como uma crítica ao sistema educacional, o que ele faz é tão somente criar um recorte realista do modelo pedagógico adotado pela escola, que é semelhante ao trabalhado em inúmeras instituições de ensino brasileiras.

A classe que o filme acompanha é uma miscelânea de etnias, estilos e crenças, podendo ser considerada um reflexo da população francesa, composta em boa parte por imigrantes. Neste curioso microcosmo é possível ver estampados o preconceito contra o diferente, a desigualdade social e principalmente a violência, que insurge como uma resposta dos adolescentes às duras realidades em que vivem. À frente desta turma está o professor François Marin (François Bégaudeau), um apaixonado pela arte de educar, sua determinação em fazer com que cada um dos alunos tenha condições de subverter o determinismo de suas vidas é louvável, porém, em dados momentos, o que ele faz parece inútil, uma vez que os resultados de seu esforço não são tão perceptíveis. Mesmo tudo parecendo em vão, ele encontra motivação em pequenas situações, como  na criatividade que um dos alunos mais rebeldes demonstra ter, apesar de sua notável dificuldade de aprendizado. 


Os muros aos quais o título original do longa se refere não são apenas os da escola, como o nome dado a ele no Brasil sugere, das relações entre os personagens é possível pressupor a existência de inúmeros outros muros. É interessante perceber que mesmo o professor, que poderia ser visto à princípio como o herói da história, acaba também sendo vítima das divisórias invisíveis que aparentam manter cada um dos personagens segregado dos demais. A verdade é que nem ele escapa do sentimento xenófobo, que motiva boa parte dos conflitos, sua postura em sala de aula é análoga à uma espécie colonialismo e sua função em dados momentos parece ser a de domesticar, através do idioma francês, aqueles que caminham para a marginalidade (reparem como ele repreende o uso de gírias e outras manifestação étnicas e culturais dos alunos). A trama não condena tal postura, nem o comportamento agressivo de alguns alunos, ela se mantém firme em seu propósito de funcionar apenas como um recorte social, isento de verdades absolutas e incapaz de apontar soluções fáceis para os problemas expostos.


Em uma das passagens, os professores discutem a punição apropriada a ser aplicada em um aluno problemático. François, no entanto, teme as consequências de uma provável expulsão, ele comenta sobre a possibilidade de que o garoto venha a ser obrigado pelo pai a voltar para o seu país de origem (alerta que fora feito por uma outra aluna), diante do exposto alguns educadores parecem declinar de suas posições, ao menos por alguns instantes. Em outro momento, os professores recebem o comunicado de que a mãe de um outro aluno, que estava ilegal na França, fora apanhada pelo departamento de imigração, uma professora propõe que todos participem da audiência na qual o futuro da mulher será decidido, porém, seus colegas ficam calados; o silêncio é quebrado por outra professora que anuncia sua gravidez. Estas duas passagens deixam evidentes o relativo distanciamento afetivo que há entre educadores e alunos, o que obviamente prejudica todo o processo educacional, e ainda a ideia de que uma educação francesa é tudo o que eles precisam e por isso o risco de que algum deles venha a ser obrigado a sair do país é visto com maus olhos.


Boa parte dos atores de Entre os Muros da Escola compõem personagens que são bem próximos daquilo que eles são na realidade, a maior parte dos alunos, por exemplo, levam para suas interpretações suas próprias vivências e isso colabora para que haja um naturalismo em cada uma das atuações, o que torna a trama ainda mais impactante. Não por acaso, quase todos os personagens (incluindo alunos e professores) levam o nome dos atores que os interpretam, dentre os garotos há apenas duas exceções,  Khoumba (Rachel Regulier) e Souleymane (Franck Keïta), que são os mais problemáticos da classe, acredito que fato de ganharem nomes diferentes dos seus se deva à preocupação dos roteiristas de não associar a estes dois atores, as condutas reprováveis de seus personagens.


François Bégaudeau também é educador na realidade e o relato de suas experiência rendera a obra literária, na qual o roteiro foi baseado, isso explica sua excelente desenvoltura na composição do personagem, o que faz com que sua angústia ao se sentir incapaz diante da turma que coordena nos pareça quase palpável em diversos momentos. Todos os adolescentes, sem exceções, também entregam atuações fortes e verossímeis, o que denota também um bom trabalho de direção de atores, uma vez que o fato de interpretarem a si mesmo (ou algo bem próximo disso) não é por si só uma garantia de um bom desempenho. Entre os Muros da Escola possui um ritmo visceral, que faz com sua duração de pouco mais de duas horas passe em um piscar de olhos. A câmera de mão instável e a predominância de sons diegéticos reforçam seu tom documental, que, aliado aos demais aspectos já comentados, o torna uma das obras mais contundentes dos últimos anos.


Entre os Muros da Escola é um filme que deveria ser visto e debatido por todos atores envolvidos no processo educacional, profissionais da área, pais e alunos. Ele é uma daquelas obras que transcendem a grandiosidade de seus méritos cinematográficos, devido à urgência da reflexão que é capaz de proporcionar. Um dos melhores filmes da década passada. Ultra recomendado!!! 


Entre os Muros da Escola recebeu a Palma de Ouro, prêmio máximo do Festival de Cannes!


Assista ao trailer de Entre os Muros da Escola no You Tube, clique AQUI !

A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra, 

sábado, 9 de março de 2013

Dançando no Escuro

Dançando no Escuro (Dancer in the Dark) - 2000. Escrito e Dirigido por Lars von Trier. Direção de Fotografia de Robby Müller. Música Original de Björk. Produzido por Vibeke Windeløv. Zentropa Entertainments, Trust Film Svenska, Film i Väst e Liberator Productions / França | Espanha | Argentina | Dinamarca | Alemanha | Itália | USA | UK | Finlândia | Noruega | Holanda | Suécia | Islândia.


Ambientado nos Estados Unidos em meados do século passado, Dançando no Escuro (2000) retrata o calvário de Selma Jezkova (Björk), uma imigrante do leste europeu que fora para a América em busca de condições para pagar a cirurgia de Gene (Vladica Kostic), seu único filho, que corre o risco de ficar cego caso não seja operado a tempo. Ela é vítima do mesmo mal que o garoto tende a desenvolver, porém, para ela já é tarde demais, sua visão já está seriamente comprometida e seu quadro é irreversível. Apesar disso, ela trabalha à exaustão em uma fábrica para juntar o dinheiro necessário para pagar a cirúrgia. As sucessivas peripécias que acontecem em sua vida começam quando o policial Bill Houston (David Morse), seu senhorio, descobre a quantia que ela guarda no trailer onde mora, ele, que está passando por sérios problemas financeiros, passa a cobiçar o dinheiro que ela juntou com tanta dificuldade. O que se segue a partir de então é uma sucessão de injustiças, que são agravadas pelo fato de Selma ser uma imigrante completamente indefesa em uma país hostil.

O microcosmo retratado pelo filme é uma óbvia alegoria da sociedade americana, Bill e sua esposa Linda (Cara Seymour) são personificações do próprio Tio Sam, através de suas atitudes eles ilustram a hipocrisia e a ganância, características estas que o cineasta, através de seu roteiro, associa ao american way of life. A fábrica onde Selma trabalha é uma representação da crueldade e desumanização do modelo capitalista e os absurdos presentes na trama seriam a prova da falência das instituições legais e das autoridades do país. A trajetória da personagem, retratada no filme de uma forma cruel e sem atenuantes, na qual o melodrama choca mais do que emociona, constitui em si uma contundente crítica à uma organização social que menospreza e não dá voz para o fraco, na qual a xenofobia se sobrepõe ao compadecimento pelo sofrimento alheio. Selma não é vítima apenas das pessoas que se aproveitam de sua condição, mas de todo um sistema, cujos tentáculos estão presentes em cada um dos meios com os quais ela tenta se relacionar.


Diferente de Dogville (2003), filme no qual Lars von Trier esboça uma visão bem mais pessimista acerca do americano médio e de seu modo de vida, Dançando no Escuro retrata também a determinação de algumas pessoas em ajudar a personagem principal, Jeff (Peter Stormare), que é apaixonado por ela, e Kathy (Catherine Deneuve), sua colega de trabalho, são amigos dispostos a ampará-la, porém suas boas vontades se mostram incapazes diante da irracionalidade da sociedade da qual fazem parte. No comportamento de Gene é possível perceber uma influência negativa da cultura americana, diferente da mãe, ele se torna materialista e valoriza mais os bens que pode possuir do que as experiências autênticas, que sua progenitora tanto busca, em dado momento da história ele se queixa de que todos os seus colegas da escola têm uma bicicleta e ele não,ele acredita que este fato por si só possa justificar a cobiça que ele começa a alimentar. 


Selma é apaixonada pelos musicais clássicos de Hollywood, neles ela encontra uma espécie de refúgio, onde as dores de sua realidade não podem alcançá-la. Nas poucas horas vagas que tem, ela se desdobra para cuidar do filho e da casa e ainda arruma tempo para ir ao cinema e participar de ensaios de uma remontagem da peça A Noviça Rebelde. Em diversos momentos, ela se imagina dentro de um filme, isso acontece mesmo quando ela está na barulhenta linha de produção da fábrica onde trabalha. Por alguns minutos sua realidade se torna menos angustiante, apesar de ainda ser dolorosa, o que fica evidente no misto de melancolia e libertação, que emana de cada uma das canções que ela interpreta nestes momentos de quimera. Tais sequências musicais são fotografadas com cores mais vivas, que contrastam com os tons desbotados que predominam nas outras passagens, tal efeito nos dá a percepção de que são nestes momentos que a personagem se sente viva de verdade. Curiosamente, ela passa a enxergar quando se vê dentro de um de seus devaneios.


As canções interpretadas nestes números musicais foram compostas pela própria Björk, cada uma delas parece desnudar a alma da personagem, expondo não só a sua intensa dor, mas também a esperança que a mantém firme, mesmo em meio às adversidades. O desempenho da cantora é uma das mais gratas surpresas do filme, ela está formidável, a grandeza de sua atuação pode ser notada na intensidade com que interpreta cada uma das canções (o que não é novidade para quem já conhece a sua obra musical) e pela sua total entrega à personagem, o que chega a ser assustador em alguns momentos. Todos os sentimentos experimentados pela protagonista são interpretados de uma maneira impactante e ao mesmo tempo natural, que parece verossímil mesmo sendo parte de um contexto que não deixa de ser caricato e alegórico.


Os traços característicos da marca autoral de Lars von Trier estão presentes na trama e no minimalismo dos recursos técnicos utilizados, o que remonta à algumas das regras que marcaram o controverso movimento Dogma 95, que ele ajudou a criar em meados dos anos 90. A câmera de mão instável, operada pelo próprio cineasta e a despreocupação com valores puramente estéticos são traços do movimento que foram mantidos no filme (seus trabalhos mais recentes já denotam uma ruptura com tais preceitos). Dançando no Escuro foi todo filmado com uma câmera digital e com relativamente poucos recursos tecnológicos. Ao conceber sua obra de tal forma, Lars cria um interessante contraponto com os musicais clássicos, nos quais frequentemente a forma se sobrepunha ao conteúdo (o que deixa a dúvida se o que ele faz é prestar uma homenagem ou tecer uma crítica ao formato). Se os filmes de outrora ofereciam para seus espectadores uma forma de escapismo (o que Selma tanto valoriza na trama), o roteiro de Lars vai na contramão. Apesar de alegórico, ele nos coloca em contato é com uma realidade que não está tão distante da nossa e é isso que o torna tão indigesto.


Dançando no Escuro não é um filme indicado para aqueles que valorizam tramas reconfortantes e inofensivas, os que buscam um feel good movie sobre superação devem passar o mais longe possível dele. Muitos desavisados tiveram suas expectativas frustradas e o consideraram angustiante, depressivo e até mesmo agressivo, eu, no entanto, acredito que sua grandiosidade artística esteja justamente na intensidade daquilo que ele desperta em nós espectadores, sejam estes sentimentos e sensações positivos ou não. O que ele nos proporciona não é uma sensação artificial e passageira (típica das produções hollywoodianas), mas sim uma reflexão profunda e necessária, acerca das distorções éticas e legais de um sistema composto por leis, costumes e valores que não nos são de todo estranhos... Dizer que se trata de mais uma obra-prima do polêmico diretor dinamarquês é chover no molhado - Ultra recomendado para aqueles que buscam a intensidade das emoções genuínas e se entregam a elas sem medo! 


Dançando no Escuro foi indicado ao Oscar na categoria de Melhor Canção (I've Seen It All) e no Globo de Ouro nas de Melhor Canção (I've Seen It All) e Melhor Atriz em um Filme de Drama (Björk).

Assistam ao trailer de Dançando no Escuro no You Tube, cliquem AQUI !

Confiram também aqui no Sublime Irrealidade as resenhas críticas de
Anticristo e Melancolia, também escritos e dirigidos por Lars von Trier!

A revelação das passagens aqui comentadas não compromete a apreciação da obra,